a vontade de extermínio

*No dia 7 de abril, um jovem de 23 anos entrou na escola onde cursara o ensino fundamental e metralhou crianças entre 9 e 14 anos, preferencialmente meninas. Wellington Menezes de Oliveira foi interceptado por um policial e suicidou-se com um tiro na cabeça. Após a tragédia, começaram as incessantes buscas dramáticas pela descoberta dos motivos. Reviraram-se cartas, laudos médicos, sua história de vida, anotações pessoais, instant messengers, vídeos, opiniões de conhecidos, para tentarem chegar próximo a uma conclusão sobre o novo monstro.

O perdedor radical ensimesmado, emudecido e recluso, ruminou a espera da hora derradeira de agir. Extravasou seu ressentimento e vontade de morte, seu ódio pelas meninas, sua repugnância ao que não fosse o mundo de pureza e castidade que havia empreendido para si. Em nome desse mundinho, matou e se ofereceu em martírio. Deixou uma carta, incluindo instruções sobre seu embalsamento como homem santo que acreditava ser. Sabia que ela estaria publicada nos jornais, lida na televisão, compartilhada na internet. Construiu, cuidadosamente, seu momento de celebridade e vingança; atingiu seu objetivo, sua meta, e difundiu um momento de conversão e redenção.

Foram enumerados variados elementos explicativos para a morte destas crianças em uma escola no Rio de Janeiro: internet, pureza, Jesus, virgindade, escola, religião, armas ilegais, compras legais on line, videogames de guerra, televisão, solidão, desespero, ódio, bullying, expectativas e falta de expectativas, frustrações, édipos, irmandades, fundamentalismos…

Wellignton, dizem que também conhecido como Al Qaeda, pagou duzentos e cinquenta reais por uma das armas, comprou o recarregador de pistolas por cinco dólares na internet, e gravou um vídeo para sua efêmera posteridade. Em sua cruzada pela pureza redentora, realizou a vontade de extermínio dos demais covardes dissimulados. Junto a outros perdedores radicais que já morreram e aos que virão, ele conforma e atualiza o inacabado programa desta irmandade de mártires.

No necrotério, seu corpo aguarda, como futuro indigente, alguém para reclamá-lo.

Orquestra-se a algaravia com comoções e perplexidades, choros, heróis midiáticos, racionalizadas explicações, turbas de vingadores, e clamores por segurança. Estampa-se o medo ao próximo justiceiro invisível, o inimigo imprevisto e jamais antecipado.

Entretanto, permanece um vazio. Não há o criminoso para a polícia e o tribunal, nem para a moral que o criou e o despreza como bastardo. Não há nada para amenizar o teatro de horrores transformado em notícias de televisão, rádio e jornais, postagens eletrônicas, diagnósticos de especialistas sobre transtornos psiquiátricos, causas socioeconômicas, equipamentos de ponta, sociologia da violência, educação para o futuro, assunto para enfadonhos jantares familiares, ladainhas no facebook, orkuts e demais redes sociais digitais.

Este criminoso não está vivo para ser esmiuçado pelos saberes da consciência. Sua morte escancara a disseminação do medo no interior das famílias, da escola, dos ambientes de jovens, ONGs e anuncia a etérea esperança em polícias, penalizações, monitoramentos, medicalizações, enfim no governo das condutas.

Instala-se o inevitável: o assombroso desterro destinado às crianças condenadas às escolarizações forçadas e às suas famílias desesperadas e crentes na felicidade, empurrando-as ao sucesso a qualquer preço, agenciado pelo empreendedorismo de si. Educadas no secular sistema de recompensas e punições como futuro capital humano são presas das metas a serem perseguidas.

Enquanto isso, recomenda-se a administração da apatia com fé em mais segurança, cuidados especiais pedagógicos, psicológicos, psiquiátricos, sociais; e o pesadelo real, sob o regime das acentuadas atenções de pais e mães aos seus filhos, escancara o policiamento às amizades indesejadas, ao que devem ver na internet e na televisão, ao que devem fazer para satisfazê-los.

