A mulher negra

por MARIA NILZA DA SILVA*

A situação da mulher negra no Brasil de hoje manifesta um prolongamento da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto e racista do país. Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que a mulher negra apresenta menor nível de escolaridade, trabalha mais, porém com rendimento menor, e as poucas que conseguem romper as barreiras do preconceito e da discriminação racial e ascender socialmente têm menos possibilidade de encontrar companheiros no mercado matrimonial.

A mulher negra ao longo de sua história foi a “espinha dorsal” de sua família, que muitas vezes constitui-se dela mesma e dos filhos. Quando a mulher negra teve companheiro, especialmente na pós-abolição, significou alguém a mais para ser sustentado. O Brasil, que se favoreceu do trabalho escravo ao longo de mais de quatro séculos, colocou à margem o seu principal agente construtor, o negro, que passou a viver na miséria, sem trabalho, sem possibilidade de sobrevivência em condições dignas. Com o incentivo do governo brasileiro à imigração estrangeira e à tentativa de extirpar o negro da sociedade brasileira, houve maciça tentativa de embranquecer o Brasil.

Provavelmente o mais cruel de todos os males foi retirar da população negra a sua dignidade enquanto raça remetendo a questão da negritude aos porões da sociedade. O próprio negro, em alguns casos, não se reconhece, e uma das principais lutas do movimento negro e de estudiosos comprometidos com a defesa da dignidade humana é contribuir para o resgate da cidadania do negro.

A pobreza e a marginalidade a que é submetida a mulher negra reforça o preconceito e a interiorização da condição de inferioridade, que em muitos casos inibe a reação e luta contra a discriminação sofrida. O ingresso no mercado de trabalho do negro ainda criança e a submissão a salários baixíssimos reforçam o estigma da inferioridade em que muitos negros vivem. Contudo, não podemos deixar de considerar que esse horizonte não é absoluto e mesmo com toda a barbárie do racismo há uma parcela de mulheres negras que conseguiram vencer as adversidades e chegar à universidade, utilizando-a como ponte para o sucesso profissional.

Embora o contexto adverso, algumas mulheres negras vivem a experiência da mobilidade social processada em “ritmo lento”, pois além da origem escrava, ser negra no Brasil constitui um real empecilho na trajetória da busca da cidadania e da ascensão social. Bernardo (1998), em seu trabalho sobre a memória de velhas negras na cidade de São Paulo, mostra como é difícil a mobilidade ascensional da negra – especialmente na conquista de um emprego melhor, pois a maioria das negras trabalhava na informalidade, ou como empregadas domésticas.

As mulheres negras que conquistam melhores cargos no mercado de trabalho despendem uma força muito maior que outros setores da sociedade, sendo que algumas provavelmente pagam um preço alto pela conquista, muitas vezes, abdicando do lazer, da realização da maternidade, do namoro ou casamento. Pois, além da necessidade de comprovar a competência profissional, têm de lidar com o preconceito e a discriminação racial que lhes exigem maiores esforços para a conquista do ideal pretendido. A questão de gênero é, em si, um complicador, mas, quando somada à da raça, significa as maiores dificuldades para os seus agentes.

Paul Singer (1998) afirma que, à medida que a mulher negra ascende, aumentam as dificuldades especialmente devido à concorrência Em serviços domésticos que não representam prestígio não há concorrência e conseqüentemente as mulheres negras têm livre acesso e é nesse campo que se encontra o maior número delas. A população negra trabalha, geralmente, em posições menos qualificadas e recebe os mais baixos salários.

A mulher negra, portanto, tem que dispor de uma grande energia para superar as dificuldades que se impõe na busca da sua cidadania. Poucas mulheres negras conseguem ascender socialmente. Contudo, é possível constatar que está ocorrendo um aumento do número de mulheres negras nas universidades nos últimos anos. Talvez a partir desse contexto se possa vislumbrar uma realidade menos opressora para os negros, especialmente para a mulher negra.

Contudo, cabe ressaltar a experiência de mulheres negras na luta pela superação do preconceito e discriminação racial no ingresso no mercado de trabalho. Algumas mulheres atribuem a “façanha” da conquista do emprego do sucesso profissional a um espírito de luta e coragem, fruto de muito esforço pessoal, e outras ainda, ao apoio de entidades do movimento negro.

Na atualidade não se pode tratar a questão racial como elemento secundário, destacando apenas a problemática econômica. A posição social do negro não se baseia apenas na possibilidade de aquisição ou consumo de bens. Ainda há uma grande dificuldade da sociedade brasileira em assumir a questão racial como um problema que necessita ser enfrentado. Enquanto esse processo de enfrentamento não ocorrer, as desigualdades sociais baseadas na discriminação racial continuarão, e, com tendência ao acirramento, ainda mais quando se trata de igualdade de oportunidades em todos os aspectos da sociedade.

