Vandré na Globo News

DUARTE PEREIRA* **

A entrevista concedida pelo compositor e cantor Geraldo Vandré ao jornalista Geneton Moraes Neto, transmitida pela Globo News no último dia 25 de setembro, continua repercutindo, o que revela o interesse que a vida e a obra do grande artista da música popular brasileira ainda despertam.

Infelizmente, a entrevista foi superficial e enviesada para o sensacionalismo. Passou a impressão de que o principal objetivo era arrancar de Vandré que não teria sido torturado fisicamente e que tudo que fez, após voltar do exílio em 1973, foi voluntário. Como se não existisse tortura psicológica e Vandré não se encontrasse em extremo isolamento, com grandes dificuldades financeiras e mentalmente perturbado. Vandré, pelo que se comenta, sempre foi uma pessoa de trato difícil, com poucos amigos e com alguma doença mental – esquizofrenia na opinião de alguns, ou bipolaridade na de outros. Perdido no exílio e com dificuldades de sobrevivência, buscou um acordo para poder retornar ao Brasil.

Para isso, fez na ocasião e repete até hoje declarações ambíguas. Como afirmar que nunca foi antimilitarista, argumentando que toda nação precisa de forças armadas, mas que também nunca foi militarista; ou insistir que nunca pertenceu a nenhum partido político, nem a nenhum grupo de ação armada, o que é verdade, mas sem mencionar sua posição geral de oposição à ditadura militar e de simpatia com as lutas operárias, camponesas e estudantis; ou ainda reiterar controvertidos elogios à Força Aérea Brasileira, os quais, como detalhou na entrevista, tendo lido inclusive a letra de famosa canção dedicada à FAB, não passam de uma exaltação à aviação em geral e à “loucura humana de voar”.

Vandré lembrou que, de volta ao Brasil em 1973, ainda no governo Médici, tentou retomar a carreira, informação que o entrevistador não se preocupou em aprofundar. Mas, diante das pressões militares e policiais e das manobras de emissoras e gravadoras – as quais não é difícil imaginar para quem viveu e resistiu no período –, preferiu, para não ser forçado a fazer concessões indignas, silenciar. Insistiu que, desde então, não tem mais nada a ver com o Brasil que encontrou, “massificado” culturalmente e marcado por pobreza ainda maior do que na época em que ele compunha e cantava. Recusou-se a enviar mensagem para a juventude atual, alegando que não teria nada a dizer para ela, ou a opinar sobre as tendências contemporâneas da música brasileira, por reconhecer que não as acompanha. Admitiu, com humildade, que foi ultrapassado pelos acontecimentos.

Vandré fez elogios ao talento e à produtividade de Chico Buarque e uma crítica concisa apenas aos tropicalistas, lembrando que teria dito a Gilberto Gil no passado (e fez questão de repetir na entrevista) que não faz “qualquer coisa” para obter sucesso. Manifestou também uma opinião bastante crítica e incisiva sobre a anistia, que, segundo ele, pressupõe que o anistiado reconheça explícita ou implicitamente sua culpa, o que ele nunca admitiu – opinião que, mais uma vez, o entrevistador não procurou esclarecer melhor. Vandré disse que de nada se arrepende e tudo que fez foi por vontade própria.

O inesquecível compositor e intérprete intercalou, portanto, momentos de grande lucidez e memória com outros de silêncio ou dificuldade de expressão. Com tocante dignidade, não escondeu sua solidão, nem sua tristeza.

A entrevista chegou ao fim sem cumprir o prometido. Ao contrário do alarde da Globo News, não elucidou satisfatoriamente a trajetória pessoal e artística de Vandré, nem as razões de seu desaparecimento. Aliás, o entrevistador não procurou investigar essas razões junto a emissoras de televisão, empresas gravadoras de discos ou produtores de espetáculos musicais (apesar do protesto de Vandré, por exemplo, contra o desaparecimento das imagens de sua participação no III Festival Internacional da Canção Popular, gravadas pela Globo). O entrevistador também não procurou ouvir correntes partidárias e intelectuais de esquerda, que têm dado provas de sectarismo e falta de solidariedade com o grande artista. Por que não se divulga sua obra passada? São tantas as regravações de obras de outros compositores e cantores, alguns muito menos importantes! A obra de Vandré não se resume a Disparada e a Caminhando, mencionadas repetidamente pelo entrevistador. Vai muito além, abrangendo inclusive canções de amor de comovente sensibilidade, ainda que não piegas e inseridas no contexto social da época.

