AÇÃO AFIRMATIVA – É necessária uma nova Abolição?

por Muniz Sodré

Há uma questão atravessada na garganta de grupos empenhados na defesa das políticas afirmativas da cidadania negra. Trata-se de saber por que os jornalões (nome talvez mais palatável do que “grande mídia impressa”) brasileiros não dão voz alguma a quem se manifesta favorável a medidas como a instituição das cotas ou ao Estatuto da Igualdade Racial. Como bem se sabe, esses jornais vêm dando largo espaço a jornalistas e intelectuais decididos a demonstrar que as ações afirmativas constituem uma nova forma de racismo, já que raça não existe e, ademais, como a população brasileira é predominantemente miscigenada, todos os nossos concidadãos teriam a sua cota de negritude. Logo, não faria qualquer sentido ficar procurando saber quem é negro ou branco para proteger o primeiro.

Foi essa a questão debatida nos dias 14 e 15 de outubro, durante o seminário “Comunicação e Ação Afirmativa: o papel da mídia no debate sobre igualdade racial”, realizado na Associação Brasileira de Imprensa por entidades como Comdedine, Cojira e Seppir. É bem sabido que há vozes discordantes das opiniões oficiais dos jornalões, por parte de jornalistas de peso, alguns dos quais pertencentes aos quadros desses mesmos jornais. É o caso de Elio Gaspari, Miriam Leitão e Ancelmo Gois. Estes dois últimos, aliás, foram palestrantes no seminário.

Uma instituição retrógrada

Na mesa sobre “a responsabilidade social da mídia e o debate sobre raça” – que dividi com a jornalista Márcia Neder, da revista Claudia –, comecei afirmando que há certas visibilidades que nos cegam. O sol, por exemplo, se tornado excessivamente visível (olhado de frente), nos impede de enxergar. Mas há também objetos sociais que, se tornados visíveis demais, podem bloquear a visão de quem antes acreditava ver. Parece-me ser este o dilema da cor, do fenótipo escuro, na atualidade brasileira, onde vislumbro um caso de cegueira cognitiva.

De fato, a questão vem sendo tratada como ser pró ou contra o racialismo. A maioria dos favoráveis a propostas como o Estatuto da Igualdade Racial, cotas para universitários etc., lastreia os seus argumentos com as razões do anti-racismo; os desfavoráveis, embora reconhecendo a existência episódica e anacrônica de incidentes racistas, tentam fazer crer que vivemos no melhor dos mundos em termos de conciliação das diferenças étnicas e que seria, portanto, um retrocesso civilizatório racializar a população. Curioso é que esses mesmos argumentos desfavoráveis, sem que seus autores se dêem conta, são racialistas em última análise, ao apelarem para as noções de miscigenação biológica.

Por outro lado, de modo geral, todos se habituaram a pensar na escravidão ora como uma mácula humanitária, ora como um anacronismo, uma instituição retrógrada na história do progresso. Vale, entretanto, apresentar uma opinião de outro matiz, a de Alberto Torres, autor de O Problema Nacional Brasileiro. Foi um dos grandes explicadores do Brasil entre o final do século 19 e início do 20.

A saudade do escravo

Conservador em termos sociais (refratário à urbanização e à industrialização), propugnador de uma República autoritária, Torres revela-se, entretanto, interessante em termos metodológicos e teóricos. Diz em seu livro que “a escravidão foi uma das poucas coisas com visos de organização que este país jamais possuiu. (…) Social e economicamente, a escravidão deu-nos, por longos anos, todo o esforço e toda a ordem que então possuíamos e fundou toda a produção material que ainda temos”.

Torres era, insisto, autoritário e conservador. Gerou epígonos como Oliveira Vianna, esse mesmo que chegou a justificar em sua obra o extermínio do “íncola inútil”, isto é, do habitante das regiões empobrecidas do país. Era, entretanto, um conservador diferente: discordava das teses sobre a inferioridade racial do brasileiro, não era racista. Sua frase sobre a escravidão é algo a ser ponderado, principalmente quando cotejada com o dito de Joaquim Nabuco: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. (…) Ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância” (Minha Formação).

