Razão & Sensibilidade: o porão da universidade?

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

Não é novidade que para refletirmos sociologicamente sobre a universidade pública hoje, devemos levar em conta as tendências de boa parte da sociedade civil e as diretrizes que o Estado tem levado a adotar desde sua criação. Que existem formulações e perspectivas que de uma forma ou de outra querem redefinir a correspondência desejável entre a civilização emergente e a “universidade necessária”. Pois enquanto a sociedade civil está predominantemente determinada pelo jogo das forças sociais internas, o Estado e os governos locais parecem estar crescentemente determinados pelo jogo das forças sociais e políticas que operam de fora para dentro do Brasil.

Mas o que é estarrecedor desse “lugar praticado” é que não diz mais nada sobre o que apreendemos com Pierre Bourdieu (1970; 1972; 1974; 1975; 1980) do ponto de vista da “eficácia simbólica”, ou com Michel de Certeau (1974; 1975; 1980; 1994), sobre a “linguagem ordinária dos jogos táticos entre porta-vozes e autoridades simbólicas numa economia produtivista”. É algo muito mais nebuloso, mas que pode ser compreendido pela hermenêutica: toda conversação é um processo pelo qual se procura chegar a um acordo. Faz parte de toda verdadeira conversação o atender realmente ao outro, deixar valer os seus pontos de vista e pôr-se em seu lugar, e talvez não no sentido de que se queira entendê-lo como esta individualidade, mas sim no de que se procura entender o que diz. Ipso facto lembra-nos um tribunal posto que não há possibilidade de chegarmos a um acordo.

Pelo que entendemos, o que importa que se acolha é o direito de sua opinião, pautado na coisa, através da qual podemos ambos chegar a nos por de acordo com relação à coisa. O que se diz é que não referimos sua opinião a ele, mas ao próprio opinar e supor. Quando temos em mente realmente o outro como individualidade, como ocorre na conversação terapêutica ou no interrogatório de um acusado, realmente não se pode falar de uma situação de possível acordo. Tudo isso, que caracteriza a situação do pôr-se de acordo na conversação toma sua versão propriamente hermenêutica, onde se trata de compreender textos. Caso contrário, encontramo-nos diante de um tribunal (Braga, 2002).

Platão (427-347 a. C.), o pai da filosofia política ocidental, tentou de várias formas se opor à polis e ao que ela entendia por liberdade por meio de uma teoria política na qual os critérios políticos eram derivados não da política, mas da filosofia, de uma Constituição detalhada cujas leis correspondiam a ideias somente acessíveis ao filósofo e, finalmente, influenciando um governante para que transformasse essa legislação em realidade – intento que quase lhe custou a liberdade e a própria vida. A fundação da Academia foi outro de tais intentos, ao mesmo tempo em oposição à polis, por situá-la fora da arena política, e em consonância com o conteúdo desse espaço político especificamente greco-ateniense, que é o fato de falarem os homens uns com os outros. Com isso emergiu, ao lado da esfera da liberdade política, um novo espaço de liberdade que sobrevive até a nossa época na forma da liberdade das universidades e da liberdade acadêmica.

Embora criada, como é sabido, à imagem de uma liberdade originalmente experimentada como política e presumivelmente entendida por Platão como cerne ou gênese da definição da vida em comum da maioria no futuro, essa liberdade resultou efetivamente na introdução de um novo conceito de liberdade no mundo. O fato é que, em contraposição a uma liberdade puramente filosófica válida somente para o indivíduo, para o qual tudo que é político é tão remoto que somente o corpo do filósofo habita a polis, essa liberdade da minoria é política por natureza. Melhor dizendo, o espaço livre da Academia devia ser um substituto plenamente válido da praça do mercado, a ágora, o espaço central da liberdade na polis. Para se manter como tal, a minoria tinha de exigir que sua atividade, seu falar uns com os outros, fosse dispensada das atividades da polis da mesma forma como os cidadãos de Atenas eram dispensados das atividades destinadas a ganhar o pão de cada dia.

Para Hannah Arendt ela precisava ser libertada da política no sentido grego, isto é, para ser livre no espaço da liberdade acadêmica, da mesma forma como o cidadão tinha de se libertar das necessidades práticas da vida para estar livre para a política. Para entrar no “espaço acadêmico”, os poucos tinham de sair do espaço da política real, da mesma forma como os cidadãos tinham de deixar a privacidade de seus lares para ir à praça do mercado. Assim como a libertação do trabalho e das preocupações cotidianas era um pré-requisito para a liberdade do homem político, a libertação da política era um pré-requisito para a liberdade do acadêmico.

