Os filósofos de Dilma e Serra pararam de filosofar

por PAULO GHIRALDELLI JR.*

Vi o professor José Arthur Giannotti em um canal pago da Rede Globo. Perguntado sobre se o Brasil estava com sua democracia ameaçada, ele deu um pulo para afirmar que sim. Claro, Dilma estava para ganhar a eleição no primeiro turno e, então, para ele, do PSDB, não se tratava da vitória de um adversário e, sim, de uma inimiga da democracia.

Giannotti ensinou bem a professora Marilena Chauí. Pois, agora que Serra está na cola de Dilma nas pesquisas, Chauí, do PT, diz que a vitória de Serra não é só uma ameaça aos direitos sociais, mas uma ameaça à democracia.

Assim, se nos fiarmos nesses dois professores de filosofia aposentados da USP, qualquer dos nossos votos não será o que todo mundo pensa, ou seja, um exercício de democracia, mas a abertura para o começo do fim da democracia.

Penso que vale para esses dois professores veteranos a história do cachimbo e da boca torta. Eles viveram sob o Regime Militar (1964-1985) um bom período de suas vidas, talvez a época mais produtiva deles, então, se acostumaram a um Brasil que se parecia com outros países latinos, oscilantes quanto à democracia, sempre sujeitos a golpes militares. Isso entortou o raciocínio desses dois professores que, agora, só conseguem produzir um tipo de pensamento: vitória do outro é golpe ou começo de golpe.

Giannotti age como quem pensa que o PT de Lula não é um partido político que se sai bem na democracia, mas um grupelho de guerrilheiros, como os que, filiados a times revolucionários no estilo dos de Che Guevara, atuaram contra o Regime Militar nos anos sessenta e setenta. Assim visto, o PT estaria usando a democracia apenas como trampolim para o golpe. Marilena Chauí, por sua vez, fala como quem pensa que o PSDB não é o partido de liberais e liberais conservadores, mas um aglomerado de pessoas que estiveram servindo o Presidente Médici. Ambos,  Giannotti e Chauí, criam teorias e redefinem a democracia de modo quase idiossincrático para, assim, se darem o direito de não ver o que todos os outros brasileiros estão vendo, que estamos diante de políticos, de ambos os lados – do PT-PMDB e do PSDB-DEM, que adoram o jogo político democrático, pois já o experimentaram e, nele, tiveram os principais êxitos de suas vidas. Essas teorias desses professores são frutos não do que leram no campo da filosofia, mas de uma mentalidade que foi empobrecida, que só sabe ver a política brasileira como aquela do tempo do Regime Militar, exercida de ambos os lados por gente que não tinha êxito no jogo político. Isso faz Marilena Chauí e José Arthur Giannotti não conseguirem entender a política democrática vigente hoje.

No tempo do Regime Militar, Arena e MDB disputavam e ambos perdiam. A política era esvaziada pela situação criada pelo Golpe de 1964, e que se repunha a cada dia de uma forma diferente das adotadas pelas ditaduras tradicionais. O Congresso funcionava. Mas a oposição, o MDB, não tinha autorização para vencer a ARENA, e esta, por sua vez, não tinha autorização para colocar um civil de suas fileiras em postos muito altos, muito menos na Presidência, que não fosse alguém “fora” da política – um general, é claro.

Creio que esse ambiente contaminou o pensamento de Chauí e Giannotti. Eles olharam tanto para esse modelo que, agora, quatro décadas depois disso ter chegado ao fim (1985), eles ainda pensam a política naquele registro de juventude. Não percebem que os políticos de hoje se alternam quanto a posições menos ou mais conservadoras, mas nenhum deles advogaria o fim do regime democrático. E isso tais políticos levam adiante não por outra coisa que não o fato de que a democracia lhes é a condição mais vantajosa para obterem êxito. Ela, a nossa democracia, lhes dá tudo que eles querem – todos eles são vencedores nesse regime, o atual, o regime democrático em que vivemos. Eles diferem de modo mais radical quanto ao papel da política social ou, mesmo, da política econômica tendo em mira a política social. Mas eles não diferem quanto ao apreço pela democracia, pois eles todos são vencedores na democracia.

Ao não conseguirem entender isso, Chauí e Giannotti passam a demonizar os adversários de suas agremiações do coração e, ao mesmo tempo, endeusar os líderes que eles apóiam. Perdem completamente a observação crítica. Hoje, qualquer jovem, mesmo que tenha posição política bem nítida e apaixonada, se é inteligente, é mais crítico que esses dois professores. É triste isso, pois, afinal, até pouco tempo atrás esses dois professores eram tomados por muitos de nós como filósofos capazes de produzirem narrativas sobre o Brasil que poderiam nos fazer ver melhor. Atualmente, eles reproduzem mera ideologia, até mais que os próprios candidatos que apóiam.


* PAULO GHIRALDELLI JR., filósofo, escritor e professor da UFRRJ. Publicado em http://ghiraldelli.pro.br/2010/10/17/os-filosofos-de-dilma-e-serra-pararam-de-filosofar/

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11 comentários sobre “Os filósofos de Dilma e Serra pararam de filosofar

  1. Penso que o raciocínio do Prof. Ghiraldelli é muito pragmatista. Não se pode comparar um discurso com o do outro. Não se pode julgar sem conhecer a fundo cada frase dita pela Profa. Marilena Chauí, pois em curto espaço de tempo, é impossível expressar o que está subjacente. Penso que deve ler mais sobre cada um dos candidatos, confrontar suas propostas e redefinir o que é democracia e quais os seus riscos no século XXI. Parece que lhe falta algumas leituras de autores respeitadíssimos por sua fundamentação teórica e pela sua produção sobre o avanço de determinado tipo de pensamento no mundo contemporâneo. É preciso ir além de Rorthy.

