O ateísmo como militância social

por Mário Maestri*

Dentro do respeito às crenças individuais dos homens e das mulheres de bem, a militância ateísta é dever social inarredável, para todos os que se mobilizam pela redenção da humanidade da alienação social, material e espiritual que a submerge crescentemente neste início de milênio, ameaçando a sua própria existência. Por mais subjetiva, introspectiva e sublimada que se apresente, a crença religiosa, jamais nasce, se realiza e se esgota no indivíduo. Ela é fenômeno parido no mundo social, que influencia essencialmente a ação individual e coletiva.

Em forma mais ou menos radical, mais ou menos plena, mais ou menos consciente, a crença religiosa dissocia-se da objetividade material e social. Ela desqualifica o doloroso esforço histórico que permitiu ao ser humano superar sua origem animal e, percebendo a si e à natureza, começar a conhecer as leis imanentes ao mundo, na difícil, necessária e inconclusa luta pela harmonização da existência social.

A crença religiosa nega as crescentes conquistas da racionalidade, da objetividade, da materialidade, da historicidade, encobrindo-as com as espessas sombras da irracionalidade, da subjetividade, do espiritualismo. Desequilibra a difícil luta do ser humano para erguer-se sobre as pernas e moldar o mundo com as mãos, forçando-o a ajoelhar-se novamente, apequenado, temeroso, embasbacado diante do “desconhecido”, sob o peso de alienação socialmente alimentada.

A crença religiosa droga o ser social com suas ilusões infantis de redenção conquistada através da obediência incondicional a estranho super-pai que, em muitas das mais importantes tradições espiritualistas, apesar de onisciente, onipotente e onipresente, e, assim, capaz de tudo dar aos filhos, lançou-os – no singular e no plural – em desnecessária desassistência, miséria e tristeza.

É porque é!

A essência anti-científica da religião, que não argumenta, pois se nutre da crença incondicional no arbitrário, materializa-se na oposição visceral, mais ou menos realizada, ao maior tesouro humano, a capacidade de diálogo e de compreensão tendencial do universo. Que o digam Galileu e Giordano Bruno! Daí sua histórica intolerância, desconfiança e ojeriza para com o pensamento científico. E, verdadeiro tiro no pé, seu constante e paradoxal esforço para afirmar que a ciência seja uma crença a mais.

O pensamento religioso nega e aborta o ativismo e o otimismo racionalistas e materialistas, nascidos da possibilidade de compreensão, domínio e transformação do mundo social e material. Impõe visão pessimista, quietista, introspectiva e infantil do universo, essencialmente petrificado e eternizado pela materialização de transcendência, à qual o homem deve apenas submeter-se e render-se, para merecer a liberação.

Para tais visões, o ativismo e otimismo social são incongruências, ao não haver imperfeição social superável, já que esta última nasce da própria natureza humana, habitada pelo mal e pelo pecado, devido ao desrespeito a interdições primordiais do pai eterno – olha aí ele de novo –, origem do pecado. Pecado que exige incessante expiação e penitência, lançando o ser religioso em triste e mórbido mundo de culpa, de submissão, de punição.

Ativismo e otimismo sociais impensáveis para uma forma de compreender a sociedade em que não há história. Ou o que compreendemos como história se mostra ininteligível, pois regida essencialmente por determinações transcendentais paridas e concluídas à margem das práticas humanas. Realidade à qual, segundo tal visão, podemos ascender, muito limitadamente, apenas através da revelação.

Quando deus mata o homem

Na sua petrificação a-social e a-histórica, um mundo chato, triste, deprimente, infantil, mórbido. Um universo que valoriza a paciência, a submissão, o imobilismo, o quietismo, a humildade, a transcendência, a espiritualidade, etc., valores e comportamentos historicamente explorados pelos opressores, no esforço de manter o mundo imóvel, através de alienação e submissão dos oprimidos, nesta vida, é claro, pois na outra, se sentarão à direita de deus-pai.

