E se o bichinho morrer?

por RAYMUNDO DE LIMA*

Ter um bichinho de estimação em casa é uma alegria, principalmente para as crianças e os solitários. Apesar dos médicos alertarem quanto a possíveis causas de alergias, asma, rinites e doenças do gênero, ter um bichinho em casa faz bem para a saúde mental dos humanos. Não sabemos, porém, se o mesmo ocorre com eles.

Um detalhe escapa aos apaixonados pelos animais: geralmente a vida do bichinho é mais curta que a humana, alguns sofrem pelos maus tratos e a falta de liberdade, portanto, é preciso estar prevenido sobre sua fuga ou perda definitiva.

A alegria momentânea em levar um pintinho para casa precisa estar ciente de que provavelmente ele não sobreviverá devido aos maus tratos, a solidão, falta de outros da espécie, ausência de quintal se vai viver em apartamento, etc. Em muitos casos, chega a ser crime previsto por lei maltratar o bicho mesmo sem intenção consciente.

Por sua vez, a criança imagina que o bichinho de casa é parte da família. Se pedirmos para a criança fazer um desenho, provavelmente demonstrará que o bichinho habita seu imaginário como se fosse gente, um membro normal da família.

Daí que a perda do bichinho – por morte ou fuga – normalmente é sentido com tristeza, luto, angústia ou culpa, podendo durar dias, meses ou anos. Adultos também sofrem quando perdem o seu bichinho de estimação. O escritor e acadêmico Carlos Heitor Cony não teve vergonha de expressar sua dor em crônicas, quando perdeu a cachorra Mila. No filme Madadayo, o velho professor cai em depressão depois que sua gata fugiu. Pensando que o fariam novamente feliz, os alunos trouxeram-lhe uma gata. Mas isso não acontece, porque sua gata Nora era muito especial. Ou seja, bicho ou gente nunca podem ser substituídos. Qualquer perda gera vazio existencial.

Que podem fazer os pais? Psicólogos e psicanalistas acham que: primeiro, devem levar a sério o sentimento de perda da criança. Jamais fazer pouco caso, dizendo “Era só um animal” ou “Podemos arrumar outro”. Agir com insensibilidade não ajuda a criança a elaborar o seu luto. Pelo contrário. “Não se realiza o luto do acontecido senão partindo o pão da palavra, que diz a dor da perda, observou psicanalista francês Philipe Julien (1993).

Todavia, se os sintomas de luto e tristeza depressiva durarem muito tempo, recomenda-se levar a criança a uma entrevista com um profissional da área psi. A melhor forma de enfrentar esses problemas é falando sobre eles, tomando consciência, por meio da palavra, do significado de quem foi embora, que fazer com o vazio de agora. “Eu contaria a meus filhos que há um bebê a caminho. Conversaríamos sobre que nome dar se for menino ou se for menina… Se pudéssemos falar da mesma maneira a respeito da morte, então penso que viveríamos de forma diferente” (citado por Schaefer, 1991; 153), compara a médica Elisabeth Kubler-Ross. [1]

Em segundo lugar, os pais devem respeitar o choro da criança; respeitar o tempo de sofrimento da perda que todos nós precisamos ter para reorganizar o sentido de existência. Tentar acabar a tristeza com broncas e rispidez só faz piorar as coisas.

Terceira sugestão: convidar a criança para fazer o enterro do bichinho. Estimulá-la a dizer palavras de despedida. Isso mesmo. Por que não homenagear um ser que nos foi muito importante para o desenvolvimento da criança, que lhe deu tantas alegrias e proporcionou tantas brincadeiras?

A perda de um bichinho – ou pessoa querida – exige tempo e cuidados especiais para ser superada. Também pode ser uma boa oportunidade para esclarecimento de questões fundamentais sobre o significado da vida – de “minha vida” enquanto representação “minha”, como diz Schopenhauer –  bem como abre caminho para uma conversa interessante sobre os tradicionais temais de filosofia, sobretudo a ética e as virtudes, a relação alma e corpo, o papel da religião, o valor da vida etc.