É célebre essa passagem sobre a memória afetiva da escravidão – a saudade do escravo. Ela é a superfície psicológica do fato histórico-econômico de que as bases da organização nacional foram dadas pelo escravismo. Por isso, vale perguntar que apreensão os brasileiros fazem desse fato, pouco mais de um século depois da Abolição.

Perpétuos cães de guarda

Alguns pontos devem ser considerados:

1. A palavra “apreensão” não diz respeito a concepções intelectuais, e sim, à incorporação emocional ou afetiva do fenômeno em questão. No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito o seu ethos, isto é, a sua atmosfera sensível que nos diz, desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar.

2. A reinterpretação afetiva da “saudade do escravo”, que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.

Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?

Nada, portanto, da velha grosseria racista, da velha sentença de “pão, pano e pau” proferida pelo padre Antonil a propósito dos negros. Não há mais lugar histórico para o “pau” desde a Abolição, ou melhor, desde a Lei Caó. O argumento explicitamente racista não leva ninguém a lugar algum no império das tecnologias do self incrementadas pelo mercado e pela mídia.

Mas é imperativo para o senso comum da direita social que as posições adrede fixadas não se subvertam. O escravismo é mais uma lógica do lugar do que do sentido. É dele que, de fato, têm saudade os que acham um escândalo racial proteger as vítimas históricas da dominação racial. E os jornalões, intelectuais coletivos das classes dirigentes, não fazem mais do que assim se confirmarem ao lhes darem voz exclusiva em seus editoriais e em suas páginas privilegiadas, ao se perpetuarem como cães de guarda da retaguarda escravista. É oportuno prestar atenção à letra da canção de Cartola (“Autonomia”) em que ele afirma a necessidade de “uma nova Abolição”.
__________

Fonte:  Observatório da Imprensa, 03/11/09, disponível em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=561CID001 [enviado por Regina M. A. Machado]

Anúncios

12 comentários sobre “AÇÃO AFIRMATIVA – É necessária uma nova Abolição?

  1. Sou negra, estou me licenciando em História escolhi a linha de historiografia da escravidão e muito me toca os assuntos referntes a esses temas. Adoro esse blog, ele é simplesmente maravilhoso!
    Parabéns!!!

  2. Não sou negro e não tenho em envolvido nessa discussão de cotas com relação a ser ela uma forma de racismo ou não. No entanto, entendo que devemos dar oportunidades sim aos menos favorecidos historicamente como forma de mostrar às futuras gerações que em se dando oportunidade (e se aproveitindo oportunidades) todos conseguem evoluir intelectual e socialmente. Não penso em pagar dívidas, penso em dar oportunidades aos que, por razões alheias à sua vontade, estão com dificuldades para superar algumas barreiras: tornar o sonho real. É preciso que os mais novos vejam que a cada dia um número maior de pessoas da sua etnia, crença ou classe social está conseguindo galgar postos mais elevados na vida acadêmica para criar neles mais expectativas e vontade de vencer também.
    Um dia chegará em que as cotas serão coisas do passado, mas restará à sociedade o prazer de um dever cumprido: dar oportunidade àqueles que, por alguma razão, se encontravam sem esperança de entrar no páreo.
    Algumas classes sociais estavam com as cotas todas para elas e sobravam migalhas para as demais classes. Hoje mais gente está tendo a sua vez. Se o melhor nome é ” cota” ou “oportunidade de fato” não sei. Só sei que tenho visto mais gente de classes menos favorecidas na universidade com um largo sorriso no rosto e sonhando com uma sociedade mais igualitária para os mais jovens.

  3. Sou leitora a muito tempo do Blog e vou fazer meu comentario pessoal, sou megra estou no 6º periodo do curso de Ciencias Sociais em BH, tenho FIES. nunca me senti inferior por causa da cor, esto para mim é um problema do proprio negro que fica esperando que outros determine o q

  4. O meu comentario é só pra dizer que todas as noticias que leio desse blog é tudo de bom, ou seja: o blog é o máááááááxixixixixiximomomomomom.

