Carta da Profª. Angela Siqueira (UFF)

por Angela Siqueira*

Caros Colegas,

Na reunião do colegiado da pós, do mês de junho, foi distribuído um quadro com a “produção” de todos os professores e onde a minha “produção” do triênio, baseada nos anos de 2007 e 2008 aparecem zeradas, pois de fato o que enviei e foi aceito para publicação, ainda não foi de fato publicado. Por certo algumas coisas já foram publicadas em 2009 e outras ainda deverão vir, mas não é essa a questão e nem é com isso que me preocupo ou quero me preocupar.

Fiz uma retrospectiva de todas as atividades que venho desenvolvendo e decidi que estou satisfeita com elas, considero que tem qualidade e não quero me submeter a ser avaliada/carimbada fundamentalmente por um item, qual seja publicação, e em determinados veículos (qualis), num determinado tempo e numa determinada quantidade. Aliás acho até que venho trabalhando cada vez mais ( não só eu, mas a mioria dos professores universitários) e poderia trabalhar menos, mesmo mantendo a dedicação exclusva, que poderia se limitar às 8 horas diárias, sem muita extensão para as noites, madrugadas e finais de semanas. Mas, para ficar na pós, eu teria que trabalhar mais ainda e de forma mais direcionada, o que não me disponho, já que o que venho fazendo e não se encaixa no que “avaliação da capes” considera para o programa pontuar bem. Assim, no dia 30 de junho, enviei o e.mail abaixo para a coordenação da pós, solicitando minha mudança para colaborador e apontando minha saída futura do programa.

À Coordenação do Programa de Pós-graduação em Educação da UFF

Andei pensando muito e creio o que venho fazendo há alguns anos, em especial em termos de produção do conhecimento e sua divulgação, não segue o modelo CAPES de avaliação, que privilegia publicações em determinados veículos e não debates públicos, forma que mais utilizo.

Nesse sentido, participei de vários debates em mesas com outros colegas de academia de distintas universidades do Brasil e do exterior (UNAM, UBA, Stanford, Teachers College/Columbia, Harvard, Penn, Toronto, etc); com representantes de organismos internacionais, como o Banco Mundial, UNESCO, OCDE; com reitores; representantes do ANDES, ANDIFES, PROIFES, UNE, UBES, MEC/ SESu/REUNI, empresários da educação, economistas, sociólogos, deputados federais, etc. Também participei de entrevistas para jornais, programas rádio e de TVs.

Certamente que para cada um desses debates e entrevistas para os quais fui convidada tive que preparar textos, slides, que sempre enviei e envio aos que pedem, deixo cópias e troco com outros colegas e disponibilizo para alunos.

Introduzi no Programa uma discussão mais consistente sobre organismos internacionais e educação, o que tem gerado e/ou contribuído para várias monografias de graduação, especialização, mestrado e doutorado na UFF e fora da UFF, bem como no exterior.

Venho dando aulas na graduação e na pós todos os semestres, além de ter orientandos de graduação, mestrado e doutorado.

Também tenho dado pareceres para revistas e journals no Brasil e no exterior, bem como em comitês de eventos acadêmicos, como a ANPEd e SBPC.

Fui membro de bancas de avaliação de TCs, dissertações e teses, na UFF e na UERJ.

Participei de bancas de concursos públicos para seleção de professores (UFF e UFRJ), bem como de credenciamento, esta na UFRJ.

Tenho algumas publicações no Brasil e em outras países (EUA, Alemanha, Inglaterra), e minha tese e outros trabalhos são citados em teses e publicações de outros países, como Itália e Canadá.

Além dessa parte mais acadêmica, por várias vêzes contribuí para a vida universitária, trabalhando em funções administrativas (mas sem jamais deixar de dar aulas ou realizar pesquisas), e atualmente estou como titular nos colegiados de curso e de unidade, além de no conselho universitário, onde fui indicada para duas comissões ainda não instaladas: uma sobre política de segurança da UFF e outra sobre as fundações de apoio na UFF. Também estou na coordenação do NEDDATE e por algum tempo estive como representante do Campo Trabalho e Educação na Compós, como representante na seleção ao mestrado e membro do Campo na seleção ao doutorado.

Enfim, creio que venho cumprindo com o que me cabe como professora com DE numa universidade pública, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa, extensão, além representação em órgãos deliberativos internos.

