O futuro dos filhos

por Raymundo de Lima* **


Os pais sonham com o melhor para seus filhos. Os perigos que rondam o mundo de hoje fazem os adultos terem medo pelo futuro dos jovens. Mas sonhar é preciso, preparar-se é imprescindível. A esperança e a coragem de ser – e não só de ter – devem sempre vencer o medo e as demais dificuldades que impedem as realizações.

O ser humano é vocacionado para a esperança, para o amor, para o humor e a capacidade de realização de coisas inteligentes. A mãe grávida imagina que em breve a criança irá fazer gracinhas, sorrir, espernear, fazer birra, dar trabalho, aliás, muito trabalho. Mais tarde, ir para a escola, enfrentar o vestibular, entrar numa faculdade, formar-se, ter uma profissão, casar, ter filhos…

Os pais sonham um grande futuro para os filhos, porque desejam o melhor para eles. O sonho é forma imediata de realização do desejo, disse Freud. Sonhos, tanto os produzidos pelo sono como os que temos quando acordados, são necessários e fazem bem à alma. A vida, ou melhor, a existência, precisa se alimentar de sonhos, pois eles são portadores de nossos desejos e esperanças. Uma parte dos sonhos se realiza na produção das imagens próprias. Outra clama para ser satisfeita na realidade objetiva. [1]

Os projetos pessoal e coletivo estão situados entre o sonho e a realidade. Um projeto é sempre a expressão de um sonho elaborado pelo pensamento visando materializar-se na realidade. Sendo ainda inviável no momento, a materialização de um bom projeto passa a ser sustentado por novas elaborações e palavras, reforçando-o como “sonho-projetado”.

Sonhos coletivos e sonhos individuais

Martin Luther King, num famoso discurso, em 1963, revelou seu sonho de que “um dia os homens iriam acabar de vez com os chicotes da segregação e as correntes da discriminação”. Júlio Verne, no final do séc. 19, teve uma visão – um sonho – do homem indo até à Lua, o que só aconteceu em 1969. Ambos morreram sem ver seus sonhos realizados. Mas, Juscelino Kubitschek realizou o sonho de ver Brasília construída. A revolução francesa, em 1789, e a revolução russa ou bolchevique, em 1917, foram embaladas por sonhos de melhoria radical na sociedade. Apenas uma pequena parte desses sonhos foram conquistados na realidade. A Carta dos Direitos Humanos, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade ainda estão na pauta das lutas diárias em todo o mundo. Nos anos 1970, o movimento “Paz e Amor”, conseguiu realizar o sonho de acabar com a guerra do Vietnã, que terminou com as forças armadas norte-americanas sendo expulsas daquele país, então recém reunificado. No início do 3º milênio, a invasão anglo-americana no Iraque obrigou o retorno daquela consciência pacifista ativada em amplo protesto global. No Brasil, o presidente Lula tem um sonho pessoal, ora transformado em projeto de governo contra a fome. Sonho difícil, projeto pouco elaborado, mas que precisa ser realizado pelo esforço coletivo, para o bem de todos.

Pais sonhadores hoje se queixam que a geração atual é muito individualista; desistiu de sonhar projetos coletivos como nos anos 1970, se preocupando apenas em realizar seus mesquinhos sonhos pessoais de posse: ter um emprego, uma casa, um carro e uma família pequena. Alguns fazem projetos com os filhos apontando caminhos para realizar o seu desejo, não se importando se pessoais ou sociais. Contudo, somente os filhos é que poderão realizá-los. Às vezes quebram a cara. Ambos melhoram a experiência de vida, com diálogo e esforço.

Alain dizia que o esforço, a auto disciplina e a severidade fazem os projetos pessoais serem materializados. “Aqueles que recusam o método severo nunca valerão nada” (Alain. Propos sur l’Éducation). O contrário, ou seja, os mimos, dengos, paparicos ou adulações dos pais, somado à escola mais voltada para distração do que para o trabalho da razão, pouco ajuda na realização de projetos de formação. Se uma criança deseja ser pianista ou cientista, é preciso muito esforço pessoal, método próprio de estudo, muita dedicação, perseverança, autodisciplina, rigor dos mestres, repetição para corrigir os erros, etc. Pais sem limites que interferem no trabalho do bom professor, forçando-o a ser menos rigoroso ou frouxo com o filho, poderiam vir a estragar o futuro pianista ou futuro cientista. Quero dizer que, pais sonhadores nem sempre suportam serem acompanhantes críticos dos projetos dos filhos.