  5. A QUESTÃO AQUI NÃO É DAS COTAS, MAS SIM, A QUESTÃO DESTES GRUPOS RACISTAS, ELES NÃO ACEITAM E AINDA TEM O RESPALDO DA GRANDE MÍDIA PARA OS SEUS PRECONCEITOS INTELECTUAIS.
    O ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL E AS COTAS, SÃO O QUE DE MAIS INCRÍVEL ACONTECEU NESSES QUINHENTOS ANOS DE BRASIL, COMO TAMBÉM A PRECONCEITUAÇÃO DESSES GRUPOS QUE SÃO VINDOUROS DOS GROTÕES DO ARIANÍSMO.
    É PRECISO COMBATERMOS ESSES GRUPOS DE PESSOAS QUE SE PUDESSEM, EXTERMINARIAM, OS NEGROS, ENFERMOS, NORDESTINOS, POBRES, JUDEUS, PROSTITUTAS E “INCAPAZES”… QUALQUER TIPO DE PRECONCEITO, E ESSA QUESTÃO NÃO SE RESTRINGE SOMENTE AO PRECONCEITO EM SI, MAIS TAMBÉM ESTA LIGADA A UM FATO HISTÓRICO QUE ESTA ACONTECENDO EM NOSSO PAÍS, QUE É A INCLUSÃO DE PESSOAS DENTRO DAS QUESTÕES QUE OCORRE NA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E QUE ESSES GRUPOS DE PESSOAS COM PENSAMENTOS E TESES PRECONCEITUOSA NÃO QUEREM QUE OCORRA, É PRECISO UMA REAÇÃO DA SOCIEDADE, POIS OS MEIOS DE COMUNICAÇÕES, SÃO UM BEM PÚBLICO E EM TESE, DEVERIA SERVIR AO MEIO PÚBLICO E NÃO ESSES GRUPOS ISOLADOS!

  6. Cotas nas universidades: uma forma de racismo ou inclusão?.

    No meu ponto de vista percebo que as pessoas estão confundindo ‘o sistema das universidades’ com o programa do governo acelera Brasil, que pretende fazer com que os alunos estejam em nível escolar condizente com a sua idade. Quando leio as contribuições das pessoas, percebo que repetem pontificações supostamente endereçadas para as cotas nas universidades, mas que são na verdade a forma de repudiar a escola publica imprestável. Devo dizer a meu ver, essas questões são duas coisas diferentes: cotas nas universidades e o programa acelera Brasil.

    Por outro lado,digo para pessoas que se posicionam contrária as cotas nas universidades o seguinte: a questão principal dessa temática não é se os negros têm ou não a capacidade de ingressar numa universidade.A querela primordial é se as cotas nas universidades é uma forma de racismo ou a inclusão social?.percebo as varias contribuições que confere a essa discussões a dimensão que não possui(confusão com o programa acelera Brasil).gostaria que fosse desfeita esse mal entendido e dizer para quem discorda das cotas que realmente o panorama nos EUA devem ser seguida sim,se teve êxito,é claro deve ser imitada(medidas afirmativas).dizem também que os negros e brancos vivem pacificamente no Brasil(?!)sendo assim,ninguém é proibido de freqüentar uma universidade por ser negro(!?).essas pessoas também alegam que cotas prejudicam os brancos.

    Pois bem, tendo em vista a realidade dos negros na sociedade brasileira, indaga-se: negros no Brasil têm oportunidades comuns aos brancos.? As cotas seriam formas de pagar a divida histórica do colonialismo-escravista outrora vigente no Brasil.? Ou ainda como forma de inclusão?Se as pessoas concebem cotas como acentuação das diferenças, isso não seria uma forma de reconhecer que realmente o Brasil é sim um pais de racismo (embora de forma velada)?

    Eu como negro,de origem africana,devo dizer que sou a favor das cotas,porem não baseada em raça(pois só temos uma raça humana).As desigualdades sócio- econômicas existente no Brasil me faz defender as cotas como medida emergencial,até chegarmos a igualdade de fato.A igualdade no Brasil é um mundo de faz de contas,e isso descaracteriza os argumentos das pessoas que são contra por acharem que todos são iguais perante a lei.a pergunta pertinente é:será a lei igual para todos no Brasil?.Muitos dizem (concordam) que o problema seja na base da educação, mas o que faremos enquanto não é corrigido o problema?ficamos de braços cruzados ou amenizar a situação através de cotas,mesmo que seja como medida paliativa.