Assisti ao documentário sobre o festival de 1967 e a outros sobre a história da Bossa Nova, de Chico Buarque, de Caetano e Maria Bethânia, de Gilberto Gil, de Rita Lee e os Mutantes, para citar alguns. Li também vários livros analíticos e biográficos sobre o período e sobre esses compositores e cantores mais destacados. É com base nessas fontes e em minhas próprias lembranças que esbocei, em outro texto, a distinção em alas da música popular e, em particular, juvenil nos primeiros anos da ditadura militar: uma ala de esquerda (representada pela música de protesto de Vandré e de um Sérgio Ricardo), a de centro (simbolizada pelo lirismo de Chico Buarque) e a de direita (liderada pela Jovem Guarda de Roberto Carlos, individualista e pretensamente apolítica, da qual iriam aproximar-se os tropicalistas).

Trata-se de uma diferenciação principalmente política e não estética (embora as duas dimensões não possam ser desvinculadas de modo completo, é possível distingui-las). E de uma diferenciação alusiva a um período bem restrito, anterior ao endurecimento do regime militar, que criou uma situação nova no meio artístico, e bem anterior ao gradativo retorno de muitos artistas exilados e à retomada de suas carreiras em condições menos sufocantes, o que não aconteceu com Vandré. É fácil ridicularizar a passeata contra a guitarra elétrica, tantos anos e tantos recuos depois, como faz o documentário sobre o festival de 1967, mas o problema não era a guitarra em si, mas o que ela simbolizava, como bem explica Chico de Assis no referido documentário. Erros táticos à parte, que possam ter sido cometidos, o problema essencial era e é: estava ou não tomando corpo uma invasão cultural e desfiguradora dos Estados Unidos em nosso país e na América Latina em geral?

Alguns destacam que a música de Vandré desapareceu do cenário atual e pretendem enxergar nesse fato uma suposta confirmação de sua precária qualidade. Eis uma boa pesquisa a ser feita. Vários fatores contribuíram para essa situação, empobrecedora para todos nós. Um deles é a própria mudança na situação política e cultural do país, que tirou a atualidade militante de algumas composições e interpretações de Vandré. Mas é interessante observar que, sempre que reaparece uma conjuntura de maior combatividade do movimento popular, com passeatas e entreveros mais duros, algumas das canções de Vandré, impregnadas de espírito de luta e mobilização, voltam de repente a ser entoadas.

Outros fatores para o relativo esquecimento da música de Vandré têm sido o boicote dos donos e controladores da produção cultural e a omissão de intérpretes progressistas. Se Vandré está desestruturado e arredio, por que outros intérpretes não regravam, nem reapresentam suas belas canções, que ainda inspiram e emocionam a quem não abandonou as ideias de transformação social e os valores de abnegação e solidariedade na luta, que perpassam essas canções?

Por último e mais importante: independentemente da situação atual de Vandré e de suas possíveis explicações, é indiscutível que ele, apesar de todos os seus defeitos e de sua trajetória trágica, prestou uma contribuição política e estética indelével no primeiro quinquênio que se seguiu ao golpe de Estado de 1964. Merece, por isso, e sempre merecerá, nosso respeito, nossa gratidão, nossa escuta.


* DUARTE PEREIRA é jornalista e escritor. Foi professor universitário em Salvador e em São Paulo e iniciou a carreira de jornalista profissional na antiga revista Realidade, da Editora Abril. É autor de 1924: O Diário da Revolução: os 23 dias que abalaram São Paulo (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2010), entre outras obras publicadas.

