Para quê Maluf?

por Halley Margon V. Jr.*

Entre outras tantas tristes marcas a história do século passado traz indelével em sua face a amarga cicatriz do avanço do conservadorismo sobre as forças políticas progressistas ou de esquerda. O próprio termo, esquerda, surrado repetidas vezes pelos seus, humilhado pelos crimes do stalinismo e da sua variação chinesa ou centro-americana, de vergonha foi perdendo a cor e lenta mas ininterruptamente se tornando pálido, acanhado, debilitado. No que restou do que ainda se possa eventualmente chamar de esquerda o projeto típico da social-democracia européia do final do século (isto é, aquele que coloca na mesma panela uma pitada de social-democracia e outra de neo-liberalismo) se tornou incontestavelmente hegemônico.

Colagem de Luiz Rosemberg Filho

Não há mais quem ouse falar em revolução ou sequer mencionar o desejo de superação do modelo capitalista, não pelo menos que tenha representação política digna de consideração. O dogma está consolidado. Tornou-se, na verdade, mais que dogma… como veremos. A ideologia do livre mercado, alavancada pela agressiva e irresistível expansão da Mercadoria e da promessa de universal acesso aos céus (não importa que a ritmo lento, não importa que acoplada a inimagináveis sofrimentos e, sobretudo, a uma irreversível desumanização de todas as relações humanas), tornou-se asfixiante.

Como já escrevi aqui antes, tudo indica que a história tenha chegado ao fim – assim o anunciou em tom de regojizo um dos ideólogos do mundo próspero. O mal venceu e, após tantos esforços e tentativas desastradas, a humanidade finalmente pariu um Deus de fato, cuja existência é não apenas inquestionável e ubíqua mas, acima de tudo, diabolicamente avassaladora: o nome dessa divindade é Mercadoria (aquele que a tudo fabrica e a si mesmo reproduz à própria imagem e semelhança, como um fantasma de si, sem alternativa, sem remissão).

Colagem de Luiz Rosemberg Filho

Mas o século passado é também aquele onde a humanidade viu acontecerem transformações significativas no terreno da dor e do gozo, no território do simbólico. As mulheres deixaram de se reconhecer apenas como um apêndice do macho. O próprio masculino ampliou-se ao se deixar permear pela feminilidade, e vice-versa. O prazer passou a ser parte de uma nova declaração universal dos direitos dos homens. Impulsionada pelas descobertas freudistas/lacanianas a sexualidade avançou sobre as consciências (e sobre os comportamentos), redimensionando o desejo, arregaçando margens até então congeladas e paralisantes. São conquistas que ampliam para o homem a sua própria humanidade. Por outro lado, a Terra (a natureza) foi colocada mais ou menos à força sobre a mesa dos homens de negócios/chefes de Estado, engordando suas agendas meio necrosadas. E eles tiveram que incorporar os temas ditos verdes ao portfólio de suas empresas e aos programas de governo – sem que isso afetasse nem um tiquinho, diga-se, a prosperidade dos seus interesses, senão o contrário (vide o vice da candidata verde).

No Brasil, a entrada do novo século parecia trazer entre outros auspícios o fato de termos deixado para trás justamente as forças mais retrógradas do país, aquelas que acopladas à ditadura militar e mamando nas tetas do Estado acolhedor (para elas) atravancava o desenvolvimento do próprio capitalismo. Foi preciso que duas representações políticas com raízes nitidamente na esquerda assumissem o poder para que o país se desprendesse das amarras que atavam seu desenvolvimento a uma classe dominante indolente, encostada (no Estado) e patrimonialista. E, no campo espiritual, convenientemente obscurantista.

Assim, me permitam uma tosca analogia, se na Rússia pré-soviética tínhamos dois grandes agrupamentos políticos representando a esquerda e apregoando um salto rumo ao capitalismo (sim, no princípio era o que apregoavam tanto bolcheviques quanto mencheviques), cem anos depois, no Brasil, temos dois partidos de esquerda, ambos de perfil social-democrata, um deles um pouco mais, o outro um pouco menos à direita, ou vice-versa. É bem verdade que o PT no nascedouro tinha uma feição de esquerda mais classuda, com a defesa do socialismo ao menos como bandeira geral – para quem soubesse olhar para a história os traços futuros já estavam claramente delineados na cara da criança. E, como era previsível, ao crescer o Partido dos Trabalhadores se tornou um típico partido social-democrata nos moldes europeus (programa de reformas nos marcos do capitalismo, base social fortemente implantada no operariado industrial e nas classes médias trabalhadoras, raízes organizacionais no aparato sindical etc). Quanto àquele que não tendo a chance de se apropriar dessa base quis com o nome trazer para si a tradição daquela mesma social-democracia não se pode negar-lhe inteiramente o projeto que pelo menos esboçou querer esposar.

A ambos coube a mais ou menos indesejável tarefa de carregar a tralha do conservadorismo tupiniquim – que até hoje são obrigados a transportar, com mais ou menos contentamento.

Mas eis que chegamos a um segundo turno sem Malufs e que tais e onde dois candidatos com histórias situadas na esquerda disputam o páreo final após deixarem para trás uma candidata com a mesma origem. E o que temos?

A quinze dias do voto decisivo, o que temos é a mais triste e acabrunhante campanha política dos últimos trinta anos. Uma campanha onde os dois finalistas, ungidos por milhões de votos, cedem gratuitamente terreno e posições duramente conquistadas à mais deslavada chantagem política promovida por padres e pastores. Entretanto, comemoramos todos… o terreno cedido em troca do pontinho percentual necessário à ocupação do trono (de idiota da vez).

É patético!

