Ranking para quê?

por VLADIMIR SAFATLE*

Um dos setores mais problemáticos das avaliações acadêmicas são os rankings mundiais de universidades. Mesmo com critérios que muitas vezes beiram o absurdo, eles influenciam decisões importantes ligadas à educação superior. Por isso, uma discussão sobre como tais rankings são feitos é mais que urgente.

Primeiro, o que impressiona quando os comparamos entre si são os disparates. Por exemplo, no ranking elaborado pela Universidade de Xangai, a Universidade de Paris 6 aparece em 39º lugar. Já naquele feito pela Times Higher Education, a mesma universidade está na 140ª posição.

A canadense McGill University ocupa a 61ª posição no ranking da Universidade de Xangai e a 35ª naquele da Times Higher Education. A USP aparece entre as 150 primeiras em um caso e sequer entre as 200 primeiras no outro. Esses são dois dos rankings mundialmente mais influentes.

Podemos dizer que o problema está na diversidade de critérios usados de um ranking a outro. Mas o problema é exatamente este: a ausência de um conjunto de critérios de fato representativo dos tipos de pesquisa e do real impacto da produção acadêmica.

Muitas vezes, os critérios são arbitrários e sem racionalidade alguma. Um claro exemplo diz respeito à avaliação da produção acadêmica. Em geral, tais rankings se propõem a avaliar a produção acadêmica a partir do total de artigos publicados em revistas indexadas ou a partir dos índices de citações a artigos e autores.

Note-se duas coisas impressionantes. Primeiro, tudo se passa como se não existissem livros. Se você é um pesquisador que produz um livro por ano, isso não será relevante para a avaliação da produtividade de sua universidade.

A razão é simplesmente o fato da área de ciências exatas ter sua produção baseada em artigos e papers. Mas isso não reflete a multiplicidade dos modos de produção acadêmica. Até segunda ordem, a cultura ocidental é uma cultura do livro, construída e influenciada a partir de livros, e não uma cultura do paper.

Por outro lado, os índices de citações expõem apenas a capacidade de circulação de um artigo, não sua qualidade. Não é difícil perceber que um artigo escrito em inglês sempre será mais citado que outro publicado em português, mesmo que o segundo seja melhor que o primeiro.

Mas, apesar disso, o fato de haver pesquisadores exóticos que ainda escrevem em português não indica que eles são inaptos a escrever em outra língua. Indica apenas que querem ter impacto em seu país, influenciar um público que fala sua própria língua.

É difícil entender por que critérios tão distorcidos sejam levados a sério. Está na hora de estabelecermos um verdadeiro diálogo entre áreas a fim de chegarmos a algo menos tendencioso e irreal.


* VLADIMIR SAFATLE é é Professor Livre Docente do departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. Publicado em Folha de S. Paulo, 05/04/11.

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6 comentários sobre “Ranking para quê?

  1. Avaliar uma universidade, com o objetivo de incluí-la em um ranking das universidades de todo o mundo, é como não levar em consideração a diversidade da cultura dos povos e o cosmos, é como entender a natureza, os seus diversos eco-sistemas enquanto lugares onde buscamos matéria prima para satisfazer nossos interesse. Assim, arquitetam a hegemonia, o pensamento único,tentam perpetuar o colonialismo.

  2. Veja Bem.É claro que tais pesquisas nos colocam como estranhos em quintais alheios.Mas estamos a anos luz de uma educação de qualidade para todod.Temos excelentes pesquisadores que em carreira solo,se destacam,porém quando se trata de instituições de ensino de qualidade,da educação básica a universidades,vivemos o caos,o sucateamento, a desvalorização do magistério,dentre outros fatores críticos.Temos no Brasil uma péssima capacidade de planejamento(Ex.A Copa)será quase impossível honrar os prazos,não é diferente com a educação.O Brasil tem muitas andorinhas,mas poucos verões!
    Prof. Flávio Muniz
    flaviojmuniz.wordpress.com

  3. Universidades que visam a preparação cifrada no Mercado, isso não é Universidade. Se não forem todas, a maioria ocupa-se para bom desempenho na luta mercadológica. Afora isso, as Universidades forjar-se-iam pelo empenho social na tarefa do saber. Não se ensina, e se aprende com rigoroso, hercúleo trabalho pessoal. O que se dispõe, isto que se dá como disposição para apreensão, não ocupa o primeiro plano das aparências. Subjaz. Captá-lo é preciso, primeiro, que se saiba “ler e escrever”, coisa que a intelectualidade como tal não sabe. Técnicas pedagógicas são úteis à pouquidade da aptidão para desvendar a mensagem inscrita nos escritos da inutilidade científica. A Ciência, esta histérica. Saber quê e para quê? Dar sentido à vida, ou seja, produzir para o bem-estar. Ou questionar: que bicho é Homem? Pouco importa to fall or not into rank.

  4. Creio que o Vladimir coloca questões importantes que deveriam ser examinadas pelas entidades academicas do Brasil. Gostei do texto.Walter.

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