  2. Caro Professor PAULO GHIRALDELLI JR, A política privativista adotada por FHC; – planejada,… tendo seu início através DOS ESQUEMAS adotados pelos militares aliados as classes dominantes sionistas, decretando no Brasil a “Golpista” Ditadura Cível Militar precedida pelo “Golpista” Golpe de 1964, quando de cara, os militares sancionaram o PND l e PND ll iniciando a entrega do Patrimônio Brasileiro para o domínio internacional…
    E o pior! Hoje, poderíamos ter uma disputa nas Eleições/2010 pelo caminho democrático, consolidando a Soberania, e o Estado Democrátido de Direito; porém, infelizmente, o PSDB preferiu o caminho da mentira e do engodo.
    E tem mais Professor… É necessário URGENTE, revisão nos livros de História em todo o território brasileiro, incluindo neles a verdade! O que realmente aconteceu em nosso País, inclusive a abertura total dos arqivos da ditadura que FHC mandou arquivar como SECRETO POR CINQUENTA ANOS…

  3. Não creio que seja apenas uma questão de saudosismo político. Talvez o Ghirardelli esteja subestimando tanto o compadre do FHC quanto a comadre da Erundina.

  4. Diante dos argumentos do Prof. Paulo gostaria de frisar que o exercício da democracia pode ser realizada de uma forma mais ampla, procurando criar vários canais que permitam cada vez mais a participaçao da populaçao ou ser uma democracia restritiva, mais institucional onde o jogo democrático é realizado por poucos atores políticos. Nesse caso, creio que um futuro Governo Serra teria uma democracia restritiva, haja vista que o candidato faz duras críticas, por exemplo, as Conferências sobre cultura, segurança e saúde que estao sendo realizadas em todo o país. Nesse ponto, também sou da opiniao de que o Governo Serra significa o fim dessa democracia mais participativa que está presente no Governo Lula e vai continuar em um futuro Governo Dilma.

  5. Insisto. Entendo a preocupação honesta do professor Paulo, contudo, tenho convicção que o alerta de professora Chauí não foi compreendido. Nenhum de vocês enfrentam as questões que coloquei. Não há como comparar a campanha de Serra com a de Dilma. Serra “choca” “O OVO DA SERPENTE”. Não se pode ser a favor das instituições democráticas e repúblicanas e fazer alianças com instituições e individuos obscurantistas e de mentalidade medieval pré-renascimento. Serra tornou-se tão conservador que não honra o “HOMEM BURGUÊS”.

  6. Caros amigos penso que textos do Ghiraldelli não são dignos de serem lidos ou comentados. Talvez pensem que se trate de um preconceito meu, mas a biografia desse indivíduo só dá a certeza de que ele escreve e faz tudo com a intenção única de se promover pessoalmente. É de uma tristeza de dar pena!

  7. Muito bem. Há muito sinto falta de análise, de ambos os lados, de forma imparcial, sem demonizar adversários. A bem da verdade, nesta eleição demonizar é o verbo. O que me estranha são homens e mulheres da assim chamada “elite pensante” deste país, se utilizarem de suas conquistadas posições sociais para apenas falar mal do outro. Isso é retrocesso.

  8. A afirmação de que temos uma democracia madura e consolidada é questionada por muitos estudiosos, evito citar nomes, por não ter a devida autorização, mas certamente o articulista conhece as restrições à tese da sustentabilidade de nossa democracia. Por outro lado, parece-me que o professor Paulo não compreendeu os argumentos da professora Chauí. O comando de campanha de Serra incentiva o ódio ao misturar política e religião, sabe-se que esta mistura foi responsável pelo derramamento de muito sangue no medievo pré-renascimento. O outro do cristão, ocidental e branco é o muçulmano. O contrário é verdade. O professor Paulo lembra da “Noite de São Bartolomeu”. Quanto as ligações perigosas de Serra e do PSDB com a Opus, a TFP e remanescentes do órgãos de repressão da ditadura, elas estão mais dio que provadas.

  9. No que concerne à Chauí, você se esqueceu da última das Onze Teses sobre Feuerbach, de Marx. Isso se deve, também, à sua constante platonização da filosofia.

  10. Realmente, por serem professores deveriam avaliar de forma crítica e imparcial, mas pelo jeito, como o senhor disse, devem ter parado no tempo.

    O problema seria até pequeno se fosse somente os doias casos, mas parece que isso está se generalizando por todos os lados!

  11. Julgo a questão muito pertinente principalmente porque tem feito parte do “jogo político” o uso de nomes de destaque, em diversos setores de atividade, para “demonizar” um ou outro candidato.
    Precisamos tomar, de fato, muito cuidado com essas leituras enviesadas e as possíveis conseqüências de se contaminar por elas. Principalmente ainda, de reconhecer que o modelo democrático em jogo, será preservado, como bem nos lembrou Ghiraldelli, afinal eles são os maiores beneficiados deste modelo.
    Parabéns ao Professor Ghiraldelli e abraços a todos, apesar de tudo, rumo ao dia 31!!!

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