Carta da leitora!

por Tânia Viana

Boa tarde, professor. Que felicidade! Enfim, consegui me comunicar com o senhor…

Sou prolixa desde os meus mais remotos ancestrais; também o sou por necessidade. Entretanto, tentarei ser breve. Imagino que o senhor tenha muitos compromissos.

Sou Tânia. Tenho 58 anos. Tenho horror a esta “obrigatoriedade” de ser jovem, no entanto, sinto-me uma criança no tocante à necessidade de descobrir, de aprender, de descortinar novos horizontes – com muitos arco-íris (rsrsss).

Há mais de 30 anos ganho meu sustento do trabalho de guia e intérprete – francês. As mudanças, a crise, a falta de turistas e a idade, me levaram de volta para pegar o outro braço da bifurcação do caminho que deixara lá atrás. Graduada (1984) em Filosofia (minha grande paixão) voltei aos bancos da faculdade: Pós-graduação em Psicopedagogia.

Direto ao assunto:

Iniciei a pós-graduação numa conceituada faculdade; lá fiquei por quase um ano. Desisti, depois de brigar, chorar, parlamentar, escrever, implorar para ter “aulas”. Exceção de três professoras, ao longo deste ano (aulas duas vezes na semana, sendo 4 horas aula cada noite), eu só fazia ler módulos (as antigas apostilas). Ficávamos, todas, a ler em leitura silenciosa durante três horas (às vezes quatro), e depois, líamos em voz alta (como verdadeiras imbecis); ao ler em voz alta, eu arriscava fazer uma pergunta sobre o longo texto que acabara de ler, mas, para meu desespero, a professora não sabia responder. E assim foi durante quase um ano.

Falei com minhas colegas; fiz cartas à coordenação. Sequer recebi resposta. O golpe de misericórdia veio quando nos mandaram a “criadora” do curso, ou seja, mais uma psicanalista! (Lá não tínhamos professores; tínhamos psicanalistas dando aulas sobre assuntos dos quais nada sabiam). Esta última “psicanalista” iniciava a aula uma hora depois e terminava uma hora antes. Tentei falar com os colegas, mas a resposta destes era sempre a mesma: “deixa pra lá, Tânia”! O estopim veio quando a referida professora nos apareceu com um texto imenso de Lacan e nos disse (enquanto cruzava as pernas e conversava com um amigo ao seu lado): “Leiam e discutam entre vocês”. Ora, como poderíamos discutir sobre conceitos dos quais não tínhamos a mínima idéia? – “Nós borromeus, sinTHoma, sintoma, etc. Polidamente, eu disse à professora que aquilo era impossível! Houve um silêncio sepulcral na sala! Ninguém reagiu.

Na sequência, tentei fazer algumas perguntas as quais ela não respondeu – por absoluta ignorância. Deixamos a sala uma hora antes do horário e, lá fora, eu conversava com algumas colegas, quando uma moça negra me disse: “Tânia, por que tanta confusão?” Deixa pra lá? “Deus há de nos ajudar!”. Apesar de eu não ser negra, eu disse que ela me dava vergonha com aquele pensamento; disse-lhe que se Bico, Macon X, Mandela, Gandhi e tantos outros negros tivessem “deixado pra lá”, ela não estaria freqüentando uma universidade! Desisti. Fiz carta ao reitor (já que a coordenação fizera ouvidos moucos); tentei mais uma vez com os colegas e não houve um só que me desse abrigo. Abandonei a faculdade.

Procurei outra. Cheia de esperanças! Aulas aos sábados (dia todo). Eu já cursara 11 disciplinas na primeira faculdade, mas esta que me recebia só considerou 4. Resultado: perda de muito dinheiro (considerando o mínimo que disponho para pagar a faculdade); perda de tempo (considerando os meus 58 anos).

Saga número II – “O retorno”!

Faculdade atual.

