LIVRES LEITURAS I – O fantasma do Morro do Castelo

por REGINA M. A. MACHADO*

Morro do Castelo

Recebi fotos da demolição do morro do Castelo, “o maior atentado ao nosso patrimônio”, enviadas por Sonia Santanna, autora de ótimos livros de divulgação histórica, em resposta à minha curiosidade sobre esse episódio. Tinha começado a me interessar por esse assunto em dois autores contemporâneos do morro ainda em pé e, ao fio das leituras, fui descobrindo que, do primeiro para o segundo, a abordagem se torna cada vez mais misteriosa, alusiva, passando de marco importante na fundação da cidade em José de Alencar, a sítio de decifração do futuro (da monarquia e dos caminhos da república?), enfim, de assuntos capitais, mas tratados por personagens divinatórios ao mesmo tempo que marginais, quase sem existência social, em Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Neste, a imagem dançante da cabocla do Castelo escapa ao entendimento das donas do poder e da cultura oficial, que sobem o morro para descobrir o porvir – e esbarram na linguagem da cabocla pobre e primitiva, cuja chave as representantes da oligarquia não possuem – e como são elas as detentoras da cultura escrita, intermediária entre o tempo do morro e o nosso, tampouco nós a temos. Em ambos os escritores, textos instigantes, daqueles que quanto mais se lê mais suscitam questões, sem dar respostas à leitora curiosa de adentrar a densidade do texto e as alusões referenciais.

O assunto já é objeto da ironia do narrador da A viuvinha (1857), que dá voz às mazelas de personagens que parecem assim encarnar o conservatismo mais enferrujado – e note-se que a questão já é polêmica na metade do século XIX e que Alencar vê com sarcasmo os que querem arrasar e modernizar sem critério e a qualquer preço a paisagem da cidade.

Os dois conversavam sobre o projeto do desmoronamento do morro do Castelo, projeto que julgavam devia estender-se a todos os morros da cidade; era um ponto este em que o reumatismo do Sr. Almeida e uma antiga ferida do militar reformado se achavam perfeitamente de acordo.[1]

No O garatuja, cuja ação se passa em 1659, o abandono do morro, polo de fundação da cidade, é um dos esteios da narração, que o opõe à atual Praça XV, ponto de desembarque de tudo que representava a modernização da cidade: notícias da Europa e do reino, mercadorias, publicações, etc. O morro, com sua igreja, aparece como elo de ligação com as raízes históricas – ou talvez míticas – da cidade:

Situada no cimo do Morro do Castelo, onde o seu esqueleto ainda em pé campeia sobre a baía, e onde assentou-se a primitiva povoação, a Igreja de São Sebastião, símbolo da expulsão dos franceses e conquista da terra, tinha para o povo fluminense um caráter legendário. (cap. XIII)[2]

Como sempre nos seus romances históricos, a pesquisa serve tanto para o conhecimento do passado como comparante de um presente sempre depreciado, como neste mesmo capítulo, sugestivamente intitulado “UMA EDIÇÃO ANTIGA DO PRELADO MODERNO” (englobando problemas diversos, como a questão religiosa no final do império e alusões a outros escritos e pessoas reais – mas isso já é outra história).

Os fluminenses daquela era, em que a vida não se tornara ainda uma empresa a comanditar, tinham seu fraco pela velha igreja, que primeiro se erguera na terra selvagem da Guanabara; e eram particularmente devotos de São Sebastião, que, na sua crença ingênua, se mudara para o Rio de Janeiro a fim de servir de patrono a essa terra de sua predileção. (cap. XIII)

Justamente, esta era em que para Alencar a vida se tornara “uma empresa a comanditar”, parece acentuar suas características ao tempo de Machado de Assis, cuja relação com a cidade é objeto do artigo de John Gledson, “Machado de Assis e o Rio de Janeiro em vários tempos”.[3]

Muito do que Alencar esboçara e em que Machado enfia o estilete para destrinchar os problemas que continuam a se apresentar ao escritor, torna-se mais claro nas leituras deste crítico. Gostaria de começar pela citação e comentário que ele faz de uma crônica, em que Machado leva ao alto do morro do Castelo um viajante desejoso de conhecer “alguma velha construção”. Eles sobem a ladeira, Machado “pintando-lhe o tempo em que por aquela mesma ladeira passavam os padres jesuítas, a cidade pequena, os costumes toscos, a devoção grande e sincera”. Tempo perdido: o viajante vira as costas às marcas do esforço humano e emite um único comentário: “ Que natureza vocês têm!”

