A sobrinha do bispo

por Regina M. A. Machado*

Na porta da catedral, os fiéis saindo, ele sorrindo, circulando o olhar, grande, suave e imponente, dando o anel a beijar, vestido de púrpura, cambraia e renda, o solidéu redondo e a mão adequada ao gesto e ao beijo.

– E você, beijava o anel?

– Nao, eu virava as costas, mas não por convicção. Seria por pudor, por não me enquadrar na cena? Má atriz, desde então, incapaz de participar da encenação geral. Estou na saída da missa na catedral nova que se via de longe, toda branca com ângulos atenuados por uma espécie de moldura amarela que lhe traçava linhas levemente barrocas. Mas quando o povo entrou e descobriu as figuras e as paredes verde sujo, foi um escândalo, que alguns resolveram caçoando, “Por fora bela viola,por dentro pão bolorento”, outros se refugiaram naquelas igrejas que a gente entendia, como a matriz velha, ou a capela do colégio, que nos envolvia os retiros e as bênçãos da tarde do mês de maio em tons desmaiados, e onde um anjo branco e dourado balançava a cabeça quando se punha esmola no cofrinho da entrada.

Foi realmente um susto, aquele verde oleoso nas paredes, a feiura esquisita das figuras, que lembravam a caipirada que vinha das fazendas nos sábados fazer compras nas lojas. A mesma cor de pele, as mesmas caras enfezadas. Não eram nem brancos nem pretos, nem mulatos nem nada, eram cor de terra. Cor de sol com poeira. Bom, o pintor era comunista, e isso apesar de ser irmão do bispo. Enfim, de repente ficou tudo muito desencontrado para os fiéis e até para os infiéis. Comunista. Só a palavra retumbava como um trovão sinistro, naqueles anos 50 da guerra fria, dos filmes no cine Éden ensinando como era o mundo e como julgar cada figura conforme fosse mais ou menos como os cavalos brancos dos mocinhos de nariz arrebitado, com a crina loira voando com o vento toda para um lado, as mocinhas de cabelo pagem e vestidos claros, rodados e esvoaçantes. Naquele tempo, os mexicanos tinham chapéus enormes e dormiam barrigudos e bigodudos em calçadas empoeiradas; os japoneses eram cruéis e perigosos; os franceses indignos de confiança, com bigodinho e boina, carregando uma eterna baguete sem papel debaixo do braço. Não que confundíssemos a realidade com os filmes, mas havia tipos assim, que não se podia admirar nem ter confiança. Então, de repente, a catedral virava o contrário do cinema e em volta do altar apareciam aquelas caras que a gente não gostava. Para qualquer lado que se olhasse enquanto se rezava, era aquela caboclada em vez dos anjos e santos de sempre, branqueados como a cidade. Não que se falasse nisso no footing da praça, mas pensava. E as famílias comentavam. E a gente perdia um pouco o pé no nosso chão aglutinante, garantia e exclusão das coroações de maio, reservadas aos anjos loiros de olhos azuis que eu não tinha, como não tinha certezas, embora achasse que tinha fé, já que era impossível não ter.

Junto com as pinturas, veio também a sobrinha do bispo, que tinha tudo isso, só que não era nenhum anjo de procissão. Ela ficou logo amiga da moça mais exibida de todas, começou a se pintar do mesmo jeito e a se vestir igual. As duas eram altas, magras, se vestiam com cores chamativas, uma loira de olhos azuis, mas não de mocinha de filme, eram olhos fuçadores e desconfiados, a outra, morena, olhos verdes de feiticeira, boca grande. Nós da cidade só clarinha e limpinha olhávamos descontentes aquele andar ondulando naquelas cores todas que elas esbanjavam. Mas a primeira sessão de cinema de domingo à noite nem pensar que começasse sem as duas terem entrado, requebrando, rindo alto, provocando nossos vestidos que ficavam com cara de reformados da primeira-comunhão e indo até lá na frente e depois voltando. Pelo meio da plateia, com o cinema inteiro olhando e ouvindo. No final, acho que até na missa ela vinha com a amiga, e a missa também só começava de verdade depois que acontecia a chegada das duas. Só que ela tirava notas boas, as melhores da classe, no nosso colégio Imaculada Conceição . A professora de história leu alto uma prova dela, que me foi um desafio, quase tão esquisita e difícil quanto as pinturas da catedral. Além disso, tinha vindo do Rio de Janeiro, tinha aquele sotaque chiado, meio chique meio enjoado, que não soava natural, mas que talvez permitisse dizer coisas que a gente nem sonhava. Sempre caçoando, acho que até do tio bispo ela caçoava.