Não tenho a preocupação de buscar um “veículo qualis” para enviar um texto para publicação e nem de ter que obedecer uma definição heterônoma, mas já incorporado e aceita por todos os programas de pós-graduação, sobre quando, como e onde publicar. Mais ainda, não considero que essa seja a única ou mais importante forma de divulgar e colocar em debate o conhecimento produzido, seja pelos pares, pela sociedade ou pelos “ímpares”. Nesse sentido, vejo que não me encaixo na atual perspectiva de avaliação do trabalho docente, que se baseia na lógica do “publish or perish”, e solicito minha mudança para professor colaborador, informando que não vou mais oferecer vagas e que pretendo sair da pós-graduação assim que concluir as orientações que assumi. No entanto, continuarei desenvolvendo meu  trabalho na UFF, exceto dar aulas e orientar na pós, mas me permitindo ser mais feliz, mantendo a coerência de meu trabalho, a articulação teórico-prática, o tempo acadêmico para reflexão e produção e o engajamento político, sem ter que me encaixar/submeter a uma forma de medição de produtividade  como forma e fôrma única para avaliar o trabalho docente e nem ao tempo definido por metas de produtividade a serem atingidas, que para esta avaliação não só foram duplicadas, como também ainda tem que ser submetidas a novidade da trava.


* Docente na UFF. Email: siqueira.uff@gmail.com

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12 comentários sobre “Carta da Profª. Angela Siqueira (UFF)

  1. Ah se todos os professores tivessem 1% da sua coragem. Mas essa atitude só pode vir de professores competentes que não temem acusações, pois eles sabem que elas não tem fundamentos verdadeiros. Parabéns professora Angela. Que outros professores sigam seu exemplo.

  2. É isso ai, vamos travar uma discussão pública com a CAPES sobre a temática, ou seja, sugiro que se crie um fórum nacional onde possamos colocar nossas possições.

  3. Estimada e guerreira colega de profissão e missão! É com profunda alegria que daqui dos confins da Amazônia cravo junto contigo a bandeira da solidariedade. Estou de pleno acordo contigo a CAPES vem há muito tempo exercendo uma “ditadura da publicação”. Precisamos criar, difundir e fazer uso das modernas formas e modalidades de difusão do conhecimento!
    Coragem Guerreira!!
    Adão Costa Silva(MSc)

  4. Profa Angela Siqueira

    é um bom principio questionar outras metodologias que deixam de lado a carreira acdemica.
    Mas o importante não é discutir publicação.
    Publicaçãom é um metodo de avaliação que devemos respeitar, mas não pode ser a únnica mas devia ser dado maior pontuação. A conselhava a professor a pautar pela publicação.

  5. Uma pergunta: pelo que noto, dez entre dez professores são contra os critérios de avaliação da CAPES (pelo menos nas Humanidades). O que falta para que se envie uma carta à CAPES e se exija uma discussão ampla, democrática, com a intenção de propor métodos de avaliação com os quais todos concordem?

  6. Parabéns professora!
    Estamos precisando de posicoes corajosas como as suas. Parabéns! Como diz o prof. Joao Carlos Bertonha,” a ciencia nao se mede por X publicacoes em Y tempo”.
    Pedro de Alencar

  7. Parabéns!
    É quase impossível ver pessoas corajosas como você, dispostas a enfrentar a burocrática gestão do “produza mais, produza mais” instalada nos órgãos de fomento.
    Que seu exemplo seja seguido!

  8. Prezada Profª Ângela:

    Solidarizo-me e parabenizo pela atitude corajosa e coerente em busca de um ambiente de pesquisa na Academia que supere o modelo proditivista e subalterno levado ao extremo pelo tucanato e referendado pelo atual governo.
    Congratulações,
    José Bezerra de Araujo.
    Professor da UFCG

  9. Para um novo tempo uma nova universidade.

    A universidade brasileira se apequenou, tornou-se uma torre de marfim, vidro ou diamante (isso depende de quem diz!). Não cumpre mais seu papel de universo e universalizar.
    Toda atividade que está dirigida ao grande público não é científica. Fala-se para o próprio umbigo, conversa entre amigos, nem sempre tão amigos. O que era para ser universal virou um circuito fechado – acadêmico, graduado, pós-graduado, mestre, doutor, pós-doutor… Qual a experiência destes profissionais fora da academia? Qual a relação que estabelecem com o mundo exterior? Qual a confrontação entre os saberes da prática acadêmica e o mundo não acadêmico?
    O País tem pensadores que tentam estabelecer uma correlação entre os saberes populares e a academia, mas são exceção. Extensão universitária é uma piada de mau gosto, salvo algumas honrosas iniciativas, não da universidade, mas de profissionais que trocam a carreira pelo matadouro.
    Aproveitando o momento político de indignação, os pró-reitores de extensão deveriam comprar o livro do Paulo Freire “Comunicação ou Extensão?”, (escrito a tanto tempo!), e então, sairem em passeata pelo País, pedindo que se cumpra a Constituição Federal (Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão).
    Quando este preceito constitucional for obedecido, a publicação ( qualis ou não) será posta no seu devido lugar. Não será mais uma espada sobre a cabeça dos educadores, mas apenas um instrumento a mais na avaliação do desempenho profissional.

  10. Estou de pleno acordo com a posição da professora Ângela, penso que o debate público se empobrece à medida que existe uma designação por um terminado grupo de pessoas afirmando que é A ou B. Geralmente essas qualificações são de periódicos de pouca circulação pública, acontecendo sempre entre “os pares”. Nese sentido a discussão se reduz a poucos.
    Parabéns!!!

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