O ateísmo militante é necessário ao retrocesso da alienação, enormemente crescente em tempos de vitória da contra-revolução neoliberal. Ele impõe-se na luta por um mundo mais rico, mais pleno, mais livre, mais fraterno, em que o homem seja o amigo, não o lobo do homem. É imprescindível ao esforço de superação da miséria, da tristeza e da dor, materiais e espirituais, nos limites férreos da natureza humana historicamente determinada.

O ateísmo militante é democrático, pois tem como essencial meio de pregação a conscientização, individual e coletiva, da necessidade de assentar as práticas sociais nos valores da humanidade, da racionalidade, da liberdade, da solidariedade, da igualdade. Pregação racionalista e materialista que compreende que a superação da alienação espiritual será materializada plenamente apenas através da superação da alienação social e material.

O que exige intransigente luta política, cultural e ideológica pela defesa dos maltratados valores do laicismo, única base possível para convivência social mínima por sobre crenças religiosas, étnicas, ideológicas, etc. singulares. Laicismo agredido pela despudorada exploração mercantil, política e social, direta ou indireta, por parte das religiões novas e antigas, da crescente anomia popular contemporânea. O monopólio público da educação e da grande mídia televisiva e radiofônica, sob controle democrático, e a ilegalização do escorcho religioso popular direto são pontos programáticos dessa mobilização.

O Céu e o Inferno

O ateísmo militante é pregação de adultos, conscientes do limite e dos perigos de empreitada subversiva, dessacralizadora e mobilizadora, pois voltada para a necessidade do homem de retomar as rédeas de sua vida material e espiritual, no aqui e no agora. É jornada sem esperanças de premiações e de graças, na outra vida e sobretudo nessa, ao contrário do habitual nas religiões oferecidas como vias expressas para o sucesso individual, no rentável balcão da exploração da alienação.

O racionalismo militante é caminho difícil que premia os que nele perseveram com a experiência, mesmo fugidia, com o que há de melhor nos seres humanos, a racionalidade, a solidariedade, a fraternidade. Sentimentos e práticas vividos em forma direta, sem tabelas, pois a única ponte que liga os homens são as lançadas entre os próprios homens, construídos pela história à imagem e semelhança dos homens.

A vida racional é aventura recompensada sobretudo pelo inebriante desvelamento do encoberto pela ignorância e irracionalidade e pelo equilíbrio obtido na procura da harmonia social, por mais difícil e limitada que seja. Trata-se de caminho que permite, sem sonhar nem crer, seguir decifrando, alegre e desvairadamente, esse mundo crescentemente encantado e terrível. Viagem por esta vida terrena, valiosa, breve e única, sempre apoiada na lembrança de que, diante das penas e tristezas, não se há de se rir ou chorar, mas sobretudo entender, para poder transformar.

Uma experiência de vida que, mesmo bordejando não raro o inferno, ou sendo elevado fugidamente aos reinos dos céus, sabe-se que tudo se passa e se conclui nesse mundo, concreto, terrivelmente triste e belo, sobre o qual somos plena, total, sem desculpas e irremediavelmente responsáveis.


* Mário Maestri, 61, é rio-grandense, historiador, ex-refugiado político, ateu, marxista, comunista sem partido, casado [há 32 anos], pai de dois filhos, com um neto. Viveu no Chile, México, Bélgica, Itália e Brasil. Trabalha no PPGH da UPF. Entre outros livros, escreveu, com a lingüista Florence Carboni: A linguagem escravizada [2ed. São Paulo: Expressão Popular, 2006.] E-mail: maestri@via-rs.net .