A discriminação racial na vida das mulheres negras é constante; apesar disso, muitas constituíram estratégias próprias para superar as dificuldades decorrentes dessa problemática.

Bibliografia

BERNARDO, Terezinha. Memória em branco e negro: um olhar sobre São Paulo. São Paulo: Educ, 1998.

SILVA, Maria Nilza da. Mulheres negras: o preço de uma trajetória de sucesso. PUC/SP, Dissertação Mestrado, 1999.

SINGER, Paul. Globalização e desemprego: diagnósticos e alternativas. São Paulo: Contexto, 1998.


* Professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e Doutora pela PUC/SP. Publicado na REA, nº 22, março de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/022/22csilva.htm

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14 comentários sobre “A mulher negra

  1. Estar muito em voga as discursões sobre as questões de gênero. Mas, só mesmo quem teve que enfrentar as barreiras do preconceito sabe o quanto a cor da pele pesa. É preciso ter caráter firme, muita determinação e atitude para vencer na vida e, sobretudo para não incorporar máscaras como afirma Adão Ventura: “o preto de alma branca e sua cor de camaleaõ”. Ou ainda como disse Caetano: “e outros brancos quase pretos de tão pobres”. Vencer na vida é erguer a cabeça e ter capacidade para romper barreiras, culturais, sociais,pessoais e como diz Waly Salomão:” não chorar as lembranças pretéritas que não sobrenadam mais. Preconceitos vão continuar existindo sempre, por mais que se discuta a questão;não se pode mascarar uma realidade. Luta, determinação e muita coragem me fizeram a mulher que sou. Chegar a concluir um doutoramento se não foi tão fácil,muito menos foi ser a primeira prefeita negra do meu Estado. ( PE). È preciso ter força, ter raça. Tudo é possivel a quem crer.

  2. Querida Nilza gostei muito deste assunto irei utiliza-lo também para a dissertação de minha monografia.

  3. A discussão é saudavél, mas carece de uma definição mais clara sobre o que é ser negro no Brasil. A questão circula ao redor da cor da pele, em relação à nossa descendência africana, ou é algo relacionado às questões sociais, melhor dizendo, as nossas desigualdades sociais?
    Me parece que se quer acreditar que o branco pobre tem melhores oportunidades que o negro. O que realmente vemos é um discursso que nivela a questão social à questão racial.
    Tenho consciência que é ingênuo acreditar que a questão da raça não potencializa as diferenças sociais em nossa sociedade, mas sei também que sozinha não responde às questões raciais.
    O debate deveria ser alargado para o campo dos modelos sociais que nossa juventude copia ou deseja ser. Os “herois” são na sua maioria negros: jogador de futebol, cantor de pagode, dançarinas de grupos musicais, chefes do tráfico nas comunidades… entre outros.
    Não há valorização para aqueles que vencem pelo estudo, para aqueles que apresentam descobertas significativas para a sociedade, para aqueles que dedicam uma vida a ajudar o próximo. Para esses personagens quase sempre o prémio é o ostracismo, não são modelos ou heróis que nossos jovens queiram copiar.
    O debate é salutar mas sem empobrecer o tema.

  4. Não consigo entender a situação de discriminação, sendo que anos antes de Cristo, escravos de faroos não tinham cor, era branco preto.
    Hoje em dia e lastimavel que exista ainda esse tipo de coisa. A situação para mulheres nunca foram boa, trabalham e ganham menos. E ainda com descriminação por causa de cor.
    e doloroso.
    Muito doloroso que a cor mande tanto, e não a capacidade e a inteligencia.
    😦

  5. é bom saber que existem pessoas preocupadas com as mulheres afro-descendentes, mas no meu ponto de vista elas deveriam se valorizar mais, mesmo sem recurso economico isso não é desculpa para elas se sentem desvalorizadas e humilhadas deixando o estudo em ultimo lugar para trabalha como escrava sem perceber que a escravidão acabou a seculos,

