A tentação do plágio

por Walter Praxedes*

Para expiação do pecado capital do mundo do conhecimento que é o plágio, um primeiro passo pode ser a simples confissão. Nos livramos da culpa do plágio citando a fonte de uma informação ou argumento.

Quando um autor perde a capacidade de resistir ao mal o plágio se consuma. O ato de plagiar é então considerado um crime hediondo. Em seu julgamento o réu será acusado de premeditação, falta de escrúpulos, desonestidade, falta de ética profissional. Aos poucos os argumentos condenatórios resvalarão para o campo da moral. No comportamento anterior do réu serão buscados indícios de vileza, vulgaridade e lascívia. Com tão pungente peça acusatória o veredicto final só poderá ser a condenação ao ostracismo intelectual.

É claro que a defesa poderá sempre alegar que o crime foi passional, argumentando que o acusado não resistiu a um impulso irracional de apropriação indevida da criação alheia e agiu por amor, não por inveja ou cobiça.

Se um texto é uma espécie de filho que colocamos no mundo, a moral nos ensina que o melhor é que não seja fruto de um incesto. O plágio é um incesto que realizamos com um irmão ou irmã de ofício, que nos seduziu através do seu texto. A atração por plagiar é como um desejo incestuoso do qual nos afastamos se resignando à imperfeição do nosso próprio texto.

Quer seja o plágio considerado como um vulgar crime motivado pela falta de ética, ou como um ato passional, e até mesmo um incesto, no mundo das letras não conseguimos evitar um sentimento misto de repulsa e compaixão pelo criminoso plagiário, considerado mais uma pobre vítima de uma tentação demoníaca.

Ao autor considerado pelos pares como sério, consistente e inovador pode ser relevada uma falta até grave em sua vida privada. Dificilmente, porém, lhe será concedido o perdão por um plágio comprovado e às vezes apenas presumido.

Podemos, então, concluir que uma interdição tão severa como a que paira sobre o ato de plagiar só pode mesmo ser explicada pela existência de um desejo de transgressão que tenha a mesma intensidade.


* Doutor em Educação pela USP e professor de sociologia na Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel. É co-autor dos livros O Mercosul e a sociedade global (12ª Ed. 2002) e Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia (1997). Publicado na REA, nº 24, maio de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/024/24wlap.htm

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9 comentários sobre “A tentação do plágio

  1. Interessantíssimo. Já vão muitos anos, li Sartre, e ele dizia: “Aquilo que você aprendeu lhe pertence”, comentando o conhecimento adquirido. Originalidade? Temo que só é possível a paráfrase, na maioria das vezes. Até quem condena e critica o “plágio” repetirá as ideias de outros… as palavras são infinitas. Raros são os novos conhecimentos e os novos conceitos. Nas áreas de minha preferência, Filosofia e Teologia, é totalmente impossível evitar a paráfrase honesta. Na literatura, porém, tudo se resumirá a uma questão de estilo, talvez… mas as idéias, minha gente, são sempre nossas. Mesmo que alguém já tenha dito o que pensamos. Ou reproduza o que já escrevemos. Seja como for, o universo literário é inatingível, no todo, até para quem acha que leu todos os livros do mundo.

  2. Perdão, Rodrigo as paráfrases tb têm alteridade, uma vez que não são cópias. Deleuze irá referir-se a repetição com a diferença, neste sentido. Carregamos, Rodrigo os genes de nossos pais, mas somos outros e buscamos nas nossas várias etapas da vida a nossa mestria enquanto texto.

  3. Caro Rodrigo, as paráfrases são cópias tb. Os vieses são importantes tb. Aliás, há pesquisadores fantásticos que conseguem justamente com o viés inovador mudar todo o campo de visão, entende. Pesquisar os textos fontes é essencial para buscar vieses diferentes diante da grande gama de glosadores sobre determinado assunto, entende. Aliás, Montagne afirma isso, tudo é entreglosar, algo próximo de gozar artística e acadêmicamente. Minhas colocações sobre o texto de Praxedes é que onde há metalinguagem, qualquer que seja há sempre alteridade, pois será um terceiro inovador, mesmo que parafrásico, pastiche, decalque, etc… Logo, não é incesto, é uma questão psicanalítica, pois para ser teria de ser uma relação de espelhamento, coisa que sóa as crianças e não os adultos fazem, é claro , há exceções … Acho que ele foi infeliz com esse premissa, pois não “pecar” para compreerder o conhecimento é um pecado. Os textos todos existem e estão aí com suas teorias para serem utilizados, é só citá-los para que haja respeito, só. O problema meu caro é a propriedade, o discurso da arte é lúdico, não é autoritária, pode cair na boca do povo e ser usado, batido como uma puta,´afirma Erico Veríssimo em O Gigolô da Palavras. A língua, a tradição, o cânone tem de apanhar …, além disso, essas questões se devem ao fato de não se ensinar direito a pesquisar desde o E.Médio. Agora, descordo da colega Walquiria que afirma que copiamos nossos professores, são referências de identidade que compartilhamos na nossa formação, são influências diria Harold Bloom, mais uma vez. Não confunda copiar o professor com fazer uso de suas teorias ou vieses, enfim…. by

