Reflexões sobre “o sentido da vida”

por HENRIQUE RATTNER

FEA/USP

Vivemos uma época de incertezas, instabilidade e contradições aparentemente insolúveis que levam os indivíduos a perder a confiança em si, nos outros e nas autoridades. Procura-se encontrar respostas às dúvidas existenciais, às interrogações cruciais pra cada indivíduo pensante: Quem somos? De onde viemos? E, aonde vamos?

Jean Paul Sartre ensinou que os homens nascem para serem livres. Mas, liberdade não significa optar arbitrariamente por um ou outro caminho. Ela implica também em responsabilidade, ou seja, somos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Agindo e pensando sobre nossas ações, transformamos a nossa realidade e a nos mesmos, encontrando sentido para nossas vidas.

Como tornar mais concreto esse sentido de vida? Sem uma orientação que guie nossas ações, a vida de incertezas torna-se um pesadelo absurdo, cheia de paradoxos e violência, sobre tudo para a juventude, angustiada e aparentemente incapaz de decifrar enigmas para os quais nem a ciência nem a religião são capazes de oferecer respostas satisfatórias. Erich Fromm, sociólogo e psicanalista nos fala do “ter” e do “ser” como orientações básicas na trajetória da vida. Uma resposta instigante nos é oferecida no diálogo entre pais e filho, num romance do escritor judeu norte americano Chaim Potok. Questionado pelo filho sobre o significado de suas atividades políticas, o velho responde com a seguinte metáfora:…”Se eu medir a duração de minha vida com a idade geológica da terra, ela não é mais do que um piscar de olho. Entretanto, também este piscar de olho deve ter um sentido, à luz da eternidade.”…

A vida nos ensina que elaboramos e desenvolvemos nossos valores e, com base nestes, as diferentes orientações na vida, em convívio e cooperação com os outros, no trabalho e nas ações coletivas, de fundo social, político e cultural. Não há satisfação e realização maiores para o indivíduo do que quando ele se sente aceito, valorizado e parte de um todo maior. Professando e agindo de acordo com valores éticos e humanistas comuns, incorporamo-nos à cadeia ininterrupta daqueles que ousaram sonhar e lutar pela visão messiânica do profeta Isaias, quando reinará a paz e a justiça entre os homens.

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12 comentários sobre “Reflexões sobre “o sentido da vida”

  1. O fundamental é não perdermos o sentido da vida, e acrescentaria: a sua performance estética, a sua beleza, o seu ( re )encantamento que devem ser criados e revitalizados a cada dia, porque o cotidiano muitas vezes, afoga reflexões como esta. Parar, observar e pensar; são três atos ou tempos fundamentais que muitas vezes ignoramos, e deve constituir-se em uma trilha indivividual. Cada um de nós buscamos uma motivação para justificar a vida, seja o trabalho, a família, os estudos, enfim, razões não faltam…O SENTIDO DA VIDA pode estar em cada aspecto homeopaticamente dosado!!

  2. Essa reflexão feita em sua radicalidade nos leva a pensar no propósito que o sentido da vida está na possibilidade de se levar a uma idéia que estamos aqui para superar o conservadorismo.

  3. Caros amigos.
    A vida sempre tem sentidos , principalmente quando nos sentimos estimulados pelos amigos e colegas de profissão.
    Certa vez li uma poesia cujo título era ” aos que ainda podem sentir ” .
    É isso, devemos sempre consultar nosso coração , diante de tanto racionalismo.
    Nunca esquecer que o amor é a mola do mundo em evolução.

  4. Verdadeiras suas palavras e conclusões. O momento da transição deixou marcas profundas, perdendo-se o respeito e a dignidade, a ética. Buscamos respostas as nossas indagações, e, encontramos um mundo cada vez mais complexo e conflitante. Somos responsáveis sim, por nossos atos e ações.

  5. Olá!
    Independente de quanto antigo seja a indagação sobre o sentido da existência humana considero sempre muito saudável buscar novas respostas, ou nova forma de pensar respostas ja conhecidas.

    Parabéns professor!

  6. E penso que é nesta questão que gravida* toda a existência humana. Se meus alunos me perguntassem, hoje, quem eles são ou o que serão, dira que poderiam ser qualquer coisa, desde que a diferença estive pautada de como eles são ou serão, independente de quem são.

    *gravita

  7. Caro Henrique,

    Sempre que me pego a pensar sobre “quem” sou, deparo-me com outro questionamento: “Como” sou?

    Para falar a verdade, nem me interesso em saber quem sou e muito menos para onde vou, isto para mim é questão consumada, entretanto penso que o que faz a diferença é a ação de como sou. Penso que é nesta questão que gravida toda a existência humana. Se meus alunos me perguntassem, hoje, quem eles são ou o que serão, dira que poderiam ser qualquer coisa, desde que a diferença estive pautada de como eles são ou serão, independente de quem são.

    E, uma coisa leva-nos à outra porque é por meio de “como” sou que determino quem sou, mas os valores perderam o rumo e o homem passou a dar uma importância muito maior em “ter” do que “ser”. E nesse jogo acabou por escolher as piores cartas e o que é mais insano ainda, não tem tempo para refletir a respeito e talvez não tenha tempo, justamente, pelas cartas escolhidas.

