O Estado atirando no próprio pé

grumanMARCELO GRUMAN*

 

Logo quando entro na escola de meu filho de quatro anos, uma frase de Monteiro Lobato colada em uma das paredes do parquinho diz que “um país se faz com homens e livros”. Isto me conforta, porque sei que ali a leitura é valorizada, quinzenalmente um livro diferente vai lá pra casa e nós o lemos junto para, na segunda-feira seguinte, Miguel compartilhar com os colegas a estória que lhe cabia. Fora o Clubinho do Livro, em que o aluno pode retirar da biblioteca escolar o livro que quiser, contanto, é claro, que o devolva nas mesmas condições, intacto.

O incentivo à leitura, dado na escola, é complementar ao dado em casa. No quarto de Miguel a literatura vai dos clássicos da Disney, Pinóquio, Dumbo, Peter Pan, passando pelos Três porquinhos, o próprio Monteiro Lobato e as lendas brasileiras até autores coreanos. Faz enorme sucesso um livro chamado A aranha e a loja de balas, escrito por um autor coreano, em que uma aranha ajuda a senhorinha dona de uma loja de doces a descobrir, baseando-se em probabilidade estatística, que guloseimas a sequencia de crianças que entra, uma após a outra, vai escolher. Matemática, literatura e uma estética atraente para crianças. Não é à toa que a educação sul-coreana é referência mundial. Não raro Miguel nos pede que leia um livro antes de dormir.

Já ouvi diversas vezes dizerem que os judeus são o “povo do livro”, remetendo, obviamente, ao Antigo Testamento, transposição para a escrita de estórias, leis, valores. Verdade ou não, o culto à cultura ou o culto ao saber passou a fazer parte da identidade étnica, sobretudo em momentos históricos como a formação de uma classe média intelectualizada no Brasil, em que o saber acadêmico tornou-se fundamental para a entrada no mercado de trabalho. Outros explicam a valorização da leitura e da literatura por ser, eminentemente, algo imaterial, que pode ser carregado pelo portador independente de um suporte físico, como em guerras e perseguições, comum na história judaica. Pouco importa se esta característica é “real” ou não, mito ou não, porque, queira-se ou não, esta tradição foi “inventada” e passou a ser reproduzida através das gerações. Estou fazendo minha parte nesta engrenagem.

Mas, para além do fortalecimento de fronteiras de identidade, a leitura é um valor em si. Permite ao sujeito construir-se autonomamente, elaborar sua visão de mundo a partir de múltiplos pontos de vista, permite-o dar sentido à vida, conhecer seu mundo simbolicamente através de estórias e histórias. O sujeito passa a ter opinião, a pensar por si e não através da boca dos outros, a compreender o mundo que o cerca e atuar para modificá-lo, caso julgue necessário. A relação entre livro, leitura, conhecimento é inextricável. Conhecimento do mundo, da vida, não apenas o conhecimento que salta dos livros acadêmicos, embora estes tenham importância insubstituível também. Quem lê amplia seus horizontes, multiplica os espaços por onde pode transitar porque o “estranho” se transforma em “familiar”. Descobrem-se novas aptidões, novos gostos, descartam-se outros. Uma sociedade sem leitores é uma sociedade sem futuro, porque não sabe pensar por si, porque não tem cara, não tem identidade, não sabe quem é, não se reconhece no espelho.

Ler dá trabalho, é uma aprendizagem. Mais trabalho ainda é a compreensão daquilo que se lê. É preciso, portanto, afastar de uma vez por todas a Síndrome de Macunaíma que perpassa a sociedade brasileira, a começar dos altos escalões governamentais. Numa entrevista concedida à revista Piauí, em 2008, e publicada na edição de janeiro de 2009, o ex-presidente Lula declarou que não achava ser necessário ler, uma vez que conversava com muita gente que o fazia. Ou seja, o ex-presidente considerava suficiente ler pelos olhos de terceiros. Passava mesmo a impressão de que tinha orgulho de nunca ter pegado num livro e o lido de cabo a rabo. À época, o sociólogo Alberto Carlos Almeida explicou didaticamente como o comportamento humano é aprendido, dentre eles, o hábito de ler:

Aprendi com colegas antropólogos que a socialização de cada um de nós molda até os pequenos detalhes de nosso comportamento. Sugiro ao leitor que considere esse ensinamento ao ver alguém que nunca pegou em um livro manuseá-lo pela primeira vez. Simplesmente a pessoa não sabe o que fazer, não sabe por onde começar, como lidar com as páginas etc. (…)

Recentemente, num voo doméstico, vi uma pessoa forçando a porta da cabine do piloto pensando que era o banheiro. Como no exemplo do livro, essa pessoa provavelmente nunca havia voado antes. Uma vez, fui comer pamonha com um alemão que recebi no Brasil. Ao pegar a pamonha ele a mordeu imediatamente, sem saber que antes era necessário retirar a palha do milho. Aquele que sabe onde fica o banheiro do avião e sabe como comer a pamonha tende a rir das pessoas que forçam a porta do piloto ou mordem a palha do milho. Aqueles que costumam ler vários livros por ano, ler jornais e revistas, não vão rir da declaração de Lula, mas chorar.

A desqualificação da leitura e, de forma mais ampla, do saber, é parcialmente reproduzida em setores da administração pública. Em primeiro lugar, porque se estabelece equivocadamente uma separação artificial entre gestão pública e saber acadêmico, este último rotulado de “arrogante” e “alheio à realidade”. Parte-se do pressuposto de que gestão é ação, prática, execução, e saber é teoria, contemplação. Falta a compreensão basilar de que a gestão envolve muitas etapas, dentre elas, a sua própria avaliação (reflexão!) com respeito à eficiência das ações propostas para o alcance das diretrizes estabelecidas lá no início do processo, na fase de elaboração da política institucional. O gestor público não é, ou melhor, não deveria ser, um autômato.

Em segundo lugar, não é unânime a institucionalização de programas de capacitação do servidor com vistas à sua constante atualização nos temas específicos de sua área de atuação, de forma a tornar a administração pública mais eficiente. É fundamental o estabelecimento de critérios objetivos para a seleção de servidores que pleiteiam o custeio de cursos de pós-graduação, de especialização ou de participação em congressos e seminários no país ou no exterior, tanto como ouvinte quanto como apresentador de trabalhos. A decisão institucional deve levar em conta a qualidade do retorno do investimento, e não submeter-se à discricionariedade subjetiva dos dirigentes de plantão. Falamos, portanto, de uma gestão profissional, moderna, baseada nos princípios da eficiência, transparência, impessoalidade e imparcialidade, oposta a uma visão anacrônica, porque autoritária e patrimonialista, da administração pública.

O que eu faço na minha casa diz respeito apenas a mim e a minha família. Se, em comum acordo com minha esposa, estabelecermos como parâmetro de boa educação para nosso filho a programação dominical da TV aberta brasileira, é direito nosso, e azar dele. No espaço público, por outro lado, as decisões devem ser tomadas a partir do “interesse coletivo”, por mais difícil que seja defini-lo. Na administração pública, a mediocrização intelectual em nada ajuda na gestão das políticas institucionais. É um tiro no pé.


* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ, Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura. E-mail: marcelogruman@gmail.com

A lula e a baleia: sobre separações humanas e distanciamento social

wellen-herickaHÉRICKA WELLEN*

 

“Mamãe e eu contra você e papai”. Diz Frank já abertura do filme. Essa frase, proferida num jogo de tênis entre pais e filhos, serve, em grande parte, para caracterizar as relações familiares no filme A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 2005), de Noah Baumbach. Em um lado da quadra está Bernard Berkman (Jeff Daniels) e seu filho mais velho, o adolescente Walt (Jesse Eisenberg); do outro, a esposa e mãe Joan (Laura Linney) e o filho mais novo Frank (Owen Kline).

O pai encara o jogo com uma seriedade não condizente com uma atividade familiar. Joga com violência e aconselha seu filho mais velho a agir da mesma forma, revelando, inclusive, os pontos fracos da mãe no esporte. O jogo termina com uma briga do casal e revela o desgaste da relação. É com essa abertura que Baumbach apresenta a família nova-iorquina Berkman. A história se passa na segunda metade da década de 1980 e trata de questões vividas pelo próprio Baumbach na sua adolescência.

Bernard é um professor de literatura que outrora fora um romancista de sucesso. Seu momento de declínio na carreira, comprovada pelas sucessivas negações de editoras em lançar seu novo romance, coincide com a ascensão profissional de Joan, que passa a despontar como uma escritora promissora. O sucesso de Joan, especialmente sendo na área de fracasso de Bernard, serve como a última pá de terra num casamento em crise e já marcado pelos casos extraconjugais da esposa, que são conhecidos do marido.