    Eu concordo que ser contra cotas é ser contra igualdade (pessoas brancas),e ser contra cotas mesmo sendo negro configura-se em ideologização(projeção da ideologia dominante pelos dominados).A burguesia se apropria da temática para querer continuar com seus privilégios de classe mais letrada(pois o papai banca tudo,enquanto os negros têm que deixar de estudar para trabalhar cedo para ajudar na família).por isso e outras coisas que são poucos os negros que podem sentar nas carteiras duma universidade.A realidade demonstra que a questão transcende essas formas miópicas de enxergar as cotas,sem dar as devidas credibilidade que merece(cotas).

    CORNELIUS OKWUDILI EZEOKEKE

    INSTITUTO DE CIÊNCIAS RELIGIOSAS (ICRE).
    CURSO DE BACHARELADO EM TEOLOGIA.

  7. Caros,
    Este artigo é deveras interessante. Eu sou negro e nunca tive receio de e não me sinto ofendido quando alguém me chama pelo tom da mina pele. Mas isto claro duma forma que não fera a minha identidade. A escravidão troce consigo muitas consequências que estamos vivenciando atualmente As sociedades criaram um sentimento de culpa (devido a escravidão) que o tom da cor negra é sinônimo da falência, pobreza, de não-aceitação do que é bom enfim de tudo que possa ser negativa as sociedades, e hoje este sentimento é muito patente em todas as sociedades brancas (se assim o podemos referenciar). As sociedades estão esquecidas que, se não fosse a escravidão que consigo levou muitos valores do continente berço da humanidade (África) para outras paragens, hoje tenho a certeza que as sociedades hora chamadas modernas ou evoluídas estriam a ver este continente (ou o tom da pele negra) de uma outra forma, com mais respeito, mais aceitação, sem sentimentos de revolta, e maior cooperação em todos os sentidos.
    Acooperação com o continente é simplesmente nos interesses ecómicos.
    Ainda sim associada a este fenómeno de não valorização deste homem negro, os dirigentes negros ainda não entenderam que deve haver maior interacção em formar o homem (negro) para uma evolução afectiva da sociedade negra em geral. No meu entender só depois dos dirigentes negros entenderem que, uma maior parte da culpa em não-aceitação hoje do tom da pele negra, está atribuída a eles. E consequentemente a mudança de comportamento no sentido positivo

  8. Lendo este texto, lembro-me de um amigo italiano, criado, educado e trabalhando no Brasil, comentando perplexo uma observação feita por um tio, padre, nascido e ordenado no norte da Italia e que já havia morado na Africa do Sul (no tempo do apartheid), Argentina, Chile e Uruguai e que estando aqui no Brasil, disse: “nunca vi em minha vida uma direita tão bem organizada como aqui no Brasil”. Talvez isso explique essa perplexidade com os discursos dos “jornalões” sobre essa questão. Para quem leu o artigo do FHC no último domingo, no “jornalão” de uma das 4 famílias que dominam a imprensa (capitanias hereditárias????) neste país (Mesquita, Marinho, Frias e Civita) está bem claro como é feita a defesa de que o “mal feito” é o “bem feito” nas questões de defesa dos privilégios da elite.

  9. Descendo de japoneses e sofri todo o tipo de problema por tentar ser naturalmente apenas um cidadáo.
    Apesar disso náo me considero escravocrata, pelo contr[ario, fa;o um complexo trabalho pastoral visando uma maior consciëncia da iidéia de República, e sou contra cotas de qualquer tipo, pois para mim é muito claro que elas afirmam definitivamente, estruturalmente a questáo racial.
    Ajudar todos os carentes de todas as formas possíveis, sim, dar nomes raciais, não.
    Estou em fase de provas e com muitos p0razos, e paro por aqui, mas estou disposto a debates.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s