Da mesma forma, é lamentável a forma como jornalões capitaneados por jovens empreendedores pós-modernos comemoram o avanço da agenda conservadora na exata medida em que este fenômeno se preste ao crescimento do candidato por eles eleito.

No país onde se realizam enormes manifestações em torno das variadas cores da sexualidade, num exemplo de tolerância para todo o mundo, onde uma poderosa classe média orgulha-se de se exibir ao lado da escolha dos seus filhos GLTBs, chegamos a quinze dias da escolha do presidente da República com os candidatos, capitaneados pelo Sr. José Serra, registre-se, assinando documentos de apoio à “família” e à suposta “tradição” (cultural do brasileiro) – a louvação ao terceiro termo da sacrossanta trindade, a “propriedade”, evidentemente está implícita no falatório e apenas por enquanto não se exigiu que se apregoe.

No decorrer desta última semana houve um momento do discurso do tucano no qual dava para sentir o odor nauseabundo dos lemas das Opus Dei da vida. Para não perder terreno na reta final da acirrada disputa a candidata petista aceita correr no mesmo diapasão imposto pelo pesedebista.

Dois lembretes necessários

Tudo isso serve para lembrar que de maneira nenhuma o obscurantismo se dissolveu no ocaso de figuras como a do famigerado político paulista ou no esmaecimento de um partido como o DEM e seus representantes mais ilustres (Cesar Maia et caterva).

A serpente nunca deixa de por ovos ou, nas palavras do historiador inglês, E. H. Carr: se em toda sobrevivência há superação, da mesma forma, em toda superação há sobrevivências. A esta feliz formulação faltou acrescentar, como aponta o presente texto, que da mesma forma como os mortos se impõem aos vivos, o que ali é chamado de sobrevivência acaba por se impor a tudo aquilo que deseja ser vida.

O segundo lembrete é apenas para registrar que as responsabilidades do crime relatado acima são relativas. E se não há dúvida que a Dilma erra muito ao ceder à agenda de pastores e padres, bispos e congêneres, tampouco resta dúvidas de quem que fez o pêndulo mergulhar na sombra horrenda do obscurantismo foi a incontrolável (e sobejamente conhecida) tara pelo poder do candidato tucano.

O páreo é duro. Mas a resposta à pergunta está dada na própria indagação (perplexa): Maluf, para quê?!


* HALLEY MARGON V. JR. nasceu em Catalão, Goiás, em 1956. Na década de 1970 colaborou com o jornal Versus, de São Paulo. Hoje reside no Rio de Janeiro; lançou recentemente seu primeiro romance “Paisagem com cavalo” [Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 160 páginas. Site: http://www.7letras.com.br/ Email: halleymargon@globo.com Publicado em http://www.viapolitica.com.br/artigo_view.php?id_artigo=193

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5 comentários sobre “Para quê Maluf?

  1. A “política” foi e sempre será um jogo de interesses pessoais, nos quais apenas alguns poucos se beneficiam, mas que é o suficiente para uma massa de esperançosos de que um dia poderão comer(ou não) uma fatia do bolo do assistencialismo escabroso que escravisa e torna um povo miserável e sem vontade de trabalhar.
    (“Do suor do seu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; pois és pó, e ao tornarás.” Gênesis 3:19)

  2. Pra quê Maluf? Para compor com Collor, Sarney e Barbalho, aquilo que vc considera mais à esquerda e para diferenciar melhor os dois projetos que você tenta uniformizar.

  3. Olá!

    Não pretendo ser demorado no meu modesto raciocínio, porém, não posso deixar de, ao menos, tentar dizer algo.

    Antes de mais nada, quero identificar-me como cidadão e, por isso, entendo ser merecedor de respeito e, também, professo a fé cristã segundo entendo o evangelho de Jesus Cristo.

    O que me cansa não é ver e ouvir a podridão que está explícita na nossa sociedade, mas também notar que os que defendem uma sociedade mais justa e mais humana só a concebem do ponto de vista de suas próprias idéias, isto é, a sociedade só será melhor se todos pensarem como eles.

    É essa a idéia que me passa ao ler este artigo. Só uma parte da população pode se manifestar e defender suas convicções, ou seja, aquela que concorda que tudo está errado e que tudo deve ser mudado.

    Me cansa ler textos e ouvir pessoas criticando padres e pastores por quererem, ao menos, não ser desconsiderado como pessoas e como cidadãos, que têm convicções próprias e que estas podem, sim, diferir daquelas que alguns (não a maioria) defendem como únicas e certas.

    Se eu acreditar que uma família é composta de um pai, uma mãe e os filhos que esta relação tem e esta que deve, sim, ser prazerosa, mas que também tem outros fundamentos, eu passo a ser imediatamente colocado no rol dos conservadores, reacionários e tantas outras palavras pejorativas.

    Não levo a sério pessoas unilaterais que acreditam que só elas têm o direito de dizer o que pensam e de defender suas convicções. Eu tenho (e tantos outros “conservadores” também) opiniões bem definidas sobre o que acredito e as tenho como verdadeiras, porém entendo que outros pensam diferente de mim e que também levam a sério suas convicções. No entanto, isto não as torna inimigas ou indesejáveis.

    Acredito que todos temos o direito de defender nossas convicções, sejam elas quais forem e que devemos ser respeitados por termos convicções, enquanto que muitos já não pensam por si mesmos. Repudio veementemente espaços que se autoproclamam como voz única e que só reconhecem aqueles que pensam da mesma forma que eles. Não considero sadio para ninguém impor minhas idéias ou apregoá-las tratando os que pensam diferente de forma desrespeitosa.

    É assim que penso.

    Um abraço a todos.

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