O pintor irmão do bispo tinha coberto as partes baixas das paredes com frisas verde escuro sobre fundo verde mais claro, não sei porque tanto verde, aliás, já que segundo diziam a pintura dele queria retratar a realidade e por ali em volta era tudo marrom. As abóbadas, sim, tinham paisagens iguais às das fazendas dos arredores, com arbustos e caras conhecidas. Algumas a gente até sabia o nome, era muito esquisito aquilo, além da terra ressecada, desertada de árvores, sofrida, uns pés de café que bem se via serem da época da colheita, com os frutos vermelhos, mas o mais eram galhos caídos pelo chão, numa terra desolada. O pior mesmo eram os caboclos, gente de pé no chão, espingarda na mão, lá em cima, em volta do altar das capelas laterais. No altar-mor, devia ser o Juízo Final, uma multidão, que em vez de palmas trazia galhos de café e outras plantas conhecidas, mas era muito grande e muito alto, não dava para ver direito. Só os anjos da coroação do mês de maio, que subiam no altar para coroar Nossa Senhora, é que podiam ver de perto aquela gente e saber quem era.

Pelo menos as estátuas eram lindas, isso ninguém negava. Embora diferente da Nossa Senhora das Graças azul e branca da capela do colégio, a imagem da virgem de madeira ondulada, rosada, cheia, drapeada e quase macia de pele, essa a gente entendia, ou tinha vontade. Havia outros santos, havia um Cristo também de madeira, acho, mas só me lembro bem dessa. Vindo da Itália, a gente esperava que pelo menos o escultor, sendo do país do papa, fosse bom católico. O que é certo, é que as esculturas que ele fazia enchiam os olhos e a alma, se bem que não como os filmes; até ajudavam a rezar, melhor do que na capela do colégio. Acho que me afeiçoei à madeira por causa delas; muito mais tarde, quando pude por minha vez pegar no cinzel, nunca pus cores na madeira que trabalhava. As cores, foi a sobrinha do bispo que resguardou, as que ela trouxe, no rosto e nas roupas, e as das paredes pintadas pelo pai, pois soube que mais tarde ela abriu uma galeria de pintura.

Na década seguinte, com o país e o mundo em plena reviravolta,falou-se muito nesse bispo, líder de uma direita ultra-conservadora, defensor de um direito inalienável de propriedade sobre extensões de terra sacralizadas pelas grilagens históricas que construíram a riqueza colonial e nacional. Nessa época, em que ele catalisou o ódio dos estudantes de uma esquerda em que me situava, eu ficava à parte. Talvez por uma imprecisa gratidão, por causa das pinturas da catedral, da sobrinha adolescente colorida, do alargamento dos horizontes que isso tudo trouxe à cidade de terra branca, obrigada a se perceber rodeada da terra vermelha e exausta de todo o café que nos criara.

Muito mais tarde voltei e andei por ali tudo, reconhecendo quase todas as casas do centro que, vistas da rua, não tinham mudado tanto. O jardim de São Benedito estava um pouco mais esburacado, mas os tijolos tinham uma velhice quebrada e fincada na terra escura que me tranquilizou, mas espantou também. Nunca soube que dentro da cidade houvesse terra vermelha, fiquei imaginando que só no jardim de São Benedito, santo preto e meio pobre é que ela podia ter aflorado. De noite saímos para dar uma volta e entramos pelo portão aberto do colégio velho, meio demolido, onde só conseguimos avançar graças à luz da lua, até chegar ao pátio da capela. A ingênua gruta de Lourdes onde se tirava fotografia de primeira comunhão tinha sido arrasada; as paredes da capela não tinham mais pintura, as cores douradas e azuis tinham desaparecido. Havia um grupo que cantava perto do altar, no meio de andaimes e que nos fez sentir indesejáveis. Na manhã seguinte, visita rápida à catedral, que revelou novas cores à minha memória enganosa, muito cinza nas paredes e, lá em cima, abóbodas que ressoaram como cânticos emocionados a meus olhos surpreendidos. Um tanto maltratada também, ameaçada, disseram, por cristãos fundamentalistas que não queriam mais saber de pinturas nem de imagens. Me fez pensar nas estátuas explodidas dos Budas; fiquei imaginando se falariam da catedral da cidade pequena como se falou das estátuas milenares. E me lembrei do bispo conservador intratável, que fora capaz de fazer uma igreja que nos obrigava a enxergar as rachaduras do nosso mundinho, estranhamente o mesmo que ele teimava em preservar.

Desconcerto do mundo…!

Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição - Catedral de Jacarezinho

* REGINA M. A. MACHADO é uma brasileira expatriada que em geral trata dos escritos dos outros, mas que de tanto engolir crias alheias, acaba pondo para fora alguma criatura nascida do medo e da escuridão, como tantas outras. Fez um doutorado tardio em 2007, na Sorbonne, sobre literatura brasileira. Atualmente anima oficinas de francês para imigrantes em Bonneuil-sur-Marne, onde mora. Quando tem oportunidade, traduz autores brasileiros para o francês e, em se tratando de ficção ou teatro, sempre em colaboração com algum francês de raiz. Publicado Publicado na leva 45 de Diversos Afins.

