Governo e a Igreja Instituição católica: a dissimulação

por JOAQUIM PACHECO DE LIMA*

Há uma inflexão entre o Governo Dilma e a Igreja-Instituição católica. Em entrevista a Folha de São Paulo, 19.01.2011, o Arcebispo de Brasília, aponta que para o diálogo é preciso que a presidenta explicite suas convicções religiosas. A postura de Dom João de Aviz, [conheço-o desde os idos de 1980 na diocese de Apucarana-PR, nos estudos filosóficos e teológicos] e continua com a mesma visão de homem, mundo e sociedade, neotomista, referenciado na teologia fenomenológica europocêntrica. A sua referência política – poder – é a da terceira via, a democracia cristã. Tal corrente política restou o fracasso nas experiências postas (Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Grécia, etc.). O ex-coordenador de pastoral apucaranaense não é um dogmático, mas tem a missão de estabelecer o diálogo Estado-Igreja sem provocar conflito explícito.  Defensor da ‘desigualdade’ como ordem natural da sociedade, a prédica nega, por isso, incumbe-lhe o papel de distender conflito ideológico com o pensamento marxista (PT, PC do B e a plêiade de correntes) dissimulando neutralidade, mas também delimitando campo para evitar que os seus próceres aliem-se a corrente oponente, inimiga. O apoio do parlamentar Gabriel Chalita (PSDBS-SP), por razões particulares da política, a campanha da presidenta Dilma acendeu o farol. Noutro campo, quer demarcar e esconder a aproximação com a social-democracia (PSDB). Faz jogo de movimento (gramsciano) com setores do petismo no governo (o ‘igrejeiros’ da antiga corrente Articulação).

A aproximação política da Igreja Universal com o Governo Dilma é notória – por meio da TV Record no embate ideológico. A TV do pastor Edir Macedo, inimiga da TV Globo e da Folha abre espaço para de defesa dos atores e idéias governamentais, contrapondo os seus inimigos no campo da mídia. Por outro lado, setores da Pastoral Social da Igreja Católica e os movimentos sociais aproximados (CPT-CIMI, Movimentos de Barragens, mulheres, setores do MST, Direitos Humanos e outros) fomentam rusgas no campo pragmático do realismo político x princípios matriciais partidários, socialismo – utopia.

O arcebispado de Brasília, desde a ditadura e na redemocratização, assumiu postura de defesa da ordem e do pensamento conservador. Considerando a complexidade econômica, cultural e política da sociedade brasiliense, ou dos candangos a identidade da Igreja como ‘capelã dos militares’ não respondia mais a demanda pela nova identidade simbólica religiosa. Para encurtar o diapasão Igreja-mundo, Igreja-sociedade e mediar as relações com o poder-central a Santa Sé escolhe a dedo um de seus colaboradores para tal tarefa.

A tentativa de aplicação dos princípios e valores cristãos (solidariedade, partilha, equidade, igualdade, etc.) na vida política nacional e internacional como mimetização do liberalismo, que tem como matriz a propriedade privada e o mercado, escondem uma manipulação grosseira dos elementos religiosos para fins econômicos e interesses políticos das classes dominantes. Na ideologia as idéias não podem explicitar contradições.

O sistema capitalista e globalizado pode aparecer envolto de um ‘aroma religioso’ e sua capacidade de produzir e reproduzir mais-valia, classes sociais, também produz e reproduz seu próprio universo simbólico, sua espiritualidade, e sua religião. Capaz as contradições e dissimulações é papel da hermenêutica, da ciência, da filosofia e da teologia.

Na gênese do Capital está a morte, no Deus de Jesus de Nazaré está a Vida em abundância. Conciliar, mimetizar tal antagonismo somente com dissimulação.


* JOAQUIM PACHECO DE LIMA é professor de filosofia e sociologia. Colaborador da CPT – junto ao Regional da CNBB-Sul II de 1984-1994.

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12 comentários sobre “Governo e a Igreja Instituição católica: a dissimulação

  1. O texto seria bastante interessante se houvesse melhor clareza textual. Não é o hermetismo que dificulta o entendimento, mas a construção das frases, que são truncadas. Uma lástima.