Segundo o crítico inglês, Machado tem suas restrições a essa visão convencional e “para inglês ver” do Rio de Janeiro, que ignora a realidade humana da cidade. Para ele, o morro era o passado secreto da cidade, em alusão a um tesouro enterrado pelos jesuitas ao serem expulsos em 1759, mas, sobretudo, o morro representa também o seu futuro incerto. O futuro que nos interessa aqui e o mais imediatamente incerto era o do morro (além do dos gêmeos, do regime, do país), condenado desde que a cidade começara a crescer, abandonado por uma população que não quer mais subir a ladeira (é dureza, é, mas devia ser linda – confira os vídeos atuais sobre a reabilitação do bairro da Saúde e do morro da Conceição) e que o abandona aos que não têm outro jeito senão morar lá em cima. E indo além dessa comparação iniciada por Alencar entre cariocas de antanho, fiéis ao passado e os agiotas e aproveitadores contemporâneos, Machado vai criar alguns oportunistas navegando com feroz e saudável imediatismo na crista da onda de especulações que ele viu se aguçarem. Ao lembrar o conhecimento detalhado do passado que tinha o escritor, Gledson lembra também que ele se sabia uma exceção no meio daquela sociedade que enriquece ou se arruina no Encilhamento, ao final do século XIX, e que ignora a propria história, vivendo unicamente o momento presente e apostando tudo na conquista de uma ascensão social que é preciso atingir a qualquer preço e rapidamente. Assim fazem Sofia e Palha (em Quincas Borba), marchando com descontraída crueldade sobre a loucura de Rubião, enquanto se apossam da fortuna herdada pelo desinformado provinciano. Os dois, marido e mulher, intuem a passagem do tempo: o futuro é deles, embora o passado não lhes diga nada.[4]

Ora, o passado já não diz nada às autoridades municipais do tempo evocado/comparado por Alencar, que fazem tábua rasa da memória da cidade e dos nomes das ruas. No capítulo XVII do Garatuja, ele faz reflexões polivalentes sobre esse desrespeito ao passado da cidade, com romântica indignação, ao mesmo tempo que, tal um antropólogo atual, registra essas mudanças como testemunhos do que ele chama de “história íntima” da cidade. O que ele não deixa de registrar, sobretudo, são as alterações que essa “memória de pedra e cal” sofre às vezes por intervenções que ele estima indevidas, como a da câmara municipal que, em 1870, mudara ainda uma vez o nome do largo para Praça Dom Pedro II.

Essa mania de mudar os nomes às ruas e pô-los à moda, é nada menos que uma barbaria e degradação igual à que se perpetrava com os antigos monumentos e quadros empastando-os de arrebiques à moderna. […]

Nas mudanças sucessivas por que passa o nome de uma parte da grande cidade, escreve o povo fluminense um capítulo da sua história íntima. Assim, folheai essa página de pedra e cal, que se chamava até o ano atrasado Largo do Paço.