A fundação da Academia, porém, revelou-se extraordinariamente importante para aquilo que ainda hoje entendemos por liberdade. Platão talvez acreditasse que a Academia pudesse algum dia conquistar e governar a polis. Mas sua única consequência efetiva, para os sucessores de Platão e os filósofos subsequentes, foi que a Academia garantiu à minoria o espaço institucionalizado de uma liberdade entendida desde o começo como contraposta à liberdade da “praça do mercado”. Ou seja, ao mundo das falsas opiniões e dos discursos enganosos se deveria opor o seu correlato, o mundo da verdade e do discurso compatível com a verdade, a ciência da dialética em oposição à arte da retórica.

O que prevaleceu, e ainda hoje define nossa ideia de liberdade acadêmica, não foi a esperança platônica de uma polis governada pela Academia, ou de uma política moldada pela filosofia, mas uma Academia distanciada da polis, por assim dizer uma a-polítia, ou indiferença em relação à política. A questão crucial neste contexto, se pretendemos refletir sobre a realidade sociológica destes dias, é que não temos uma universidade pública e gratuita com autonomia política e administrativa. É uma querela que vem se arrastando por mais de 30 anos, segundo a pesquisa da educadora Elvira Sá de Carvalho, descrita n` O Projeto Mudancista de Reestruturação da UECE (2003), para não falarmos na questão que envolve “padrão, tradição e qualidade de ensino”.

Uma Tese de Titular, por exemplo, deveria ter como caráter meritório sua defesa pública de provas e títulos em qualquer universidade pública ou privada na República Federativa do Brasil, com padrão de excelência reconhecidamente internacional. A opção deveria ser do Autor da Tese, o que poderia lhe conferir essa particularidade como “práticas de lugares”, de acordo com Michel de Certeau, como aparece em La Cultureau Pluriel (1974), L´Ecriture de l`Histoire (1975), e particularmente em La Invention du Quotidienne (I) (1980), sem necessariamente ter que ser apresentada e defendida no lugar de vínculo empregatício, para mudar o trabalho para o campo afetivo, como a casa que, para Gaston Bachelard representa La Poesie de l`Imagination (1963), cujo “lugar habitado, transcende o espaço geométrico” (cf. Bachelard, 1978), portanto, com amplificação do debate para a “comunidade acadêmica”, no sentido que emprega Richard Rorty (1994).

Para Rorty, por exemplo, abandonar a noção do filósofo como conhecendo algo sobre o conhecer que ninguém mais conhece de modo pleno seria abandonar a noção de que sua voz sempre tem pretensão dominante à atenção dos outros participantes da conversação. Seria também abandonar a noção de que existe algo chamado “método filosófico” ou “técnica filosófica”, ou “ponto de vista filosófico” que capacita o filósofo profissional, exofficio, a ter visões interessantes sobre, digamos, a respeitabilidade da psicanálise, a legitimidade de certas leis dúbias, a resolução de dilemas morais, a “sanidade” das escolas de historiografia ou da crítica literária, e assim por diante.

Os filósofos com frequência têm visões interessantes sobre tais questões, e seu treinamento profissional como filósofos é frequentemente uma condição necessária para que tenham as visões que têm. Mas isso não é dizer que os filósofos têm uma qualidade especial de conhecimento sobre o conhecimento (ou qualquer outra coisa) de onde extraem corolários relevantes. Os palpites úteis que eles podem proporcionar sobre os vários tópicos são possíveis por sua familiaridade com o plano de fundo histórico das argumentações sobre tais tópicos e, last but not least pelo fato de que as argumentações sobre tais tópicos são pontuadas por clichês filosóficos triviais, com os quais os outros participantes tropeçaram em sua leitura, mas cujos prós e contras os filósofos profissionais conhecem de cor.

