O MST e a crise financeira

Marcha do MST
Marcha do MST

por José Mario Angeli

Mais uma vez vemos os Sem Terra, através de seu movimento, ocuparem órgãos públicos, ruas e estradas com suas bandeiras, com o objetivo de serem vistos pela sociedade e de estimular a discussão sobre a realidade rural brasileira. Apresentam-se com algumas reivindicações pontuais: maior agilidade no assentamento de famílias, melhores condição de crédito e melhor atendimento nos serviços públicos. Reivindicações que são recursivas. Vemo-las repetirem-se há décadas.

Se tomarmos o curto período em que se consolidaram as políticas neoliberais e agora com quase dois mandatos de um governo que quer ser identificado como democrático-popular, parece que para esta população as condições objetivas pouco mudaram. Embora, o governo apresente números que indicam uma intervenção mais efetiva no assentamento de famílias e um aumento na oferta de crédito, a realidade econômico-social das famílias que dependem do acesso a terra ou das que já acessaram é ainda uma realidade que desafia nossa compreensão.

É preciso entender que os Sem Terra não são uma falha do sistema, uma disfunção, mas a condição do seu funcionamento. Eles expressam a dinâmica desse sistema. Ao concentrarem suas reivindicações no acesso à terra e ao crédito, não colocam em cheque a lógica do sistema. Reafirmam-no. Enquanto, os mecanismos que regulam no sistema capitalista o acesso à terra não são superados e a dinâmica da produção agro-pecuária, for submetida aos interesses da economia urbana e da sobredeterminação do sistema financeiro, a luta pelo acesso à terra se auto-alimentará. Ou seja, o Sem-Terra produzirá sem terras.

A terra é historicamente um instrumento de dominação. E, agora mais do nunca, com a crise financeira o acesso à terra ganha novos limitadores. Pois, ela voltou a constituir-se em espaço de reserva da acumulação capitalista.

Nós poderíamos nos perguntar: quais seriam os espaços que a crise financeira pode abrir para o movimento dos Sem Terra e para aqueles que estão no campo da esquerda à favor do movimento? É daqui que se deve partir para entender os limites e as possibilidades do movimento na luta pela terra.

Em período de crise econômica é a situação do mercado terreiro que imporá a possibilidade do movimento avançar. Ora, uma vez que o governo não regulamenta a economia de mercado, aceita acriticamente o papel central das finanças nos setores do desenvolvimento do agronegócio e dos assentados e ao mesmo tempo faz uso do Estado ajustando o sistema para assegurar as finanças, ele sugere, portanto a importância crescente deste setor com prejuízos para os setores populares.

O desafio do movimento é entender que esta crise é diferente das outras (sobretudo das dos anos 80). Ela se distingue das outras crises pelo fato que a financeirização da economia precisa ser politizada. Não se pode dar por descontado o papel das finanças como mecanismo central do capitalismo. Elas sustentam relações e decisões de forças que decidem a distribuição das riquezas. É contra isso e explicitamente que o movimento dos Sem Terra deve enfrentar.

Positivamente, já existe no interior da sociedade uma desconfiança com o setor financeiro (devido seus calotes), isto não está muito distante de se tornar uma critica ao capitalismo, contudo isto permanece à margem da discussão pública. O movimento dos Sem Terra poderá antecipar essa discussão. A ausência dessa discussão evidencia os limites do funcionamento da democracia representativa. Ela sugere que a unidimensionalidade produzida pelo sistema é muito profunda. O descontentamento dos Sem Terra é perceptível.  Embora os Sem Terra tenham se distanciado da representação política, mas não tenham provocado uma ruptura entre o nível de representação democrática e aquele dos movimentos sociais que se manifestam na cidade. O descontentamento com a crise ronda todo setor subalterno, pois este, tem sido prejudicado por políticas anti-cidadã. Ela penaliza os subalternos e consequentemente à qualidade de vida, os salários a distribuição de riqueza.

Ao perdurar a situação de crise, terá efeitos negativos sobre os movimentos sociais progressistas que poderiam estar junto com o MST lutando contra a mercadorização da terra e pela apropriação para o uso popular e para a reprodução social Este parece ser o grande desafio do movimento social – MST e urbano – identificar a fronteira entre a mercadorização da terra e a reprodução social da terra que implica em combater a crise. Ela é uma forma de retirar a mais valia do trabalho para ser incorporado ao capital. Aqui, certamente, o MST teria como parceiros os trabalhadores urbanos.

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* José Mario Angeli é professor do Departamento de Filosofia (UEL)

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5 comentários sobre “O MST e a crise financeira

  1. A luta pela é um desafio para o MST ,traz a importancia do homen no campo e seu valor histórico,e principalmente o resgaste da soberania popular,faz a democratiização
    dos direitos.Pois a Terra é um bem de todos não deixar concentrada nas mão de uma minoria.A reforma agraria é dever do estado e um direito povo,na conjuntura atual sem o mst não existiria assentamento ou processo de lutas no campo em prol da dignidade humana.

  2. Parabéns pela criação desse espaço para o debate.
    O texto do prof. José Mario é importante uma vez que permite a (re)pensar o MST a partir do movimento do capital. Além do mais, elucida as contradições e os limites do MST, visto que a proposta reformista não abre caminhos para superar a estrutura de classes e o valor. Enfim, parabéns a todos!

  3. As movimentações do MST ainda não tomaram o vulto de representatividade necessária para que se deflagre a real possibilidade de mudança com efeito positivo para o povo “descamisado” brasileiro.
    A sociedade brasileira está na sua pujança de alta estima pelo feedback que a economia brasileira promoveu nestes três últimos anos, diante deste quadro não há prerrogativas para que o governo promova com consistência a verdadeira reforma agrária nas propriedades mais adequadas para cada grupo de acordo com suas vocações em relação a sua região.
    Elaborar estrategicamente movimentos que desvincule idéia de baderna e burrice agregada pela pobreza dos militantes, pois essa semiótica já é ultrapassada e só promove os desejos e causas dos latifundiários e políticos “progressistas” da ordem dos “somos a elite da produção agrícola brasileira”.
    Desejo sorte ao MST, e meu grito de guerra é “paz aos homens de boa vontade, queremos a terra que “Deus” nos prometeu”.

  4. Excelente seu comentário, professor. Efetivamente, assim como a febre indica as disfunções do organismo, os movimentos sociais de contestação indicam as disfunções sociais, não no sentido Positivista (de disfunção como contrariedade à Ordem), mas no sentido de que algo se opõe às mudanças que vão se tornando necessárias.
    Aproveito para parabenizar ao Prof. Ozaí pela manutenção desse espaço efetivamente “missionário”.
    Pucci.

  5. se alguém tiver algum artigo, resenha, ou simplesmente um texto sobre analfabetismo político e puder me mandar agradeço!!!!

    valeu!!!

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