    Estou aqui escrevendo este comentário e lembrando de Robert Happé ( tem um vídeo dele em meu blog que vale a pena assistir), aliás nunca mais vou esquecer de Happé que faz uma análise cronológica das dependências humanas desde que o homem existe e de como somos micro e mesquinhos diante da idéia do macro.

    Tudo que escrevo não está fundamentado em nada ou está em tudo, se considerarmos que todo, até então, dito está alicerçado em minhas existências. E a questão de quem eu sou torna-se nada se eu não perceber que ela somente vai fazer sentido a partir do outro, da minha ação (e posso escolher que ação tomar, mas nunca esquecendo que toda ação gera uma reação) comunitária.

    Todavia, falar, pensar, imaginar, filosofar e escrever é fácil. O “ser peripatético” de Sócrates era válido, é bem verdade, porque jogava o homem a refletir suas ações, entretanto é na prática que as mudanças acontecem. É quando desligo este computador (ou não, porque hoje muitos relacionamentos aqui estão) e me encontro com o outro, é a partir daí que justifico minha estada neste mundo, mas isto tem de acontecer de verdade.

    Se levarmos em conta que nada somos individualmente e imaginarmos que estamos todos soltos em um vasto universo, presos em um geóide enorme (sem sustentabilidade atual ou futura), penso que teríamos mais consideração a tudo que nos rodeia, da mesma forma que estamos todos no mesmo barco e que nossas ações é que permitirão a liberdade verdadeira e não essa liberdade efêmera, a qual o homem busca.

    Não adianta buscar existências em outras terras ou tentar imaginar que podemos habitar outros planetas. Nossa existência aqui é única e atualmente (ou sempre) estamos de passagem e nunca nos veremos outras vezes, fisicamente falando.

    Então, caso eu acredite em tudo isto que estou a escrever, o que faz a diferença realmente? A diferença está na ação do encontro com o outro.

    Praticando este acreditar, enquanto professora (porque exercemos vários pápeis, até os que não são nossos e ainda, muitas vezes, queremos exercer o do outro) penso que minha prática de mudança dar-se-á a partir do momento que considero meu aluno como um todo, aliás um “único todo” e que deve ser respeitado como tal. Meu papel não é nem encaminhá-lo, mas sim tentar perceber quem está sentado a minha frente e a partir desta percepção, de como ele é ou está, tentar encaminhá-lo. Claro que minha percepção depende muito de quem sou e meu “quem sou” é o resultado de “como sou”.

    Se todos empresários considerassem seus operários para além dos portões de suas fábricas e todos os professores levassem em conta que seus alunos são muito mais que alunos, poderíamos imaginar que logo alí, na frente, eles entenderiam que não foram enganados e que as ações eram em benefício de todos. Uma troca sem cobrança, a existência misteriosa, mas que habita somente o outro.

    Leonardo Boff fala-nos que o mistério está no outro e não em nós, é no outro que habita o maior desafio porque este entendimento obriga-nos a sair de nós mesmos e a partir do momento que o outro se concretiza a nossa frente nasce a ética, justamente porque o outro nos exige uma atitude prática. O outro significa uma proposta de vida que pede uma res-posta com res-ponsa-bilidade. E pensar de forma contrária é, no mínimo, pretensioso.

    Tudo isso podemos traduzir em um sentimento que conhecemos pela palavra AMOR. Amor de compreensão, amor de encaminhamento, amor de vida, amor que torna o outro muito mais importante do que ele pensa ser, amor que transforma sem romper limites, amor que ama de verdade sem dar e nem receber, somente existe naturalmente e é a única forma existencial eterna.

    É tão simples, somos todos irmãos, todavia, ainda, não percebemos.

    Lembrei-me agora de um menino que nasceu há 2010 anos atrás e que dizia assim:

    “Amai o próximo como a ti mesmo”.

    Se analisarmos um pouco a questão dos escritos, dos Evangelhos canônicos (não quero defender religião alguma, até porque não tenho uma), a grandeza da criação, dá-se a partir da revelação do outro.

    Acredito fielmente que se nossas ações não forem individualmente benéfica a todos, de nada vai ter valido a pena, mesmo que nossa alma não seja pequena.

    Por fim, o homem busca respostas a questionamentos complexos, mas tudo está em um ato muito simples: Amar o outro. Enquanto pensam, esquecem de praticar.

    Gislaine Becker
    Professora das Literaturas brasileira e portuguesa
    Professora Doutoranda em Ciências da Educação
    Universidade Nova de Lisboa
    Portugal
    http://illustramus.blogspot.com

  8. Eu pensei numa maneira bem simples de considerar o sentido da vida: A existência não tem nenhum propósito, nós é que temos propósitos.

  9. HENRIQUE RATTNER concordo que a resposta a questoes existencialista e moderno, mais a preocupacao:Quem somos? De onde viemos? E, aonde vamos? E muito antigo desde os classicos Filosofos como: Aristoteles ja tinham essa preocupacao filosofica, por isso nao concordo que a preocupacao seja tao contemporaneo. Mesmos os Sociologos e Filosofos da Escola de Frankfurt ja antencipam essa discusao da critica a uma teoria social do existencialismo com os teoricos franceses positivistas que pensavam que o homem ja podia responder todas as suas preocupacoes existencialistas atraves da ciencia.

  10. Querido Mestre,

    é estimulante e inspirador constatar que continua a fazer as boas perguntas e a buscar as respostas.

    Um abraço com carinho,

    Roberto Regensteiner

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