A professora dava aulas lendo os slides projetados na parede e dos quais não desgrudava os olhos; quando eu (nós) fazia qualquer questionamento ela respondia assim: “E aí turma? O que vocês acham! E a cada esboço de resposta de um aluno, a professora retomava o mesmo joguinho enganador: “E ai, turma? O que vocês acham? E assim terminou mais um bloco de aulas (30 horas!)… Colocamos “nossas mochilas nas costas e voltamos às nossas casas”… Sem respostas! (perdoe-me o cinismo da metáfora).

A próxima professora: PSICOLOGIA SOCIAL. (três sábados). Iniciou sua aula nos fazendo (38 alunos) caminhar pela sala, pensando na cor “azul”, com os bracinhos elevados e respirando para relaxar; na sequência, pensamos no “lilás” para nos conectarmos com o grande Outro; enquanto isso sua voz esganiçada nos dizia: “Gente! Arrrente tem que pensar neste outro que está sentado ao lado darrente”… Depois, colocou um vídeo de 45 minutos. Terminada a apresentação, ela desligou o aparelho. Nenhum comentário! Projetou alguns slides sobre Freud e, encostada numa parede não desgrudava os olhos, a não ser para dar gritinhos histéricos: “respira”! Ao final da “leitura”, questionada, ela gaguejou e nada respondeu; apenas fez uns “links” para dizer (e repetir altaneira) que ela já havia feito mais de 50.000 km em busca de encontrar “ela mesma”… Eu soube, posteriormente, que há uma desconfiança, um questionamento, sobre qual graduação tem esta senhora. Teria ela, realmente, uma graduação?  “Figurez-vous” (rsrsss), uma especialização qualquer que lhe autorize a dar aulas num curso de pós. Ela é uma Xamã, uma massoterapeuta holística!

No segundo dia veio outra professora que fazia “par” com esta; enquanto ela ficava num cantinho da sala (aprendendo) a outra dava aula. Falava de Pichon-Rivière! Para nosso desespero, quando questionávamos algo fazendo links com Freud, ela respondia nervosa: “Vocês estão misturando tudo! Pichon nada tem a ver com Freud”! Então, sentava-se e começava a explicar Pichon falando de “EGO” “SUPEREGO” etc.(?) – Que, como sabemos, são conceitos absolutamente freudianos. Um caos. Questionei educadamente! E repeti o erro…Todos os colegas ficaram contra mim. Posteriormente, alguns me procuravam para dizer: “deixa pra lá”. Outros, mais agressivos, me acusaram de faltar com o respeito a professora.

Escrevi longa carta e fiz cópias a cada um dos meus colegas, onde, entre outras coisas, eu lembro a eles que maior desrespeito é o que os beneditinos, a coordenação e a senhora do “suposto saber” tiveram e têm para conosco. Desculpei-me, solenemente.

Professora atual: METODOLOGIA DA PESQUISA (três sábados): 30 horas de aula…

Iniciou sua aula questionando a cada aluno: “E aí? Qual seu nome? Por que está aqui? Onde fez graduação? Em que? Quem eram seus professores na graduação (???). Veja: professores da graduação, que, para alguns, como eu, são de 20/30 anos atrás. Qual o interesse? Claro: deixar passar o tempo.

E assim, nesta conversa “inteligente” ela completou a manhã – de 08h30 ao meio dia. Saímos para almoço. Na volta, às 13h30, ela colocou o filme “O óleo de Lorenzo” (e foi aí que eu o encontrei, professor). Duas horas e oito minutos de filme. Enquanto víamos o filme ela desceu para o pátio da faculdade e lá ficou, tomando cafezinho, gargalhando ao celular. (Eu também havia descido porque achava imoral aquilo que estava acontecendo); aquele filme nós deveríamos ver (ou ter visto) durante a semana, nas nossas casas. Alguns “baixariam” pela internet, outros, como eu, o buscariam na locadora. Ao voltar à sala de aula, ela nos deu um questionário de 7 perguntas. Inútil lhe dizer que as colegas não têm a menor idéia sobre o que responder… Estão todos em pânico… Mas, um pânico silencioso! Ainda tentei esboçar muito cuidadosamente – com alguns colegas – estes questionamentos: mas foram palavras ao vento!

