A noção da amizade na era do Facebook

por Enrique Fibla Gutiérrez

www.fronterad.com*

O processo de amizade se automatiza, passando a depender de uma breve janela de aceitação

Há uns dias estreou na Espanha A Rede Social, o filme de David Fincher sobre o nascimento do Facebook, plataforma web que define perfeitamente a sociedade da informação do século XXI. Mais além da indubitável qualidade do filme, a sequência reaviva o interesse não somente sobre o tema da vida privada, mas também o significado do conceito de amizade na era da internet.

Em uma das principais cenas do filme, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg se dispõe a celebrar o número de um milhão de usuários da plataforma enquanto enfrenta uma demanda judicial interpolada por seu único amigo até agora. O advogado deste amigo o alfineta com ironia: “seu melhor amigo está pedindo 600 milhões de dólares”. Pouco depois, voltamos à sede do Facebook, onde o jovem começa a assistir a uma festa e comemorará o êxito de conseguir ficar totalmente sozinho no escritório. Como pode o fundador de uma das ferramentas sociais mais importantes dos nossos tempos ser uma pessoa evidentemente anti-social? Na minha opinião, diz muito sobre o que é considerada atualmente a amizade, um conceito que tem sido distorcido a ponto de depender exclusivamente de um clique do mouse.

A palavra amigo provém do latim amicus, que deriva, por sua vez, da palavra amore,amor. Trata-se, portanto, de uma relação entre duas pessoas cuja chave reside no mútuo entendimento e respeito. Mas, sobretudo, embasa-se na existência de uma intimidade com o outro que nos permite compartilhar o que nos alegra e nos atormenta de maneira totalmente próxima. Abrimo-nos à amizade porque necessitamos compartilhar o que passa pela nossa cabeça, estabelecendo um vínculo de confiança sem o qual estaríamos perdidos. Um amigo não é o mesmo que um conhecido, alguém a quem também respeitamos mas não confiamos o suficiente para nos abrirmos e de quem somente conhecemos superficialmente, mas nunca em profundidade.

A confusão vem com a aparição das redes sociais na Internet, um tipo de simulacro de nossas relações pessoais onde um cria um alter ego virtual a partir de pequenos retalhos de informação pessoal, fotografias e comentários sobre o que fazemos, deixamos de fazer e do que gostamos. A natureza expansiva da rede faz com que a única maneira de participar do jogo virtual seja aumentando constantemente nosso número de amigos. Solicitando a aceitação de pessoas das quais não conhecemos nada. Se faz possível o impensável, já que podemos chegar a entrar em contato com gente que simplesmente não teríamos conhecido de outra maneira. Essa ampliação até o infinito de nosso mapa social é certamente positivo, já que provoca encontros, choques e conexões que, de uma maneira ou outra, geram novos conhecimentos e ideias. Ao mesmo tempo, entretanto, impulsiona uma cultura de superficialidade que preocupa pelo desapego com a realidade provocado pela ferramenta.

As novas relações que estabelecemos graças à ausência de barreiras físicas na Internet se baseiam na máxima do “disparo”, em vez da seleção. Nesse ponto, gostaria de recordar uma citação do escritor Augusto Monterroso que diz: “Desde que começou a falar, o homem não encontrou nada mais gratificante que uma amizade capaz de escutá-lo com interesse, seja para a dor como para a felicidade”. O importante dessa frase é que ressalta a transcendência do interesse e, por extensão, da profundidade de um vínculo para considerá-lo como tal. Nossas amizades virtuais correspondem a esse pensamento? Duvido muito. Sobretudo porque tudo que podemos conhecer do outro e vice-versa não é nada mais do que uma construção, uma máscara por trás da qual não há um rosto, mas simplesmente nada. Não se exige o exercício da sinceridade que implica toda amizade verdadeira, um processo no qual não resta outra coisa se não mostrarmos como somos. Tampouco recai sobre nós responsabilidade alguma e assim, isentos de deveres, nos encanta nos sentirmos participantes fortes do simulacro social que propõe o Facebook.

O processo de amizade se automatiza, passando a depender de uma breve janela de aceitação como início da relação e com constantes opções de valorizar aquilo que se valoriza por meio de botões pré-configurados do estilo “gosto”, não gosto” etc. Essa racionalização/automatização da amizade é o procedimento que segue Mark Zuckerberg no filme. Mostra-se infinitamente mais fácil entender as relações pessoais como uma série de algoritmos de zeros e uns que dão forma a esta ou aquela opinião da web. Essa redução não implica uma necessidade de simpatizar com o outro, mas sim uma dissecação lógica que permita determinar gostos, medos e afinidades sem ter que perguntar, somente consultar o que o computador já fez por nós. A tecnologia se converte em um meio que nega a interpessoalidade mas permite uma comunicação eficazmente imediata.

