Massacre ‘AMOK’

por RAYMUNDO DE LIMA*

Os primeiros massacres em escolas pareciam sintomas do mal-estar da cultura anglo-saxônica: Estados Unidos, Escócia, Alemanha. Mas depois ocorreu em Israel (com terroristas palestinos), na Rússia (com terroristas tchetchenos, com 386 mortos, maior número de vítimas fatais), no sul da Argentina e até na China. Como os chineses não têm fácil acesso às armas de fogo, facões foram usados contra crianças.

Os massacres vêm ocorrendo em número maior nas escolas pelo mundo; deveriam ser obra de psicopatas ou psicóticos, agindo a esmo, sem motivo e sem sentido. Faz uma década que alguém levantou uma ‘boa’ hipótese sobre este tipo de crime: reação racional às humilhações e intimidações (bullying). Mas, sinalizo: é apenas uma hipótese. Como aprendemos em Metodologia da Pesquisa, hipótese é uma afirmação provisória, para ser investigada sistematicamente com os critérios da ciência. Ela pode ou não ser comprovada.

Um dos poucos sociólogos a estudar sobre o assunto, o alemão Robert Kurz, denominou tal ato criminoso de “amok”: vem de Amok, palavra de origem malaia, que significa raiva cega; é empregada pela psiquiatria para designar o ser humano tomado por fúria cega que sai matando pessoas e animais, aparentemente sem motivo e, na maioria dos casos, suicidam-se no final.

Em verdade, o amok não apresenta sintomas de psicose (loucura), nem antecedente criminal, mas sua personalidade parece ser resultado de ressentimentos acumulados, raciocínio vingativo generalizado e disposição para treinamento com armas de fogo visando eliminar maior número de pessoas. Pode ser reação ao bullying, mas porque os 99,9 que sofreram bullying não saem por aí matando pessoas e animais?

Também dizer que o criminoso é psicopata indica desconhecer o que é psicopatia, sociopatia e o perfil amok. O massacre amok é um ato louco, sim, mas seus assassinos não são psicopatas/sociopatas, nem necessariamente psicóticos como parece indicar a conduta do responsável pelo ataque à escola do Realengo. O bilhete suicida escrito por ele levanta a hipótese de transtorno de personalidade com fanatismo religioso, próximo do estilo dos terroristas fundamentalistas que lutam por causas delirantes ou políticas. Para fanáticos que lutam por uma causa política ou mística vale tudo, principalmente quando é possível adquirir armas e aprimorar o acerto nos alvos escolhidos.

Os estudiosos sobre o assunto hoje trabalham com um perfil do criminoso amok: 61% ocorre por vingança (bullying), 61% são depressivos reativos, 83% sofrem dificuldade para lidar com perdas, 93% demonstram comportamento estranho, 95% dos ataques são planejados com armas de fogo adquiridos de parentes ou conhecidos.

Qualquer lugar onde há facilidade de conseguir armas, eleva a probabilidade de ocorrência de atos deste tipo. Os crimes amoks indicam que:

a) Todos os assassinos eram homens;

b) Personalidade esquizo, calados, ressentidos, fora do controle da família;

c) Viciados em jogos e filmes violentos;

d) Sabiam manejar as armas como se fossem profissionais;

e) Antes, não apresentam qualquer sinal de comportamento desviante ou histórico de delinquência, mas tinham histórico familiar complicado;

f) Escolheram uma escola, universidade ou shopping, ou seja, os massacres são planejados para serem públicos: “não se trata de alvejar os passantes a partir de uma janela escondida: a matança é teatral” (Calligaris: FSP, 19/03/09).

ALERTA: o massacre da escola de Realengo pode ter aberto a caixa de Pandora, isto é, pode acontecer novamente em escolas e universidades do território brasileiro. Portanto, não é exagero se secretarias de educação elaborassem manuais e até treinos de sobrevivência para professores, alunos e funcionários, como já acontece em algumas partes do planeta. A esquerda brasileira, nestas horas, deve levar em conta que o treino militar “preventivo” é obrigatório nas escolas e universidades da China, Cuba, Coréia do Norte.

Também os gestores das escolas públicas ou particulares deveriam providenciar apoio psicológico individual ou em grupo para professores, alunos e funcionários, que se identificaram profundamente com o sofrimento e desespero dos colegas da escola Tasso da Silveira. Para as personalidades que perderam a ternura na luta política ou que visam apenas lucros de empresa, esta proposta parece exagerada ou absurda.