Apesar do tanto que aqui escrevo, esse tanto é apenas uma síntese do absurdo, do inferno que Dante não conheceu; e ainda muito mais quixotesco do que os postulados de Cervantes.

Por que eu o procurei, professor Antonio Ozaí?

Porque quero lhe pedir a gentileza de me indicar algumas referências bibliográficas; textos, revistas, livros, filmes etc. que abordem estes assuntos que me deixam perplexa e que escapam à minha compreensão. Pretendo escrever meu TCC a partir das seguintes reflexões:

a)  Por que razão faculdades continuam legitimando estes absurdos? (eu já compreendi que a razão maior é “lucros”; bons professores custam “caro” (rsrsss). Ok. Mas, me interesso a ter uma compreensão mais alargada desta infeliz realidade.

b)  Por que razão meus colegas têm tantos medos? Qual a razão de escondermos nossas dores e nossa ignorância?  De onde vem este medo? O que subjaz a este medo?

c)  Quais as razões que nos fazem legitimar um professor que diz – na sala de aula: Taí algumas Xerox; vocês se virem, porque eu estou por aqui só de passagem; eu sou advogado e só estou esperando arrumar um emprego decente. “Vou trabalhar só para “rico”; nem que seja para bandido; mas só bandido rico”!!!

Qual seria – meu caro professor – a razão de tudo isso? Diga-me, por favor, onde posso achar literatura, fontes (se é que elas existem) onde eu possa “beber” um pouco de compreensão para que este deserto que me espreita na forma de solidão, não se instale e me devore. Tenho tentado – em vão – dizer aos meus colegas que enquanto legitimamos estes trapaceiros sem escrúpulos como nossos professores, nós relegamos à sarjeta os verdadeiros mestres. Falta-nos mestres para conduzir com inteligência as nossas discussões em direção ao construto do nosso (individual) próprio pensamento. Infelizmente.

Perdoe-me, caro professor, de lhe ter tomado tanto tempo. Sou uma criança adolescendo sem respostas. Dói muito.

Muito atenciosa

Tânia Viana

__________

PS: Posteriormente, o exercício com as sete questões sobre o filme O Óleo de Lorenzo, foi apresentado em sala de aula – para “correção”. Eu havia visto algumas das respostas dos colegas sobre a primeira pergunta. Surpreendeu-me a divergência de pensamento, posto que cada um dos meus colegas havia dado uma resposta completamente diferente da minha. Eu estava, então, ansiosa, para conhecer os argumentos lógicos da professora sobre a tal pergunta. Qual não foi a minha surpresa, quando, depois de alguns poucos questionamentos dos alunos ela disse: “Não tem problema: de qualquer maneira eu vou considerar todas as respostas como “certas”…

Observe a pergunta: “Que pergunta demonstra a problemática principal relacionada à trama do filme”? – O Óleo de Lorenzo. Agora, pergunto eu: como considerar corretas, digamos, 15 (ou mais) divergentes respostas a esta pergunta tão específica?. Ou será que estou errada!?

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16 comentários sobre “Carta da leitora!

  1. Oi pessoal que postaram suas palavras para a Tânia.
    Valeu! Foi muito bom ler tudo que escreveram.
    Cresci mais um pouco nesta vida.

    Abraço a todos

    Déborah

  2. Tânia parabéns, vc abriu a boca. Tenho 51 anos e terminei uma pós em EJA há 5 meses. Vivi o que vc viveu. Abria a boca e levava pancada. A maioria queria diploma. E dá-lhe xerox e apostila. Tivemos no final uma mestra que valeu pelos 18 meses de curso e os outros 7 professores. Poderíamos amanhecer ouvindo seus relatos. Idade aproximada, 70 anos. Uma fortaleza. Marcou-me para o resto dos meus dias. E é pensando nela que estou estudando mais e mais, lendo, pesquisando e foi onde GRAÇAS a DEUS cheguei neste blog maravilhoso do Prof. Antonio.
    Finalizando, quero dividir com vc a dor sentida. Vc conseguiu me fazer sofrer suas agruras. Quem sabe um dia nos encontremos e aí trocar um abraço fraternal.
    Abraço
    Déborah Liz
    Curitiba/PR