“A luta pela qual muitos irmãos no passado morreram e eu morrerei não é exclusivamente pelo que é conhecido como bullying. A nossa luta é contra pessoas cruéis, covardes, que se aproveitam da bondade, da inocência, da fraqueza de pessoas incapazes de se defenderem”.

Wellington é uma criação da família, da escola, do bullying, das redes sociais digitais, da ciência dos transtornos, da mediocridade do empreendedorismo de si, da apatia dos jovens preparados para ser capital humano. Incapazes de insubmissões e revoltas, afeitos a parecerem vencedores por um instante, não suportam serem perdedores a priori. Por não suportarem a condição de losers, e sedentos por uma restauração moralizadora em uma sociedade de ventríloquos, embalsamada, maquiada e forçosamente moderada, atingem o estágio do insuportável e transbordam suas derrotas em extermínios relâmpagos.

Este perdedor radical reside na escola, ambiente favorável à produção do nerd e de seu autodegredo como futuro vencedor. Traz à tona seu análogo vexatório, o perdedor radical, isolado ou em dupla, enquanto se aguarda o momento em que seu ato de violência mostrará que não é fraco, covarde, estúpido, um bosta. E como tal, atira merda para todos os lados. Atinge as vítimas selecionadas, a sociedade que os produziu e não fica vivo para ser alvo da justiça. Contudo, ao mesmo tempo, transforma-se em fato inquestionável para a disseminação dos discursos punitivos e medicalizadores de jovens com sua posologia genérica para normalizar as condutas recomendáveis. Ampliam-se as práticas de contenção de supostos perigosos, refazendo o lote dos anormais e fortalecendo a prevenção geral em defesa da sociedade.

Os incapazes de se defenderem solidificam as covardias de cada um com suas ações de perdedores radicais. Cedo ou tarde, outros irmãos como estes virão para explicitarem, mais uma vez, a fraqueza da fraternidade e a necessidade de sangue assinando o escândalo de sua obstinação.

Cada perdedor radical expressa a vontade de extermínio própria do racismo entranhado nas tecnologias modernas de poder, que celebra a morte de uma parte impura em nome da pureza de todos. A proximidade entre este perdedor radical e os terroristas islâmicos, se houver, está na disposição para morte como meio para atingir a sua meta de cruzado contra o mal.

Wellington não era um terrorista, nem um doente. Ele é a expressão macabra da cultura do castigo, que tem na escola e na família seus lugares privilegiados. Assujeitado na condição de vítima não vê outra saída senão matar e morrer; expressa em atos de violência o que o seu duplo, o vencedor à mercê das metas exigidas, realiza, lentamente, em busca por sucesso, dinheiro e reconhecimento. Se a imagem do vencedor é a daquele capaz de trucidar seus adversários num emaranhado supostamente ético, é no extermínio dos inimigos escolhidos que o perdedor radical encontra-se com a vitória do fraco, bom e inocente.

Enquanto os jovens de hoje nas escolas, empregos e universidades não descobrirem e demolirem o que estão sendo levados a servir, a iminência da matança estará cada vez mais presente; a suspeição, própria do regime das penas, se expandirá; a prisão e seus monitoramentos a céu aberto se elastificarão.

No necrotério, seu corpo aguarda, como futuro indigente, alguém para reclamá-lo. Quem?!


* hypomnemata-extra – Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP extra, abril de 2011. www.nu-sol.org

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9 comentários sobre “a vontade de extermínio

  1. 1º À pergunta final: No necrotério, seu corpo aguarda, como futuro indigente, alguém para reclamá-lo. Quem?! – o coveiro e a terra, uma vez que não será cremado.

    2º Texto ruim. De quem é o texto? do Núcleo ….? Quem é o autor em nome do Núcleo?

    3º O Texto é tão religioso o quanto pensa que não é.

