Um paradoxo na República brasileira: ditadura na democracia

por WELLINGTON DE OLIVEIRA*

A Copa do Mundo é nossa, não há quem possa com os brasileiros! Eh, Eh, esquadrão de ouro… (Trechos da música alusiva à seleção brasileira comemorativa da conquista do Bicampeonato, 1962)

É fato, em 1962 o técnico do “escrete canarinho”, talvez ninguém se lembre, mas todo mundo se recorda quem foram os “heróis” da conquista, quem nunca ouviu falar de Garrincha, Didi, Djalma Santos e, ai sim, o fabuloso Amarildo que coube a ele a incumbência de substituir o insubstituível, Pelé.

Outra pergunta se coloca, qual era o esquema tático do time brasileiro? Caso existisse, provavelmente existia, não era a tônica da crônica esportiva tampouco era a preocupação do povo brasileiro, colados com seus ouvidos nos radiozinhos de pilha e não com os “amigos da Rede Globo”, torciam eufóricos com aquela conquista.

O Brasil, politicamente, vivia um momento democrático, conflituoso, porque os setores conservadores faziam uma oposição crônica ao governo do presidente João Goulart que havia assumido o posto máximo de nossa nação compromissado com as “Reformas de Base”, de cunho popular e desenvolvimentista. Os representantes de uma determinada direita, principalmente aquela ligada ao capital internacional se articulava em torno e em volta dos militares um golpe contra a democracia que acabou se concretizando em 1964. O país entrou nos chamados “anos de chumbo”, foi a “Ditadura Militar” que se instalou e se consolidou até 1985.

Outras copas vieram. Em 1966, foi um fiasco! Os “heróis” de 1958 e 1962 envelheceram e a geração que poderia superá-los, jogadores como Gérson, Carlos Alberto, Tostão, não foram o eixo central da seleção naquele momento. Pelé estava lá também, mas não em seus melhores dias, inclusive, fortemente “caçado” literalmente na partida contra Portugal de Eusébio (outro que mereceria uma crônica à parte) nada fez. Garrincha estava lá, mas envelhecido e sem a condição que o havia transformado no “Anjo das pernas tortas”. Enfim, 1966, me parece foi a cara de um Brasil atônico, sem saber o que estava acontecendo.

Em 1970, a Copa do Tri, das “Feras do Saldanha” e depois as “Formiguinhas de Zagalo”. Parece-me que aqui se revelam as contradições da sociedade brasileira. A conjuntura era do momento áureo da ditadura militar no Brasil. Sob o ponto de vista econômico vivia-se o “Milagre Econômico” capitaneado pelo economista mor da ditadura, Delfim Neto. Aproveitando esse crescimento econômico o governo Médici prendia e torturava com a classe média respaldando. Era o “Ame ou deixe”.

A pergunta central ai é essa, onde está paradoxo? O governo militar ditatorial, através da Confederação Brasileira de Desporto – CBD, com o ultra-reacionário João Havelange à frente, indica o comunista João Saldanha, crítico do governo e da estrutura do futebol brasileiro. A relação que se estabelece entre os jogadores era democrático e essa seleção montada por Saldanha se organiza para a Copa do México.

Ora, será que o governo Médici  admitiria um comunista à frente de uma seleção que participaria de uma Copa? Um técnico que respondia à imprensa internacional sem medo, esse era inclusive o seu apelido (João Sem Medo), que existia tortura no nosso país. Pois bem, três meses antes do início da Copa, João Saldanha foi substituído pelo Zagalo, sabidamente homem do establishment, como diria Norbert Elias. A equipe brasileira foi campeã e arrebatou definitivamente a taça Jules Rimet. O que vimos foi uma democracia na ditadura, não que o governo brasileiro promoveu uma abertura na ditadura para o caso específico da seleção brasileira. Mas o espírito daquele grupo de jogadores que por sinal se identificava com a torcida, pois viviam, jogavam e se relacionavam com seu público aqui no Brasil e penso eu, a presença, inicialmente, de uma pessoa que renegava a ditadura, no caso do Saldanha, mesmo após sua saída, permitiu essa identificação, essa idéia de pertencimento. Se os mentores da ditadura almejavam ganhar apoio junto à população a história veio demonstrar o contrário, em 1974, foi momento de maior votação para o partido de oposição consentida que era o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

A vitória do Brasil na Copa de 1970 marca o espírito da população brasileira na década, ou seja, a alegria de jogar e de se relacionar dos jogadores dizia claramente, queremos um país plenamente democrático. Foi a década que emerge as lutas sindicais do ABC paulista, o renascimento de um movimento estudantil culminando com o movimento das “Diretas Já” e o retorno à democracia com a eleição da dupla Tancredo/Sarney, inaugurando a “Nova República”, apesar da triste morte de Tancredo.