  3. Tânia:

    Há dias, li seu relato e ele define bem a educação brasileira no atual contexto histórico, cultural e social. Claro, há exceções, mas vivemos uma contemporaneidade que apregoa um discurso cuja voz anuncia qualidade, competência, criatividade… ; no entanto, as ações são outras, ou seja, é o perfil que você relatou, logo existe um antagonismo entre discurso e ação Parece-me que há um choque entre gerações. A maioria dos jovens hoje não deseja vivenciar o esforço, sendo assim, as instituições educacionais privadas, apesnas, dão-lhes o que querem: um diploma. Digo isso, pois vivi e vivo a exclusão por causa da idade(44) e sexo. Há quatro anos, mudei de estado, achava que, quando chegasse ao estado no qual moro, logo começaria a trabalhar em alguma escola particular, pois sempre trabalhei em escola privada, porém vivenciei uma grande surpresa. Se hoje trabalho, é, portanto, devido aos concursos que prestei no estado e município. Só para citar um exemplo, um dia fui chamada a uma escola de “qualidade” para uma entrevista, mas perdi a oportunidade para um rapaz sem experiência, mas , era do sexo masculino e , na concepção dos pedagogos, poderia controlar mais os alunos. Desisti, mas continuo a estudar porque gosto e alimenta minha alma, não tenho muito tempo, contudo me esforço bastante. Poderemos trocar ideias veja meu e-mail.Tenho um artigo publicado, acesse-o , link:http://www.artigonal.com/literatura-artigos/ethos-obamaniano-a-metafora-de-um-vencedor-1177439. html

  4. Caros senhores/senhoras:

    Demorou muito para que eu admitisse essa tal de internet (rsrsss). Porém, me dou conta dos porquês de tantos sucumbirem ao charme desta jovem senhora. Digo isto porque me emocionei (ciente de que pareço meio estúpida) com os comentários-respostas de tantos que falam o mesmo “dialeto” que eu. Antes de tecer qualquer comentário quero partilhar a minha alegria de vos ter “escutado”.

    Não, senhor Mittaraquis, não foram seus “limites de percepção” que o impediram de compreender o meu desabafo; foi o meu discurso prolixo, não claro, que omitiu detalhes importantes para os quais o senhor – com propriedade – chama a atenção. Sim, senhor Mittaraquis, o meu intento ao publicar este artigo (a primeira vez que o faço), foi exatamente provocar reações e tentar buscar outras vozes, outras escutas para me dar um referencial; tenho um mundo de gente ao meu redor (notadamente 35 colegas da faculdade), mas que parecem falar um “dialeto” estranho ao meu (no tocante a este assunto). Não acredito que a falta de compreensão entre estes “dialetos” se deva às diferenças de idade. Creio que as razões são muito mais profundas! Sim, senhor Mittaraquis, as faculdades das quais estou falando são, ambas, privadas… Pagamos por elas e, – considerando o nível de vida de nós brasileiros, mais precisamente do que dispomos para educação – uma quantia razoável, e, para muitos, poder-se-ia dizer: muito dinheiro! Frequentei – e frequento – Universidade Estadual, porém, apenas como participante de curso, seminários, palestras etc. Posso garantir ao senhor que a situação não é muito diferente. Porém, senhor Mittaraquis, creio que a situação (na Estadual) não seria explicada através dos mesmos “métodos” que aqui aplicamos para analisar os “fenômenos” das faculdades privadas. Quanto a Universidade Federal, esta sim, tem grandes mestres, porém, infelizmente, tenho que dizer que há, também, situações dramáticas! Ex: professor alcoólatra, que passa 20/30 dias sem dar aulas na graduação; no mestrado, dá aula quando quer e – por vezes – deixa todos a esperar sem nenhuma informação, sem nenhuma justificativa; quando aparece no mestrado vem “munido” de um ou dois alunos da GRADUAÇÃO para dar aula aos MESTRANDOS. Ora, senhor Mittaraquis, certamente o senhor – e eu mesma – poderia questionar o que há de mal nisso? Ora, em primeiro lugar, a lei não permite que um aluno da graduação vá ministrar aulas para MESTRANDOS do curso de Filosofia; por outro lado, o que esperar de alunos de uma graduação-sem-professor (já que o professor chega a passar um mês ausente)? Agradeço suas sábias reflexões e peço-lhe para ler, no final deste mail, o resumo da minha última aula – sábado passado.