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35 comentários sobre “O ateísmo como militância social

  1. É fato que a religião só prospera na desigualdade social, na miséria produzida diante desta, e na pobreza intelectual imposta, produzida e reproduzida a uma maioria por uma minoria. E os poderosos, diante disso, utilizam-se também da religião (além da repressão) para manter tais circunstâncias. Não se vê quase templinhos religiosos em países como Holanda, Suécia, Dinamarca, por exemplo, em contraste com países de pobreza gritante, como Índia, México, Haiti e Brasil. Neste último, o nosso Brasil, quanto mais pobre a região, mais igrejas existem (nas favelas, umas quase ao lado das outras). Quanto mais se esforça em busca do conhecimento, mais crítico e até distante da religião vai se tornando um cidadão. As últimas eleições (2010) mostraram o quão importante é a militância ateísta entre a população: os dois candidatos, Dilma e Serra, juntaram-se num discurso obscurantista-religioso para tratarem de questões importantes, como a do aborto. Marx dizia que toda a crítica deve começar pela religião. Tinha pela religião uma correta ojeriza, classificando-a como “ópio do povo”. Mas alguns desses traficantes ficaram (e ficam, pelo visto) irritados com essas considerações até hoje. Ser religioso ou ateu não faz uma pessoa mais importante na luta contra o sistema vigente. Há religiosos revolucionários e ateus niilistas. Mas que entre os revolucionários existam mais ateus e entre os conservadores mais carolas, isso também é um fato inegável.

  2. Discordo do prof. Maestri. É um texto por demais superficial, míope na análise acerca da religião.
    Há cerca de um mês, foi proferida uma palestra pelo pesquisador Michel Lowy, brasileiro radicado na França, marxista (é membro do partido Anti-Capitalista francês, vinculado a IV Internacional e a tradição intelectual e militante de Ernest Mandel) e que na citada palestra ele abordou o tema “Marxismo e Teologia da Libertação”.

    Lowy expôs de viva voz por cerca de 45 minutos o que ele já tinha escrito outrora – há cerca de 15 anos – sobre o tema. Fruto de pesquisas que ele empreende há tempos, demonstrou como o tema da religião foi analisado por muitos do chamado marxismo ocidental: Lukács, Lucien Goldman, Gramsci, Mariátegui.

    Também se debruçou sobre a obra teórica empreendida por filósofos/teólogos clérigos e leigos sobre o marxismo: Jena Yves Calvez, Enrique Dussel, Henri de Lubac, Yves Congar, Leonardo Boff, Enrique Dussel, Hugo Assmann, entre outros.

    Lowy sabiamente conclui depois de mais de 20 anos de estudo do tema, não só da literartura produzida mas também da análise dos processos históricos e cenários de lutas de classe na América Latina e no resto do mundo, de que a religião pode sim e desempenha um papel relevante na emancipação da classe trabalhadora. Exemplos para isso são abundantes. Há quem porventura os desconheça e para isso se dá o nome de ignorância. Há os que desdenhem do fato, mesmo que manifesto a ponto de ferir as vistas e a isso se dá o nome de preconceito.
    Um fenômeno tão complexo e multifacetado como a religião requer mais acuidade na análise do que o citado texto acima, que me pareceu raso como um pires.

    Eu mesmo, assim como milhares outros(as) de militantes, sou cristão da denominação Católica Apostólica Romana e milito como sindicalista da Intersindical na categoria bancária. Já participei de CEBs, grupos de jovens, pastorais e muito do que tenho de acúmulo teórico e prático é caudatário de tais espaços de socialização política.

    Bom, não preciso ficar jogando confete sobre minha pequeníssima contribuição para o avanço da classe. Na história do Brasil, América Latina e locais, como já disse, mas reitero, há uma miríade de exemplos.

  3. Amigo Mário, tirado do seu blog: “A crença religiosa nega as crescentes conquistas da racionalidade, da objetividade, da materialidade, da historicidade, encobrindo-as com as espessas sombras da irracionalidade, da subjetividade, do espiritualismo”.

    Comento dizendo que não há nada mais racional, objectivo, material, histórico e acrescento transformador, credível, coerente e que teve o maior impacto cultural em todo o nosso mundo, que o Jesus da Bíblia e a Bíblia de Jesus, por isso ELE disse “os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar”

    Que as palavras DELE pronunciadas na cruz possam servir para si “Pai, perdoa-os, pois eles não sabem o que fazem (o que dizem), e a sua Obra Redentora também.