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13 comentários sobre “Vandré na Globo News

  1. Estaremos realizando o show com a obra de Geraldo Vandré e Alquimides Daera com musicas em parceria e ineditas, em diversas regiões do Brasil visando à disseminação e a valorização da sua música, portanto, a utilização desta obra toma-se indispensável ao ser humano quanto aos seus conteúdos e conceitos de uma forma lúdica permitindo a fantasia, de acordo com o pensamento do compositor, no entanto devido toda essa importância a necessidade de trabalhar com a utilização da sua música.Nosso projeto é criar em todas as áreas de atuações, produções musicais que primem pelo incentivo ao prazer de pensar e ao de descobrir-se, considerando-os alimentos indispensáveis à sobrevivência da fantasia, além de atuar como verdadeiro antídoto contra a chamada “Cultura de Massa” voltado para o aumento da capacidade crítica da população em geral, sem nenhum preconceito de ordem religiosa, étnica ou social, e para a elevação do sentimento de auto-estima do artista, ou seja, de pertencimento à cidade, ao bairro e ao grupo social.

    Repertorio do Show – http://palcomp3.com/alquimidesdaera/

  2. Excelente reportagens, realmente , parei para refletir este momento, no qual é ainda um tanto desconhecido, para mim, devido meu ambiente familiar, minha criação em torno do momento histórico, pois tudo era proibido não tinha acesso a determinados fatos meus pais dialogavam pouco, nada de política. Inclusive até hoje para eles o governo militar foi e seria a melhor opção para o Brasil. Lembro que quando passei no vestibular, e meu pai ficou sabendo da escolha que fiz pelo curso de Ciências Sociais foi triste ouvi-lo falar; “Não gostei desse seu curso de comunista” , mas não importa o que vale é a pessoa e o conhecimento que construo no dia a dia. Ao lê a reportagens, além da curiosidade de saber, onde andava este compositor é o fato de ele mesmo nem saber da importância que ele é dentro da história da ditadura militar, realmente se perguntava se ele já havia morrido. Espero que as buscas não parem . PARABÉNS!!!!!

  3. Muito bom o artigo. Senti falta, como você também na entrevista, de citação das outras músicas que ele fez, onde encontrar, os nomes dos discos, etc. Obrigada. Leila Gasperazzo

  4. Parabéns pela crítica a uma mídia tendendiosa, exploradora, corrupta, etc…., não é possível enumerar aqui todos os seus desmandos.
    Este artigo me lembrou uma dúvida antiga, se alguém puder me responder eu agradeceria muito “Samba em prelúdio” é de autoria do Geraldo Vandré ou do Baden Powell e Vinícius de Moraes.
    Fico grata a quem puder me ajudar.
    Regina

  5. Caro Duarte,

    Parabéns pelo artigo !
    Lendo-o parei em um tempo que valia a pena ( e que Pessoa não leia o que escrevo agora). Um tempo bem verdade, que ainda menina e que pouca coisa sabia, mas que trago lembranças como de ver (como disse, bem menina) Vandré em cima do palco, ora vaiado, ora aplaudido, cantando esse hino.
    Depois desta última eleição que o Brasil teve (aliás, venho me questionando de outras eleições passadas também) com alguns representantes eleitos que não conseguimos, pelo menos, entender, fico a pensar aonde andam os estudantes do meu país.
    Sim, porque a geração após Vandré ocupou cargos políticos e se esconde atrás de cargos universitários, tentando ser os pseudo-intelectuais de sempre, com suas mentiras socialistas que não explicam nada e nada resolvem; e o pior de tudo… continuam a mentir para seus alunos. Quiçá, por isso, se justifique as próximas gerações que virão.
    A geração seguinte parece que se perdeu entre tentar escolher o que melhor lhe aparecia com muita coca-cola e Mc.
    E por fim, a geração “Lady Gaga” parece estar convencida que enriquecer os analfabetos, aqueles sem sentimentos e melodias, apenas buscando uma rima entre o mar e o andar, parece ser a medida certa.
    Saudades da letra do Geraldo, Saudades do Geraldo que teve a coragem, mesmo sabendo o preço que ia pagar. Simplesmente, saudades.