Instalar catracas, câmeras, detector de metais, mas sem um estudo minucioso, poderá ser dinheiro desperdiçado. Mas, cada escola deve fazer seu próprio estudo e discutir sobre “que fazer”. É mais prudente, sim, investir na formação ‘realista’ dos professores e reformar a cultura da escola, para além dos modismos e ideologismos. Será difícil refundar a cultura da escola se continuarmos com o nosso modo de viver sem-vínculos, sem-amizade, sem-confiança no outro, e acreditar numa segurança produzida pelos condomínios fechados ou edifícios com câmeras, guardas e cerca elétrica.

Por outro lado, que fazer, senão buscar uma prevenção limitada ou relativa, usando meios eletrônicos, guardas, cachorros, etc. Se os professores e alunos se sentissem responsáveis pelo bem público, não teriam deixado ladrões roubarem tantos aparelhos caros da universidade. Ou teriam impedido estupros e sequestros relâmpagos. Enquanto não amadurecemos nosso senso de vigilância e responsabilidade para com a coisa pública, cabe aos gestores da universidade irem em busca de contratar empresas e plano especial de segurança. Nesta esteira de medidas paliativas (neoliberais?) é que voltamos à discussão sobre o desarmamento, no Brasil. Depois do massacre na Alemanha, em 2009, o governo aprovou leis duras de desarmamento da população. Até agora, não houve mais massacres amoks e outros crimes bárbaros neste país. Mas nos EUA, que são reféns da indústria bélica, nada é feito neste sentido. E os crimes amoks vêm ocorrendo em intervalos cada vez menores.

Como prevenção, é imperiosa uma nova educação ou “educomunicação”, para formar sujeitos capazes de discernir a realidade concreta da realidade violenta produzida pelas mídias. Porque os assassinos amoks atuam como se estivessem vivendo a realidade de um filme ou jogo eletrônico, só que com armas de verdade. A mídia contribui como reforço da cultura da violência, sim, mais pela repetição e espetacularização. Dá sempre impressão que bom é ser mau. Que o bandido é sempre o herói, ainda que tenha matado muitas crianças inocentes.

Ainda, só uma “nova” educação poderia “trabalhar” os sintomas de fanatismo (religioso, político, desportivo, midiático) e perda do senso de fronteira entre o real e o virtual produzido pelas mídias. Também os pesquisadores precisam calibrar suas pesquisas, incluindo mais este tema e problema.

OBSERVAÇÃO de 18/04/2011: parei de ler os comentários de especialistas e tagarelistas sobre o massacre de Realengo, porque estava me dando náuseas. Se por um lado é necessário fazer crítica ao sensacionalismo da imprensa televisiva, por outro, não deve escapar de também serem criticadas as pseudo-análises, porque ambas se sustentam em critérios puramente ideológicos e parecem extrair gozo da situação trágica pra fazer sua propaganda política. Isto é nojento. Embrulha o meu estômago. Lamentavelmente, existe muita “opinião” (piruadas) e pouca ou nenhuma “episteme” nos escritos que li na internet e nos debates que assistir na TV aberta e por assinatura. Mais profundo foi a entrevista com o professor da Faculdade de Educação da USP, Julio Groppa Aquino, que cumpriu sua função docente de instigar o debate, superarmos o senso comum pedagógico, o senso comum psicológico e o senso comum sociológico. Há um texto do Antonio Zuin que também aprofunda o crime amok, publicado anos antes. Apenas o professor Aquino pediu “sobriedade e certo distanciamento, à moda dos antigos”, visando decantar as informações e superar a “tagarelice explicativa” do pessoal da imprensa e dos políticos profissionais e amadores que nos rondam. “Se quisermos honrar os mortos de fato, precisaremos mais do que alguns minutos de silêncio. Precisaremos nos aquietar (…). Aos que crêem no sobrenatural, cabe rezar pelos que se foram. Aos demais, resta-nos apenas um nó na garganta, um nó que não desata” (ver entrevista disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos.escola-de-seguranca-maxima,704293,0.htm).

Além de faltar fazer “dialética com a realidade concreta”, suspeito que muitas pseudo-análises se acovardam diante da realidade dos fatos, apresentando sempre um cobertor curto teórico para uma realidade complexa. Poucos, enfim, são prudentes na análise lógica dos fatos e fenômenos, e ao mesmo tempo falta humildade necessária para reconhecer que neste tipo de violência estamos como cegos diante de um elefante (lembrando o filme de mesmo nome, e a lição budista, lembrados por Aquino). Observei que os mais irresponsáveis intelectualmente misturam massacre ‘amok’ com serial killer, psicopatia, psicose, sociopatia, fanatismo, fundamentalismo, terrorismo, etc. Por falar em terrorismo, depois do 11 de setembro/2001, soube alguns professores irresponsáveis ou criminosos em potencial, fizeram elogios ao ato criminoso que matou civis de tantos países. Seriam eles influência nefasta dos jovens desequilibrados que, na internet, elogiam o massacre de Realengo?


