O indivíduo e a morte

por ANTONIO INÁCIO ANDRIOLI*

“Ao meu partido me fizeste indestrutível porque contigo não termino em mim mesmo”. (Pablo Neruda)

Não há nenhuma experiência humana que possa ser comparada à morte. Em primeiro lugar, ela é tão única que sequer permite a possibilidade de tematização por parte de quem a vivencia. Em segundo lugar, não há ser humano que não passe por ela e que, no decorrer de sua vida, não tenha, no mínimo, se preocupado com ela. Mas, por que deveríamos nos preocupar com algo que, quando vier a acontecer conosco, já não estaremos mais existindo? É exatamente esta a preocupação: a idéia da “não-existência” e a impotência diante desta obviedade da existência humana: a finitude da vida individual.

Numa sociedade centrada no indivíduo, somos tencionados a tratar os outros com indiferença, a sobrevalorizar nossa existência individualista, a nos afirmar como sujeitos autônomos e auto-suficientes, alimentados pela ânsia de competir com os outros, “conquistar” espaços e acumular riquezas para nós mesmos e/ou, no máximo, para nossa família. Assim, o ciclo: nascer, acumular, reproduzir e morrer parece definir toda a trajetória normal do ser humano na sociedade capitalista. A idéia da morte chega como estágio final de uma vida “predestinada” ao cumprimento da normalidade das coisas. No entanto, no confronto com a morte, a normalidade prevista passa a ser questionada. Afinal, nesse momento, o “endeusado” indivíduo deixa de existir e a vivência em torno de si mesmo perde seu sentido. Como resolver esse dilema?

Uma alternativa é a crença na vida após a morte, com a salvação da alma privada, longe do castigo de um inferno coletivo, comum à maioria das demais. Será que há alguém que, por mais ateu que se declare, não tenha, pelo menos uma vez, acreditado nisso, mesmo que no final da sua vida? O fenômeno continua único e, portanto, a liberdade da crença nas mais diferentes variantes de vida após a morte é um direito de cada um e, como dizia Ludwig Feuerbach, essa é uma das grandes virtudes das crenças que, nestes momentos, servem para aliviar o sofrimento humano diante do inevitável.

Mas, há outra alternativa que pode substituir a anterior ou, então, pode ser combinada com aquela. A idéia de uma “imortalização” a partir de grandes feitos, escritos, pinturas, ações que extrapolem a normalidade das coisas e permitam um lugar novamente individual, destacado dos outros. Essa expectativa de ficar na história, através de um livro ou da participação num evento digno de reconhecimento, parece mais segura na tentativa de edificação do “indivíduo imortal”. Mas, assim como a salvação privada da alma, este não é um caminho que permite o acesso a todos, pois a idéia de um coletivo ilimitado rompe com o pressuposto da individualização permanente. A saída não pode, portanto, ser generalizada. Há também problemas na forma como se dá o reconhecimento de uns e outros. A mídia, por exemplo, que na sociedade capitalista é economicamente corruptível, pode contribuir para que uns sejam mais reconhecidos que outros. Assim, vilões podem ser transformados em heróis e grandes feitos podem ser descaracterizados, sem registro notável para a história.

O dilema permanece sem solução, pois as saídas previstas diminuem a certeza acerca daquilo que se procura e ninguém poderá constatar sua eficácia, já que essas evidências só podem ser conferidas após a morte. Mas, por que, afinal, essa busca desenfreada da afirmação individual?

Parece que a idéia de finitude é que nos impõe essa exigência. É pela consciência da finitude que valorizamos tanto a nossa existência individual. Se não fôssemos finitos e se não soubéssemos da nossa própria finitude, encararíamos a vida de outra forma e não atribuiríamos sentido à temporalidade. Assim como na alegoria da pomba de Immanuel Kant, onda a existência do ar é que permite à pomba voar – mesmo que, num primeiro momento, o vento nos pareça empecilho ao vôo – é a condição finita da temporalidade que fundamenta o sentido da existência humana. Mas, a temporalidade finita não é um problema individual, é um problema de toda a espécie humana. Diante da morte temos a oportunidade de nos concebermos como coletivamente confrontados com uma mesma situação.

