Pérolas de redação do vestibular

por Renilson Menegassi & Marilurdes Zanini*

Dar pérolas a porcos significa dizer coisas finas, preciosas a quem não é capaz de as entender. No caso das “pérolas de redações” divulgadas pela imprensa, normalmente em épocas posteriores a concursos como o vestibular, o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) e o Provão, freqüentemente, são listas infindáveis de palavras grafadas fora do padrão culto da língua ou frases e/ou construções inadequadas, com os sentidos mais estranhos possíveis. Na verdade, não consideramos isso pérolas, uma vez que nem os porcos são tão burros para comerem algo duro como uma pérola. Esses “erros” adorados pela imprensa são comuns a todos que escrevem, ou pelo menos se propõem a escrever – o que é digno de elogio, diga-se de passagem.

O que, na realidade, essas “pérolas enganosas” mostram? Certamente não é somente a incapacidade de escrita de nossos alunos. Também evidenciam a inaptidão do trato com a produção de texto do aluno e do professor. Esclarecendo melhor: num país como o nosso, a leitura e a escrita ainda é um privilégio de poucos e os demais têm uma inaptidão construída ao longo de sua vida escolar.

Refletindo de maneira inversa, que tal apresentarmos as verdadeiras jóias de redação do vestibular, ou seja, aquelas que são modelos para uma construção efetiva de redação em alunos que querem galgar uma vaga nas instituições de ensino superior?! O interesse pelo inadequado é típico de culturas atrasadas e tacanhas, que preferem mostrar o que está errado a valorizar o que está bom e adequado. As instituições de ensino internacionalmente conhecidas só levam a público o que dá certo, o que é valorizado individual e coletivamente. No Brasil um exemplo é a UNICAMP, embora, normalmente, valorizamos divulgar o ruim, a mazela educacional, “as pérolas de redação”.

Mas afinal, o que entendemos por pérolas de redação do vestibular? São as redações que alcançam valorações entre 50 e 60 pontos (numa escala de 0 a 60 pontos, como na UEM), que demonstram uma capacidade de leitura do aluno adequada ao que se espera de um universitário e, a longo prazo, de um profissional capaz. São redações que apresentam uma tipologia textual pertinente ao que foi ensinado na escola e demonstram explicitamente o seu ponto de vista através de argumentos que explorem o pensamento sobre o tema solicitado.

No vestibular de verão/1999, o tema da redação propunha que se elegesse o brasileiro do século. Um exemplo de pérola aqui defendida foi está redação:

Povo: o grande Brasileiro do século

Irmã Dulce, Ayrton Senna, Chico Buarque. Estes são alguns dos grande nomes indicados em recente pesquisa da revista Isto É, para ocupar o título de Brasileiro do Século. Entretanto, será justo dar esse mérito apenas a uma pessoa? Não será todo o povo brasileiro, o grande merecedor da honraria?

Em primeiro lugar devemos ver o povo como um grande religioso, não pela grande maioria praticar uma religião, mas por fazer milagres como comer, se vestir e parar o aluguel com um salário mínimo. Outro fator com “forças intrigantes” pendentes, é como o povo sobrevive mesmo dependendo do transporte coletivo e INSS. Perguntem ao Chico Buarque se ele já precisou do SUS, que está falido, sem remédios e com os hospitais lotados. Ponto para o povo do Brasil.

Um segundo aspecto que faz da plebe brasileira a grande merecedora do prêmio é ser uma esportista nata. Não se trata de sermos os primeiros do mundo no futebol ou do Ayrton Senna ser do Brasil. Os esportes referidos precisam de muito mais audácia e paciência. É o caso das corridas da inflação, levantamento e carregamento de políticos desonestos e dribles no desemprego.

No último aspecto sobre o qual podemos ver nosso candidato ao título, é o artístico. O povo é um ator de primeira linha, melhor que Fernanda Montenegro pois a barriga dela não ronca de fome durante os espetáculos. O pobre é um artista da vida pois quando, por exemplo, chega o carnaval ele finge que existe justiça e igualdade social e brinca com os ricos, brindando a alegria e dinheiro deles.