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  4. Professor Maestri:
    As suas ideologias para mim não passam de soluços de um ateu comunista patético, desorientado e que se acha dono da razão por ler uns três a quatro livrinhos de Karl Marx,o ser humano é um seu indubitavelmente subjetivo,a religião suprimi as necessidades subjetivas,os ateus procuram passa esteriotipo de libertos e compreensivos,mas na verdade são seres humanos fechados a argumentações religiosas que confronte as suas,seres egocêntricos e soberbos,é inaiceitável negar a complexidade da produção Divina,seus olhos veem apenas simples grãos de areia na praia e esquecem-se de ver o mar!

  5. Muito bom seu texto professor. Porém discordo da militancia social. Também sou ateu, mas assim como nos sentimos bem, seguros e de certa forma, felizes na escolha por ser ateu, crentes também assim fazem. Seria a crença uma limitação pessoal? A meu ver sim. Mas é ponto de vista, assim como na visão crente, o ateísmo é uma limitação.

    Ser ateu ou crente, é uma opção que parte do interior, principalmente a de ser ateu, visto que em nossa, praticamente, totalidade não temos oportunidade de escolher o que seguir ou como seremos educados. Parte daí então o interesse ou não de deixar de seguir a, mais uma vez digo, em minha opinião, uma pseudo-regra de vida.

    Abraço

  6. professor:maestri
    a historia da igreja é longa e não e por acaso que ela existe. não creio que pessoas vão a igreja ou creem em Deus por alienação. creio que a fe é algo inexplicavel , da mesma forma que não da pra falar de militancia sem estar tambem alienado a idéias e ideais nao existententes. penso que nada permanece sem objetivo e a religião tem seu.

  7. Prezado Professor.

    A história tem demonstrado que as religiões, sejam quais forem, têm alienado, têm retirado o protagonismo existencial do ser humano ou no máximo lhe permitindo seguir a receita apacentada de submissão aos “designios” divinos.
    Assim, é difícil a concertação entre a razão e o idealismo platônico com que foi educada a humanidade pelas religiões. Nesta perspectiva, qualquer militância soa agressiva aos olhos de quem se harmoniza com a idéia de um autor da vida, um criador, alguém que em sua bondade ou sabedoria promova a justiça que do contrário não seria alcançada pelo humano.
    Sendo assim, a militância talvez se configure uma estratégia e ferramenta equivocada num processo de transformação que busque de fato a emancipação, pois – por definição – parte da idéia antecipadamente tomada como inatacável, que valores são previamente considerados melhores que outros, e onde não se estabelece a possibilidade do diálogo em equilíbrio de direitos e convicções.
    Se a razão não for capaz de demonstrar, menos ainda a militância será capaz de convencer o ser humano a encarar a realidade sem artifícios e processos mágicos, sem compensações transexistenciais, sem justiças suprahumanas, a menos que por militância possamos entender um diálogo sem pressupostos ou verdades préconcebidas.

  8. A tese exposta pelo brilhante professor é flagrantemente confirmada pelo teor irracional, preconceituoso, odioso, primário da quase totalidade dos comentários.
    Avante, Professor, a massa é mesmo supersticiosa, alienada e resignada em sua ignorância, tal qual na Idade Média.

  9. Com exceção da natureza dos argumentos utilizados, um “ateu militante” seria tão ridículo quanto um religioso fundamentalista. Ambos, em essência, cada um com a sua rigidez, gostariam e se esforçariam por nos convencer de que estão “corretos” em campos onde a subjetividade caminha lado a lado com a objetividade.