A noção de indivíduo, por sua vez, é construída a partir da relação com os outros. Só conhecemos a nós mesmos através da forma como os outros nos concebem. A partir do confronto com o outro identificamos a nós mesmos e tomamos consciência de nossa relação estreitamente imbricada. Se, por um lado, somos condenados a ser livres, como dizia Jean-Paul Sartre, por outro, não temos como não interferir na liberdade do outro. Os limites entre o “eu” e o outro estão entrelaçados, pois ambos são sujeitos que se definem mutuamente. Assim, a morte de um outro significa também a perda de parte do “eu” que se constituiu na relação com aquele. A nossa vivência fica marcada naqueles com quem nos relacionamos e em tudo aquilo que, com os outros, construímos como acúmulo para a humanidade.

Entretanto, conceber-se como humanidade é um processo doloroso. É necessário recusar as alternativas sedutoras e confortantes que a ordem social constituída nos oferece e ao sentido que a sociedade atual atribui à morte. A consciência de humanidade pressupõe o reconhecimento da fraqueza do indivíduo e seu caráter transitório e, ao mesmo tempo, a aceitação da possibilidade de continuação de nós mesmos no outro, como parte integrante da construção coletiva da história. É só nesta perspectiva que podemos nos dispor a contribuir na construção de algo que, possivelmente, não iremos vivenciar.  Por outro lado, jamais saberemos o limite preciso entre aquilo que conseguiremos vivenciar e aquilo que permanecerá como utopia, após nossa existência individual. O nosso esforço no sentido da construção de um novo indivíduo, mais humano e mais solidário e, conseqüentemente, de novos valores e novas relações sociais, permite a compreensão da temporalidade além dos limites de nós mesmos. Como humanidade não morremos, pois ela é um processo que não termina e nossa participação consciente nele é a parcela de vida temporalmente definida que nos permite vivenciá-la.

Portanto, se a vida é única e a morte é o indicativo de sua finitude, a consciência de temporalidade do indivíduo o torna mais responsável pela suas opções cotidianas e consciente de que a intensidade de sua vida depende daquilo que a humanidade, em seu conjunto, vai definindo. Vivemos aquilo que ajudamos a construir, partindo da tradição daquilo que os outros nos deixaram. Ao morrermos como indivíduo, nos incorporamos ao espírito da humanidade de nossa época.


* ANTONIO INÁCIO ANDRIOLI é Doutor em Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha. Publicado na REA, nº 30, novembro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/030/30eandrioli.htm

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9 comentários sobre “O indivíduo e a morte

  1. Doutrinar-se para esquecer as experiências psicológicas e fisiológicas do ser humano, um organismo de complexo funcionamento celular, para reduzi-lo apenas a crenças baseadas na fé um produto do cérebro, mais precisamente a liberação de duas toxinas da glandula pineal, com todo respeito aos crentes de coração, ataques a ciência apenas com CREIA não são válidos pra mim.
    Mas é minha opinião, e é fato a crença é produto químico do cérebro, assim como afeto, amor, paixão, enfim todos os nossos sentimentos.

  2. Quando a matéria não satisfaz ao espírito

    Ao redor de ti, a riqueza de teus bens adquiridos com o suor do teu rosto reluz;mas se tu não amas e não és amado, o brilho do ouro é como o pó da terra que comerá a tua efêmera carne. O vazio impera em tua tênue alma…
    Maria de Lurdes Mattos Dantas Barbosa

    Publicado no Recanto das Letras em 26/10/2009

    A temática sobre a finitude da carne humana e a imortalidade da alma eu sempre defendi como assunto a ser debatido, estudado até de forma acadêmica. No entanto, esse assunto para grande parte das pessoas é desagradável e esse tipo de gente se recusa terminantemente a sequer comentar sobre ele. A morte é uma certeza inevitável e falar sobre ela nos remete à reflexão de que se constitui num instrumento que promove a igualdade. Sim, iguala à todos, ricos, pobres, pretos, brancos amarelos…Poderemos morrer de inúmeras formas diferentes…Mas MORREREMOS!

