O intelectual, entre mitos e realidades

por HELENICE RODRIGUES DA SILVA*

Convertido em objeto de estudo, no momento mesmo em que o modelo do intelectual engajado, na versão francesa, perde a sua eficácia, esse novo ator histórico vem suscitando debates e questionamentos. Presente na luta política ao longo dos três quartos do século XX, portanto, participando ativamente da História, o intelectual engajado desaparece da cena pública no início dos anos 1980, em razão mesmo das mudanças de paradigmas intelectuais e das transformações conjunturais. O enfraquecimento das ideologias do progresso e a ascensão dos valores individualistas explicam, em grande parte, o final de um modelo de intelectual que buscava, através de seus atos públicos, aliar moral e política. Na verdade, o engajamento intelectual, sob a forma de combates políticos (contra as opressões e as injustiças), pretendeu reduzir a distância que separa pensamento e ação.

Voltaire, Diderot e os Enciclopedistas constituem a gênese dos denominados “intelectuais” que, defendendo valores universais (justiça, verdade), se organizam como grupo social no final do século XIX, no momento do “caso Dreyfus”.[1] Por intelectuais são, então, designados artistas, professores, escritores, ou seja, pensadores que, já tendo uma notoriedade, intervêm no debate público, em nome de valores morais e políticos.

Desempenhando um papel ético e político, os intelectuais franceses participam da marcha de História, situando-se tanto à esquerda como à direita do jogo político. A luta contra o nazismo os predispõe a passar à ação. Conseqüentemente, a partir do final da Segunda Guerra, a prática do engajamento transforma-se em uma doutrina da ação.

Através de um primeiro manifesto, publicado no primeiro número da revista Les Temps Modernes (outubro de 1945) [2], Sartre lança as premissas para uma ação por parte dos intelectuais. Situando-se em seu tempo, o intelectual engajado deve se definir pela sua posição crítica em relação ao mundo, afirmando-se como o representante das forças progressistas e como o defensor de uma causa humanitária.

No entanto, a abnegação dos princípios morais em detrimento das paixões políticas parece ter sido uma constância na história dos intelectuais franceses, a partir desse momento. A conjuntura histórica no final da Segunda Guerra (o constato mesmo da derrota da razão em Auschwitz, a vitória do comunismo sobre o fascismo) configura um novo esquema de pensamento e uma nova maneira de se pensar uma ação intelectual. A partir de então, uma nova prática intelectual passa a ser adotada; o moralismo do passado transforma-se em uma práxis coletiva: o engajamento político. Mas, se o engajamento pressupõe uma ação do intelectual na História, visando a contribuir para mudar a sociedade, essa ação só poderá se realizar a partir de um projeto revolucionário. O engajamento será, portanto, uma resposta dos intelectuais à mística do comunismo. O intelectual francês engajado do pós-guerra posiciona-se, então, ora a serviço do partido (os “intelectuais orgânicos”), ora em sua periferia (os “compagnons de route” [3]). Simpatizando com o partido sem aderir a ele, Sartre encarna, admiravelmente, nos anos 1940 e 1950, esse último modelo. Variante do engajamento, o profetismo intelectual será portador de uma utopia revolucionária.

Se no momento das guerras de descolonização (na Indochina e na Argélia), os intelectuais franceses assumem verdadeiramente uma missão (de serem consciência moral), engajando-se na defesa dos oprimidos da História, por sua vez, no período stalinista, uma grande parte dos mesmos pecam pela sua omissão na denúncia dos crimes e dos gúlags.

Ora, a morte das utopias, assinalando o final desse modelo, é responsável pela crise de representação do intelectual. Assim, desde os anos 1980, os intelectuais franceses denunciam não só o sistema totalitário soviético e a teoria teológica-política, mas realizam uma verdadeira autocrítica responsabilizando, particularmente, Sartre pelos erros e desvios intelectuais.