Agora, que tipo de comunicação se consegue estabelecer? Neste ponto, remeto ao excelente ensaio de Gilles Lipovetsky “A era do vazio”, onde define um ato de narcisismo como “a expressão gratuita, a primazia do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença pelos conteúdos, a reabsorção lúdica do sentido, a comunicação sem objetivo nem público, o emissor convertido em principal receptor”. Desta maneira podemos definir a amizade segundo as redes sociais como um paradoxo ato de narcisismo, realizado a partir da solidão de um computador e onde o que interessa não é conhecer o outro,, mas sim construir minuciosamente uma identidade em perpétua mutação, diante da qual conhecemos a comunidade virtual.

De certa maneira esta é a conclusão final de David Fincher em “A rede social”, a sensação de que depois de duas horas de filme somos incapazes de fazer uma ideia clara de quem é Mark Zuckerberg. Mas não por falta de habilidade do diretor, mas como uma exemplificação máxima da incapacidade de construir uma identidade clara de alguém que se escondeu toda a sua vida atrás da Internet. Façamos o teste agora de tentar imaginar quem são todas essas pessoas que temos como amigos em nossas contas. Provavelmente só reconheceremos uns poucos, que casualmente serão nossos amigos mais próximos. Não pretendo demonizar uma ferramenta tão útil como o Facebook, que eu mesmo uso assiduamente, mas sim alertar sobre essa redução do conceito de amizade, que nos leva a utilizar a dita palavra com rapidez para denominar relações cibernéticas que merecem outro termo. Quiçá seja simplesmente uma questão de terminologia, mas sem o simplesmente.


* Fonte: Brasil de Fato, 22.11.2010, disponível em http://www.brasildefato.com.br/node/5101

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6 comentários sobre “A noção da amizade na era do Facebook

  1. Concordo em parte com tudo que foi dito, já que não vejo as redes sociais só como vilãs. Por exemplo, hoje não temos mais desculpas para não mantermos contato com nossos familiares e amigos que se encontram distantes, sem contar que também podemos solucionar problemas ou tirarmos dúvidas em tempo real. Amigos fiéis podem nos ajudar a encontrar soluções mais adequadas. O importante é evitarmos construir a amizade virtualmente, mas podemos sim fortalecer o nosso círculo de amizades.

  2. Muito bom o texto, Enrique! De fato, sem querer demonizar o Facebook, estamos diante de uma ferramenta que pode, potencialmente, nos levar muitos passos adiante no processo de nor tornarmos robos. O criador do Facebook e’ uma pessoa realmente anti-social, e nao convem esquecer que a criacao foi devida a uma falta de respeito e a uma tentativa de subjugar uma pessoa, usando a tecnologia.

    Ah, quem de nos professores de humanidades nao nos deparamos alguma vez ou outra nas nossas carreiras com os “geniozinhos” da engenharia e de outras areas afins, que acham que eles sabem tudo e que o que nos ensinamos e’ “bobagem”? No fim das contas, todos terminamos nos deparando com as mais basicas necessidades humanas, entre as quais esta’ a de nos relacionarmos com outros seres humanos.

    E ai’ entra a genialidade humana outra vez, que serve tanto para o mal como para o bem. Como eu comento num artigo que a REA publicou recentemente, o Facebook pode ser uma poderosa arma de comunicacao, e pode ajudar as pessoas de muitas maneiras.

    Mas eu realmente nao gosto daqueles “pop-ups” querendo me vender isto ou aquilo. Podemos usar o Facebook sem cair nas armadilhas comerciais, e fazer o possivel para usar a tecnologia para o bem.