  10. Militância ateísta é dever social inarredável???? Militância é coisa de comunista com pensamento revolucionário,isso não funciona, é besteira.
    Para que uma família seja melhorada, um comunidade, uma organização, uma cidade, um estado, um país, o início da melhoria tem que começar no indivíduo, como??
    Siga os ensinamentos de Cristo.
    É difícil, claro que é. Num mundo onde só o lucro interessa, você queria o que???
    Ateísmo é melhor que teísmo então?? Se uma pessoa deixa de crer em Deus, em Cristo, como ela pode se tornar um pessoa melhor??? Se deixarmos de considerar os erros passados nossos e dos outros, quer dizer que não há forma de acertar sem errar antes? É bem o exemplo de toda sociedade humana, erra, se ferra e assim continua.
    Religião aliena as pessoas??? Algumas sim, talvez a maioria, mas não todas. E a grande mídia, que tem o rabo preso com o governo, o qual tem o rabo preso com o FMI, o qual tem o rabo preso com os grandes banqueiros que ditam as regras econômicas do mundo comunista/capitalista!!! Ou você acredita em crise econômica casual, como se ninguém soubesse, gripe suína que mata menos que acidentes de moto, sementes transgênicas que todos os produtores são obrigados a comprar da mesma empresa depois de aderido??!
    Quem será que aliena mais e causa mais sofrimento??? Temos que ter noção das proporções óbvias e tentar lutar com os problemas piores primeiro, não acham?
    Será que nos alienamos ou somos alienados por outros??? Por que será, que trocamos um pequena busca por conhecimento por um dinheirinho a mais para comprar algo novo??
    Amai a Deus sobre todas as coisas;
    Amai a seu próximo como a ti mesmo.
    Amamos dessa forma ou amamos mais as coisas oferecidas pelo mundo, pelo grande parque consumista???
    Que Deus abençoe a todos os leitores do blog e peço em nome de Jesus que todos possam sempre buscar conhecimento e discernir o conhecimento conquistado!!

  11. Radicalismos são perigosos, seja de que lado venham. Acredito na liberdade de expressão, mas devemos saber sobre o que falamos. Muitos que pregam um mundo sem religião não se dão ao trabalho de dissociar os erros das instituições dos princípios éticos, morais e humanísticos defendidos pela grande maioria dos sistemas religiosos. Prof. Maestri foi infeliz no seu artigo ao generalizar por baixo, como se as religiões andassem na contra-mão da história. Acho que ele esqueceu de pessoas como Martin Luther King e Desmond Tutu, entre tantos outros.Sou cristã, graças a Deus.

  12. Ora, o texto já começa com uma falácia absurda, como é que se pode respeitar as crenças individuais dos homens e das mulheres de bem se a militância ateísta é dever social inarredável? O texto afirma forçosamente que a única posição possível é o ateísmo ( dever social inarredável), sendo assim, não há lugar para a crença individual ( na religião ou em outro algo que seja diferente do ateísmo) o texto é bastante rebuscado e cheio de frases de efeito, mas completamente falacioso, mentiroso, históricamente inacurado e carente de argumentações consistentes. Lamentável.

  13. PROFESSOR MAESTRI:
    SOU PROTESTANTE PRATICANTE E NÃO DEIXO DE LER OS SEUS TEXTOS( AINDA QUE NÃO COMENTE ALGUNS), SEMPRE TÃO CLAROS E CONCISOS, PRESTANDO UM BOM OBJETO DE LEITURA. NO MEU CASO SE PRESTA UM POUQUINHO MAIS: À CONVICÇÃO DE MINHAS CRENÇAS,

  14. Li o seu texto, caro Professor, e também os comentários postados.
    Bela reflexão e desafio às dúvidas e crenças de qualquer um. Melhor dizendo, dos que de alguma forma tiveram contato comm a Sociologia, com a Filosofia, com a própria Bíblia e com outras formas de religião desde a origem dos tempos. Como é difícil sustentar a idéia do ateísmo, diante de tudo que oprime a nossa consciência. Desde a infância. Desde o ventre materno, com a presença de Deus em tudo e em todos. Quando num internato, em plena adolescência, os padres diziam, em tom ameaçador: “Cuidado com o que fazem sozinhos. Deus vê tudo”. No meu medo, comecei, mais tarde a negá-lo, ainda que sem muita firmeza nos meus argumentos. Universitário, bani de vez os controles da fé, embora envollvido nela pelas tradições herdadas.
    Interessante, em baixo do Cristo do Corcovado, recentemente, ao fitar a estátua, sem dúvida, envolvente e mística, quase tive um arrparrepio, como se ouvisse dizer: – E agora, José? Comentei isso com alguém ao lado e procurei fugir às minhs divagações.
    Por outro lado, a religiosidade que se espalha, salvo a mística dos orientais, torna-se por demais masificante e oportunista, dado o corporatisvismo que se instala pela modernidade das igrejas e sobretudo da chatice dos padres cantores, sem se falar na dominação dos evangélicos,, lastreada nas (in)verdades bíblicas.
    O que fazer? Ser um ateu social a minha maneira, sem precisar estar sustentando isso publicamente, pois seria, no mínimo, antipático em certos momentos. Mas não dá também para um retorno a Deus por inteiro, para merecer o céu. Aliás, vejo muita gente praticando a verdade maquiavélica: ser piedoso para mostrar-se virtuoso e assim enganar os oobos e raposas de palantão.