O meu objetivo nesse pequeno espaço não é fazer uma análise da participação da Seleção Brasileira em todas as copas, portanto não investirei analiticamente em outras. Minha tentativa é lançar luzes sobre essa última participação de nossa seleção na Copa da África do Sul em 2010. Vejo no contexto preparativo e na participação brasileira na referida competição aquilo que estou chamando de “paradoxo da república brasileira”.

Como já havia escrito anteriormente o espírito libertário e democrático da seleção de 1970, possibilitou um diálogo seleção com sua torcida e não com o governo ditatorial da época. Mas já em 2010, a idéia de disciplinar, centralizar que é contrário do que está presente na sociedade brasileira, que cada vez mais clama por democracia, agora não só representativa, mas também e, sobretudo, participativa, foi hegemônica. A figura de seu técnico, o famoso Dunga (espero que sua época tenha acabado), foi bastante emblemática para aquilo que estou dizendo: sem elegância, sem educação e autoritário.

Formou-se um grupo fechado que a linguagem popular chama, acertadamente, de panela e aquelas pessoas que não comungavam com esse grupo estavam fora, é o “ame ou deixe-o” da ditadura, ai mora o paradoxo, isso já acabou, mas permanece na mentalidade principalmente dos nossos dirigentes esportivos. O espírito da seleção não estava em conformidade da população, quando isso acontece, penso eu, a “copa não é nossa” é “deles”.

“Eles”, jogadores, não são “nós”, a idéia de identidade não aparece, mesmo porque “eles” não vivem mais entre “nós”. “Eles”, só aparecem em nossos lares pelas mídias, principalmente a televisa. Alguns só aparecem nas “TVs pagas”, ai que a maioria da população não vê e tampouco conhece. E não podemos esquecer que vivemos o ápice da mercantilização das relações sociais. É aquilo que o velho Marx nos apontava no capítulo I da sua grande obra, O Capital, tudo se transforma em mercadoria, inclusive a arte.


* WELLINGTON DE OLIVEIRA é Professor adjunto da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Doutor em Educação pela UFMG.

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6 comentários sobre “Um paradoxo na República brasileira: ditadura na democracia

  1. Prezada Gislaine:
    Agradeço suas observações e, após a queda do Dunga, assistimos a elevação de técnico da seleção brasileira outro “Dunga”, talvez mais educado, Mano Menezes. Isso nada mudará e a raça que vc. preconiza não surgirá. Já está convocando segundo informações e pedidos dos patrocinadores.
    Um abraço.

  2. Caros colegas, agradeço as observações feitas ao meu texto. As sugestões de continuidade a mim estimulam o meu trabalho. Coloco-me á disposição de todos.
    Wellington de Oliveira

  3. Caro Professor Wellington, gostei muito do seu artigo considero fundamental que toda a sociedade lance idéias, reflexões e opiniões sobre os mais variados elementos da cultura eé inegável que pela força que o futebol possui, lançar questões sobre a sua organização e reflexos sobre a nossa vida é algo muito importante. Parte das minhas questões se referem ao descompasso que eu observo, sobretudo entre aqueles e aquelas que procuram relacionar o futebol com a política.
    Primeiro é que o processo de modernização conservadora, não alterou a posição dos donos do poder, o refrido professor na ãnsia de estabelecer uma “contradição” do comando do futebol na dácada de 60 com a política vigente despreza que os donos do poder de fato, permanecem dando as cartas.O senhor João Havelange afinal de contas permanece a frente de todos os grandes negócios a frente do esporte mundial.
    Após a chegada de Zagalo afrente da nossa seleção, não podemos esquecer que o técnico da Seleção Brasileira era o Capitão do Exército o senhor Claudio Coutinho, que se não tivesse morrido talvez se perpetuasse no cargo, qual o atual presidente do senado.
    Em 1982 , em que pese o futebol ser de ótima qualidade, o nosso treinador o senhor Telê Santana era um homem extremamente conservador, haja vista que impôs normas antitabagistas na seleção e em 1986 “cortou” o atleta Renato Gaúcho que se envolvera numa situação de atraso junto com o jogador Leandro, este inclusive acabou pedindo dispensa em solidariedade ao companheiro.
    Em 1990 tivemos o Lazaroni, cria da Escola de Educação Física do Rio de Janeiro, sendo portanto herdeiro direto de Coutinho e Parreira,este último após o fracasso do Brasil em gramados italianos assume a seleção, e vence o campeonato com um número de criticos bem menos raivosos (será a nossa tradição conciliatória??!!), isto já num contexto violento do exôdo de atletas , alguns ainda sem atingir a idade adulta.
    Para Ilustrar o que digo é só nos lembrarmos que Parreira e Zagalo formaram uma dupla que só fora interrompida pelo “modernismo cafajeste-madureira” do senhor Vanderlei Luxemburgo, bom demais para montar esquemas.
    Com o fracasso deste ,dizem que com a conspiração global(olha a Globo aí de novo), eis que surge Luis Felipe Scolari, que não somente pelo fato de elogiar Pinochet, mais por outros inúmeros motivos se mostar um homem extremamente conservador.
    Caro professor não gostaria que este meu comentário parecesse um material de remissão do Dunga, só fiz este esforço de rememorar nossa breve história de conservadorismo e futebol, para que outros elementos pudessem ganhar relevo.
    Por exemplo a “mercadorização” do nosso futebol, que chega ao absurdo de ter atletas com até 12 anos sendo comercializado. E esta sangria ocorre principalmente na América Latina , Àfrica, e nos países da antiga Cortina de Ferro.Portanto um fenômeno que está muito mais enraizado aos modelos atuais de produção, que são predatórios e excludentes. Isto é claro que não isenta o técnico-anão da sua responsabilidade(ele próprio um atleta que construiu sua carreira na Europa).
    Tanto que tão logo começamos a expiar nosso insucesso ludopédiconos campos africanos o senhor Ricardo Teixeira(ad eternum) já criou os fatos novos para manter acesa a caldeira do sport-business…..Felipão? Ricardo Gomes?Leonardo? E para aparentar novidades, eis que surge o nome de Mano Menezes, não vingará. Mas também não importa,os grandes chefes continuam transfigurado em corporações.