* RAYMUNDO DE LIMA é Professor do DFE-UEM e Doutor em Educação pela USP. (Publicado originalmente em O DIÁRIO do Norte do Paraná, em 15/04/2011. Aqui, com alterações e complementos).

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7 comentários sobre “Massacre ‘AMOK’

  1. Caro Dr Raymundo de Lima, li um artigo seu onde fala da “educação da atualidade” e sobre tudo cintando um exemplo ou forma de educar da personagem Dulce (Cassia Kiss) não sou de acompanhar novelas em detalhes, até porque acho muitos outros tipos de passa tempo mais proveitosos e mais enriquecedor, como os diversos assuntos sobre potitica, região, economia, finanças, Contabilidade que é a minha área e diversos outros assuntos que tenho que polir e ler o mais interessantes.
    Mas tive a oportunidade de acompanhar parte dessa drama (Dulce) achei interessante, até porque fui criado na epoca que os filhos obeciam aos pais, hoje aquela forma de educar se chama ultrapassado, mas que teve resultados positivos a muitos filhos e pais. Tudo esta mudando rapidamente e o que não vemos mudar é a forma de como muitos jovens se comportam para si e para a sociedade, não é questão de conflito de geração, é questão que como as mudanças, muitos ou quase todos os pais não se mudaram para lidar com a nova geração e muitos tem conseqüências negativas por isso, por não ter acompanhado a evolução dessa atual geração.
    Apesar de uma (Kassia Kis) fazer uma personagem dessa, maravilhosa isso não pega e nem cai na moda nos lares brasileiros assim como pega fortemente a forma de vestir dos funqueiros, a forma de usar corte de cabelos como usam alguns jogadores de futebol e alguns artistas. Porque isso??? como analisar essa questão??
    Como mudar para melhor na forma de melhor fraternidade entre pais , filhos e sociedade. há uma tarefa muito difícil a ser realizada e que ao me ver se faz muito pouco para uma mudança, onde os futuros jovens possam ser mais camarada dos pais e conseqüentemente da sociedade.
    Será o capitalismo selvagem que predomina a essa não mudança???
    Será o comodismo dos novos criadores??
    Claro não são todos, mas o que predomina é a conseqüência das atitudes positivas ou negativas dos futuros responsáveis pelo mundo.

    Ailton Gonzaga Soares

  2. Ao Jorge Manoel: agradeço-lhe ter lembrado um poema do nosso poeta Gullar, que enfim pode adoçar sem exagero nossas vidas nestes momentos tão difíceis.

    À Marilda: realmente a imprensa é ambígua, pq não controla a mensagem subliminar de que o vilão, o maldoso, o criminoso é “o cara” legal.

    Ao Jeferson: lembre-se que também em nome de Jesus Cristo muitos massacres foram cometidos. Dependendo de como a pessoa é educada na religião, ela pode contribuir tanto para desenvolver uma moral pela paz como uma atitude bélica e fanática ou louca “em nome de Deus”. Lamento!
    Agradeço à todos pelo retorno. Raymundo.

