Lula, o filho do Brasil

por Carlos Alberto Potoko*

Todo mundo está discutindo se irá assistir ou não o filme baseado no livro homônimo escrito pela jornalista Denise Paraná, o qual narra a história do Lula, do nascimento até a morte de sua mãe. Adianto que pretendo ver o filme, embora com resalvas porque o que me interessa mesmo é a outra história do Lula: A história da Revolução que ele trocou pelos tapinhas nas costas de políticos sem ética. Ele poderia ter sido uma criatura radical do meio sindical e de um povo sofrido do nosso país. Mas o Lula operário e retirante do nordeste até a alma preferiu um mandato conservador e por isso é apontado por muitos cientistas políticos como a continuação do FHC.

Quando Lula assumiu a presidência, as lideranças do mundo desenvolvido e das classes empresariais do Brasil desconfiaram dele, temiam que fosse como Chaves. Mas não. Eleito, Lula fez o que fizera seu antecessor, um governo capitalista comportado, cumpridor de regras de mão com a social-democracia. Lula é para os governantes das potências um misto de imagem rude em seus discursos carregado de inocência, sempre lembrando de que ele é do povo, é verdadeiro e sem frescura. Trabalha muito e comete alguns equívocos, como algumas expressões chulas estranhas. Mas o público vibra e as autoridades baixam a cabeça concordando com a simbiose dele com o público.

Todos o aceitam como ele é, e até o exaltam. Afinal, embora ele seja “da massa”, não é um Hugo Chaves amargo e com ódio. Lula cultivou a lavoura como estava, soube colher e assim, construiu seu prestígio diante aos olhos incrédulos do mundo porque sua figura é infinitamente simpática, carinhoso: trata-se de um ser excêntrico, um personagem que oscila entre um atrevido operário latino e a astúcia pueril de quem se pode esperar até o imprevisto. A pachouchada em público nunca é algo que desgoste as regras respeitosas cristãs ou dos economistas mais conservadores.

Lula firmou seu governo tendo o bom senso de não mexer na economia, teve a sensibilidade de incrementar o humanismo com mais benefícios sociais sem demagogia. O Brasil depois dele será um pouco diferente por eliminar a fome sistêmica, ele deu dignidade a muitos brasileiros. É uma evolução. Mas os gastos de seu governo serão uma senhora conta que quem e como vão pagar, ninguém sabe.

As mudanças são poucas para uma nação como a nossa. Nada de pessimismos. Mas nada a ver com os petistas históricos. Claro que talvez a melhor mudança não passasse de uma utopia. Daí a frustração federal de todos nós que lutamos, redundando é claro, na fragmentação do PT. Lula poderia ter feito uma mudança mais profunda, como um Pacto Federativo, acabar com o niilismo na educação fundamental, intervir na apartheid da saúde. Enfim, na estrutura do país. Daí a diferença da sua formação superior, tivesse ele a chance de estudar, talvez fosse hoje o estadista protagonista de uma verdadeira revolução de construção de uma grande Nação. Uma pena, nunca vamos saber se com um “Lula doutor” seria diferente. Lula não é só o filho do Brasil, é mais um dos tantos filhos que o Brasil se esqueceu de educar.


* Poeta.

Anúncios

6 comentários sobre “Lula, o filho do Brasil

  1. Li no blog conversa afiada – do Paulo Henrique Amorim – que a Universidade hebraica de Jerusalém dará o título de doutor honoris causa para o Lula. Mesmo que se desconte os interesses econômicos e de dominação que movem os judeus, algum valor, mesmo não sendo gaucho, “o cara” deve ter.

  2. Caríssimo Carlos Alberto,

    Perfeito o teu texto e a frase final é sensacional e resume tudo! “Lula não é só o filho do Brasil, é mais um dos tantos filhos que o Brasil se esqueceu de educar.”

    Parabéns!

    Abraços!

  3. Pois Potoko, sei bem do que falas. E quando analisamos ficamos a pensar que o hábito da leitura, seja ela prazerosa ou científica ou ambas edifica o homem, nós bem sabemos disso. Entretanto, em uma análise mais profunda, precisamos levar em conta todo contexto histórico-social e cultural de cada indivíduo. Em outra vertente de pensamento, poderíamos pensar que uma vez solto das amarras educacionais, o indivíduo tem a opção na escolha de leitura, uma vez que lá dentro não foi incentivado. Ou seja, mesmo que não tivesse sido despertado em Lula o desejo da leitura, mais tarde ele poderia adquirí-la. Entretanto e voltando ao contexto de cada um, essa nova opção de aquisição está presa a toda formação do indivíduo. Agora, o entendimento que a leitura nos proporciona é “inquestionável” e concordo contigo que com um conhecimento maior, talvez, tivéssimos outra administração. Resta saber se ele (Lula) devido a todo seu contexto aqui já citado tem o entendimento e a compreensão disso.
    Abraços catarinenses além mar.

    Gislaine Becker
    Professora das Literaturas brasileira e portuguesa, acadêmica de Doutoramento em Ciências da Educação pela Faculdade de Tecnologia e Ciências da Universidade Nova de Lisboa.

  4. Saiba Gislaine
    Tenho um grande respeito pelas pessoas em geral, claro, mas sinto algo mais, muito profundo e carinhoso com relação a quem costuma ler, comentar e escrever o que pensa.
    Lula é um coração em sintonia com o povo, mas tem um pecadinho, não gosta de ler. E isso para nós que gostamos das letras, dói um pouquinho. Daí a minha inquietude.
    Obrigado pelas gentis palavras.
    Um abraço bem gaúcho.
    Potoko

  5. Caro Carlos Alberto,

    Escrevi um comentário que não postou, vou tentar novamente.
    Linda e profunda a sua reflexão a respeito da vida do presidente Lula.
    Fiquei a pensar que, muitas vezes, estamos acostumados com os doutoramentos científicos (desculpe a redundância) e que nem sempre consideramos os “doutoramentos empíricos”. E quantos governantes tivemos que tinham os seus doutoramentos científicos e nem por isso conseguiram suprir nossas necessidades. Da mesma forma, quantos foram do povo e que se diziam para o povo e nada conseguiram. Quiçá, nossas expectativas são sempre maiores que as respostas que o outro consegue dar, com ou sem conhecimento acadêmico.
    Com seu artigo lembrei-me de Fabiano, personagem protagonista de Vida Secas, de Graciliano Ramos, que apesar do esforço não conseguia comunicar. Quem sabe e por tantos motivos nosso presidente, de “tanto levar”, optou por administrar assim.
    Tem um velho ditado popular que diz: ” O corcunda sabe como se deita”.
    Parabéns pelo seu artigo, também vou assistir ao filme.

    *Gislaine Becker: Professora das Literaturas brasileiras e portuguesas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s