Já nos primeiros minutos de filme, Joan e Bernard se separam. Essa decisão é tomada mais objetivamente pela esposa, embora a briga que culmina com o pedido de separação tenha se iniciado com a discussão sobre os casos extraconjugais de Joan. Fica claro que Bernard não deseja deixar a mulher, mas também não é capaz de externar esse sentimento. Como em todos os momentos de sua vida, ele encara a situação com arrogância e, ao invés de expressar seus sentimentos, trata o momento com sua corriqueira racionalização intelectual.

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Bernard aluga uma casa e exige de Joan que seus filhos fiquem com ele em dias alternados, ou seja, Frank e Walt devem ficar um dia na casa do pai e outro na casa da mãe. Esse tipo de organização confunde os filhos, que não conseguem se estabelecer em nenhuma das casas. Frank, que tem uma ligação afetiva mais forte com sua mãe, reluta em dormir na casa do pai, chegando mesmo a fugir de lá algumas noites; Walt, por sua vez, revoltado ao saber das infidelidades de sua mãe, recusa-se a frequentar sua casa e mora exclusivamente com Bernard.

Além do pai e seus filhos, a nova casa de Bernard tem mais uma moradora: Lili (Anna Paquin). Estudante de literatura, Lili muda-se para a casa de seu professor e passa a ser desejada por pai e filho, embora eles não percebam o interesse do outro. Esse conhecimento só vem à tona quando Joan critica Bernard por estar tendo um caso com Lili, que tem apenas 20 anos, e avisa que Walt gosta dela. Walt, por sua vez, descobre o caso do pai com a aluna quando flagra os dois no quarto de Lili.

Essa é uma das razões de ruptura entre Walt e Bernard. Antes dessa ruptura, porém, é necessário entender a relação entre os dois. A primeira cena de jantar em família, quando todos ainda vivem na mesma casa, assim como o jogo de tênis supracitado, já antecipa uma questão que será central na narrativa: a relação entre o pai e o filho mais velho, que, se a princípio aparenta ser uma relação de cumplicidade, de aprovação e de admiração do filho em relação ao pai; aos poucos se revela uma relação de dependência do pai à atenção de seu filho, que passa a ser sua única plateia.

Nesse jantar, Walt relata que lerá “Um conto de duas cidades”, de Charles Dickens na escola e pergunta a opinião de seu pai sobre a obra. Diante do pouco entusiasmo do pai, Walt decide não “perder tempo” lendo esse clássico da literatura inglesa, mesmo sua mãe tendo argumentado que é necessário que ele leia e tire suas próprias conclusões.

Em diversos outros momentos, Walt exterioriza comentários sobre livros e filmes que se baseiam no que ouviu seu pai dizer, embora não tenha reais conhecimentos sobre os mesmos. Sua imitação do pai não se resume a comentários pseudo intelectualizados, mas também em relação aos seus relacionamentos afetivos.

Walt conhece e passa a se relacionar com Sophie (Halley Feiffer), sua colega de escola. O relacionamento entre os dois deixa clara a imaturidade do menino. Uma imaturidade sexual, haja vista sua ejaculação imediata após um rápido toque íntimo de sua namorada, e, principalmente, uma imaturidade emocional, visto que Walt fica todo o tempo em dúvida se deve continuar com Sophie, mesmo gostando dela, porque acha que “pode conseguir coisa melhor”. Essa sua imaturidade, fomentada pela prepotência e arrogância que copia do comportamento de seu pai, acaba por magoar Sophie e causa o fim do relacionamento.

O tratamento do pai em relação ao namoro do filho pode explicar, em parte, a impossibilidade de relacionamento entre Bernard e Joan. Ao conversar com o filho sobre o relacionamento com Sophie, o pai sempre deixa claro que ele é superior a ela, que a mulher pode ser um obstáculo na vida de um homem genial (como ele se considera) e que é preciso cautela ao assumir o compromisso com alguém.