  15. Muito interessante a discussão provocada pelo competente professor.
    Pessolmente, penso ser mais frutuoso e gratificante para o homem viver a experiêcia tranformadora do materialismo histórico que vivver a vida buscando o “loteamento do céu”.

  16. puts!!!! e complicado esse mundo sem um criador, viraria um kaos e necessario q haja leis e essas leis sao criadas pelo criador vejam as enchentes alguem avancou os sinais e quanta calamidades, tem hora e q esse ser se volta contra sua proprias criaturas…. como querendo dizer eu sou o cara esse mundo tem dono!!!

  17. Por ser um espiritualista, mas sem ostentar nenhum CARIMBO, achei interessante a seguinte reflexão de Leonardo Boff:
    (…)
    Qual a melhor religião?
    Breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e o Dalai Lama.
    Leonardo Boff explica:
    “No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:
    – “Santidade, qual é a melhor religião?”
    (Your holiness, what`s the best religion?)
    Esperava que ele dissesse:
    “É o budismo tibetano”
    Ou
    “São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo.”
    O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos – o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta – e afirmou:
    “A melhor religião é a que mais te aproxima de Deus, do Infinito”.
    É aquela que te faz melhor.”
    Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:
    – “O que me faz melhor?”
    Respondeu ele:
    -“Aquilo que te faz mais compassivo”
    (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta),
    aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável…
    Mais ético…
    A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião…”
    Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável…
    Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião.
    O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo…
    Lembremos:
    “O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos”.
    A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física.
    Ela está também nas relações humanas.
    Se eu ajo com o bem, receberei o bem.
    Se ajo com o mal, receberei o mal.
    Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade:
    “terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros”.
    Para muitos, ser feliz não é questão de destino.
    É de escolha.(….)

    P.S.: ATEUS e/ou MARXISTAS:
    (1) é muito interessante ver vocês caírem na armadilha da DIALÉTICA DA NEGAÇÃO. Reflitam sobre isso…
    (2) me deleito em imaginar Marx se revirando no túmulo por ser usado, naquilo que nunca quiz dizer, para justificações de desajustes psicossociais causados pelo livre arbítrio exercido pelos seres humanos. Reflitam sobre livre arbítrio…. ( penso que não precisamos de um SER SUPREMO ditador, nem tampouco, desleixado…)
    (3) A busca da formação de uma cultura holística nos auxilia em não dizermos tanta bobagem, por isso incentivo os materialistas (sociais) estudarem pelo o menos um pouco de Física Quântica. Que, para mim, está contribuindo na construção de uma ponte entre o existencialismo materialista e o espiritualismo científico.
    (4) Portanto, sejamos mais sensíveis, desapegados, amorosos, humanitários, responsáveis … Mais éticos… independente de nossa militância…..