  3. Este mes no dia 22 eu completo meus 54 anos, bem vividos, nada sofridos, mutios prazeresemoções, tudo que a vida pode me proporcionar, trabalhei pouco, ganhei bem, gastei bem tambem para viver a vida. A vida seguia seu rumo dentro dos meus planos e superando alguns percalços eu seguia bem.
    No penultimo sabado de novembro eu seguia em uma viagem, tranqüilo, sem pressa, descansado, ia levando um ex-funcionario para sua cidade no interior, muitos planos para o fim de semana, pois estou reformando uma la em sua cidade, local lindo a beira mar e isto me insparava mais a seguir em paz o percurso. Já era uma 11:00 h aproximadamente, ceu claro estrada tranquila, pois bem, me aproximando de uma curva proximo uma descida, surge o farol de uma moto, pela linha de tangencia notei que vinha pela contramão, seguia proximo ao acostamento em uma velocidade rapida, em questão de segundos tomou o rumo em direção a colidir no lado do meu carona e num impulso de segundos efetuei um desvio para esquerda e imaginei que o condutor desviasse e seguisse seu caminho,. eis que não, ele colidiu na minha lateral, sequer freou ou desviou, foi um choque de resvalar e seguiu pelo acostamento até cair la traz, Deus! clamei louco, e, meio ao abalo do ocorrido, olhei para o carona e vi que ele estava bem, e perguntei algo para ter certeza de que ele estava bem mesmo e diante desta confirmaçãoabri a porta e corri para ver como estava o condutor da moto e ao me aproxima tive um choque, a perna dele estava totalmente separada, o choque esfacelou a rotula e todo o joelho, e procurei ver se ele respirava, e constatei que sim, era um adolecente, um garoto, estava tão alcoolizado que nao dizia coisa com coisa, nem dor sentia, ficava murmurando palavras sem sentido e eu procurava mante-lo consciente e em meio aquela situação buscava acionar o socoro, pois ele poderia morrer de uma emorragia, depois de uns minutos foi parando gente e as coisas tomaram o rumo certo, veio o socorro ele foi salvo, porem teve a perna amputada.
    Depois deste ocorrido tenho questionado o fato, morte, ali naquele istante minha atitude evitou a morte daquele jovem que se batesse de frente com certeza teria sido fatal para ele, talvez para meu carona ou pra mim e quem sabe outros que poderiam entrar numa rota de colisão de sobra do acidente, é como ter nas maos o bastão e poder mudar um rumo das coisas por um instante, desde então a palavra morte e sua certeza passou a fazer parte de todos meus instantes, nunca antes havia me deparado com esse confronto e estou a cada instante mais atento para tudo que pode projetar uma linha com este destino e se puder tentarei, seja cuidando mais da saude ou dos inconcequentas que possam surgir novamente na contramão de meu caminho.
    Este seu texto, meu caro, vem de encontro a esta nova linha de ver a vida, muito bom mesmo, boas palavras.

  4. O Homem não é Ciência e Religião? Pode-se sentir o calor do sol e ignorar sua magnitude? Pode-se admirar a engenharia do Universo e não pensar no engenheiro que o arquitetou? Pode-se viver sem levar em conta questões como “de onde viemos”, “porque viemos”, “para onde onde vamos”? Que Ciência terrena está apta para responder tais questões?