Nesses tempos atuais de “desencantamentos” políticos e de imprevisibilidades históricas, como, então, apreender a missão atribuída ao “intelectual”? Desprovido de sua função de oráculo, o intelectual francês como membro de um grupo social afasta-se da política, voltando-se para a sua principal tarefa: a de produção e de transmissão do conhecimento.

Se, no contexto histórico francês, o seu papel de “guia espiritual” (no momento do pós-guerra) o induziu a pactuar com dogmas e com supostas “verdades”, o fim das ideologias do progresso o conduziu a um relativo silêncio. De “profeta” da revolução, (até metade dos anos 1970), o intelectual francês converteu-se em defensor (abstrato) dos direitos do homem.

O declínio do intelectual francês, diagnosticado através de numerosos estudos, deve-se, segundo os mesmos, às mutações conjunturais e intelectuais. Na opinião de Régis Debray [4], a inversão final de todos os valores que haviam inspirado o nascimento de sua história, faz com que o intelectual francês atinja o seu fim.

Em suma, a condição mesmo do intelectual, no contexto dos países ocidentais, ou seja, o seu papel na sociedade, derivando de conjunturas históricas precisas, evolui de acordo com as próprias mutações intelectuais e políticas. Desse modo, cada época parece fornecer um modelo específico de intelectual.

Fruto de uma realidade sócio-cultural específica, o intelectual, no sentido amplo do termo, encontra-se intimamente ligado a seu contexto histórico. Somente a particularidade desse contexto poderá revelar a singularidade desse intelectual. Para melhor apreendê-lo, torna-se, então, necessário mapear suas origens. Nos limites desse pequeno texto, apenas algumas questões podem ser colocadas. Como ele emerge em uma dada sociedade? Como ele pode ser entendido e definido? Trata-se de uma simples categoria sócio-profissional, pressupondo uma atividade intelectual ou de um simples grupo social (a elite erudita)? No estudo do caso brasileiro, o substantivo intelectual teria mais o valor de um conceito do que de um comportamento? A quem essa categoria se aplicaria?

Se na Europa Ocidental, o termo intelectual, tradicionalmente, designa uma larga fração de pensadores, constituída por pesquisadores, professores universitários, escritores, cineastas, etc., que exerce uma atividade criativa nas ciências e nas artes, nos Estados Unidos, esse termo se aplica, em geral, ao chamado mundo “acadêmico”, ou seja, àquele pesquisador e/ou professor universitário, responsável pela produção e transmissão do conhecimento. No Brasil, o termo parece hesitar entre esses dois modelos.

Sem tradição de engajamento, o intelectual brasileiro, que, aparentemente não reivindica uma função ética (de consciência moral) parece aproximar-se do modelo americano. Em geral, a produção de idéias e a transmissão do conhecimento são tidas como condições “sine qua non” para considerar como pertencentes à categoria de intelectual, os escritores, os acadêmicos e os cientistas.

No entanto, como afirma Umberto Eco, “o intelectual tem de ser a consciência crítica do grupo. Ele existe para incomodar”.[5] A esse propósito, algumas questões merecem ser levantadas. A primeira: os intelectuais brasileiros representariam, verdadeiramente, a consciência crítica de um grupo? A segunda: o pensamento crítico não deveria constituir o primeiro atributo para que acadêmicos, escritores e cientistas fossem designados intelectuais?

Sem dúvida, esses breves questionamentos remetem aos tradicionais debates que, desde o início do século XX, instigaram os intelectuais a enfocar sua relação com o poder.

Segundo A. Gramsci, exercer uma atividade intelectual pressupõe exercer um dever crítico da cultura. A principal tarefa dos intelectuais constituiria, então, em estabelecer uma relação crítica entre a cultura, as idéias e a política. Para Sartre, a ação do intelectual, enquanto consciência que escolhe livremente agir na sociedade, deveria produzir mudanças radicais na sociedade. Se, para Foucault, a função crítica foi plenamente exercida pelos intelectuais engajados no domínio político, entre o saber e o poder existiria uma correlação estreita. Ele, aliás, criticou, sistematicamente, o intelectual que se declara mestre da verdade e da justiça, aquele que pretende resistir aos efeitos repressivos do poder. Foucault denunciou, igualmente, a pretensão do discurso dos intelectuais de caráter profético e universal, insistindo sobre a idéia de que a verdade não é estranha ao poder.