Em si mesmo, o sonho nada tem de realidade. Não é racional, é puro desejo, imagem. Mas, se pensado, elaborado, pode virar um “projeto” de como fazer para ser possível convertê-lo em acontecimento real. Um “projeto profissional” ou um “projeto de vida” são sonhos mais elaborados, quase prontos para serem concretizados na realidade. Muitas pedras no meio do caminho precisam ser removidas para sua concretização.

“Eu quero ser…”

As crianças são profundamente afetadas pela perspectiva do futuro, especialmente quando ouvem a pergunta “o que você vai ser quando crescer”? Nessa hora, estamos não só fazendo-as tomar consciência de seus sonhos, mas convidamo-las a falar sobre como, juntos, podemos realizar seu sonho.

Os pais nunca devem desconsiderar os sonhos, devaneios, projetos, as perguntas dos filhos. Mesmo que pareçam exagerados. Ou que mudem de idéia a cada dia. Nosso interesse nos seus sonhos e projetos aumenta a confiança e a capacidade de moldarem o seu próprio futuro.

Joel Baker, em The power of vision, chama atenção para pesquisas que compararam alunos bons aos fracos. Os melhores alunos de uma sala de aula geralmente sabem o que desejam da vida. Têm senso pessoal de controle sobre seu futuro daqui a 5 a 10 anos. Os alunos de fraco desempenho quase não têm idéia do futuro. Acreditam que o destino é que sabe. A pesquisa constatou ser mais importante uma boa perspectiva de futuro do que a própria inteligência ou a pertença a uma família bem estruturada. Evidentemente, tais fatores são importantes, mas ambos precisam de orientação e preparo com vistas à realização no futuro.

Também os imigrantes de qualquer nacionalidade têm dupla vantagem sobre os nativos: chegam à nova pátria com sonhos de realização, trabalham muito suportando sofrimentos, na crença de que o futuro será melhor que o presente. Seus sonhos transformaram-se em projetos de vida nova que fazem com que seus filhos cursem uma faculdade para terem vida melhor que os pais e avós.

Escola e mídia na contramão da sabedoria

A escola e a universidade não ligam para os sonhos. Dedicam-se a ensinar coisas sérias, como ciência, os procedimentos de pesquisa, a aplicação tecnológica, mas não “trabalham” os sonhos dos alunos. A ciência aumentou o tempo de vida, melhorou a saúde, aprimorou máquinas, etc., mas há algo que as escolas e a ciência não sabem fazer: ensinar a sonhar. “A verdade científica não tem o poder de gerar sonhos”, declara Rubem Alves (Entre a ciência e a sapiência. SP: Loyola, 2001). Não é a ciência, mas sim os sonhos que tem o poder de transformar indivíduos, principalmente os de baixa auto-estima e sem perspectiva de futuro.

Os meios de comunicação (principalmente a TV) com seus sonhos “prontos”, mesquinhos, grotescos, ora aterrorizantes, ora excessivamente românticos ou eróticos, seduzem as pessoas. A grande mídia parece estar preocupada em fabricar e impor os seus próprios sonhos (em novelas, filmes, “um sonho de princesa”, na propaganda, etc.) visando a dominação ideológica, que rejeita o potencial criativo e diversificado delas sonharem por si próprias.

Precisamos respeitar os sonhos nossos e dos outros. Não somente recordá-los, mas respeitá-los “escutando-os”, isto é, entender o seu sentido e desejo subjacente. Se os sonhos apontam para o futuro, também é necessário pensá-los se realizando no futuro porque “é nele que um dia vamos passar o resto de nossas vidas”, declara Baker.

Os pais têm papel fundamental nesse processo de elaboração do melhor futuro. Primeiro, respeitando e escutando os sonhos de seus filhos. Depois, acompanhando-os no seu trabalho de realização. No fundo, sonhar é tão importante como realizar. Contudo, uma “educação de visão de futuro” leva a sério a brincadeira de pensar “o que você vai ser quando crescer?”.


* Texto originalmente elaborado para conversar com grupo de pais reunidos numa escola. Portanto, sinalizo ser um texto mais voltado para a troca aberta de idéias tendo em vista o nosso cotidiano cada vez mais complicado para ser entendido e atuado e não para reforçar as fileiras do escapismo teórico ou do “abstracionismo pedagógico” [sic!] (Azanha, J. M..P. Uma idéia educacional. SP: Edusp, 1992).

** Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e Doutor pela Faculdade de Educação (USP). Publicado na REA nº 24, maio de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/024/24ray.htm

[1] Em psicanálise, “realização” não é o mesmo que “satisfação”. A necessidade – conceito biológico – implica em satisfação, já o desejo – conceito psíquico – jamais é satisfeito, mas ele pode realizar-se em objetos. “O desejo implica um desvio ou uma perversão da ordem natural, o que torna impossível sua compreensão a partir de uma redução à ordem biológica” (Garcia-Rosa, L. A. Freud e o inconsciente. Rio: Zahar, 1984, ver cap. 7, “O desejo”, p.139-250). A ordem da necessidade implica na busca de satisfação através de objetos específicos (ex: fome = necessidade de comida; alimentado, o sujeito obtêm redução da tensão surgida da fome, logo, sente-se satisfeito, pelo menos por algum tempo). Já o desejo não implica uma relação com um objeto real (ex: comida), mas com um fantasma (fantasia, um devaneio ou sonho). Essa distinção é importante se fazer para entender que, necessidades não geram sonhos, ou projetos, obras de arte, mas apenas sobrevivência. Se a necessidade for recoberta pelo desejo, este se encarrega de fazer projetos. Por isso que o crítico de arte, F. Gullar, num ensaio teórico (Dor e arte. Folha de S.Paulo: Mais!, 07/05/1995), observa que uma coisa é viver uma existência trágica (isto é, cheia de frustrações, carências, dores, etc.) e outra é a tragédia criada para o teatro, o romance, a poesia, o cinema. A pobreza (lugar expressivo de vários tipos de necessidades) e a violência (situação limite de medo, sofrimento e dor) presentes no cotidiano de uma favela, não costumam gerar arte, mas “modos e meios de sobrevivência”. Gullar cita Gide que teria dito que “a arte nasce quando viver [biológico] não é suficiente para exprimir a vida”; ou seja, a arte não surge necessariamente quando a vida concreta é ruim, mas quando a existência é marcada pelo sofrimento ou “dor moral”. Portanto, não é a dor [física], mas o sofrimento [psíquico] cuja matriz é o desejo, que geralmente faz surgir uma obra de arte. Porém, mesmo a realização do sujeito numa obra de arte, o “objeto do desejo [sempre] é uma falta [psíquica] e não algo [concreto, material] que propiciará uma satisfação”. “O desejo é marcado por uma perversidade essencial que consiste no gozo do desejo enquanto tal (…). O desejo se realiza nos objetos, mas o que os objetos assinalam é sempre uma falta [psíquica ou simbólica]”… (Garcia Rosa, L.A. op. cit.). Especificamente o caso do sonho de sono, primeiro é preciso considerar se o desejo do sujeito dormir, segundo o desejo de relaxar o corpo e a mente para permitir o sono, donde surgirão os sonhos; terceiro, ao sonhar, haverá uma realização no nível fantasmagórico, realizando aí um gozo puramente imagístico ou verbal (metáforas e metonímias). Também o sonho fora do sono (devaneio, fantasia) é determinado fundamentalmente pelo desejo. Há sonhos que se realizam no simples ato de sonhar, fantasiar. Ou seja, como o desejo está sempre em falta, “o desejo é sempre desejo de desejo” de mais sonhar. Há também sonhos mais complexos que demandam um “projeto” para sua realização no plano da realidade material. Obras de arte como Guernica, de Picasso, ou Brasília, de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, são alguns dos exemplos eloqüentes. Para concluir: Freud, quando diz que o sonho é uma realização (e não satisfação) de desejo, me parece que ele formula aí duas possibilidades de encaminhamento do sonho: uma, subjetiva, e outra, objetivada na realidade cotidiana.

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7 comentários sobre “O futuro dos filhos

  1. Texto excelente para pais refletirem sobre a criação dos filhos.
    Tenho 3. Acredito na reponsabilidade que os pais têm na formação
    dos filhos, inclusive ou, pricipalmente na formação do carater.

  2. É verdade, até Deus se preocupou com o futuro de seus filhos amados. Por isso deixou-nos um testamento de normas de conduta, para seguirmos em frente guiados por ele.
    Nosso amigo Osaí não acredita, mas, é um fato real, a Bíblia existe e é seguida por milhões de seres humanos.

  3. Concordo com a preocupação dos pais com o futuro dos filhos, mas acredito que os pais não devem sonhar pelos filhos a fim de que não se sintam decepcionados caso estes não sejam aquilo que os pais gostariam que fossem. O importante é que esses pais possam apoiá-los, valorizar e fazê-lo acreditar em seus sonhos para que se sintam seguros e motivados na busca da realização destes.

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