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6 comentários sobre “A sobrinha do bispo

  1. Seu texto é excepcional, Regina. Não me aterei ao “conteúdo” porque você já o fez conclusivamente na resposta ao comentário da Maria Aparecida e tudo o mais que eu pudesse escrever nada, ou muito pouco, acrescentaria.
    Prefiro, portanto, ater o meu comentário ao fluxo narrativo que imprime um ritmo cuja velocidade impede que se interrompa a leitura, mas sem que essa velocidade prejudique um lirismo poético que aflora em diferentes recursos, sobretudo nas metáforas, que são tributários da poesia. Não gosto de apontar paralelismos, mas a descrição dos ambientes me lembrou Prost.
    Parabéns.
    Beijos
    Carla Luma

  2. À Regina e ao Francisco meus agradecimentos, por me retornarem com reflexões que me permitem repensar. Talvez o meu sentimento decorra da capacidade da autora – Regina – em escrever com muita arte e, por isso mesmo, ter me sensibilizado de retornar aos velhos tempos de menina de 11 anos que sai da roça e entra em uma escola de freiras para meninas de classe média. O que importa no momento é que sua obra de arte vai além de sentimentos singulares, como os meus, para evidenciar uma visão de classe, e o faz com muita maestria, de modo que, como diz Chico de Oliveira, o Ornitorrinco – sociedade de classes brasileira – em sua dualidade estrutural, se desnuda.
    Desejo-lhe muita inspiração para continuar escrevendo e nos fazendo refletir para além dos textos didáticos.
    Atenciosamente,
    Maria Aparecida

  3. primeiro obrigada por lerem e comentarem.
    em seguida, para Maria Aparecida: releia, se tiver tempo e paciência. você vai ver que o conto é todo sobre cores e o olhar sobre elas, dos habitantes da cidade branqueada que nao se enxergava em todos os seus componentes, que os negava e nao conseguia entender nada do que aquela arte revolucionaria para a época trazia à sua sensibilidade.
    a menina nao sou apenas eu, é um olhar de classe média pseudo-culta, embotado por representaçoes europeizadas, desenraizadas e ainda uma vez, que gosta de pensar que a cidade so tem terra branca, que ela propria é pura ariana, que nao conhece sua historia e se construiu sobre a destruiçao da terra e a negaçao dos homens usados para trabalhar essa mesma terra – a terra vermelha que ao lhe dar a vida perdeu as arvores, os passaros e a fertilidade com a monocultura do café. isso tudo sao as contradiçoes que nos fizeram, entao nao cabe condenar – so tentar entender e se humanizar.
    a menina nao enxerga beleza em nada que saia de sua visao agua-com-açucar do mundo nem nas pessoas que nao correspondem aos “cavalos brancos” dos filmes de mocinho – os cavalos também sao metafora para muitas outras visoes empobrecedoras. com isso, ela nao consegue ver a beleza mestiça de sua propria gente, dela propria, ja que tudo que sai da convençao estética que lhes é imposta, ela tem que negar.
    caso se interesse por literatura, leia o livro de John Gledson, “Ficçao e Historia”, os livros de Roberto Schwarz sobre Machado de Assis, e um livrinho pequenininho e genial, que é “Machado maxixe”, de José Miguel Wisnick (nao sei se escrevi direito) – a melhor coisa que li no ano passado.
    mas fora isso, tem um romançao, muito bom de ler, que conta a saga do norte do Parana maravilhosamente bem, que é o “Terra vermelha”, do Domingos Pellegrini. talvez seja uma boa leitura para entender melhor a nossa historia – e a nos mesmos.
    abraço,
    Regina

  4. Maria Aparecida, ao contrário de você eu vi nessa passagem a constatação (tardia) de uma imagem que era “a” imagem daquela terra, que a visão burguesa da autora não permitia ver.
    Por isso, em seu retorno, a mesma pintura da Catedral revelou “novas cores à minha memória enganosa”.
    Seria assim?
    Francisco Pucci

  5. Olá Regina!
    Quanta leveza e delicadeza no seu escrito!
    É muito agrádavel o seu discurso magnético.
    Um grande abraço,
    Cecilia leonor

  6. Que triste foi para mim ler esta frase do texto:

    “Foi realmente um susto, aquele verde oleoso nas paredes, a feiura esquisita das figuras, que lembravam a caipirada que vinha das fazendas nos sábados fazer compras nas lojas. A mesma cor de pele, as mesmas caras enfezadas. Não eram nem brancos nem pretos, nem mulatos nem nada, eram cor de terra. Cor de sol com poeira”. Sofri tanto este preconceito de viver no campo, que quando li este texto toda dor voltou de novo. Um texto interessante, mas que passa um terrível preconceito!
    Que pena!
    Maria Aparecida

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