A justiça do homem pequeno

por JOSÉ DE SOUZA MARTINS*

Foto: J. S. Martins (2009)

A enraizada prática do suborno entre nós só vem a lume com alguma intensidade na repercussão de episódios graves, como este de agora, ocorrido no Rio de Janeiro, relativo à compra da omissão de dois policiais militares em caso de atropelamento fatal. Não fosse a vítima filho de atriz conhecida, é pouco provável que o caso tivesse a repercussão que vem tendo e menos provável que os policiais envolvidos tivessem sido presos tão prontamente, como foram.

Um dos nossos grandes equívocos, nessa matéria, é o de pensar que a corrupção é apenas um defeito pessoal de caráter e uma exceção. Na verdade, a dificuldade para varrê-la de vez do cenário brasileiro está no fato de que o suborno, a propina e a corrupção em geral são aqui componentes da estrutura da sociedade. São mecanismos e artifícios para torná-la viável para os que consideram os rigores da lei um defeito social e político. Ou que as leis são feitas para relevá-las no difundido comércio do seu descumprimento. O vocabulário que designa os atos de cotidiana corrupção, que facilitam para os inescrupulosos o transcorrer do dia a dia, já é indicativo de como a anomalia está presente na consciência social: “molhar a mão”, “adoçar o bico”, “amaciar o motor”, “dar um jeito”, “esquecer”, “olhar para o outro lado”, “dar um agrado”. Todas elas expressões do entendimento de que a honestidade e a correção, sobretudo do funcionário público, é que são anômalas e injustas porque dificultam o arbítrio e a conveniência pessoais.

É essa consciência a do divórcio entre a sociedade e o Estado, expressão da insegurança social quanto à eficácia do poder público e, sobretudo, quanto ao funcionamento e à distribuição da justiça. É a descrença geral nas instituições que acaba sugerindo a cada um que se antecipe à aplicação da justiça para se inocentar preventivamente. É esse temor que faz do próprio cidadão, como neste caso, o corruptor daquele funcionário público de exceção que é incapaz de conceber-se como cumpridor impessoal da lei.

Os parâmetros pedagógicos dessa modalidade de delinqüência estão em toda a parte. Se os do mensalão podem, e não lhes acontece nada, e seu prestígio até cresce, por que não pode agir do mesmo modo o minúsculo funcionário, policial ou não? Se a lei da Ficha Limpa é diariamente flexibilizada em favor de poderosos de ficha suja, por que não pode o meganha da esquina agir como tribunal de Justiça, recebendo agrados para pré-interpretar a lei e fazê-la mais leve para os que se consideram mais iguais do que os mortais comuns? Se o próprio eleitorado reelege e consagra corruptos e cassados da grande corrupção, que mérito podem ter a honestidade e a correção do homem pequeno que em nome do Estado é o elo entre o poder e o cidadão da rua?


* JOSÉ DE SOUZA MARTINS é Professor Emérito da Universidade de São Paulo. Dentre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008), Sociologia da Fotografia e da Imagem (Contexto, 2008), A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008), O Cativeiro da Terra (Contexto, 2010). Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Aliás, A Semana Revista], domingo, 1º de agosto de 2010, p. J3.

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7 comentários sobre “A justiça do homem pequeno

  1. É muito interessante a matéria, mas acho que isso é responsabilidade nossa, ou seja, nós que temos senso de honestidade, de justiça, deveriamos colaborar com a sociedade de alguma forma, não aceitando e engulindo esses rótulos dados ao nosso país, que é o país do ” jeitinho”.

  2. Muito interessante a matéria. a sociedade por manter uma forte relação com o estado nunca vai desviazar da corrupção. O que precisamos mesmo é que os pais eduquem seus filhos de forma que as influências do meio externo não venha corromper seu carácter.
    O homem nasce bom e a sociedade o corrompe, ou seja, o homem através da história torna-se mau , com o objetivo de lesar o outro.

  3. Educar para o respeito, a autonomia e a vida é tudo. Hoje, nos seios familiares podemos perceber que há uma cultura de corrupção que permeia as relações. Ex: Os adultos para conseguir um padrão de comportamento das crianças oferecem sempre em troca um benefício material – é uma relação de compra e venda do caráter. Nas escolas se oferece “pontos de conceito” em troca de uma postura disciplinar dos educandos quando, os valores deveríamos estar desenvolvendo a nossa prática pedagógica baseada nos valores da justiça, equidade, respeito e ética. De fato a corrupção faz parte do nosso estado-nação.

  4. No nosso pais vale tudo,nesse momento histórisco,de lideranças politicas e administratoras imorais e sem qualquer ética,tudo acontece,tudo se trama,e os prévilégios se mantém e a corrução é alimentada e mantida,por individuos,para os quais a impunidade é garantida.
    Neste momento vale tudo também está o movimento dos excluidos pelos preconceitos sociais,injustiçados:negros os portadores de deficiência metais e fisica,os miseráveis abandonados pelas ruas na cracolândia em baixo de viadutos,são menores carantes abandonado duas vezes ,uma pelos pais e outra pelo poder publico, falamos aida dos idoso sem teto sem aposentadoria,e sem dguinidade,os sem terra que intrega o numeros dos injutiçados.
    li nos jornal estado de são Paulo dia 08/08 que o nosso atual Governo vai mandar avião buscar politicos de pais vizinho pra se tratar no cilio libanês, eu pergunto e os Brasileiros que votam e pagas ardurosos imposto,não foram consultados se aceitaria pagar as contas de Politicos de outros paises.

    UM GRANDE ABRAÇO AOS CAROS AMIGOS QUE LUTAM PELA JUSTIÇA NESSE PAIS.

  5. Olá, muito interessante a matéria. Bom seria se todos os brasileiros tivesse discernimento quanto estas questões, com certeza seriamos uma nação mais justa.

  6. É Martins, só que já foram soltos e as denuncias envolvendo corrupção ativa e alteração da cena do crime, se tornaram em uma mera omissão de socorro, o que não dá para entender, pois se os Pms não sabiam do acidente como omitiram socorro? Fica tranquilo que já vem mais algumas cestas básicas.

  7. Prof. José
    Sabe de uma coisa. O que disse reforçou a ideia que venho tentando colocar no papel. Imagino a sociedade não de uma forma uniformizada. No meu entender ela é formada por “grupos corporativos”. Onde cada um deles tem seu próprio “código de conduta”. Cada grupo protege os seus membros conforme as circunstância manda. É claro que nem todos os membros são assim. Mas na maioria deles o que predomina é essa “proteção” contra a Lei. Será que fui claro no meu raciocínio.

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