Na paisagem do Garatuja, a matéria pesada e petrificada do passado permuta sua fragilidade com as inscrições gravadas nos monumentos, sejam elas oficiais ou as garatujas de Ivo, o artista enjeitado, que faz uma espécie de crônica visual e efêmera da vida da cidade. Pegas na vertigem da história, essas inscrições fugazes não têm tempo de marcar uma memória coletiva fugidia e precária. Esta paisagem de cidade fica polarizada entre o Morro do Castelo, mineral e escalavrado, e o Largo do Paço, fervilhante de gente e cuja instabilidade é resultado de seu próprio frenesi modernizante. O primeiro elemento paisagístico, o morro com sua velha matriz ameaçada, já estava condenado pelo abandono dos fiéis, que dão preferência a locais de culto mais centrais: : « Então caiu a Matriz em completo abandono e desleixo, não conservando de sua primazia, como casa paroquial, mais do que um nome vão.”[5] A esse nome vão, ao vazio da decrepitude que se instala no esboroamento das paredes, vai responder, do outro lado da cidade, o desfile dos topônimos, que se sucedem roubando pouco a pouco aos sítios sua história e sua vocação, a marca que eles não chegam a imprimir na memória e no imaginário popular. Em oposição ao morro original, esvaziado de sua vida e função primeiras, encontra-se o cais onde desembarca toda a vida material, administrativa e social da colônia e sede do governo. O vertiginoso desfile das sucessivas denominações da atual Praça Quinze de Novembro é introduzido por um narrador que vai se imiscuir na fabula e fusionar vários tempos no relato, o que é um traço recorrente em romances de José de Alencar :

Sua primeira designação, nos tempos primitivos, foi campo do Ferreiro da Polé. Subiu depois a Rossio quando as casas o cercaram. Carmo, atesta a edificação do convento dessa Ordem; Terreiro do Governador, a residência da primeira autoridade da capitania; Praça do Palácio, a elevação de cidade a capital de vice-reinado; e finalmente Paço, a corte real que pouco tardou em trocar-se por Imperial.[6]

A paisagem urbana apresenta-se assim como problema ao escritor do mundo periférico à modernidade europeia. A aceleração das mudanças trazidas ao aspecto e ao funcionamento da cidade parece criar aí também um momento de crise, um sentimento de precariedade inerente ao crescimento da cidade[7]. Se Baudelaire, pintor da vida moderna, exprime o desejo “Que toda modernidade seja digna de se tornar antiguidade”, José de Alencar, por sua vez, temia que a paisagem carioca fosse atropelada por essa modernização invasora, que não tivesse tempo de absorver seu ritmo e movimento. Seu sabido conservatismo apresenta assim, como em toda a sua obra, uma ambiguidade que torna fascinante o exercício da missão que ele se atribui, tanto mais heróica quanto mais desmedida “do lado debaixo do equador”: dar à modernidade uma forma consequente com suas raizes fincadas na terra em que deve crescer. Como o poeta parisiense, ele também lamenta, frente à velocidade contemporânea, uma cidade efêmera, cuja forma se perdeu com a aceleração do tempo e da qual só restam escritos ou imagens fantasmagóricas, para suprir à inconstância do coração de seus habitantes:

«Le vieux Paris n’est plus (la forme d’une ville

Change plus vite, hélas ! que le cœur d’un mortel)»[8]


* REGINA M. A. MACHADO é doutora em Literatura brasileira pela Sorbonne Nouvelle/Paris3, com tese sobre “Ficção e café no vale do Paraíba” defendida em 2007. É pesquisadora associada ao CREPAL e suas leituras e artigos têm se orientado para o estudo da ficção de José de Alencar. Atualmente anima oficinas de francês (ASL – ateliers socio-linguistiques) em Bonneuil-sur-Marne, onde mora.

[1] José de ALENCAR, Obra completa, vol. I – Romance urbano. Rio de Janeiro, Editora José Aguilar Ltda., 1959, p.247 cap. VI

[2] www.biblio.com.br/conteudo/JosedeAlencar/mogaratuja.htm. O Garatuja foi publicado em 1873, mas o proprio autor informa que “estava pronto” muito antes. Nesta citação, note-se a descrição da igreja como já em ruínas – “seu esqueleto ainda em pé” – e seu aparecimento relativamente bem conservada em fotografias do final do século XIX. Seria outra? Fica a pergunta aos historiadores e urbanistas.

[3] John GLEDSON, Por um novo Machado de Assis. São Paulo, Companhia das Letras, 2006

[4] GLEDSON, op. cit., p 352.

[5] O Garatuja.

[6] O Garatuja.

[7] Michel Collot, Paysage et poésie, du romantisme à nos jours, éditions José Corti, 2005.

[8] « A velha Paris não existe mais (a forma de uma cidade muda mais rápido, ai, do que o coração de um mortal)”. Tradução literal minha. Para uma tradução literária do poema “O cisne”, completo, ver Baudelaire, As flores do mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Les fleurs du mal). Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira.