  4. Sou acadêmico de letras do último semestre e estou passando, com mais intensidade agora, embora em outras etapas também, sobre esta questão a respeito de pesquisa bibliográfica com fim de compor um estudo científico, porém não só a isso resume-se a discussão sobre plágio, mas queria chamar a atenção para um argumento utilizado acima sobre contestar o plágio. Logicamente somos paráfrase de nossos pais, copiamos a todo instante, mas ao nos formarmos como cidadãos vamos adquirir nossas próprias peculiaridades, assim também é o estudo acadêmico, pelo menos no que se refere a gradução e em ambiente acadêmico, seja ele científico ou literário, devemos estabelecer uma busca pela nossa identidade como ser atuante na sociedade e para tanto é necessário absorver e não ignorar as contribuições de pensadores que dedicaram uma vida a fundamentar uma ideia, exatamente para que qualquer síntese seja estabelecida, nada mais justo então citar com as provas de outra pessoa aquilo que de forma análoga já pensávamos ou dar um viés diferente para uma mesma lei ou proposta já aceita no campo acadêmico. Questionar e estabelecer a relatividade de todas as leis já quase que categóricas de nossa civilização, como é o plágio, penso eu que é tempo perdido, como uma disputa entre criacionistas e evolucionistas, nunca chegarão a um consenso, são cânones e estão em nossa sociedade. As contestação é sempre importante, porém não se pode confundir cópia ou paráfrase com agregar um sentido novo a um assunto já dito.

  5. Professor, sou estudante de Pedagogia e na matéria de Tecnologia Educacional tivemos como atividade a criação de um blog. Todos criaram e todos teriam quer seguidores dos blogs dos colegas de sala.No entanto, quando comecei a visitar os blogs dei de cara com matérias que já havia lido em outro lugar. Fiz pesquisa e fui aos poucos descobrindos os textos originais. Conversei com a professora a respeito porque antes de nomes está a índole e o comportamento. Sugeri à ela que falasse a respeito e ela perguntou-me se eu não queria fazer um trabalho, valendo pontos para compor a nota do bimestre e assim eu fiz e expus.
    Fico indignada quando vejo um plágio, mas isto também é uma questão de educação. Tantos anos sendo obrigados a copiar tudo o que os professores falavam criou-se um hábito horrendo se não criminoso.
    Adorei sua matéria, só reforça o que penso. A postura correta deve ser sempre divulgada para que todos possamos ser criadores e produtores de texto.

  6. Em primeiro lugar é preciso compreender o contexto históriográfico do plágio. Para Foucault a propriedade intelectual nasce com o advento do mundo burguês, sobretudo no campo da ciência e depois, muito depois no campo da arte, que compreende esse aspecto como algo de extrema importância dentro da construção de qualquer campo poético.
    Acho estranha sua analogia com incesto, Harold Bloom, assim como Lacan trata essa relação como alteriadade em relação ao texto primeiro e, ao mesmo tempo, como uma questão de identidade. Gregório de Matos, é um plagiador convicto de Petrarca e Boccage, assim como todos, TODOS do campo artístico. Não há incesto qdo há alteridade em relação ao signo tropo, desapropriamos, deslocamos, ampliamos, quebramos o vaso do texto anterior para ser um terceiro, assim é com as paródias, com as paráfrases(utilizadas tb. no campo acadêmico, uma vez que resumo, resenhas e artigos pressupõe paráfrases), assim é com os pastiches, com as bricolages, como o decalque, como co-presénce com diria Gerard Genette, as intertextualidades internas e externas, assim são tb. nas plagiotropias, como diaria o famoso poeta concreto brasileiro Haroldo de Campos…. Não há, como afirma M. Bakthin, linguagem adâmica, qualquer sema reatualiza um texto alheio. Citá-lo no campo cadêmico é importante, sugiro que repense essa luta interna com a origem primeva, um ideal platônico, que somente Hitler buscou, uma linguagem órfica, imaculada de qualquer mistura de textos alheios, talvez esconda o problema edípico do senhor que vê as coisas sobre esse prisma. Algo impossível de se pensar, pois somos todos sofistas diria Gilles Deleuze

  7. Eu concordo com Joaquim ao afirmar que no campo das idéias o plagio está presente por estarmos de passagem no mundo e ao nascermos já encontramos um mundo objetivado. Todavia é necessário destacar que vivemos em um tempo em que a dinâmica da apropriação indevida do pensamento do outro se faz tão presente, que ais idéias não têm tempo de serem depuradas, aprofundadas ou mesmo apropriadas na sua essência. Sobre tudo na academia. Nesse tempo dos espetáculos curriculares, a naturalização da ordem estimula o plagia. E as idéias se desfazem de maneira tão rápida, que o ator fica sem direito de defesa das mesmas, daí a importância das criticas estabelecidas pelo professor Walter Praxedes.
    Nivaldo Santana

  8. Prezado professor Praxedes.
    Como devemos agir quando estamos escrevendo uma monografia totalmente baseada em história e temos pouco ou nenhum acesso a documentos originais?.O senhor há de convir que é uma empreitada difícil e que por mais que se queira, não podemos deixar de nos basear em livros, artigos, resenhas que tratem do mesmo assunto. Alias ,o que mais se nota em qualquer artigo acadêmico,são justamente as famosa citações. Para mim elas significam que, os citados são pessoas que tiveram acesso ao assunto e a idéia de escrever sobre ele , antes de nós.
    leda

  9. Prof. acredito que um plagio e um pecado capital, mas e impossivel viver sem palgiar, porque nem mesmo quando escrevemos um livro, um artigo nem sempre citamos, nao porque nao queremos citar, porque pensamos que sao as nossas ideias. toda a ciencia por mais que citamos ela e um plagio. Recordo os ultimos textos que li de Roberto K Merton. A explicar a historia das ciencias de mostrou que muitas ideias que aparecem em muitos textos ja foram discutidas e apresentadas e que nao ha ideia original. Bourdieu, na meditacao pascalina, no capitulo confissoes impessoais, escreveu assim: muitos vao dizer que oque estou a escrever ja e sabido.
    Joaquim
    Mestrando em Sociologia-USP

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