Mas para tanto, será preciso desvincular essa “prática de lugar” para uma “prática de espaço” reconhecidamente pluralista, o que é exemplo de democracia como popularizado na tese: “governo do povo, pelo povo e para o povo”, em benefício, neste caso, da produção de saber e não o contrário, como ocorre de forma enfadonha nestes dias: quem lê de fato com o prazer da leitura o que um Autor (a) escreve? Mal comparando lembra-nos o dito popular latino-americano: “Em lá puerta de lhos piciohayun signo de carbón: no sonlos que son, o son todos aquellos`”. Conquanto com duas advertências: a) a realidade social é constantemente criada pelos “atores sociais”, não é um dado preexistente; b) um membro, não é, portanto, “apenas uma pessoa que respira e pensa”. É uma pessoa “dotada de um conjunto de modos de agir, de métodos, de atividades, de savoir-faire, que a fazem capaz de inventar dispositivos de adaptação para dar sentido ao mundo que a cerca” (Coulon, 1995: 48).

É por extensão, alguém que, havendo incorporado os etnometodólogos de um grupo social considerado, exibe naturalmente a competência social que o agrega a esse grupo e lhe permite fazer-se reconhecer e aceitar. Daí, neste caso a advertência: qualquer universidade que se disponha, através de seus próceres, com honradez a seguir os princípios éticos para concordarmos com a “autonomia relativa das instâncias”, segundo Max Weber, no livro El Politico y el Científico (Madrid: Alianza, 1967) no plano científico e, político, como no plano administrativo, se bem entendido que, política é regulação da existência (existenz) como Hegel frisou na Introdução à História da Filosofia (1983), sendo assim coletiva, poder decisório, luta entre interesses contraditórios, disputa por posições de mundo, confrontos mil entre forças sociais, violência em última análise. A produção política usa eventualmente suportes materiais, tais como: armas, livros, processos, papéis onde se inscrevem as ordens, os atos de gestão, as sentenças ou as leis, mas não é uma produção material.

Mas esse raciocínio não se aplica às esferas simbólicas da universidade pública seja a nível local, regional ou nacional, porque constituída em grande medida de controles ilusórios: polêmica, polícia, ascese, formalismo, zoologia; ou sobre um efeito de pathos: as “mutações culturais”; de encenação de corpus: biografias, fluxos, itinerários, trajetórias; ou ainda, de ilusão romanesca: descrição em -grafia, -logia, -nomia, embora faça parte deste corpus sobremaneira, as figuras de contestação da cultura: “legitimidade e relativismo cultural”. Toda a discussão acerca da contribuição de uma nova pesquisa ou de uma nova escola impõe essas questões – para falar a verdade, sem jamais aceitar colocá-las simplesmente, literalmente, o que seria esquecer as “jogadas pessoais ou disciplinares”, seja para Michel de Certeau, seja para Michel Foucault.

Enfim, Foucault percebeu o silêncio, ou melhor, a prudência com que as teorias unitárias cercam a genealogia dos saberes seria talvez uma razão para continuar. Poderíamos multiplicar os fragmentos genealógicos. Mas seria otimista, tratando-se de uma batalha dos saberes contra os efeitos de poder do discurso científico – tomar o silêncio do adversário como a prova de que lhe metemos medo. O silêncio do adversário – este é um princípio metodológico, um princípio tático que se deve sempre ter em mente – talvez seja também o sinal de que nós de modo algum lhe metemos medo. Em todo caso, deveríamos agir como se não lhe metêssemos medo. Trata-se, portanto não de dar um fundamento teórico contínuo e sólido a todas as genealogias dispersas, nem de impor uma espécie de coroamentoteórico que as unificaria, mas de precisar ou evidenciar o problema que está em jogo nesta oposição, nesta luta, nesta insurreição dos saberes contra a instituição e os efeitos de poder e de saber do discurso científico.

Bibliografia geral consultada.