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3 comentários sobre “LIVRES LEITURAS I – O fantasma do Morro do Castelo

  1. Regina:
    Nos anos 80 estive em Leningrado, agora novamente São Petersburgo. Belíssima cidade, conservada como se fosse em um museu. Levando-se em consideração que a Revolução Russa derrubou o regime tzarista, ocupou efetivamente o país , onde a pobreza era enorme, causou-me muita estranheza e admiração como os novos donos do poder mantiveram intacta aquela cidade, seus castelos, seus museus, sua estrutura urbana como uma grande riqueza.
    Ao ver ruas com grandes falhas no asfalto, paredes do Centro da cidade ainda esburacadas pelas balas da II Guerra Mundial ou “Guerra dos 900 dias (que para eles foi uma guerra particular) e a riqueza e ostentação preservadas do Palácio de Catarina
    ( Hermitage) e do Palácio de Verão de Pedro, o Grande, perguntei a um intérprete russo: por que tanta coisa por fazer na cidade e esses palácios tão grandiosos? – Senhora, não temos dinheiro para tudo o que é necessário e aqui não se conserta nada que não seja igual ao original. Esperamos por caixilhos de janelas para trocá-las por iguais. Enquanto não o podemos fazer, as paredes ficarão assim e o reboco idem. Novo só se constroi fora do perímetro urbano da antiga cidade. Aqui a história deve ser preservada. Fiquei espantada e a me perguntar? POR QUE ?Por que tanto respeito por um passado tão execrado politicamente. E olhe que a cidade é muito grande. Só bem distante dela começou-se a construir em estilo moderno, alias, porcamente, construção de péssima qualidade, mas, diga-se, com TUDO o que os moradores/trabalhadores necessitavam nos enormes quarteirões que habitavam e onde ocupavam apenas o número de metros quadrados que a nova lei lhes permitia. Ali tinham escola, posto de saúde,creche, Biblioteca, mercado etc…
    Enquanto aqui se destroi tudo o que é antigo e belo em nome da modernidade, da praticidade ou dos interesses de grupos?
    O que faz essa diferença no agir urbanista?

    Circe , amiga de Beth ; acho que te conheci um dia; fazias “shantala”num bebê

  2. Em tempo: seguem-se alguns trechos das crônicas de Lima Barreto sobre os misteriosos subterrâneos do Morro do Castelo, encontrados em
    http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/lima-barreto/o-subterraneo-do-morro-do-castelo.php

    Lima Barreto Os Tesouros dos Jesuítas
    Sexta-feira, 28 de abril de 1905

    Ainda a propósito do subterrâneo do Castelo, convém notar que há mais de vinte anos o Barão de Drummond, que depois se tornou dono de uma fama imorredoura pela genial descoberta do jogo do bicho, tentou a exploração do morro do Castelo, com o fim de retirar de lá os tesouros ocultos e promover por este modo o pagamento de dívida pública e… das suas.
    Os trabalhos eram feitos com o emprego de minas de dinamite o que provocou protestos dos moradores do morro e conseqüentemente suspensão do perigoso empreendimento.
    E ficou tudo em nada.
    O Dr. Rocha Leão, que durante longos anos se tem dedicado aos estudos dos subterrâneos do Rio de Janeiro declara-nos existir documentos positivos sobre o local em que se acham tesouros dos jesuítas no Arquivo Público e na Antiga Secretaria de Ultramar, na Ilha das Cobras.
    Quarta-feira, 3 de maio de 1905
    Mas os operários prosseguem cada vez mais porfiados em ver quem primeiro colhe o prazer ultra-marinho de descobrir o moderno Eldorado.
    Foi ontem; uma turma explorava o dorso imoto do morro; súbito a ponta da picareta de um operário bate num vazio e some-se…
    A boca negra de um outro subterrâneo escancarava-se.
    Pensam uns que é a entrada, arteiramente disfarçada, de uma outra galeria, opinam outros que é simples ventilador dos corredores ocultos.
    Seja o que for, porém, a coisa é verdadeira, lá está a 8 metros abaixo do solo emparedada a tijolo velho.
    Trouxemos uma terça parte de um dos tijolos para nosso escritório onde quem quiser a pode examinar
    Domingo, 7 de maio de 1905
    O Sr. Frontin é o Marquês de Pombal na segunda encarnação!
    Esta frase, dita num tom firme e catedrático, na meia-luz de uma sala francamente iluminada, deu-nos calafrios à alma, já, de resto, habituada às surpreendentes coisas de que tem sido pródigo este encantado morro do Castelo.
    Mas o Sr. Coelho explica-nos em poucas palavras o motivo do seu acerto.
    Ouçamo-lo:
    Quando, há anos passados, ocupava a diretoria da Estrada de Ferro Central, o atual construtor da Avenida sentiu-se seriamente impressionado com os desastres consecutivos que ali tinham lugar; abatia-o uma neurastenia profunda, quiçá uma íntima desconfiança das suas habilitações técnicas.
    — Que diabo! Eu emprego todos os meios, dou todas as providências para evitar desastres e sempre esta danada cábula, exclamava S. Exa., amarrotando a barba ruiva.
    Mas os desastres continuavam e o povo insistia em chamar a Central, pelas iniciais: Estrada de Ferro Caveira de Burro.