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Numa tentativa de aprovação do pai, Walt o leva a um jantar com Sophie. Nessa cena, fica explícita que a admiração pelo pai não é tão real quanto o próprio menino pensa. Dois momentos do jantar explicitam isso. Um deles é a indicação que o pai faz para que Sophie leia os contos de sua aluna Lili, especialmente um em que a autora escreve sobre a vagina. A forma com o que o pai fala sobre o tema do conto – de uma forma falsamente natural – atordoa Walt, que ensaia um protesto, embora não o leve adiante.

Bem menos do que encarar o sexo de uma maneira tão natural a ponto de poder discuti-lo com uma adolescente namorada de seu filho, essa atitude de Bernard, que é comum no seu comportamento, está mais relacionada com sua prepotência. Ele é arrogante ao ponto de intelectualizar qualquer relação pessoal. Ele, no alto de sua genialidade, coloca-se acima de qualquer convenção. Essa postura leva ao outro momento mencionado que também choca Walt e que diz respeito ao fato de seu pai aceitar o dinheiro da menina na hora de pagar a conta.

Em sua ânsia de ser igual ao pai, que ele considera genial, Walt chega ao ponto de cantar no festival da escola a música “Hey You”, de Pink Floyd, como se fosse sua. Ele ganha o festival. No entanto, quando a verdade é descoberta, é obrigado a devolver o prêmio e seus pais são chamados à escola.

A atitude do pai, diante dessa descoberta, é mais uma vez uma prova de sua soberba e arrogância. Ele não critica o menino, pois, como já foi dito, Bernard se considera e também a seu filho, acima de qualquer regra e convenção social. A lei e a verdade se aplicam aos outros, meros mortais, não a eles. O único problema que o pai aponta para o filho é o fato de que, por norma da escola, Walt terá de frequentar um terapeuta. Já de início, Bernard afirma para o filho que provavelmente ele será atendido por alguém sem qualificação.

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No entanto, é nessa consulta que se inicia a virada do personagem de Walt. Quando o terapeuta pede que ele fale de lembranças alegres de sua vida, ele só consegue se lembrar de momentos felizes com sua mãe, na infância. Entre esses momentos, Walt relembra com saudade de passeios ao cinema e ao Museu de História Natural, onde se defrontava com a assustadora imagem da luta entre uma lula gigante e uma baleia. Diante dessas memórias, o terapeuta pergunta onde estava o pai de Walt nesse período, e ele responde: “Não sei. Devia estar no andar de baixo.”

A revelação dessas memórias, juntamente com o sofrimento pelo rompimento com Sophie e, ainda, pela descoberta do caso entre o pai e Lili, levam Walt a destituir o pai do altar em que o havia posto. A cena do flagrante é talvez a mais constrangedora, pois é clara a recusa da moça e ridícula a insistência de Bernard em tirar sua roupa. Ao perceber a presença do filho, ele não aparenta nenhum constrangimento e, mais uma vez, age com a pseudo naturalidade que lhe é peculiar, sem modificar sequer seu olhar, quase sempre vazio de sentimento em relação ao que está ao seu redor.

O ápice do filme se dá numa das cenas finais quando Bernard vai à procura de Walt na casa de Joan. Desesperado diante da possibilidade de perder a única pessoa a quem ainda inspira admiração, Bernard esquece seu ar de cansaço em relação ao mundo e tenta reaver toda sua família. A cena se dá na porta da casa de Joan e tem o gato da família como um dos principais protagonistas.

O gato é a única lembrança afetiva que a família tem em relação a Bernard, haja vista que, numa viagem familiar, no passado, ele salvou o animal que estava preso num cano de escape de um carro. Nesse momento final do filme, enquanto Joan e Bernard brigam na porta, o gato foge e Bernard tenta salvá-lo mais uma vez, numa tentativa claramente irracional de tentar salvar seu casamento. Seu estado emocional está, então, de tal forma alterado, que ele passa mal, cai na rua e precisa ser levado ao hospital. Antes de entrar na ambulância, ele ainda tenta comover Joan com uma lembrança de um filme que ambos assistiram no passado, mas a tentativa não obtém êxito.

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No hospital, Walt, que acompanhara seu pai na ambulância, estabelece sua libertação frente aquela relação de poder e dependência com o pai. Ele o deixa só no leito e vai para a casa de Joan, onde revela para sua mãe estar sofrendo por ter se separado de Sophie. Muito além de um sofrimento comum por um fim de um relacionamento afetivo, trata-se da negação de um comportamento que vinha cultivando até então; trata-se do reconhecimento de sua fraqueza, de sua vulnerabilidade, de suas emoções, ou seja, do reconhecimento de sua humanidade, que não se dobra a qualquer pseudo intelectualidade.