Contraditoriamente à crença popular, a maioria das crianças e adolescentes quer falar sobre a morte. Os pais precisam superar sua dificuldade e resistência para conversar assuntos considerados tabus, como a: morte, sexualidade, paixões, drogas etc. Apesar da morte ser um assunto tão banalizado na mídia, ela ainda se constitui um tabu. Entretanto, a nova geração acostumada à televisão, aos videogames, os filmes violentos e os noticiários sobre o chamado mundo cão, têm um olhar diferente sobre a morte e o morrer. Ou seja, “a morte está para ser contemplada como espetáculo que vem saciar os instintos de violência”, observa Libâneo (1984: 83). Podemos dizer que, por um lado, a morte e o morrer tornaram-se banalizados, e por outro, ela continua sendo um tabu [2] nas conversas ou na disposição para se pensar sobre o impensável – pois nosso inconsciente não tem representação, tal como entendia Freud.

A verdade é que amadurecemos psicologicamente quando encaramos o sofrimento, a dor, a morte ou o vazio existencial sinalizando “nunca mais…”. Em que pese o fato da morte ser sempre um acontecimento inesperado da vida, cada caso requer uma explicação especial, não importa se fantasiosa ou cientificista. O acontecimento “morte” sempre nos convida – sujeito e coletividade [3] – a procedermos uma reorganização radical de toda nossa estrutura psíquica e de nosso sentido filosófico-existencial.

Enfim, “uma sociedade onde não exista o estímulo a pensar no sofrimento necessariamente produzirá indivíduos frágeis”, diz o filósofo P. Sloterdijk. Assim como fazemos exercícios físicos para sermos sadios, também devemos conversar, filosofar sobre os momentos difíceis da vida, a fim de estarmos melhor preparados para enfrentar tais dificuldades.

Referências bibliográficas.

JULIEN, P. O retorno a Freud e Jacques Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

KOVÁCS, M. L. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

KÜBER-ROSS, E. Sobre a morte e morrer. São Paulo: M. Fontes, 1991.

LIBÂNIO, J. B. Conceito cristão da morte. In: Morte e suicídio: uma abordagem multidisciplinar (vários). Petrópolis: Vozes, 1984: 71-88.

LIMA , R. Falando de morte sem meias palavras. Entrevista a rev. Crescer – Ed. Globo, ano 6, n. 71, out/99, p. 86-7.

RODRIGUES, J. C. Tabu da morte. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.

SCHAEFER, C. Conversando com crianças sobre… São Paulo: Harba, 1991.

SLOTERDIJK vê o homem como um ser trágico. O Estado de S. Paulo, 27/jan/1996.

TORRES, W. C. Educação para a morte. In: Morte e suicídio: uma abordagem multidisciplinar (vários). Petrópolis: Vozes, 1984: 120-26.


* RAYMUNDO DE LIMA é Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e Doutor em Educação (USP). Publicado na REA nº 30, novembro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/030/30elima.htm

[1] O sentimento de luto – tristeza profunda – que uma pessoa experimenta com a perda de um bicho de estimação é idêntica, em quantidade e intensidade, que a sentida por perda de uma pessoa querida. Principalmente para a criança que desenvolveu uma forte ligação emocional com o animal. Os estágios de luto são os mesmos de uma perda humana. Primeiro vem o choque e a insensibilidade, e durante esse período a criança têm dificuldade em aceitar a realidade da morte do bicho. O segundo estágio envolve sentimentos de tristeza, revolta e infelicidade. É possível que nesse período a criança desenvolva raiva para com aqueles que não salvaram ou não cuidaram adequadamente o animal, inclusive ela pode sofrer sentimento de culpa. O ultimo estágio é de aceitação da perda definitiva. É quanto à criança começa a formular um pensamento resolutivo sobre a sua relação com o animal. Ou quanto manifesta o desejo de ter outro bicho. Varia muito de uma criança para outra o tempo e como é superado cada estágio. Se a ligação criança/ bicho de estimação era realmente significativa, representando muito para o mundo subjetivo da criança, durarão meses e até um ano, do contrário, é uma questão a ser resolvida em semanas. Mas, deve sempre ser objeto de atenção dos pais, pois o luto considerado crônico – luto complicado – pode ser uma depressão ou melancolia que demanda tratamento psicológico. [SCHAEFER, C. 1991; KÜBER-ROSS, E. 1991).