  3. Concordo com o Luiz e Jeferson. Penso que a amizade virtual é um auto-engano, que representa o estilo gasoso de nossa época. As pessoas se auto-enganam com a quantidade dos supostos amigos do facebook em vez da autenticidade dos amigos, ainda que poucos mas verdadeiros. Todos são amigos de todos e ninguém tem amigos verdadeiros. Portanto, o Mark Zuckerberg é apenas um sintoma de uma sociedade que caminha para o vazio (Lipovetsky) e o auto-engano patológico, com possibilidade de efeitos trágicos no futuro da humanidade. Notem que o estilo de Zuckerberg produz milhares Zuckebergs que acreditam “ter amigos” no Facebook e outros dispositivos virtuais, no fundo para compensar a incapacidade e fazer e sustentar amigos autênticos. Cada um entrincheirado na sua solidão autista diante de uma tela convivendo com uma existência inautêntica. Possivelmente estamos convivendo com uma monstruosa traição da amizade autêntica, porque “a amizade exige luta contra o narcisismo e a aceitação do outro como é, como um ser único, diferente da imagem sonhada. A amizade – ao contrário do amor erótico – exige esforço, generosidade e sacrifício” (CASTILHO, op.cit, p.258). “Estamos produzindo uma geração “y” ou “z”: multitarefa, diletante, umbiguista, munida de celular ou de uma tela para se comunicar . Trocam a possibilidade do relacionamento presencial de qualidade pela quantidade dos contatos virtuais. Sem dúvida, no meio eletrônico os relacionamentos humanos são condenados a serem efêmeros, rápidos e superficiais ou falsos. Mas, predomina o auto-engano de ter amigos na blogosfera, sobretudo para aqueles que presencialmente se revelam anti-sociais. Que fazer para educar os seres humanos “sem gravidade” , sem capacidade para fundar vínculos autênticos que chamamos amizade? Como será o futuro da humanidade que perdeu o sentido de estabelecer vínculos de confiança? Que perfil terá a sociedade fundada apenas em interesses pragmáticos? Desse modo, o ser humano será mais ou menos humano? Teria a vida mais ou menos sentido existencial?” (Convido ler meu ensaio nesta revista: LIMA, Raymundo. “Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil…” – novo ensaio sobre a crise da amizade – Rev.Espaço Academico.com.br, n.114, novembro/2010).

  4. Discutíamos em casa um questão parecida. O computador pessoal condensa vários tipos de ferramentas para realizar projetos individuais, salvar e guarda aquilo que lhe interessa que também cria essa identidade. Mas numa produção destas tecnologias onde vigora o monopólio e obsolescência programada, a dinâmica do individuo está ditada por isso também. Como é comum perder informações dados, coisas muitas antigas que lhe foram tão importantes e caras e pelo tempo, num prazo pequeno, aquela eternidade da virtualidade se perdeu. O que era virtual, o que era uma potência para o individuo acessar a qualquer momento, se perde rápido pois a estrutura das máquinas também funciona assim. Pensamos que a internet e essas redes sociais, seja um limite claro desse indivíduo isolado. Um jeito muito mais fácil de resguardar sua individualidade, se auto construir. Podemos “ir” qualquer lugar, podemos “conversar” com quem quisermos, podemos concorrer em jogos onde a concorrência é a base fundamental, podemos desenvolver os sagrados direitos sagrados do homem. Essa forma de internet ou do PC, “como extensão da minha subjetividade”, é determinada pelas relações sociais em que está inserida e mostra as necessidades reais dos indivíduos ou a condição ideal deles. Assim como na politica, xe pressupõe a noção de comunidade assim como na redes sociais ou internet. Longe de negar o virtual, é saber quando o virtual vai se materializar? Quando poderemos ir e vir? quando será possível uma pessoa ter mais 1000 amigos? nesse mundo que não é. A internet parece a materialização dessa falsa ideia de comunidade e glorificação do individuo, que na realidade é impotente. Duplicação da realidade social e mais uma potência a ser realizada, esse inúmeros conteúdos de inúmeras subjetividades.

  5. Com certeza essas ferramentas sociais de internet são sedutoras, você enxerga pessoas com gostos parecidos, torcendo pelo mesmo time, gostando das mesmas músicas, mas creio ser impossível se ter uma relação verdadeira de amizade sem olho no olho, contato, tendo divergências a discutir.
    Avaliando o quadro brasileiro, as redes sociais mostram como é perceptível a necessidade de se mostrar ter alguma coisa, até amigos viraram coisas a se mostrar ao outros.
    Puro status. Pura falsidade.
    É impossível ser sensível ao sentimento de alguém pela tela de um computador.
    Claro que é possível após contatos pelas redes sociais se ter uma amizade real, de contato, verdadeira.
    Mas, vejo que na maioria dos casos nessas redes sociais, é quase tudo pura conveniência, propaganda…

    Há uma frase que diz: “Consolamo-nos tendo muitos amigos por não termos encontrado um.” Abel Bonnard.

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