  3. Professor RAYMUNDO DE LIMA, à primeira leitura sobre o título “Massacre ‘AMOK” chamou-me a atenção para o vocábulo “AMOK” – parece ironia rimar com amor. Mas a síntese do artigo me veio essa ideia: e é mesmo falta do Amor. Uma sociedade acostumada a grandes tragédias, agora não sente nem mesmo uma espetada com uma agulha. Os nomes modernos como o bullying é consequencia de atos distantes dos valores que antes aprendiamos durante a nossa formação humanística, tanto por parte da familia – em grande parte do tempo, quanto oriunda dos Educandários. A ausencia dos pais, a inexistencia do diálogo familiar, a carencia do ouvir o outro, a necessidade de deixar que uma máquina fale para si, converse consigo distancia os homens.
    A escola – e também hospitais – são alvo dessa violencia e de outras, porque acaba por é encarregada pela sociedade das responsabilidades de educar e dar formação sozinha. E ainda precisa isolar-se no seu território como se fosse uma ilha, um paraíso, um lugar onde quem entra sai purificado. Adianta trancar os portões, cercar a escola com guardas avantajados fisicamente com seus cães que ameaça a nossa liberdade? Adianta armar-se até os dentes? OU vale aqui a tradicional pergunta: que escola queremos? para qual cidadão? Que cidadão queremos formar? Mas não cabe somente à escola essas respostas. Posto que numa sociedade em que homens públicos deveriam ser exemplos de cidadania, não o são (não me refiro a todos). o dinheiro público desce para os bolsos e não chegam nos bolsões de pobreza.o índice de miseráveis cresce sempre, cada dia aumenta o número de desempregados. E o governo bate no peito e divulga em bom tom seus projetos sociais cuja avaliação é sempre a melhor, usam e abusam do verbo AVANÇAR ?
    Todos os homens da nossa terra deveriam ter um salário digno igual ao dos deputados, dos senadores, dos juízes. Deveriam ter do governo subsidio para viajar de aviaão ou de ônibus a qualquer momento, ter de graça apartamentos em Brasilia e ou em qualquer outro estado, deveria ter um carro à disposição, caso valesse o chamado “Todos somos iguais”. Mas no pais dos plebeus nunca somos convidados a entrar no castelo nem sequer participar da festa do casamento do principe e a que um dia deixou de ser plebéia.
    Não sei professor se fugi do tema, mas os problemas sociais existentes no Brasil inclusive são sim de ordem moral e ética; para finalizar gostaria de citar o poema de Ferreira Gullar
    O açúcar

    O branco açúcar que adoçará meu café
    nesta manhã de Ipanema
    não foi produzido por mim
    nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
    Vejo-o puro
    e afável ao paladar
    como beijo de moça, água
    na pele, flor
    que se dissolve na boca. Mas este açúcar
    não foi feito por mim.
    Este açúcar veio
    da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
    dono da mercearia.
    Este açúcar veio
    de uma usina de açúcar em Pernambuco
    ou no Estado do Rio
    e tampouco o fez o dono da usina.
    Este açúcar era cana
    e veio dos canaviais extensos
    que não nascem por acaso
    no regaço do vale.
    Em lugares distantes, onde não há hospital
    nem escola,
    homens que não sabem ler e morrem
    aos vinte e sete anos
    plantaram e colheram a cana
    que viraria açúcar.
    Em usinas escuras,
    homens de vida amarga
    e dura
    produziram este açúcar
    branco e puro
    com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
    Ferreira Gullar

    Obrigado pelo espaço.

  4. Muito triste essa época que vivemos hpje. Todos os dias rezo para que nada de mal aconteça com meu filho e outras crianças que frequentam nossas escolas. Lembro-me do tempo de minha infancia onde a escola era apenas o templo do saber e onde era o local mais seguro para as crianças. Hoje, meu filho vai à escola porque alei exige, não porque eu confio na educação que ele recebe lá.

  5. Isso é falta dos ensinamentos de Cristo aos educados como também aos educadores, falta de Jesus dentro das famílias, a família está sendo destruída gerando esses males por todos os lados!!
    Falta moral, falta de valores no mínimo condizentes com a decência humana e sobra idealismo ao nosso redor!!

  6. Professores Ozaí, Raymundo boas colocações para pesquisa e esclarecimentos. A primeira notícia pela imprensa (TV) sobre o bilhete suicida escrito pelo assassino de Realengo, levantava a hipótese de transtorno de personalidade com fanatismo religioso, próximo do estilo dos terroristas fundamentalistas que lutam por causas delirantes ou políticas; – porém, nas reportagens seguintes a TV se omitiu sobre esta revelação sendo que o governo do Estado do RJ não aceitou, camuflando a verdade real. PORQUE? Só uma “nova” educação PODE “trabalhar” os sintomas de fanatismo (religioso, político, desportivo, midiático) e perda do senso de fronteira entre o real e o virtual produzido pelas mídias. REALMENTE, também os pesquisadores precisam calibrar suas pesquisas, incluindo mais este tema e problema. A mídia CONTRIBUI como reforço da cultura da violência, sim, mais pela repetição e espetacularização. Dá sempre impressão que bom é ser mau. Que o bandido é sempre o herói, ainda que tenha matado muitas crianças inocentes. Pergunto-lhes? SERÁ que os governantes estão dispostos a gastar verbas com uma Nova-Educação… tirando da mente do povo fragilizado pelas privatizações criminosas do ensino público o estilo impensante também deixado pela mídia?

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