  18. Meu caro MM. Que bela refelxão e que bela resposta. Singularizarei a discussão. Pertenço a uma família altamente religiosa. Sete cristãos e um ateu – após os 14 anos. Dois se foram. Quando criança a miserabilidade social a qual encontravá-mos era, pelo casal ido, computada a vontada do onipresente, daquele que tudo sabe e tudo vê, mas não faz absolutamente nada para melhorar a qualidade de vida de seu rebanho.
    Levei 14 anos para negá-lo. 14 anos no obscurantismo religioso. Após esta idade, comecei a perceber que somente através da ação direta ou da “miliância ateísta” era possível avançar em todos os aspectos, sejam políticos, culturais, sociais ou econômicos. A “militância ateísta” não é uma fé entorpecente. Não é alienatória. É o despertar da consciência eracional. É o rompimento de dogmas seculares orientadoras das ações da humanidade.
    A crise sistêmica pelo qual atravessa o regime, com a perda de milhões de postos de trabalho em todo o planeta, – na Espanha o desemprego entre os “jovens” até 25 anos está na casa dos 43%! – é obra da vontade divina ou resultado de um sistema falido que não defende os ideias libertários e igualitários? Onde entra deus nete troço? Foi a (in)ação do homem que nos embretou ou foi vontade divina? O reino dos céus não existe. A vida “se passa e se conclui nesse mundo, concreto, terrivelmente triste e belo, sobre o qual somos plena, total, sem desculpas e irremediavelmente responsáveis.” Parabéns MM pela coragem de aos 61 continuar remando “contra a maré”!.

  19. Vejo um texto rebuscado de linguagem científica, para mais uma vez, colocar todas as religiões e ceitas e quem mais acredite num ser superior, no mesmo saco…
    Penso que acreditar em um Deus, ou uma força superior que seja, não elimina a possibilidade de tentarmos construir um mundo com mais justiça e igualdade.
    Posso ser ingênuo e não ter as leituras e experiências teóricas, filosóficase etc. do renomado professor, mas fico com a pureza das respostas das crianças: é a vida, é bonita e é bonita… e GRAÇAS A DEUS!!!
    Abraços!!!

  20. Excelente Mário.

    Como professor universitário e ateu convivo com o retrocesso crescente da ofensiva reacionária da religiosidade. Penso que não devemos ter vergonha de sermos ateus e defender nossa perspectiva. A ideologia religiosa sempre é posta acima de qualquer reflexão crítica. Está acima de qualquer questionamento. Ao mesmo tempo se dá ao direito de interferir em qualquer aspecto da vida humana. Marx disse que toda crítica deve se iniciar pela religião.

    Parabéns.

    Frederico

  21. Sei não, o religare com o sobrenatural é anterior à existência da propriedade privada na terra, ou seja, à exploração do homem pelo homem, ao capitalismo. Basta ver que o fenomeno religioso é presente em todas as sociedade humanas conhecidas. Feuerbach falou que uma tribo do Paraguai não tinha noção de ser supremo, mas não sei até que ponto é verossímel. Religião versus SER SUPREMO… o ateísmo é uma fé de não fé.

  22. Olá prof. Maestri.
    Em primeiro lugar gostaria de lhe dizer que seu texto é de fato provocador e revela um um bem preparado professor de história. Ao ler seu texto porém, não deixei de lembrar do livro Os sertões de Euclides da Cunha retratando Antônio Conselheiro: “Todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendência impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante”. E por aí vai. Euclides da Cunha acreditava estar fazendo um discurso científico movido pelo positivismo racionalista. Acredito não precisar retomar a crítica existente sobre o autor, a obra e o personagem. Voltando a questão, ao meu ver, sua bem formulada militância ateísta é redutivista por não perceber as ambiguidades que existem nas religiões e religiosidades. A alienação é presente e inquestionável, porém não haveria espaço nas religiosidades para a resistência e a libertação? Não é possível concordar com a premissa de que “Por mais subjetiva, introspectiva e sublimada que se apresente, a crença religiosa, jamais nasce, se realiza e se esgota no indivíduo”. Os indivíduos, em termos de religiosidade não são seriam capazes de cavar seu próprio poço? Ou esta postura seria também uma forma de alienação? De qualquer forma parabéns pelo texto. Valeu a provocação.