    O futebol morreu!! Viva o futebol!!!( a pelo menos 100 anos)
    Josafá
    Professor de educação física escolar
    Diretor de Escola
    Sindicalista

  4. E aproveitando os esquemas e consensos, implantaram a operação trilateral transformando o mundo em capitalista globalizado; – submetendo a população mundial em mão-de-obra barata e a consumidora, das porcarias na maioria tóxicas, que esta oligarquia sionista industrializa.

  5. Ah….havia esquecido, mas sobre os Amigos da Rede Globo, nem vale a pena escrever e tomara que Marx tenha se enganado, pelo menos no que diz respeito a arte.(Bem sabemos que ele não se enganou e lamentamos)

  6. Caro Wellington,

    Interessante essa análise histórica comparatista entre os governos e as copas. E apesar de ter entendido que essa não era a intenção textual, a mesma é elogiável e se o nobre professor aceitar sugiro que escrevas mais sobre isso, seria uma forma documental histórica para os amantes do futebol e da política, bem como para todos nós.
    Fiquei lendo o teu comentário sobre o Dunga (quem dera se estivéssemos a falar do famoso anão) e me lembrei que o jogador brasileiro perdeu a arte do jogo, da vida, e da bola.
    Nada entendo de futebol, aliás, abrindo um pouco mais e querendo chegar à política, (outra área que nada sei) dentro dessas duas minhas ignorâncias, penso que o brasileiro está a perder toda a arte que tem.
    Já não somos mais o país referência no futebol, não que isso seja um grande mérito, mas se falando em futebol sempre fomos referência mundial. Fiquei lendo o teu artigo e a imaginar quantas coisas estamos a perder dentro de uma ilusão que estamos em crescimento.
    Quando assistia aos jogos do Uruguai algo me lembrava os jogadores brasileiros de outrora, aqueles uruguaios, apesar de tudo e de todos, não tinham perdido outra coisa que os nossos jogadores perderam, a raça. E tudo isso, sinceramente, entristece-me.
    Hoje, resumidamente, temos um representante no governo que diz que para a copa do mundo de 2014 pode ser perigoso o turista encontrar uma “sucuri destreinada” e essa atacá-lo (Lula fazendo alguns comentários sobre os aspectos negativos para a copa de 2014). Mas, pior que tudo isso ou ainda, “mais pior ainda” uma sucuri ele deve conhecer, quiçá ele não saiba o que sejam os significados para os vocábulos treino, estudo, formação etc.
    E nessa loucura toda ficamos à merce da boa vontade dos jogadores, quem sabe um dia eles voltem a deixar de lado a questão financeira e vistam a camiseta que Péle, Garrincha, Didi, Djalma Santos, Zico, RONALDINHO GAÚCHO e tantos outros vestiram.
    Tivemos mesmo um comando sem arte, à frente Dunda (tomara mesmo que tenha acabado sua carreira); uma seleção brasileira Soneca e milhões de brasileiros Zangados.
    Quiçá, ambos comandos, político e da seleção brasileira, não se esqueçam de ler as regrinhas básicas de sobrevivência, entre elas a humildade e o respeito, e ensinem como é bom ser o futuro sem amassar o passado.
    Afinal, a viva segue e para frente.

    Gislaine Becker
    Professora das Literaturas brasileira e portuguesa
    Professora Doutoranda em Ciências da Educação
    Universidade Nova de Lisboa
    Lisboa – Portugal

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