Uma Moral Laica

praxedespor Walter Praxedes*

A moral expressa o que desejamos. É a moral que nos ensina que nossos próprios interesses conscientemente devem ser limitados em favor da convivência. É a aceitação de que os outros, próximos ou distantes, também possuem interesses que devem ser levados em consideração.

A política é o que conseguimos fazer. É uma forma de convivência orientada pela busca do poder ou pela sua manutenção. Na política quase nunca fazemos o que desejamos realmente, mas o que é possível, tendo em vista algumas metas imediatas consideradas mais importantes.

Talvez se deva substituir a política pela moral. Só assim pode ser evitado que causemos danos, que provoquemos dor nos outros. Em sua obra Albert Camus sempre nos lembra que “o pior erro é fazer sofrer”. O oposto é a solidariedade.

Mas ninguém pode pressupor que possui o monopólio da verdade moral. É sempre bom duvidar de si mesmo. Cada um de nós sabe dos seus limites e fraquezas, físicos e mentais, mas sobretudo os morais, que aparecem naquelas circunstâncias em que deixamos de realizar o que desejamos para sucumbir diante do que é mais compensador.

Daí a importância da renúncia ao privilégio. É preciso cultivar o desinteresse, mantendo-nos distantes daquilo que pode nos corromper. Assim também se evita a inveja do que pertence a outrem: poder, prestígio, conhecimento, riqueza, amor. Assim também se evita o ressentimento e a amargura por não alcançarmos o mesmo.

“Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” é um principio que continua satisfatório.

A liberdade não quer dizer que tudo deva ser permitido, mas que o ser humano tem o direito de escolher o seu lugar no mundo. A liberdade que já conquistamos garante a cada um o direito de eleger os próprios valores. O ideal é que não sejam valores que impliquem na destruição daquilo que é essencial para a existência da humanidade: a convivência.

____________________

* Professor do Departamento de Ciências Sociais (UEM); Doutor em Educação (USP).

Publicado na REA nº 06, novembro de 2001, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/006/06walter.htm

Anúncios

9 comentários sobre “Uma Moral Laica

  1. Mais uma vez a Revista Espaço Acadêmico chama nossa atenção para refletirmos algo que está instrinseco em nós e na sociedade, que são nossos valores éticos e morais. Nos dias atuais e crescente preocupação com o ter está ofuscando aquilo de maior valia que são as regras de convivência social e as pessoas acabam pensando que podem tudo em nome de uma liberdade desenfreada e a confundem com libertinagem. É preiso termos a consciência de que nem tudo que podemos nos convém praticar.

  2. O professor Praxerdes é feliz na sua colocação com relação a convivência,pois, é necessário que a humanidade respeite e conviva em harmonia com a sociedade e a natureza que o rodeia. É por falta da boa convivência que milhares de almas já foram ceifadas fora do tempo e que muitas ainda partirão antes do tempo certo. A felicidade humana deve ser preservada acima de qualquer ideal,pois, não existirá amanhâ com o fim de nossa raça.

  3. É indubitável a profisciência do autor do texto em questão ao se debruçar sobre as implicações do embate, no decurso da história, entre o que, ao longo do texto, é chamado de “moral” e a “política”. Velha querela que, por séculos, arrasta-se sem erigir um bastião, cuja “pedra-angular” repouse sobre os “louros” da unanimidade. Isto é ponto pacífico. Todavia, por uma lógica discursiva coerente, faço eco ao apontamento de um dos colegas abaixo. Penso que, a partir da abordagem do filósofo brasileiro Renato Janine Ribeiro, “moral” não é sinonimia de “ética”. Pelo contexto do presente artigo, o leitor é arremetido a entender “moral” como “ética”, o que, a meu ver, constitui um erro conceitual. Haja vista, segundo Janine, ser a “ética” uma introspecção crítica sobre os ditames da “moral” prevalecnete, ou seja, cabe à “ética” averiguar os alcances e os limites de um dado discurso moral, segundo uma escala de valores. Parece-me que o autor em apreço, o simpático e competente professor Praxedes, situa seu argumento nesse sentido. Destarte, seria sensato falar em “ética”, como balizas de um modelo societário capaz de produzir, sem perda de qualidade, qualidade e cosmopolitismo, e não em “moral”, postura, por definição, monista. Afora isso, concordo com a ilação proposta e defendida pelo autor do artigo em voga.

  4. Interessante essa discussão, certa vez li ,e concordo com o que li, que não há natureza humana fora de contexto, logo, será que moral e ética baseadas numa natureza humana forjada numa forma de organização social, política e produtiva nos moldes do capitalismo seriam as memas num outro modelo de organização social, política e produtiva baseada no socialismo ??? Acredito que não pois o simples fato de se colocar o coletivo acima do individual, daria uma nova dimensão a moral e a ética …
    Por este motivo tendo a concordar com o que diz o Joaquim Miranda Maloa, no que diz respeito à substituição da política pela moral ou ética …

    Sds,
    Nelson Breanza

    Sds,
    Nelson Breanza

  5. Rezar eu não rezo
    Nem me ajoelho para o Oriente
    Também não medito religiosamente
    E nem canto Mantras,
    Minha Ladainha é outra
    Zen Budismo pratico como Filosofia de Vida
    Não levanto as mãos aos Céus
    Nem tampouco canto Carismático
    Corais e Música Sacra,
    Só como arte
    Soul Music ou Black Protestant,
    P’rá mim é festa
    Batuque , só no samba
    Xamãs , Videntes e Oráculos,
    Se sabem o que dizem, não os escuto
    Nunca vi um Duende
    Nem a fada Sininho
    Simpatias, Supertições ou Mandingas, tô fora!
    Também não fico esperando por Milagres
    Do Horóscopo, só leio o já passado
    Pois, afinal, …………………………………….
    ……………………………..Alguns dizem que o Futuro a Deus pertence!
    AGNÓSTICO
    por Escaramuça

  6. Professor concordo que amoral esta por cima de tudo na vida, mais substituir a politica ai é discutivel, como diz Maquiavel, que na politica não há lugar para a moral, porque um politico que segue a moral, não vai trazer a justiça, porque não pode julgar os outros porque a manha não quer ser julgado. Mas a sociedade moderna da pouco valor a moral, isto é explicado por varias correntes sociologicas que explicam a transição da sociedade moderna a tradicional.

    Joaquim Miranda Maloa
    Centro de pesquisa e promoção social-Moçambique- Cidade de Lichinga.

  7. Professor Praxedes, concordo plenamente com todas as suas palavras. Moral é sempre um grande valor em qualquer época e circunstância, e a frase: “Não faça aos outros o que não queres que façam a ti ” lembra o mandamento : “Amai ao próximo como a ti mesmo” e com certeza é o caminho pra se viver em paz. abs
    Maria Ângela.

  8. O que foi dito pelo Ilustre Professor acima epigrafado, concordo plenamente, porque as boas lições são sempre bem vindas, e essa lembra ECLESIASTES na Bíblia – PENTATEUCO.shalom.

  9. Caro Professor Praxedes: embora seu artigo esteja muito bom, seus conceitos s/moral cabem na Ética. A ètica é imutável, é o comportamento humano frente à natureza, isto é não causar danos ao seu semelhante, aos animais, às plantas, rios, enfim à tudo aquilo que se liga á preservação da vida. Entretanto a moral varia de acordo com as mudanças sociais. São visões de relações sociais impostas pela evolução humana, seja no comportamento, na política, na religião, nas leis. Além disto varia de uma sociedade para outra. Cordiais saudações, Regina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s