Assim, o brasileiro do século não é um brasileiro e sim o povo brasileiro que é o esportista que corre da crise, o religioso que faz milagres com o salário mínimo e o artista que ri de sua desgraça.

Observamos que o texto é muito bem formado, apresentando o brasileiro eleito, o Povo, argumentando criativamente e com senso crítico bem definido sobre as relações dos grandes nomes do Brasil com o povo simples; expondo com ironia o que o aluno pensa sobre o tema. Além disso, a redação organiza-se numa estrutura de dissertação tal qual foi ensinada na escola. Isto é uma pérola de redação do vestibular.

Que tal alterarmos a visão turva que foi atribuída a uma jóia tão bela?! Essa alteração pode se iniciar com as propostas de modelos que oferecemos aos nossos leitores. Modelos bons, teoricamente, podem fornecer boas direções para a construção de bons textos. Para que dar pérolas aos porcos? Vamos dá-las aos homens, aos brasileiros…


* Professores doutores do curso de Letras e do Mestrado em Lingüística Aplicada da UEM; pesquisadores em Produção de Textos em Língua Materna.

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20 comentários sobre “Pérolas de redação do vestibular

  1. O texto está excelente e já que que o Blog é de ótima conceituação não causa estranheza a quem se acostumou com os refinados textos. Apenas, tb não entendi o comentário do Axel de Ferran.

  2. De fato, o texto é excelente! Permitam-me fazer uma cópia a fim de apresentá-lo em sala de aula. Sou professor de língua portuguesa e língua francesa do Rio de janeiro e esse tipo de assunto tem tudo a ver comigo. Quanto à crítica dos autores relativamente àqueles que expõem listas de gafes gramaticais grosseiras, acho que é preciso entender que tem hora para tudo. Ora ganha-se, ora perde-se. Nesse momento, parece adequado destacar um exemplo positivo. entretanto, a verdade é que aquele conjunto de pequenos textos cheios de absurdos sintático-semântico-gráfico-morfologico-organizacionais é divertidíssimo, além de servir de alerta para nos cidadãos de um modo geral e professores em particular.

  3. Me desculpem os que possuem diploma de Letras ou similares…
    Concordo plenamente com alguns comentários, mas se vamos discutir (saudavelmente) a nossa política… sairemos do tema que é oque a imprensa divulga nessa data de concursos (…)
    Penso que todos bem ou mal tiveram ou têm a oportunidade para estudar(em)… Sinto uma enorme tristeza em ver que mesmo com as bibliotecas do governo, ainda existam pessoas que gostam de criticar seus irmãos… Um dia ainda aprenderemos a separar os que não podem dos que podem ter acesso aos estudos e que os nossos professores recebam pelo que fazem justamente!

    Abraços

  4. Passada a época dos vestibulares começaremos a receber estas “pérolas” de redação. Pior que elas são as “pérolas” dos comentadores.

    Quando passei pelos cursos então chamados de primário, ginásio e colegial líamos um jornal, ouvíamos uma ou dias estações de rádio e a televisão era coisa algo eu engatinhava em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Quem vivia em cidades pequenas, desde pequenos líamos jornais praticamente sem gravuras, obrigando-nos a formar imagens a partir da leitura. Ouvíamos os comentários das pessoas mais velhas sobre as mesmas notícias e cada fato noticiário transformava-se numa imagem.

    O conhecimento e a memória são imagéticos. Isto nos auxiliava nas redações escolares. Podíamos elaborar nexos entre um tema e outro. As informações eram em quantidade suficiente para que pudéssemos refletir acerca do mundo.

    O volume de informações teve um crescimento geométrico e a nossa capacidade de acompanhar as informações estacionou. Televisão com notícias globalizadas, internet com informações incontáveis, educação escolar perdidas por estas mudanças, permite a produção destas “pérolas”. Notamos que elas são informações mal digeridas.