Convém, no entanto, assinalar que o engajamento intelectual francês manifestou-se sob a forma de um contra-poder. Vigilantes em relação ao uso do poder, os intelectuais engajados de esquerda posicionam-se contra as formas de autoritarismo e os abusos do poder político. Privilégio de uma democracia, o contra-poder exprime-se em momentos particulares de tensões sociais e de crises políticas, visando a limitar o próprio poder.

Consciência moral e consciência crítica, o intelectual (da Europa ocidental) forneceu um modelo de intelectual que, embora inadequado e ultrapassado, poderia servir de referência na análise do papel do intelectual brasileiro. Ora, no Brasil, segundo Sérgio Miceli, “o estado sempre exerceu uma incrível atração sobre os intelectuais”.[6] Num país onde reina desigualdades e injustiças e onde o poder, seja ele qual for, tende a corromper a liberdade de pensar e de agir, a função do intelectual não deveria ser, antes de mais nada, crítica e ética?


* Professora Adjunta da UFPR. Autora de: Texte, action et histoire – réflexions sur le phénomène de l’engagement. Paris, L’Harmattan, 1995. Fragmentos da história intelectual – entre questionamentos e perspectivas, Campinas, Papirus, 2002. Publicado na REA, nº 29, outubro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/029/029csilva.htm

[1] De origem judia, o capitão Alfred Dreyfus foi acusado de traição pelas forças armadas francesas por atos de espionagem em favor da Alemanha. A denúncia dessa injustiça fornece a ocasião para uma manifestação pública envolvendo os “intelectuais” de diferentes tendências políticas. A publicação do artigo de Émile Zola, “J’accuse”, no jornal “L’Aurore”, pedindo a revisão do processo, inaugura, assim, a história política dos intelectuais franceses.

[2] Ver, Rodrigues da Silva, H. Texte, action et histoire: réflexions sur le phénomène de l’engagement.

[3] De difícil tradução, esse termo designa, grosso modo, os companheiros de uma aventura política.

[4] Régis DEBRAY. Suíte et fin. Paris, Gallimard, 2000.

[5] Umberto ECO. “A função dos intelectuais”; In: Ëpoca, 3 de fevereiro de 2003, pp. 22, 23.

[6] Veja –on line. Entrevista com Sérgio Miceli, http//veja.abril.com.br250/701/entrevista.html. (3/4/2003).

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7 comentários sobre “O intelectual, entre mitos e realidades

  1. O equívoco de sempre: intelectual engajado = intelectual com consciência crítica. Problema de sempre: o que fazer com os conceitos?

    O intelectual, seu pensamento especializado e o campo de ação. Este campo é, antes de tudo, o campo do discurso do indivíduo que se debruça sobre outro ou outros discursos. Somos o que dizemos (o mundo é o caso – Wittgenistein), mesmo quando nada dizemos, o silêncio é o discurso. E nem todo som é percebido por todos do mesmo modo… Ou nem é percebido.

    O intelectual não está submetido ao dever de exercer a crítica com consciência em um nível maior do que o do comerciante, do empresário, do estudante, do clérigo, do enfermeiro ou do escafandrista.

    Minha conciência crítica, justamente por ser crítica, por exemplo, me po~e diametralmente contra Gramisci e sua escola de manipuladores e assassinos.

    Escolhi (estamos sempre condenados a isso), outro segmento de manipulação: aquele que percebe a vantagens de se viver no regime capitalista, com economia de mercado, contradições incluídas.

    O intelectual pode e tem o direito de ser consciência crítica voltada favoravelmente para uma classe, um grupo, defendendo-os da repressão coletivista.