    O medium, um conhecido jornalista vidente, de óculos e barbas negras, invocou o espírito do Visconde de Mauá, fundador das estradas de ferro no Brasil, e este, apresentando-se, teve esta frase:
    — Que queres tu, Pombal?
    O Sr. Frontin ficou surpreso e começou a empalidecer.
    Em torno, os circunstantes não dissimulavam o espanto.
    — Pombal? Por que Pombal?
    Nova invocação foi feita; e o espírito, já desta vez irritado, escreveu pela mão do medium:
    — Ora, Pombal, não me amole!
    Era baldado insistir; ou o espírito estava enganado ou era algum brejeiro (que lá por cima também os há) que queria fazer espírito.
    Pelo sim pelo não, foi chamado D. José I para deslindar aquele embrulho.
    O mofino monarca apresentou-se sem demora, tratando o Sr. Frotin pelo nome de seu dominador ministro.

    E há de ter lá pelo Castelo mais pessoal daquela época; concluiu o Sr. Coelho.
    — Quem nos poderá garantir que o engenheiro Pedro Dutra não é o Conde de Bobadella?
    Os fatos no-lo dirão
    Continuaremos amanhã a narrativa da nossa entrevista com o Sr. Coelho e dos extraordinários casos que se contêm nos seus velhíssimos papéis.

    Segunda-feira, 8 de maio de 1905
    O grande Martius, cujos trabalhos sobre a nossa natureza e sobre a etnografia sul-americana merecem o aplauso dos institutos sábios de todo o mundo, faz notar que no Brasil as lendas sobre tesouros ocultos substituam as dos sombrios castelos medievos que são o encanto dos povos ribeirinhos do Danúbio e, sobre os quais grandes gênios da arte têm bordado obras de um pichoso lavor estético em todos os moldes da fantasia humana, seja a música, a pintura, a poesia ou o romance.

    Em meio à papelada arcaica que revolvemos em busca de informações sobre o palpitante assunto, fomos encontrar a história de uma condessa florentina conduzida para o Brasil num bergantim e aqui recolhida ao claustro do Castelo aos tempos da invasão de Duclerc.

    Trata-se da história de um desses amores sombrios, trágicos, quase medievais, cheirando a barbacã e a castelo ameado; e que, por uma singular capitação histórica, na Idade Moderna, a América do Sul foi teatro.

    (segue-se a deliciosa narrativa rocambolesca “da interessante narrativa por nós encontrada entre vetustos papéis referentes à história dos jesuítas do morro do Castelo”, folhetim para ninguém botar defeito).

  3. O resgate menêmico construído por Regina neste texto enriquece o conceito de interdisciplinaridade de forma eficiente e sutil. Através da literatura ela toca problemas centrais e ainda muito atuais relacionados à urbanização oportunista e selvagem da cidade do Rio de Janeiro. Parabens à autora e à revista pela publicação!!!!

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