    E os “comentaristas”. São professores? Devem ser pessoas com acesso às provas de vestibular, autoras de comentários de pseudo conhecimento. Estas redações, ao invés de se transformarem em textos de chacotas deveriam se transformar em material para se repensar o ensino.

    Deixa-nos felizes ler um texto como o que motivou este comentário, assim como o modelo de redação que trouxe como exemplo. E é um puxão de orelhas a todos nós, pais, avós, professores, cidadãos. Sinto-me com as orelhas marcadas pelo texto.

    Por fim, criou-se a idéia de que os professores que não são de português não têm o direito de corrigir ortografia. Se não aprimorarmos a escrita corretamente, como iremos transmitir o nosso pensamento?

  5. Realmente as pérolas dos vestibulares nos evidencia o modelo de educação que nós temos e o pior é que não são apenas os alunos que nao sabem ler e escrever, boa parte dos professores tmabém não sabem. Me formei num curso de licenciatura e 95% dos meus colegas sairam da faculdade sem saber fazer isso e ainda riam de mim por sempre buscar conhecer melhor as palavras. É realmente eles tiravam as mesmas notas que eu as vezes até maiores. Acho que é uma falta muito grande das universidades e das escolas nao exigirem mais de seu público, uma escrita, uma contextualização e uma leitura melhor. Geralmente só o professor de português é que cobra do aluno a ortografia correta, corrige e verifica a contextualização de um texto. Dentro da educação se fala muito em multidisciplinaridade, mas em relação a cobrar e exigir do aluno um portugês melhor essa multidisciplinaridade não existe, Cadê o professor de geografia, de hsitória cobrando, exigindo e incentivando seus alunos a buscarem o dicionário, a lerem mais e se preocuparem com a maneira correta de escrever.

    Obrigado por me enviar sempre esses textos, eles me faz sempre refletir sobre a nossa realidade e me posicionar e ver o que posso fazer para ajudar a construir um Brasil melhor.

    Olha um feliz naltal e um prospero 2010 à equipe da Revista Espaço Acadêmico e a todos que visitar a página.

  6. No meu entender o título deste artigo serve de um chamariz a quem de direito sobre a situação educacional do país.
    Eu sou Angola infelizmente nunca tive um contacto directo com a realidade do povo brasileiro, mas lendo este artigo consigo tirar algumas ilações que me levam a uma comparação do que se passa támbem no meu país. O sistema funciona da mesma forma, boa informação não ganha lucros (não vende) então a imprensa usa estes termos para dar o seu contributo para a formação do homem novo e no que se deve fazer em geral. Sim, para elevarmos a cultura de leitura e ortográfica as nossa escolas e não só, realmente muita coisa há ainda por fazer. Como se diz de pequeno que se torce o pepino. Crescendo nesta senda (dinamismo de leitura e ortográfica) aí sim dentro de um pares de décadas de anos termos uma população com um entendimento mais amplo, não me refiro somente no caso do Brasil mas sim também do meu país Angola
    Abráços

  7. Este texto representa a possibilidade que temos de mudar a realidade ao mudarmos o foco de nossas atenções e de nosso trabalho. Há algum tempo vinha pensando em escrever sobre essa necessidade de revisarmos o olhar sobre as produções escritas de nossos alunos. Demorei para fazê-lo e aqui estou: agradavelmente surpreendida com o texto dos Profs. Renilson e Marilurdes. Pretendo compartilhar com meus amigos e colegas educadores essa. Obrigada pela oportunmidade de reflexão.

  8. Parabéns pelo texto. Confesso que quando li o título da matéria na minha conta de email senti um certo medo de que seria mais uma das referidas listas, porém como venho acompanhando este blog a algum tempo logo imaginei que seria algo diferente.