    No caso das Universidades – Estadual e Federal – o “nó” da questão gira em torno desta expressão tão bem contextualizada pelo professor Antonio Ozaí: “A Arrogância Titulada”! Porém, apesar de não ser muito agradável conviver com esta arrogância, até este momento, eu nada tenho a reclamar. Mesmo os arrogantes me têm tratado com respeito.

    Ah! Esqueci um detalhe (para melhor compreensão de todos). O assunto em epígrafe é sobre uma pós LATO SENSU em Psicopedagogia. Faculdade privada. À parte, eu estou na Universidade Federal – terceiro semestre – ainda como aluna “especial” no mestrado em Filosofia. No momento tenho prazer em dizer que sou aluna de uma das mais competentes mestras da Universidade Federal. Estudamos Heidegger. Talvez melhor seria eu dizer: “Estou tentando entender Heidegger” …Meu atual grande amor! Rsrsrsrsrsrsssssssss

    Sou grata a todos que fizeram um pequeno intervalo no seu dia e que se dispuseram a dar respostas às minhas reflexões. Muito me ajudaram! Ao senhor Quadros meu agradecimento pela bibliografia e pela mensagem de força que me dá.

    Certo! Aprenderei mais lendo a REA! rsrsss. Também gostaria de dizer a minha “amiguinha” Anna Christina, que tenho tido muita sorte porque até então eu jamais fui discriminada pelos meus 58 anos. Por onde passei (e na atual faculdade), não tenho e nunca tive problemas. Sou – e tenho consciência disso – uma felizarda, posto que o Brasil é (ainda) considerado um país “de jovens”. Quero ressaltar que estes jovens me têm tratado com absoluta igualdade. Oxalá continue assim.

    Sabe, Maria da Paz, é exatamente isso que mais fere a minha alma: esta falta de “nomadismo” (MAFFESOLI) rsrsss…Este paradeiro, esta falta de movimento que me faz lembrar as leis da física: “na natureza tudo que pára apodrece e morre”! Este quadro “natureza morta” que “enfeita” as nossas vidas… E nós continuamos, todos, com as mesmas atitudes: à noite nos sentamos diante da TV e execramos políticos corruptos que contribuem para o empobrecimento do mundo; mais tarde, diante do nosso computador, apertamos uma tecla e “encaminhamos” aos nossos amigos aquele mail de uma senadora brasileira, que casada com um americano, para lá se mudou e, mesmo morando nos Estados Unidos, recebe doze mil reais dos nossos cofres públicos; ou aquela mensagem sobre os prefeitos de tais e tais cidades brasileiras que se apossaram da verba da merenda escolar. A TV se encarrega de nos mostrar imagens de criancinhas de olhos tristes e braços cruzados sobre sua carteira, com fome. E a mensagem nos diz: “Se você também está revoltado, encaminhe esta mensagem ao maior número de pessoas”… E assim, Maria da Paz, nós vamos nos enganando, trapaceando com nós mesmos, fingindo acreditar que estamos “colaborando”, “fazendo a nossa parte” para diminuir a ignorância, os males do mundo – tocando numa tecla e “encaminhando” mails.