Em meio ao amadurecimento de Walt, encontra-se seu irmão mais novo Frank. Completamente desligado da figura paterna, Frank busca uma identificação com seu professor de tênis Ivan (William Baldwin), que está namorando com sua mãe. Frank busca, a todo custo, um desligamento total de seu pai, seja afirmando que seus traços físicos são os mesmos de sua mãe, seja se autoproclamando um “filisteu”, que é a expressão que seu pai usa contra Ivan, para acusá-lo por não se interessar por livros e filmes. Ser um filisteu significa, para Frank, ser diferente de seu pai e é isso que ele almeja.

A separação dos pais e a obrigação de ficar um dia em cada casa trazem consequências graves para o menino, que passa a beber cerveja e outras bebidas alcoólicas em casa, sem que os pais percebam, e a se masturbar em locais públicos e espalhar o sêmen pela escola. A cena em que os pais são chamados na escola mostra o descaso destes em relação a Frank. Eles não fazem ideia do que está acontecendo com a criança e já chegaram ao ponto de deixá-lo só em casa por várias horas, enquanto a mãe viajava com o namorado e o pai estava no jantar com Walt e Sophie.

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Sem se identificar com o pai e sem encontrar na mãe a força e a presença que necessita no momento, Frank segue sozinho na trama, protagonizando cenas solitárias e recebendo alguma atenção apenas de seu irmão.

A Lula e a Baleia é um filme marcante, sensível, humano e provocativo. As atuações são brilhantes. Difícil não se exasperar com o olhar de desdém de Jeff Daniels; não se comover com a expressão de tristeza e de cansaço da excelente Laura Linney; não se identificar com a dor dos filhos que buscam uma referência para “ser” no mundo. Trata-se de um filme que, apesar de nos provocar e mexer profundamente com nossas emoções, nos presenteia com a sublime arte da interpretação, sem afetação, sem modismos ou grandes efeitos.

Por fim, é marcante a escolha da música “Hey You” na trilha sonora e mesmo no enredo da narrativa. O filme pode ser visto como um grito de alerta aos que vivem sem se enredar na realidade; sem sentir os que os outros sentem; sem estabelecer os vínculos afetivos que nos unem incondicionalmente. Walt escapa dessa armadilha em que seu pai caiu, encarando seus medos e sentimentos, sem se esconder atrás de uma falsa superioridade que supostamente o separaria da vida; abrindo os olhos frente à maravilhosa e perturbadora luta entre a lula e a baleia.

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Ficha Técnica

Título: A lula e a baleia
Título original: The Squid and the Whale
País: EUA
Ano: 2011
Duração: 81 minutos
Direção: Noah Baumbach


* HÉRICKA WELLEN é Professora de Filosofia da Educação da UNIRIO; Doutora em Educação pela USP.

Por que os médicos cubanos assustam

porfirioPEDRO PORFÍRIO*

 

Elite corporativista teme que mudança do foco no atendimento abale o nosso sistema mercantil de saúde

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Só em 2011, médicos cubanos recuperaram a visão gratuitamente de 2 milhões de pessoas em 35 países

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

No Brasil, o apego às grandes cidades

FIG 2

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste

Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de  clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

Sem compromisso em retribuir os cursos públicos

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades. Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536. Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença. Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical nos seus índices de saúde.

Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia

Em sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde.  Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

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Quando esteve em Cuba, em 2003, a deputada Lilian Sá foi conhecer com outros parlamentares o médico de família, uma equipe residente no próprio conjunto habitacional

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuído por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em 200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

Formando médicos de 69 países

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Estudantes estrangeiros na Escola Latino-Americana de Medicina

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue.  Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

Presença de médicos cubanos no exterior

Desde 1963, com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o regime de Havana, segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.


* PEDRO PORFÍRIO é Jornalista desde 1961, quando foi repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Já aos 18 anos, no início do governo revolucionário (1961-62) trabalhou em Cuba como editor de língua portuguesa da Rádio Havana.Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social. Publicado em http://www.blogdoporfirio.com/2013/05/por-que-os-medicos-cubanos-assustam.html