  2. A Igreja Católica Apostólica Romana tem virtualmente sua marca na sociedade brasileira. Notadamente quando se lembra da retórica do Grande PAPA JOÃO XXIII, que escreveu as ENCÍCLICAS PAPAIS : PASSIM IN TERRIS , (PAZ NA TERRA) E A MATER ET MAGISTRA , (MÃE E MAGISTÉRIO).

  3. Olá Joaquim

    Interessante o texto, porém muito hermetico. O comando atual da igreja católica ou nos supreenderá a todos e todas e esse Bento XVI acabará por banalizá-la cada vez mais com o seu dogmatismo.

    Jayro

  4. nao tenho certeza de ter entendido bem. esta frase, por exemplo, é absolutamente obscura: “Capaz as contradições e dissimulações é papel da hermenêutica, da ciência, da filosofia e da teologia.”
    mas se no geral o que se quer dizer é que o evangelho é uma eterna fonte de vida, cujo papel é se opor às injusticas inerentes a todo sistema (de governo, de pensamento, etc.) estabelecido pelos homens pela historia afora, entao so posso concordar. permito-me no entanto solicitar do articulista um pouco mais de clareza no expor suas ideias.
    cordialmente,
    Regina

  5. 1. A Igreja Católica Apostólica Romana, até onde sei, serviria para transformar o ser humano – que nasce com instintos perversos, próprios da natureza humana, tais como roubar, matar, caluniar, ter inveja etc. – em cidadãos, capazes de conviver, um com o outro, democraticamente. Tanto assim que todas as religiões, assim consideradas, bem como os códigos de Ética, tratam dessa mesma construção – de uma sociedade justa, solidária e harmoniosa.
    Mas, se a Igreja Católica, por exemplo, desviou-se dessa missão, de seu mister, por interesse menos dignos, talvez, só temos a lamentar.
    Tratar de questões tão inconseqüentes como essa, de saber que religião professa a presidenta Dilma, é demonstrar arrogância e pequenez.
    2. Conforme é do conhecimento popular, a presidente Dilma estudou em um colégio religioso, dos mais conceituados em sua época, em Belo Horizonte, por tradição cristã, responsável pela formação de várias gerações de cidadãos e de cidadãs, com base nos mesmos princípios cristãos que fundamentam a Igreja Católica.
    3. Por definição, portanto, a presidenta Dilma, que é uma incontestável cidadã, republicana, na defesa do Estado Democrático de Direitos, demonstra ser muito mais cristã do que às vezes alguém que se acha divino, como esse arcebispo fuxiqueiro, me parece.
    4. Dessa forma, está ele a colaborar com os inimigos desse mesmo Estado, os neoliberais. Segundo os quais as únicas regras a prevalecer, em toda a sociedade, como regras de convivência, são as regras do Mercado.
    5. Destarte, parece-me ainda descabida e sem propósito a interpelação que faz esse arcebispo a uma presidente da República, de um Estado laico, que é o Brasil, que tolera todas as demais religiões, a presidente Dilma não deveria responder a esse pároco mesquinho.
    6. Melhor faria ele se estivesse cuidando do espaço que a Igreja Católica, tão essencial para a formação de cidadãos, perdeu para instituições menos qualificadas, tão vulgares e imorais, como essas chamadas de evangélicas.

  6. Estes assuntos são importantes.
    Devem haver apresentação constante, para que a sociedade
    Leia e se torne motivada a uma transformação.
    Todos precisam de postura social, cristã e política.
    Aí as mudanças virão.
    Boa noite. Abigail

  7. Claro blogueiro:

    Estava eu redigindo um comentário sobre a matéria, quando, inesperadamente, desapareceu o texto em construção, dando lugar ao aviso de que se tratava de matéria repetida, e que eu deveria saber disso… Não entendi. Nunca escrevi sobre isso aqui.
    Parece que é para se desistir, lamentavelmente.
    Ewerardo Tabatinga.