    O que eu queria, senhores, me parece muito simples (considerando que vivemos numa “democracia”): só queria que os meus colegas e eu, formássemos um grupo e fôssemos, juntos, comunicar aos diretores destas faculdades que nós não aceitamos mais viver nesta miséria, nesta indigência intelectual; queria que nós, juntos, pudéssemos dizer a estas faculdades: Basta! Queremos professores cultos e responsáveis – e nós, todos, bem sabemos que há muitos deles por aí; muitos que abandonaram o diletantismo e buscaram outra profissão onde conseguiram ganhar o suficiente para viver uma vida decente… Quem de nós ousaria criticá-los? Temos que criticar, sim, a nós mesmos que, vergonhosamente, calamos, aceitamos, passivos como um “admirável gado novo” todo o ordinário que estas faculdades nos oferecem porque (por ser ordinário) custa mais barato! E este “barato” ganhou corpo! Afinal, como dizia Oscar Wilde: “A mediocridade quase sempre vence porque ela é mais ousada”!

    Ao colega moçambicano – em particular – eu pergunto: já leu os “Sete Sapatos Sujos” de Mia Couto? Rsrsrs… Obra Prima! Quem não leu, vale procurar, e ler.

    ***

    Sábado, último dia de Metodologia: como a maioria dos colegas não sabe como lidar com as regras da ABNT e organizar o anteprojeto do TCC, quatro/seis deles foram chamados a sentar em torno da mesa da professora; os demais (+/-) 30 alunos “batiam papo” esperando a professora dar sua última aula (já que ela nada fez nos três últimos sábados). O início da aula é às 08h30. Por volta das 10h00 ela (professora) levantou, bateu as mãos para chamar a nossa atenção e disse: “Gente! Sinto muito, mas eu havia previsto apresentar uns slides para vocês; porém, o rapaz da faculdade disse que ele havia previsto me trazer o projetor só na parte da tarde; sem datashow (?) nada posso fazer; assim sendo, vocês estão livres! Vão dar umas voltinhas pela avenida e às 13h30 nós retomamos”…

    Retornamos e (re)enrolamos até o final da tarde.
    Pergunto: cadê o plano “B”? Ela assim agiu porque acha que somos massa de manobra sem nenhum interesse? Ou porque acha que somos burros e não vamos conseguir entender o seu plano “B”? Ou seria porque ela não tem um plano “B”? Ou porque nos acha tão idiotas, tão gado, e sabe que ninguém vai reagir! E sabe também que se um só reagir a maioria vai dizer “deixa pra lá”?
    Obs: esta é uma professora-doutora – pela Universidade Estadual!
    Fraterno abraço
    Tânia

  5. Tania,

    O que aconteceu com você estou vivenciando no momento em uma instituição federal num curso de Pós-Graduação em PROEJA. Os professores compreendem o que diz respeito a educação regular e EJA mas estão perdido na modalidade de ensino que a pós se destina.
    Seus relatos refletem minha sala de aula, parece até que você assistiu algumas disciplinas ministradas em meu curso.
    Os problemas na educação parecem que são os mesmos EM TODOS OS LUGARES.
    Zezé Vasconcelos

  6. Tania,
    A tua historia é identica a de muitos estudantes no mundo, pois eu passei a mesma experiencia numa Faculdade aqui em Moçambique, onde a docente dizia claramente o seguinte: “Eu sou licenciada e se voces não estudarem vão reprovar”, em respostas a perguntas que os estudantes lhe faziam. Em todas as aulas apenas trazia os xerox para vender aos estudantes. Mas, a minha opinião é que não desista, vá avante nos teus estudos e procure o tutor para te ajudar nas pesquisas.
    Sou estudante Universitário, cursando Gestao Ambiental, na Beira -Moçambique, Africa.