    Gislaine Becker
    Professora das Literaturas brasileira e portuguesa
    Professora Pós-graduada em Cultura Portuguesa
    Professora Doutoranda em Ciências da Educação
    http://illustramus.blogspot.com

  6. Ótimo artigo. Principalmente no trecho em que caracteriza a MPB, colocando Chico como de centro e a Tropicália próxima da Jovem Guarda, isto é, de direita.

  7. Bem, a música de Vandré, sempre foi vanguardista e de tom transformador e revolucionário. A pressão que sofreu para sobriver nos tempos duros deve ter mutilado sua alma. Mas deve existir neste pais, alguem que seja amigo mais proximo dele e que o motive a procurar um tratamento especial para os disturbios que tem, o que nao é dificil de se conseguir. Porém resgatar a sua criatividade no tom que ela sempre foi, seria excelente, num tempo em que vivemos de despolitização total e desvinculação dar arte com qualquer engajamento transformador na sociedade. Tenho certeza que o Vandré só renega de público as suas criaçoes, pois vive os disturbios que poderiam ser curados com um bom tratamento que o fizesse vir a vida normal… Como seu fã jamais esquecerei a sua obra e a qualidade da mesma, pois sempre fui de esquerda revolucionária e sempre estarei na luta pela transformação da nossa sociedade numa sociedade socialista e vamos precisar de tudo mundo, tambem do Vandré. Pena que outro revolucionário de alto calibre nas artes, o Glauber Rocha tenha ido cedo. Cada um no eu canto seriam o maximo, se ainda existissem. Bem, mas além do sadosismo… Reconheço que nem sem por onde anda o Vandré, para poder ajudá-lo como eu poderia … e adoraria fazer…

  8. um artigo que a gente vai lendo fascinada enquanto aprende e vai pensando: isso ai é um ouvinte e um telespectador que dialoga com a midia, que tem uma capacidade de recepçao critica e de questionamento lucidos e exigentes.
    além da inegavel grandeza do cantor e compositor Geraldo Vandré, o que o artigo questiona é o modo de trabalhar dos reporteres “midiaticos”, a escolha de informaçoes que a TV decide enfatizar ou deixar passar quase desapercebida, etc.
    parabéns e obrigada por chamar a atençao dos telespectadores sobre essa perigosa manipulaçao da informaçao que nos é servida como sendo “objetiva”.

  9. Adorei a crítica equilibrada do jornalista Duarte Pereira. De fato, GEraldo Vandré foi um vanguardista (dizem que até pelo modo como tocava seu violão, com uma técnica de dedilhado e batida diferentes). Ele colocou a sua arte e a sua sensibilidade na contramão do que ordenava a ditadura militar, de uma forma muito mais corajosa que muitos outros artistas. Daí, talvez, não encontrar solidariedade por parte dos seus pares…E a grande mídia, como sempre, amesquinha tudo o que toca, é impressionante…!!

  10. Duarte parabéns pelo texto, quem sabe um dia a Globo disponibilize as imagens do III festival internacional da canção popular de 1967,que simplesmente sumiu (ou foram apagadas ) lá está as imagens dos outros participantes e o Vandré ?????????? foi renegado ,esquecido, e agora a globo teve a oportunidade de fazer uma entrevista e esclarecer algumas coisas pertinentes aquele período e no entanto tornou a entrevista agora, em 2010 sem a pressão dos militares ou outra desculpa qualquer ,uma entrevista, evasiva sem conteúdo e pobre.
    abraço

  11. Muito boa a critica feita a entrevista feita pelos “falcões” da globo,que ao que sempre estão alertas para manipular e tirar proveito de pessoas que por não ter experiecia nesses golpes baixos conduz a entrevista as sua posições conservadoras e porque não de direita assumida publicamente

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