  6. O artigo de Maria Nilza da Silva vem cumprir com esse nosso dever nacional e historico, ainda longe de ter acabado, de refletir ainda e sempre sobre nossas raizes, nossas cores, nossas legitimidades – e, como corolario, sobre o que nao queremos ver, sobre o que excluimos, sobre o que somos incapazes de valorizar.
    Segundo minha experiência vivida, é so ao sair do Brasil que um brasileiro médio passa a viver na propria carne a discriminaçao racial e cultural, e a entender o que é estar situado na ponta errada de uma polarizaçao cromatica em que so a partir do meio que começa a embranquecer pode-se esperar valorizaçao e legitimaçao. E isso com a condiçao de prestar atençao à realidade e parar de imaginar que os outros sao simplesmente mal educados – ele sofre fora do pais a mesma discriminaçao e pelos mesmos motivos pouco nobres com que ele trata aquele que ele vê como um pouco mais “escurinho” do que ele. Sendo extremamente relativo o olhar sobre o que venha a ser “branco”, “negro”, “mestiço”, talvez seja essa uma das grandes liçoes das viagens – nossa cor nao é a mesma dos europeus, a nao ser no extremo sul ja mestiçado desde o final da idade média pela escravidao comum em Portugal e pelas invasoes mouras em toda a Peninsula Ibérica. Nossa maneira de falar certamente nao é a mesma dos europeu mais bem educados, deformados que fomos por quatro séculos de escravidao – os viajantes do século XIX ja denunciavam a desagradavel mania de gritar das senhoras donas de escravos, ja que com “essa gente”nenhuma consideraçao se exigia. Nosso gestual é bem mais expressivo, nossa musicalidade bem mais criativa – isso alias me faz lembrar que entre os jovens artistas brasileiros, ja apareceram manifestaçoes de sensibilidade ao tema evocado no artigo de Maria Nilza – penso no nome de um grupo musical de alguns anos atras, criado por André Abujamra e que se chamava, numa evocaçao paradoxal e forte, “Os mulheres negras”.
    Para resumir, isso tudo que conhecemos e essa criatividade que atribuimos autisticamente a uma espécie de graça divina inexplicavel, se traduz por mestiçagem. E so ao mergulhar fundo nessa percepçao, ao aprofundar esse conhecimento de nossa complexidade real é que seremos ricos de nos mesmos: indios, brancos, negros, semitas tanto judeus como arabes, e todos os europeus que se seguiram na formaçao de nossa cultura cabocla, mulata e raramente pura – “negro retinto” ou “branco azedo” sao raridades étnicas ou abstraçoes expressivas, mas que so expressam uma irritaçao mutua baseada na ignorância das profundas afinidades que nos irmanam.
    Isso dito, retomo o ponto de vista de Maria Nilza para reforçar a necessidade de politicas afirmativas, ja que é ainda necessaria uma cunha social para furar a crosta da cegueira preconceituosa e criar para o brasileiro negro o lugar que desde a Aboliçao lhe vem sendo negado.
    Abraço,
    Regina

  7. Parabéns Drª Nilza excelente trabalho.
    Gostaria de saber se existe algum tralho tipo desertação e /ou tese em relação a ” Inclusão do Negro nas Universidades”?.
    Por favor me mande qualquer pesquisa.
    Muito grata,
    Maria dos Prazeres.

  8. Parabéns Dra. Maria Nilza !
    Como professora de história, não poderia furtar-me de expressar meu pleno acordo com o seu ponto de vista.
    O serviço público, tem sido a principal porta de integração social dos negros que não se destacam no esporte ou na música, mas os salários e o prestígio social, notadamente na área do Magistério, onde nós mulheres somos maioria, a pressão e desvalorização são fatos.

  9. Excelente trabalho!!!
    gostaria de saber se existe algum trabalho que fale sobre a mulher negra no Rio de Janeiro durante e apos a abolição da escravidão.

  10. Num país de dimensões continentais, marcado historicamente pela pobreza acentuada em razão da riqueza mal distribuída, não poderia haver outra constatação: mulheres pobres sofrem, são marginalizadas… assim como quaisquer outros seres humanos desprovidos de bens materiais.

    Porém, só faltou dizer que a mulher negra é minoria e merece favorecimentos pessoais, privilégios, cotas sociais, etc.

    Esse discurso de minorias para tudo o que se relaciona a raças, mesmo que implícito/tácito num texto, é algo evidentemente retórico, e não tem a menor intenção de distinguir o que é verdadeiro, certo ou constatável, mas tão somente fazer com que o próprio leitor deduza voluntariamente à conclusão que a ideia implícita no discurso representa como o “verdadeiro”.

    Além de retórico, é também retrógrado: há tempos se luta pela ascenção da “mulher” na sociedade brasileira, e não pelas divisões raciais de gênero e favorecimentos à possíveis e alegadas minorias.

    Esse é o discurso de afirmação a contrapelo que sustenta a forma atual de discriminação racial e de gênero, reforçam os sistemas de preconceitos raciais e geram os subsídios materiais para uma minoria intelectualizada – que discrimina a maioria incauta, ou, no mínimo, a subestima – de interessados “acadêmicos/científicos” nessa discussão. É o combustível de suas vidas acadêmicas.

    Uma sistemática proselitista, com efeito reverso ao próprio discurso.

    A mulher brasileira, em sua totalidade, é o fundamento para nossa sociedade. A fragmentação desse conceito, e sua estratificação perante qualquer ação é, no mínimo, degradante.

    Obs.: Li o texto e o entendi sim. Experimente ler o mesmo texto substituindo a expressão “mulher negra” por “mulher”, contextualizando a nova expressão. Daí se percebe meu ponto de vista.

  11. Realmente, embora haja o discurso de que estamos no século XXI e o preconceito racial não deveria ser uma prática, na realidade este é apenas um discurso fictício, porque na prática vivenciamos situações vergonhosas de preconceitos, discriminação, entre outros.

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