BOURDIEU, Pierre, “The Sentiment of Honour in Kabyle Society”. In: J. G. Peristiany (Org.), Honour and Shame, the Values of Mediterranean Society. Chicago: University of Chicago Press, 1970; Idem, Esquisse d`une théorie de la pratique.Genebra: Droz, 1972; Idem, “Condição de Classe e Posição de Classe”. In: Hierarquias em Classes. (Org. Neuma Aguiar). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974: BOURDIEU, Pierre “et alii”, El Ofício de Sociólogo. Buenos Aires: SigloVeintiuno Editores, 1975; BOURDIEU, Pierre, “L’ IdentitéetlaReprésentation. Elémentspour une réflexion critique surl’idée de région”. In: Actes de lá Recherche em Sciences Sociales, n˚ 35, 1980; CERTEAU, Michel de, La Cultureau Pluriel. Paris: Union General d`Editions, 1974; Idem, L` Ecriture de l`Histoire. Paris: Editions Gallimard, 1975; Idem, L` Invention du Quotidienne. Vol1. Arts de Faire. Paris: Union Généraled`Editions 10-18, 1980; Idem,  A Invenção do Cotidiano: (1) Artes de Fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1994; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Tribunais da Ciência”. In: Revista Espaço Acadêmico. Ano I, n. 10, março de 2002; BACHELARD, Gaston, “A Filosofia do Não”; “O Novo Espírito Científico”; “A Poética do Espaço”. In: Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978: ARENDT, Hannah, A Dignidade da Política. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002: CARVALHO, Elvira Sá de, “O Projeto Mudancista de Reestruturação da UECE”. In: Ana Maria Dorta de Menezes & Fábio Fonseca Figueiredo (Orgs.), Trabalho, Sociabilidade e Educação. Uma crítica à ordem do Capital. Fortaleza: Editora da UFC, 2003, pp. 90 e ss; RORTY, Richard, A Filosofia e o Espelho da Natureza. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994: COULON, Alain, Etnometodologia. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995; WEBER, Max, Essais surla theorie de las cience. Paris: LibrariePlon, 1965: Idem, El politico y el científico. Madrid: Alianza, 1967; HEGEL, G. W. F., Introdução à História da Filosofia. São Paulo: Hemus Editora, 1983; FOUCAULT, Michel de, A Arqueologia do Saber. 2a edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1986.


* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

 

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3 comentários sobre “Razão & Sensibilidade: o porão da universidade?

  1. Não é bem assim, caro Ubiracy. O ser humano – ou isso que entendemos como tal – vive num espaço empírico e não há como livrá-lo de si mesmo , de sua visão narcísica especular sobre isto a que chama realidade. A realidade humana, substrato do plolítico, é um oásis ilusório, vereda de erro. A visão histórica a que nos vemos submetido é linear e exclui a sempre presença da Imprevisibilidade. É a Imprevisibilidade, O Acontecimento que abre perspectiva para a criação. E afugenta o tedio vitae. O espaçamento possível nunca é em direção ao outro e sim no sentido do Outro. Não há companheiros e companheiras como “a erudição” de todo o PT espalha no vendaval da vida. A vida é a de cada um. As massas servem às democracias formais para estatísticas, para serviço das midias, para a supremacia dos votos que os minguados centavos distribuidos “oblativamente” para erradicação da pobreza, esquece a estepe e o lobo.. Caro Ubiracy, é possível crer em tamanha demagogia? ” A companheira Dilma”, experta em segredar-se, sua biografia veraz não a recomenda. O zum zum zum neste calor das desgraças naturais acontecidas pelo desmazelo do lulismo principalmente… e que por obra e graça alivia a Companheira Presidenta, questão de dias se põe tudo na dimensão do esquecido. A realidade não deve ser objeto, caro Ubiracy, para avaliar existencialmente o portar humano. Busque o humano em outras cercanias. Que Mefistófeles tenha piedade de nós…

  2. Meu caro Ubiracy,
    Você se esqueceu de ler o livro editado por Hans Hadder – The commodification of academic research: Science and the modern university – que, por sua vez trata do processo de “commodification” [grosso modo, o termo pode ser traduzido como “mercadização”, pois reflete a expansão do mundo das mercadorias, mundo este que Karl Marx explicou e muito bem explicado], pois se tivesse lido teria percebido que não se trata de “… enquanto a sociedade civil está predominantemente determinada pelo jogo das forças sociais internas, o Estado e os governos locais parecem estar crescentemente determinados pelo jogo das forças sociais e políticas que operam de fora para dentro do Brasil…”; mesmo porque, são ambos os polos atuando simultaneamente e, quando regido por um governo sério e competente como foi do companheiro Lula e, certamente, será o da presidenta Dilma, fica evidente e claro – para quem quiser ver – que Max Weber e outros trolhos não mais servem para explicar a realidade.
    Ótimos dias pra você.
    Vladimir D. Micheletti
    Economista afastado como “doido” pelo idiota do psiquiatra-perito, Fernando Fontan da UFAL, mas com ganho de causa na Justiça Federal e muito em breve de volta às atividades acadêmicas.

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