  5. Falam-se muito no bem, no mal, no céu, no inferno. Pensam-se muito em tudo isto, estereotipam, não !

    Penso no fim da vida freqüentemente: O que vem depois da morte … o que serei depois da morte … vida depois da morte …
    A humanidade convive com esses dilemas, freqüentemente, estão enraizados em nós.

    Mas, em um certo momento, pensei diferente sobre a morte, mas isso não quis dizer, que parei de pensar em todos os outros estereótipos sobre a morte.

    Pensei, que, só existe essa vida e que não existem céu nem inferno, viveríamos e morreríamos, como as plantas.

    E que os estigmas sobre a morte deixassem de se perpetuar e assim, começarmos a pensar e encarar a vida como sendo a única, e mais nada além da morte.
    Comeríamos, amaríamos, sorriríamos, escreveríamos, criaríamos nossas historias e morreríamos, ponto final, nada mais além, nem o além.

    No entanto, a nossa cultura, que ao longo dos tempos, já vem nos moldando para o contrario e que coexistem muitas historias por de trás dessa concepção, como a religião, que não nos deixam desvincular a vida do depois dela.

    E de certa forma esta visão de morte, foi concebida para ter uma justificativa para o começo de uma “outra vida”. Na verdade um consolo para os que ainda não foram.
    E a uma curiosidade de saber algo, que possa existir, alem da morte.
    Pois, não bastaríamos viver e aceitar o inevitável FIM, apenas.

    Na verdade para o ser humano não basta, pois eles não vivem e morre simplesmente, talvez bastem para as plantas, que simplesmente vivem e morrem.

    Mas eu ainda continuarei a pensar em várias outras “teorias”.
    Afinal, sou um ser humano, e como todos os outros, estou sempre atrás de respostas, só espero viver para tanto, ou talvez nem existam respostas, mas só as nossas perguntas.

    Será ¿!

  6. Gostei muito do artigo ” O INDIVÍDUO E A MORTE ” , bem profundo o pensamento do jovem Doutor Antônio Inácio Andrioli. Trouxe-nos uma nova forma de olhar para a imortalidade da alma.
    Escrevi um artigo interessante, aqui vai um pedacinho dele.
    Título – E os anjos ainda esperam por você – Visões do inconsciente coletivo –
    Não adianta espernear, eles querem você com eles. Quando você resolver ir para o lado de lá, eles estarão de esperando, alegres, contentes, felizes, pois, estão torcendo para que você suba aos céus; porque do contrário você irá diretamente para o inferno, onde irá certamente pagar todos os seus pecados, mesmo aqueles pequeninos, que você tanto se vangloriou um dia. É preciso lembrá-lo que a ganância também é um pecado, a corrupção ativa também é um pecado, a gula é um pecado, e o não cumprimento das vossas obrigações ( os dez mandamentos ) para com o Senhor Deus, também são pecados capitais.
    Você deve estar ridndo muito, porque você está conformado em saber que é corrupto, mal educado, agressivo, insolente, ignorante, estulto, e muito mais.
    Somente o tempo é que poderá ajudá-lo, ele não tem preconceitos, não vai retaliá-lo mas, vai castigá-lo com muito castigo natural, a sua própria natureza irá dar conta de se vingar contra os malefícios que você causou durante toda a sua vida.
    Você naturalmente teve toda a chance, toda a sorte de buscar a paz, a alegria, a felicidade, e desejar tudo isso, também para os outros homens de pouca fé ou de nenhuma fé, mas, fracassou novamente.
    São esses segredos do universo é que estão carregando o tempo todo a panela com água quente onde tua batata está cozinhando, lentamente, sem pressa, pois, ele é o dono também do tempo. ……
    Talvez você jamais imaginou poder ler estas poucas linhas de advertência, poder tomar o seu próprio destino e ali construir um mundo novo, cheio de alegrias, de felicidade, de paz, de harmonia e prosperidade…. e continua, mas, paro por aqui. SHALOM.

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