  8. A Igreja serviria para transformar o ser humano – que nasce com instintos terríveis, próprios da natureza humana, tais como como roubar, matar, invejar, caluniar, etc. – em cidadãos, capazes de conviver com o outro, democraticamente. Tanto assim que todas as religiões, assim consideradas, bem como os códigos de Ética, tratam dessa construção, de uma sociedade justa, solidária e harmoniosa.
    Se a Igreja Católica, por exemplo, desviou-se dessa missão, por ineresse menos dignos, talvez, só temos que lamentar.
    Alguém q

  9. >>A análise feita pelo Professor Lima, até como ex-membro de pastoral social da Igreja Católica, é muito bem articulada. Como liderança de pastoral, ele conhece os meandros do poder entre Igreja e Estado. Muito boa análise. Na minha opinião, a Igreja Católica, isto é, alguns representantes do alto clero ainda tem uma visão limitada das análises sociais. Conservadores, é claro, de uma ordem em desordem. A CNBB tem pessoas muito competentes na área social – apesar de desprezar ex-seminaristas, ex-padres, ex-catequistas etc. na atuação social. A Igreja precisa realmente lutar pelos direitos dos mais pobres, ser profética, aliada a uma espiritualidade libertadora. Atualmente, vemos que um pequeno grupo evangélico, liderado pela Igreja Universal, tentar dar as cartas no jogo do poder. Alguns bispos católicos falam muito e fazem pouco. Falta investimento nos leigos – chega de ficarem somente nas sacristias. Hoje em dia, o modelo de padre divulgado pela mídia televisiva é o Fábio de Melo, Marcelo Rossi, de linha conservadora. Como diz meu filho: “Fala sério!”. As Igrejas católicas estão ficando vazias por falta de ações na realidade. Acredito que a Igreja esteja buscando seu lugar no governo Dilma, contudo deveria olhar mais para si, para o povo e para a formação de milhares de leigos.

  10. Há algum tempo deixou de ser velado o apoio dos grandes grupos privados de comunicação do Brasil a este ou aquele candidato, ou melhor, a este ou aquele projeto político, na última campanha foi interessante ver a disputa (Globo + Católicos/”Igreja cúpula” ao lado do Psdb/Dem X Record + Evangélicos/”Universal” ao lado do Pt/Pmdb), isso num certo sentido é bom pois escancara, torna público, a preferência política de cada um, fazendo com que se possa pelo menos acompanhar a divisão das polpudas verbas publicitárias das empresas sobre controle do governo e seus feitos, por outro, mostra também que nada mudará no processo de concessão da exploração dos diversos tipos de mídia no pais, além de – pele primeira vez – ver o império da emissora carioca ameaçado (a Record fez a primeira entrevista exclusiva com a presidente eleita), além ainda de demononstrar o forte apelo que essas organizações exercem sobre o povo.

    Os poderes outrora invisíveis à maioria povo brasileiro e que atuavam quase que na clandestinidade começam a se desnudar e assumir claramente suas posições e opções políticas, pode ser – se bem aproveitado – um rico momento para aqueles que vislumbram a superação do modelo capitalista pois o pior inimigo é aquele que você imagina estar do seu lado.

    Sds,
    Nelson

  11. “O Estado é a Classe Dominante politicamente organizada e a Igreja é parte dos instrumentos utilizados para facilitar e perenizar a dominação.”

  12. A orientação religiosa de Dilma, muito provavelmente, é distante da CNBB. Dilma é coerente com sua posição política. Tem demonstrado felizmente isso. Dilma fala em Povo, e não em Estado,, que nada tem de laico desde Constantino. A Igreja Católica anda em falta de cérebros para sustentar sua prosódia em torno da Fé. Estamos muito pouco precisados da inutilidade de Deus ( o inútil não é pejorativo. É o que sustenta o insustentável um pouco mais adiante). Precisamos de ação humana, moral e ética, banir da vida nacional crápulas como Zé sarney e similares. Espero em Dilma como jamais esperei de nenhum político. Felicita-me muito pôr de lado o vozerio ensurdecedor em nome desgastado da Cruz..

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