  23. Olá Prof. Mário;

    Achei seu texto extremamente maduro e interessante para quem estuda Marx, as relações socias e de trabalho numa perspectiva de que sempre existem opressores e oprimidos. Infelizmente o dogma (do qual inclusive o Senhor comenta no texto) não permite que o homem imerso no pensamento religioso, temente a Deus (Temor quer dizer Respeito, Zelo, mas também “medo”!!! então amam à Deus por Temê-lo???) possa refletir a respeito do que propõe seu raciocínio. abraço

  24. Importante reflexão, Maestri. Parabéns. Acredito que seja possível um diálogo entre marxistas e cristãos, permitindo que a prática política democrática vá construindo pontes. Mas isso não pode se dar – como vem acontecendo – a partir da sublimação da visão de mundo ateísta.

  25. Em tese concordo com o artigo. O mesmo direito que é concedido aos crentes de manifestarem suas convicções, deve ser concedido ao ateu militante.
    Contudo, é importante distinguir entre racionalidade e racionalismo, pois o endeusamento da Razão pelo Iluminismo já foi historicamente superado. O princípio da dúvida já é lugar comum na Biologia, na Física e até na Matemática.
    Também considero o ato falho de considerar que um deus manté a humanidade “em desnecessária desassistência, miséria e tristeza” como uma revolta, mais do que uma afirmação. Isso tornaria o ateísmo do autor uma mera desesperança.

    Francisco Pucci.

  26. Professor Maestri,

    Meu caro, as suas críticas não seriam melhor aplicadas a certas rígidas doutrinas religiosas e seus líderes intolerantes?

    Do que fala quando diz: “o esforço histórico que permitiu ao ser humano superar a origem animal”?! O projeto Genoma, geneticamente falando, não demonstrou quão próximos estamos dos outros seres viventes deste planeta? Isto, aliás, não seria uma das “conquistas da racionalidade” humana?

    O logos, a razão humana, enfim, a vida racional defendida pelo “ateísmo praticante e militante”, não seria, também, uma criação social-histórica? Se assim o for, lembro Castoriadis nos idos anos 1970 quando faz uma breve observação à divisão aristotélica de theoria, praxis e poiésis:

    “A história é essencialmente poiésis, e não poesia imitativa, mas criação e gênese ontológica no e pelo fazer e o representar/dizer dos homens. Este fazer e este representar/dizer se instituem também historicamente, a partir de um momento, como fazer pensante ou pensamento se fazendo” (CASTORIADIS, A Instituição Imaginária da Sociedade, 5ª Ed, RJ: Paz e Terra, 1982, p.14).

    Secundo Neto
    Fortaleza-Ce

  27. Quem é Deus? Eu? Você? Ou será ele apenas o grito do silêncio no universo? Defini-lo neste plano humano em que vivemos é pura perda de tempo, isso é como o animismo, hipérbole existencial.
    Att
    Carlos Alberto Potoko

  28. Caro prof. Maestri.
    Admiro-o muito para postar esse comentário;
    Suas análises da realidade, dos governos e dos processos históricos da nossa época são referências incontestáveis para mim.
    Dito isso quero expressar minha discordância da sua análise neste texto. Essa questão é de Feuerbach e foi superada pelo próprio Marx que o repreendeu por estar apenas nas nuvens e não na realidade concreta. Pois bem, nossa realidade concreta demonstra que muitos militantes de esquerda nutriram-se nos poços espirituais do cristianismo latinoamericano, martirizam-se pelos ideais religiosos que viviam – por exemplo o bispo Dom Romero em El Salvador.
    Os teóricos da Teoria critica mostraram muito bem que essa pretensa racionalidade pura propagada pela modernidade, e pelo que parece pelo seu texto também, nada mais é que uma reedição dos mesmos dogmas religiosos que a modernidade queria suplantar.
    Isso não significa que a adesão ludibriada pela Igreja Universal e sua religião de mercado deve estar no mesmo patamar dessas questões que aqui coloco.
    Atrevo-me a sugerir “Teologia negativa e Theodor Adorno: A secularização da mística na arte moderna” disponível na WEB, tese esta orientada por Cristoph Turche um especialista nessa área.

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