    Pensei que leria um ensaio ou artigo sobre a questão do extermínio, esse desejo que nos une, não é? Todos desejam exterminar! Uns Pessoas da suas vidas, e assim vai, religiões de suas sociedades, costumes de sua tradição, países de continentes, doutrinas das mentes, gorduras do corpo, angústia da alma, dor e sofrimento da vida, o dinheiro do rico, a miséria do pobre, a fome do estômago, a distância da solidão, a perseverança do sonho, o imediatismo da ânsia.

    É …..

    É……

    é.
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    acabou!

  2. Esse caso é apenas o começo da colheita dos frutos da sociedade da violência e do consumo. É o filho legítimo dos desenhos animados, dos video games, dos filmes, novelas, emfim, de todo o aparato da indústria cultural que propaga, como única saída para qualquer problema, a morte. Enquanto isso as escolas se preocupam com aqueles que falam demais em sala de aula e não com os “bem comporados”, os não falantes. A mídia tenta passar a opinião da condenação e não da compreenção dos fenômenos sociais que estão, a todo momento, “explodindo”. Adianta condenar quem já está morto? Isso só faria com que ele fique mais tempo entre nós, esperando, como disse ele, por seus “irmãos”, filhos da mesma chocadeira, sociedade capitalista.

  3. Olá!
    Desejo que um dia termine toda publicidade sobre fatos como esse.
    Essas coisas devem ser tratadas num nível sigiloso, pois sempre haverá outro(a) maluco(a) inspirando-se, querendo aparecer.
    Essas atitudes não merecem repercusão midiática. Sabemos que “a propaganda é o melhor negócio”. Portanto, chega de propaganda para assassinos, estupradores, ladrões, entre outros.
    Busquemos segurança através da educação. A educação é a meta.
    Quem ganha com toda essa exposição? Não são os familiares das vítimas, isso é claro.
    Mas tem gente graúda lucrando alto com a venda de jornais, revistas, etc.
    Chega de propagandear tragédias.
    Que se disponibilizem coisas legais, vivas, empolgantes, alegres.
    Mude-se o foco.
    Fernando Garbinato

  4. Insiste-se em culpar a sociedade. Têm-se o que disse Rousseau como um dogma: “O homem nasce bom e justo a sociedade o corrompe”… Este mesmo, que abandou cinco filhos num orfanado e depois escreveu um livro sobre como educar as crianças! (Emílio).
    Dizer que este indivíduo, Wellington, não é um doente mental! é ser leitor de um só livro, seguidor do pensamento romantico, com todas as consequências a que ele nos levou, anarquismo, marximo-lenismo, revoluções etc.. resumindo sangue, sangue, com o qual se tingiram as bandeiras vermelhas e um falsa estrela da esperança.A sociedade é feita por nós, que trabalhamos, lutamos para melhorá-la, condenado, punindo, separando ou internando os que não conseguem conviver, os que querem tudo pronto, sem esforço, sem luta, os acomodados, que frustrados, saem atirando, e matando covardemente, e culpando a sociedade por isso e aquilo.

  5. Em junho de 2009 o exército americano assumiu um suposto “erro” de ataque no Afeganistão. Segundo dados, 140 civis foram mortos..140 vidas… quantas dessas não eram jovens ou crianças… quantos não estavam vivendo suas vidas cotidianas, em suas casas e escolas, locais de trabalho, quando de repente não foram surpreendidos por misseis e balas sobre suas cabeças… Aliás quantos “erros estratégicos” como esses continuam a ocorrer todos os dias? A então secretária de Estado americana Hillary Clinton (nobre senhora, elegante, rica, formada em Yale, comunicativa, simpática, extrovertida, vencedora e acima de tudo americana) deixou apenas como carta póstuma um pedido de “desculpas” ao povo afegão. Mas tudo bem, afinal é a chamada violência legítima, a violência do “bem”, praticada por aqueles que venceram na vida, e por isso mesmo carregada de pureza e santidade