[2] Ver RODRIGUES, J.C., 1983.

[3] Existem sociólogos que estabelecem ligação entre o aumento das cifras de violência social no mundo contemporâneo e a ausência de debate tanático (TORRES: 123).

 

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7 comentários sobre “E se o bichinho morrer?

  1. Achei muito conveniente escrever algo sobre esse assunto. O texto foi como terapia pra mim, pois refelit muito sobre alguns animais domésticos que tive no passado e as minhas reações quando perdi eles.

    Daniel Rodrigues, 2º ano de Psicologia UEM – ex aluno seu

  2. Caro Professor Raymundo,

    Se a academia e a política não levam em conta sentimentos, valores morais, Amor ao próximo tá explicado o porque de nossa política e meio acadêmico estar cada vez pior!!!

    Abraços e parabéns!!

  3. Meus caríssimos comentaristas deste artigo. Sinto-me muito sensibilizado pela sensibilidade de voces ao ler meu ensaio, nesta republicação. Porque na primera vez que ele foi publicado nesta Revista EA, o pessoal que “perdeu a ternuna nas lutas” reagiu negativamente, com cachotas e desprezo, afinal, uma revista tão “acadêmica” e “politizada” não deveria acolher artigos/ensaios como este tema tão menor. (Lembro-me um colega de trabalho, certa vez num embate comigo sobre outro assunto, disse: “aqui é espaço para pensar, não pra sentir”). Então, depois percebi que eu andava com o grupo errado: meu grupo é dos sensíveis, existencialistas, socráticos pela amizade com gente e bichos, enfim, pessoas que enfrentam o trabalho de elaboração com as perdas de bichos, gente, perdas reais ou simbólicas.
    Notem bem que este ensaio trata do bichicho e da possibilidade de perda ou morte.
    Voces, agora, captaram bem, ao contrário dos meus antigos companheiros de luta que trocaram a ternura e sensibilidade pela “causa maior”. Imaginem pessoas assim nos postos de poder: sem sensibilidade, ignorantes e amarradas a certos dogmas.
    Os filmes como Hachiko, e um ‘filmete’ de 20 minutos, que não me lebro o nome – que trabalha Philippe Noriet, faz um personagem sempre expulsando um cachorro vira-lata que teima em querê-lo como amigo. Um dia, alguém dá um tiro no cachorro e o Noriet sai em busca para encontrá-lo, com medo de ele ter morrido e, certamente, ter perdido seu possivel amigo. (Se alguém saber como conseguir este filme, agradeço retorno. Passou na TV Bandeirantes cerca de 10 anos). Meus caros comentaristas, voces me deram um bom presente de final de ano. Felicidades pra voces. de coração, Raymundo.

  4. Li o artigo e achei muito interessante. A dor pela perda é enorme, seja de um parente, seja de um animal de estimação. Já passei pelas duas e só eu sei o quanto sofri. Entretanto, como a morte faz parte da vida, creio que a solução não é desistirmos de ter e cuidar de nossos bichos, mas de aprender com eles a nos tornar mais humanos.

  5. a perda, a morte e o luto não devem ser escamoteados das nossas vidas, como se fossem acontecimentos que não nos dizem respeito. Devemos aprender a conviver com estes fatos, pois todos nós passamos ou passaremos algum dia por eles.
    Acredito que se estivessemos preparados para morrer, aceitando que vida e morte fazem parte da nossa jornada existencial, poderiamos dar um sentido mais amplo e digno às nossas vidas. Aprender a morrer, para aprender a viver com mais respeito à vida e a nós mesmos.

  6. Caro Raymundo,

    Parabéns pelo seu artigo que nos coloca em reflexão sobre a perda e os sentimentos causados por essas perdas.

    Resolvi comentar o seu artigo porque estou passando por uma fase da minha vida muito felina. Não que eu tenha virado uma gata nessa altura do campeonato, mas resolvi ter um felino, independentemente do sexo.

    Então, comecei a procura para comprar um gato (a). Muitos apareceram e como queria um gato (a) persa, funilei minha procura. Diante dos preços, da crise, da minha condição financeira de estudante, pensei melhor e resolvi adotar um gato(a).