    Sim, a função do intelectual deve ser crítica e ética. E deve fazer funcionar sua capacidade de perceber horizontes, ultrapassar o discurso revolucionário, negar-se à falsificação.

    Isso nada tem de um “virar as costas” às agruras dos semelhantes. É (in) perfeitamente ser solidário sem portar no bolso uma carteirinha de ativistra.possível

  2. Hoje vejo o intelectual em crise seja pela sua função ou mesmo quanto sujeito transformador e líder. Está se perdendo aquele intelectual autêntico que quer e luta por mudanças no seu entorno acadêmico ou na vida política. Na universidade cruzo continuamente com os verdadeiros “ratos de laboratório” correndo e se escondendo em grupos de trabalho e presos a pesquisas sem fundamento para si e para a sociedade, preocupados somente com a sua produção acadêmica repetitiva obedecendo ao esmagador mercado de produção técnica ( políticas de editais do CNPQ etc.). Será esse o triste fim do intelectual? Porque não reintegrar ao seu trabalho a solidariedade, a criatividade, a ética na construção de uma ciência justa que realmente transmute o mundo e não que somente o reproduza nas condições de um um efêmero ensaio de laboratório. Será esta uma utopia?

  3. parece muito interessante, mas vou continuar a ler depois que a professora fizer uma correçao: levar Voltaire e Diderot – um dos ditos Enciclopedistas – de volta para o século XVIII e separa-los do caso Dreyfus, defendido por Zola no final do século XIX.

  4. O intelectual além de ser um sujeito que possa contribuir técnico-artísticamente com seu intelecto original para a sociedade de seu tempo, possui um senso moral e político aguçado, diria crítico. Para mim, o termo intelectual deve seguir o conceito gramsciano “intelectual orgânico”. Se fugir disso, ele se torna um pseudointelectua, padronizado pelas ciências ou um bobo da corte da industria cultural, rodeado pela soberba e pela vangloria de servir ao Establishment.

  5. Gosto dos intelectuais. Alguns possuem ação coletiva destacável! Porfessores universitários, estudantes, membros de organizações não governamentais, políticos, artistas, potencializados recentemente com a onda da web, tal como presenciamos este blog!
    São fenomenos como este que deveríamos aproveitar!
    POr exemplo, como a democracia e a liberdade são aproveitadas por estes intelectuais?
    A música brasileira melhorou ou piorou durante estes anos? Ok, a qualidade não gostaria de questionar, mas a quantidade de novos artistas aumentou? Novos e diferentes grupos são ouvidos? Até que ponto um artista pode ir?
    Até onde um professor universitário pode chegar? Aonde um brilhante estudante pode ser reconhecido, senão possui nem fundos para o desenvolvimento de suas pesquisas?

    Ainda assim, tenho medo dos “intelectuais” do Brasil…

  6. Intelectual, tal como a Igreja coloca o pecado, deveria ser um problema de consciënciia muito íntima, enão resultado de todo um ritual burocrático elitista e alienante, na maioria das vezes.
    As pressões por criar regrinhas de ser ou nãol ser, terminam por limitar muitas formas de expressão.
    DE FATO O INTELECTUAL DIFICILMENTE DEIXA DE ATUAR NA POLÍTICA, POR FORÇA INERCIAL DE SUA NATURAL LIDERANÇA.
    Se com muito ou pouco alcance, se enquadrado ou não na burocracia acadëmica, esta liderança tem expressão decisiva em seu entorno.
    MUITA BUSCA EM HORIZONTES MAIS OU MENOS DISTANTES PODERIAM PREJUDICAR UMA AFIRMAÇÃO DE UM CONCEITO, OU MESMO UMS INSTITUIÇÃO BEM ÚTIL DE SER CULTIVADA EM QUALQUER CULTURA, COMO UMA DAS PREMISSAS SIGNIFICATIVAS NAS ESTRUTURAS REPUBLICANAS, para que o BEM COMUM fosse aprimorado.

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