    Nao desanimes, insista e tudo dará certo.
    Carlos Jone

  7. Na nossa sociedade do capital o aparelho ideológico escolar está cada vez mais no declínio,para não usar a espressão no buraco.Precisamos rever nossos conceitos sobre educação,escola ,aprendizagem e essencialmente o poder que estão por trás destas.As instituições tem uma finalidade na sociedade.Contudo a escola hoje em dia mais parece um passo tempo do que uma instituição de aprendizagem verdadeiramente honesta .Alunos -clientes pagam mensalidades,lancha na faculdade,compram xeros na instituições e outras notinhas são deixadas nas universidades.Pensemos nas relações de produção e força na infra- estrutura do nosso colonial pais ,em que a educação privada e pública é mais um sistema subordinado ,melhor dizendo atender interesses do capital.Eu aluno fingo que entendo,que compreendo o repasse do aprender.Eu professor normativo,cansado da infra-estrutura,salário e da rotina mecanizada do ensino ,sem formação continuada.A escola é o aparelho ideológico,o aluno eo professor é o aparelho repressivo.Na sombra Foucault o biopoder estar presente na sociedade disciplinar desse homem do meio mecanizado ao poder do maior .A escola de hoje é dominadora,opaca e mecanizada, e isso cria a solidão do aluno carente no papel de reflexão e questionamento.Mas,a Tãnia Viana segue a linha do diferente.

  8. Tânia nós temos muita coisa em comum:
    1- Sou graduado em Filosofia;
    2- Sou prolixo (perfil de apaixonados por filosofia!?);
    3- Sou da sua geração;
    4- Acabo de ‘jubilar’ em um Mestrado depois de um altíssimo investimento de tempo e dinheiro.
    Motivos: Um orientador Competente, mas absolutamente ausente. Escola e Estado … prefiro não comentar e somando-se a tudo isto as Minhas dificuldades e limitações sem orientação.
    5- Em meu TCC na graduação em Filosofia (também fui muito mal orientado). A pesquisa teve o título: Evasão Escolar ou Expulsão Escolar? Foi uma pesquisa qualitativa com minha história de “Expulsões Escolares” travestida de Evasões Escolares (por hipótese) . Minha história foi comparada a três outras pessoas com ‘atrasos’ no tempo normal de conclusão dos estudos regulares. Os termos Evasão Escolar e Exclusão Escolar foram distintos através do princípio de autonomia.
    Enfim, hoje, parece que nada mudou. O cenário é o mesmo e os atores continuam encenando seus papéis no tempo e no espaço – um grande vazio. (em todos os sentidos)

  9. Cara senhora

    Bem vinda à crua realidade da educação do país. Estamos em um período de alargamento da oferta de cursos ‘superiores’ e pós-graduações na mesma medida inversamente proporcional da qualidade do ensino. Acho que a senhora aprenderá lendo a REA e participando do blog, que propriamente cursando alguma porcaria dessas que cursou!

    sem mais

    Julierme Morais

  10. Cara, Tânia!

    O fato é que não podemos desistir.Tenho 40 anos e curso Pedagogia, sendo bastante criticada ,pois “dizem “que a educação está falida.Fazer Pedagogia para quê?
    Oras!!!! É isto que eu quero e acredito.E estou amandooooooo.
    Até mais!

  11. Tania, eu me identifiquei bastante com você e seus questionamentos. Tenho 60 anos. Somos da mesma geração e, sem desmerecer os estudiosos de hoje, nossa geração estudava para saber e não apenas para fazer prova. Tenho licenciatura em História Natural (hoje apenas ciências biológicas) e, quase 30 anos depois de formada, pois me formei aos 22 anos, consegui juntar um dinheirinho e fazer uma pós em Zoologia. Fui discriminada pela idade, inclusive um colega me disse “você deveria estar em casa, numa cadeira de balanço, cuidando dos netinhos”. Fui a laureada da turma. Em seguida tentei o mestrado, na mesma faculdade, em Ensino de Ciências e, apesar de ter sido aprovada com a melhor nota, fui eliminada na entrevista e soube que o motivo foi “nós damos preferência aos mais jovens”. Estou atualmente fazendo outra pós, agora em “Gestão de Educação e Políticas de Juventude” e estou muito satisfeita com tudo que pude aprender. Apesar disso, tenho sofrido as mesmas angústias que você porque saio de casa para ler xerox de capítulos de livros e assistir textos imensos colocados em Data Show, como se aquele recurso tivesse essa finalidade. E, no dia em que faltou energia, a professora ficou perdida e passou a aula todinha fazendo “dinâmicas” onde a maioria dos colegas se sente feliz e realizada, sem perceber que não foi para isso que nos matriculamos num curso de especialização. Existem livros de dinâmicas de montão no mundo e esses hábitos de americanos para “promover um bom relacionamento” na turma não funciona. Pelo contrário, aborrece. Mas aproveito suas solicitações e peço também ao professor Antonio Ozaí que nos ajude com sugestões de livros, ou filmes, ou textos que reduzam nossa angústia, sem permitir que deixemos de nos indignar com aquilo que que as faculdades estão fazendo.
    Parabéns pelo seu relato e desabafo.
    Ao professor Antonio Ozaí meu respeito e meu muito obrigado pelo tanto que, indiretamente, já me ensinou.
    Um forte abraço.
    Anna Christina.