    Pois bem, associe-me a uma dessas associações que cuidam de animais abandonados e eis que encontro Diana. Diana tem uma história de vida muito triste, bem como todos que por alí estão, uma vez que suas histórias sempre estão ligadas ao abandono. A felina, que hoje chega em minha casa, tem 13 anos e sua dona faleceu antes dela. Confesso que já nem sei de quem mais foi o azar, se de Diana ao perder a dona ou se da dona em ter falecido.

    Imagino, claro que resguardando as proporções que ter um bicho de estimação é a mesma coisa que ter um filho. Alguns lados positivos levam-me a pensar que ter um bichinho de estimação é muito mais pacífico e econômico do que ter um filho (a).

    Da mesma forma que ter um filho (a) e tenho três (22, 20 e 15) é como entrar num mundo sem saída. Todos os dias nossas preocupações são as mesmas. Se vão a alguma festinha ficamos a pensar como voltarão, se estão na escola ficamos a pensar se vão bem, se não comem ficamos a pensar o motivo pelo qual não querem se alimentar, será que estariam doentes? Se respiram ficamos a analisar sua respiração para verificar se estão respirando da forma mais apropriada (exagerando um pouco).

    Mas o que quero dizer, é que depois de me candidatar e ficar aguardando o contato do pessoal da associação, entre esse período da candidatura e do contato a problemática nasceu. Em análise da situaçao e levando em conta a idade de Diana, fiquei a pensar se estava agindo corretamente, pois Diana já é uma idosa e fazendo um comparativo a nossa idade os 13 anos felinos correspondem aos 72 anos de vida humana.

    Fiquei a pensar para que adotar um bichinho de estimação que tem poucos anos de vida, da mesma forma que pensei que se eu morresse amanhã Diana ficaria com um trauma duplo de perda.

    Por incrível que pareça comecei a perceber que nosso olhar e nossos sentimentos são muito narcisos, pois sempre consideramos a nossa perda, o nosso sentimento e nunca analisamos o sentimento do outro (neste caso o de Diana). Porque se eu morrer antes de Diana a grande perda nesse contexto é dela (parece que estou sendo novamente narcisa) porque já apresenta um quadro anterior de perda. Então, a minha questão passou a ser outra: será que devo adotar Diana mesmo sabendo que eu possa a vir falecer amanhã?

    Cientificamente, estamos cansados de saber que os animais não possuem sentimentos, pois os cientístas fazem questão da distinção entre respostas a estímulos e a interpretação das próprias emoções, talvez para justificar a própria inteligência e aqui já entramos em outro campo. Todavia, quem já teve um animalzinho de estimação sabe que isso é uma grande mentira, da mesma forma que quem já viajou pelas savanas africanas percebe o exato momento de felicidade de uma manada de elefantes ao se encontrar com outra e parece que já se conhecem de muitos anos.

    Bem, “egoisticamente falando”, resolvi adotá-la mesmo sabendo que posso a vir traumatizar Diana novamente e como já disse, ela chega em minha casa no dia de hoje.
    Tomara que eu consiga amenizar essa grande perda que Diana teve, uma vez que anda triste, parece comer pouco, o pelo está a cair e dorme o dia inteiro (quadro visível de depressão).

    Raciocínios a parte, tomara que ficamos juntas para sempre.

    Gislaine Becker
    Professora das Literaturas brasileira e portuguesa
    Professora Pós-Graduada em Cultura Portuguesa
    Professora Doutoranda em Ciências da Educação
    Universidade Nova de Lisboa
    http://illustramus.blogspot.com

  7. Creio que a banalização do assunto “morte”, se deve a banalização da vida em si.
    A mídia contribui muito para isso, a televisão mostra violência banalizada o dia todo, em desenhos infantis, novelas, programas de auditório ridículos, etc.
    Tuso isso influencia, e muito, adultos menos preparados e principalmente crianças e jovens.
    Talvez por isso vemos cada vez mais jovens morrendo vítima de drogas, acidentes por embriaguês ao volante, brigas, etc.

    Talvez a maior reflexão a fazermos é como minimizar as causas disso tudo.

    Saudações!

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