  9. As classes exploradas, oprimidas e dominadas no Brasil não estão de parabéns! Merecem sim reconhecimento por conseguir enfrentar a subcondição de vida que vai tocando. Poderia dizer que se trata de sacrifício, entretanto, não quero divinizar sua miséria. As pérolas aos porcos seriam um desperdício de algo valorozo ao presentear indígnos/as. Indígnos são da mesma tipologia de palavras que compõem indigentes e companhia. Quem não tem classe… E essa expressão tem sido usada por classes dominantes e intelectuais dessas mesmas classes como justificativa para a inércia social. Por quê se preocupar com ignorantes? Com desclassificados? A imprensa mais poderosa no Brasil se preocupa com tais categorias sociais, menos por solidariedade, se não mais por significar captação de mais-valor, por um lado, e constituição classista por outro. Ao, no grande picadeiro coliseúntico, jogar aos leões a vida de crianças e jovens expressas em suas produções intelectuais não reguladas pela culta gramatiquice da elite, jornais, revistas e adjacências ganham seus louros e ainda reforção os valores de que são o centro e a periferia não tem competência. Não será pelo voto que essa miserável intelligencia será derrubada de suas torres. Ela mesma, quando precisou derrubar a nobreza e o clero de suas altíssimas torres, percebeu logo que o voto não mudava em nada e partiu para a mudança por si só. A revolução está em nossas mãos!

  10. Prezados autores,
    que bela (des)inversão! A nossa juventude produz pérolas sim (no sentido da dos porcos). A mídia e muitos cientistas sociais se esmeram em selecionar “de forma neutra, científica e imparcial” (desculpe o pleonasmo), as “pérolas” negativas, no outro sentido, fazendo-nos sempre menores, inferiores, subservientes. Como se quisessem que a profecia se autocumprisse. Querem, me parece. Porque assim os brasileiros “adorarão” mais facilmente os senhores de sempre.
    Parabéns pelo simples e genial artigo.

  11. Não entendi nada do que foi comentado acima, pelo Axel. Talvez ele devesse se basear nas pérolas para se comunicar com mais clareza.

  12. Prezados Professores,

    Eu concordo plenamente com as suas avaliações. Infelizmente nós, brasileiros, gostamos de privilegiar divulgar as gafes comoforma de gozação e esquecemos de elogiar o que é bem feito. Como se diz comumente, boas notícias não vende jornais.
    É preciso que mudemos essa forma de nos comportar. Outra questão relevante: o aluno de baixo rendimento, pode ser que tenha uma parcela de culpa, mas certamente tem outros fatores que são igualmente importantes – qualidade das escolas, dos professores, do sistema, etc.
    Um abraço
    Paulo

  13. Concordo plenamente com os professores Renilson Menegassi & Marilurdes Zanini, todavia acredito que o principal problema da impressa, ou pelo menos de uma determinada parte da impressa é a incapacidade de estabelecer analise reflexiva sobre a realidade imposta à sociedade brasileira, o do próprio papel da imprensa nas sociedades burguesas contemporâneas. As palavras fora do padrão culto tende a mascara analises propositivas sobre as nossas condições de vida, e sobre a influência das “perolas da impressa” na formação da juventude brasileira.
    Nivaldo Santana

  14. excelente texto. Um dos grandes problemas atuais da escola é a falta de incentivo ao bom desempenho. Inclusive, quem é que já não ouviu dos próprios pais, ao apresentar um boletim com uma nota baixa: “E por que não estudou?!” Ou então, com uma nota alta: “Não fez mais do que a obrigação…”. Essa situação é lamentável e precisa ser mudada, sem, no entanto, descambarmos totalmente a uma meritocracia. Parabéns e obrigado pelo texto.

  15. O povo brasileiro está de parabéns. O frances, de onde eu vim, não teve tanta paciencia e chutou o pau da barraca: milhares foram pra guilhorina. Hoje é meio dificil, mas seria preciso votar melhor, com mais criterio.
    De resto o Brasil, vai sair desta mixordia e libertar este pais da pobreza, por desvio dos politicos e dos poderosos corruptos..
    Eu tenho um livro editado e impresso pelo DNPM – MME que conta a minha visão das coisas.
    AXEL

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