  12. Tania e colegas, bom dia!!!
    O ensino superior e o ensino em geral passa por essa crise na qual as determinações são as da lógica de mercado, ofertaXprocura, menores salários, melhores preços….
    Isso é, para dizer o mínimo, lamentável. Também sou professor de Pós-Graduação e já me deparei com comentários de alunos sobre esse tipo de problema.
    Quanto a bibliografia, me parece que o questionamento de Tania é muito mais profundo e inquietante do que um TCC pudesse responder. No entanto me arriscaria a dizer que talvez nos estudos sociológicos ela encontre alguns elementos para iniciar essa “busca”. Abaixo cito dois trabalhos que julgo interessantes para indicar algumas “pistas” para que a Tania começe a procurar suas respostas:

    TÍTULO: A ECONOMIA DAS TROCAS SIMBOLICAS
    ISBN: 9788527301404
    COLEÇÃO: ESTUDOS
    ANO EDIÇÃO: 2007
    AUTOR: Pierre Bourdieu
    TRADUTOR: Sergio Miceli | Wilson Campos Vieira | Silvia de Almeida Prado | Sonia Miceli

    TÍTULO: ESCRITOS DE EDUCAÇAO
    ISBN: 8532620531
    IDIOMA: Português.
    AUTOR: Pierre Bourdieu

    Tania, não desanime, use esses fatos como mais uma “provocação”!!!
    Abraços a todos

  13. Cara senhora,

    Suponho que seu “desabafo” acadêmico biográfico tenha sido publicado para fazer parte de um debate público. Ainda que pouco ou nada ajude ou importe, tomo posição solidária à senhora. Pelo que entendi (se entendi direito), a senhora passou por amargas experiências em faculdades. Não ficou claro a mim (certamente por meus limites de percepção) se as ditas (e não identificadas) faculdades são privadas ou se a senhora passou por instituições privadas e públicas se deparando com o mesmo quadro em ambas.
    A título de esclarecimento: quais universidades federais ou estaduais a senhora frequentou? Nestas a senhora também sofreu com a incompetência, o descaso e a charlatanice?

    Meus respeitos,

    Mittaraquis

  14. Prezada Tânia,

    Tenho apenas uma dica: JAMAIS pise em uma faculdade dessas.
    No mercado das faculdades particulares, a educação do aluno é um produto e, me parece, você comprou um produto de péssima qualidade.

    Eu disse produto. Não mencionei outros aspectos importantíssimos da educação, da ética e do comprometimento do professor pois isso raramente é levado em conta no ensino privado.

    Cordialmente,
    Sérgio.

  15. relato impressionante! revela uma realidade brasileira dolorosa. Minha mensagem à cara Tania Viana é uma só: falta-nos uma educação de berço que crie em nós, desde a mais tenra infancia, o senso da responsabilidade. Falta a consciencia individual que acuse e cobre de cada um o dever cumprido com seriedade, conhecimento e responsabilidade.
    Os relatos de Tania deixam evidentes as conseqüências da aceitação passiva de um dos maiores inimigos das sociedades modernas, o relativismo…..
    Cordiais saudações
    Regina

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