  6. Eu tenho lido muitos comentários sobre a chacina no Rio.
    Cada um diz a causa que seu autor entende ser a que originou a tragédia. Mas todas, indistintamente, jamais vão conseguir descobrir as verdadeiras razões que levaram o assassino a cometer este delito tão brutal e DOENTIO. Em outras palavras:
    O dispositivo que acionou este comportamento verdadeiramente INSANO que o impeliu à matança!
    Dito isso, o texto acima é confuso e contraditório, e nem serve para ser adicionado aos demais como colaboração à análise da personalidade deste indivíduo, de sua família e a forma como ele se relacionava com as pessoas.
    Concordo que o criminoso não era um terrorista, mas a ponto de afirmar que não era um doente, por favor!
    Uma declaração tão inconsequente que se torna temerária, pois dá a entender que qualquer um de nós, inclusive o autor do texto, podemos cometer um crime desta natureza!
    Fosse assim, TODOS os adolescentes que já estiveram detidos em Centros de Reabilitação ou foram maltratados pelos seus pais são assassinos em potencial, pela “macabra cultura do castigo”.
    A conclusão é digna de filmes de ficção e de terror ao mesmo tempo, categoria C, de baixo custo e qualidade duvidosa, pela forma como explica o ato bestial e premeditado: “…é no extermínio dos inimigos escolhidos que o perdedor radical encontra-se com a vitória do fraco, bom e inocente.”
    Eu não sei de onde que o autor foi buscar tamanho disparate, mas se era isso que de fato se passava na mente do assassino, então ele estava doente e em estado grave! Ou, todos nós somos psicopatas de plantão, à espera de oportunidades para compensarmos as nossas frustrações diárias em inimigos imagináveis e tirar-lhes a vida por atacado.
    O autor do texto precisa rever com urgência as suas colocações.
    Caso se trata de um psicólogo, eu recomendaria uma segunda opinião e de imediato;
    se não é este profissional foi imprudente ao enveredar por caminhos que desconhece, talvez por querer escrever algo diferente, e até bem apanhado, mas absolutamente sem conteúdo e dispensável como “estudo” sobre a tragédia em Realengo!

  7. Creio, professor, embora me considere crítico e esclarecido, que se pararmos de confundir limites claros com opressão, educação com marketing pessoal, direitos humanos com direitos do criminoso, verdade com politicamente incorreto, etc., faremos muito pela sociedade atual. Solução? Inexiste. Centros urbanos cada vez mais inchados, consumismo desenfreado, hedonismo, estresse congênito, etc., jamais permitirão um ambiente “adequado” ao bom comportamento. A China tem dado exemplo de uma coisa (horrível mas inegável): sociedades demograficamente explodidas devem conciliar liberdade de iniciativa com governos fortes. Não soluciona nada, mas “reduz os danos”. Um abraço.

  8. A análise feita condiz com a realidade. Cada vez mais sinto nossos jovens desajustados para os dias atuais onde lhe são cobradas atitudes maduras e reflexivas sem contudo, lhes fornecer condições adequadas pata tal.
    Nossa escola continua perpetuando a divisão entre classes sociais onde dominadores só servem para manter os dominados em rédeas curtas.
    Com a globalização a competição é acirrada onde os que conseguem ultrapassar todas as barreiras são consagrados campeões. Será?
    Estamos construindo campeões ou pessoas com um caráter já deformado pela concorrência desleal.

  9. Chamar esse ser sem classificação nenhuma no reino animal é uma coisa que a ciência precisa rever os seus conceitos quanto o que quer dizer “ser humano”.Alguém que usa de denominação religiosa para bolar seu plano que nem o inferno seria capaz de fazer tão macabro como atentou esse filho de chocadeira é de doer o coração do mais perverso marginal que já se teve notícia.
    Dizer que o corpo está no necrotério aguardando que alguém vá reclamar para enterrá-lo é pouco:deixem que as aves de rapina façam dele picadinho.Só assim a alma(se essa existiu dentro daquele pote de lixo)vai sentir o que as mães e os pais de filhas e filhos estão sentindo no peito.Mães que perderam seus únicos filhos…Isso é que é doer…

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