Conceito de Natureza Humana: uma idéia a ser revisitada

por LEONARDO VENICIUS PARREIRA PROTO*

Em artigo publicado no site da Adital: notícias da América Latina e Caribe, no dia 04.04.11, o teólogo e escritor Leonardo Boff chama-nos atenção para o neurótico esquema de segurança do presidente norte-americano Barack Obama. Um texto que nos remete à idéia de natureza humana, afinal, desde a inauguração da modernidade às denominadas ciências humanas vem refletindo e sistematizando uma multiplicidade de concepções acerca da compreensão e do entendimento a respeito da condição humana no mundo.

A reflexão de Boff trouxe uma questão na qual estamos trabalhando junto a alunos/as da graduação do curso de História da Universidade Estadual de Goiás (UEG) em uma disciplina denominada epistemologia das ciências humanas. O conteúdo do qual estamos ministrando é justamente a constituição das ciências humanas e um de seus fundamentos primordiais: a concepção de natureza humana.

Para estas aulas apoiamo-nos em dois autores importantes, Hilton Japiassú (1983) e Erich From (1979). O primeiro autor considera a constituição das ciências humanas em pleno desenvolvimento da modernidade com uma problemática já posta, que é o problema da cientificidade, pois como é possível adotar os mesmos parâmetros das ciências da natureza enquanto postulado científico aos indivíduos modernos, sendo estes humanos e com realidades sociais que estão além das possíveis técnicas de mensuração ou da construção das leis físicas-naturais?

O segundo autor, Erich Fromm, um dos representantes da Escola de Frankfurt na segunda década do séc. XX, que reunia estudiosos da sociologia, filosofia, economia, psicologia social e psicanálise, concentrava esforços em produzir o que ficou conhecido como teoria crítica. Uma das elaborações de Fromm (1979) versa sobre a concepção de ser e natureza humana. Para este, de forma geral, baseado nas leituras de Marx e Freud, considera a natureza humana como uma relação dialética entre a dinâmica da transformação dos indivíduos  na  história e na sua condição libidinosa, pois esta seria o “motor” do prazer e da produção dos desejos, importantes na constituição do projeto humano e sua construção histórico-social.

Portanto, os indivíduos dessa sociedade podem ainda no decorrer de suas trajetórias e do desenvolvimento social que participam serem sujeitos da sua deformação psíquica, produzindo assim, patologias no nível do universo mental, ocasionadas, por exemplo, pelo nível de exploração das suas condições materiais de existência.

O capitalismo e sua forma de apropriação/expropriação da vida deforma a condição humana e suas possibilidades de plenitude, ocasionando em muitas situações danos irreparáveis à saúde física e psíquica dos indivíduos dessa sociedade.

Todos/as estamos sujeitos às consequências da alienação, pois a mesma não é só política, como pode ser defendido em dadas interpretações, mas se falsifica a realidade, se obstrui o mecanismo das condições reais, objetivas, produzirá na coletividade humana efeitos danosos ao nosso psíquico, às chamadas subjetividade, portanto, não há como separar condições objetivas da realidade com a apropriação da mesma pelos nossos universos psíquicos.

Ao nos iludirmos com as pseudo necessidades criadas pelos mecanismos do capital, produzimos “internamente” noções da realidade social que podem fazer parte da nossa esperança no “futuro das ilusões” e aí conceberemos uma idéia de ser humano nesses tempos atuais ou modernos, como seres incapazes de aprofundarem suas crises, seus lutos, de enfrentarem suas dificuldades em níveis pessoais e sociais. Essa noção colabora com a compreensão de uma humanidade fragilizada por suas próprias formas de existência social, pois ao sustentar um modo de vida e relação social de produção como a capitalista orienta-se  por uma vida coletiva hierarquizante e de determinação classista.

Num diálogo com Boff, participamos desse debate, da fragilidade da vida diante da onipotência do “sistema” capitalista, ou melhor, dizendo, diante das formas de regularização social, em que a determinação fundamental (o capital) produz e reproduz condições sociais de existência no sentido da vil desumanização sustentada em nosso psíquico com absorção de inseguranças, medos, impotências, frustrações. Não que essas sensações não sejam humanas, mas elas são estimuladas pelos mecanismos das classes dominantes para forjar as classes trabalhadoras à permanência de sua condição: alienada, explorada e sem autonomia.

Eis aí uma questão sobre a noção de humanidade na contemporaneidade!

Referências

BOFF, Leonardo. A neurótica segurança presidencial norte-americana. In: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=55202. Acessado em: 11.04.11.

FROMM, Erich. Meu Encontro com Marx e Freud. 7ª edição, Rio de Janeiro, 1979.

JAPIASSU, Hilton. A Pedagogia da Incerteza. Rio: Imago, 1983


* LEONARDO VENICIUS PARREIRA PROTO é Coordenador do Curso de História da UEG/UnU Iporá; Mestrando em História pela UFG/Bolsista da CAPES.

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9 comentários sobre “Conceito de Natureza Humana: uma idéia a ser revisitada

  1. Leonardo,

    Sou químico industrial e muito interessado em filosofia e economia.
    Não tenho tempo nem motivação para ler a obra de Marx, pois 3 dos principais autores que tenho lido (Eric Voegelin, Olavo de Carvalho, Ludwig von Mises) refutaram de forma clara as teorias marxistas não me deixando dúvida alguma quanto a falta de sinceridade de Marx para com a verdadeira filosofia.
    Deixo este texto como crítica ao conceito dos índices de salários de Marx:
    http://www.mises.org.br/EbookChapter.aspx?id=269
    A Teoria Marxista dos Índices de Salarios por Ludwig von Mises.
    A mais poderosa força política de nosso tempo é Karl Marx. Os governantes de muitas centenas de milhões de camaradas nos países atrás da Cortina de Ferro fingem aplicar os ensinamentos de Marx, considerando-se executores do seu testamento. Nos países não comunistas a análise dos feitos de Marx é realizada com mais restrições, muito embora ele seja, ainda, elogiado em todas as universidades como um dos maiores líderes intelectuais da humanidade, como o gigante que, demolindo preconceitos e erros inveterados, reformou radicalmente a Filosofia e as Ciências Humanas. Os poucos dissidentes que não entram no coro da louvação de Marx não recebem muita atenção. São boicotados e chamados de reacionários.

    O fato mais notável em relação a esse prestígio sem precedente é que mesmo os mais entusiásticos admiradores desse autor não leem seus escritos principais nem estão familiarizados com o conteúdo desses escritos. Poucas passagens e frases de seus livros — sempre as mesmas, por sinal — são repetidamente citadas em discursos políticos e em panfletos. A verdade é que os volumosos livros, os artigos e os panfletos de Marx — como se pode facilmente constatar — não são lidos com atenção, nem por políticos nem por autores que orgulhosamente se intitulam marxistas. Muitas pessoas compram — ou tomam emprestadas de bibliotecas — reproduções dos textos de Marx. Em geral, mal começam a lê-los, e já se sentem mortalmente entediadas: param depois de poucas páginas, se já não pararam na primeira.

    Se as pessoas estivessem familiarizadas com as doutrinas de Marx, jamais falariam, como frequentemente o fazem, em socialismo “segundo os objetivos ou preceitos de Marx”. Isso porque Marx, além de não ter delineado qualquer conceito de socialismo, jamais disse algo sobre a organização e o funcionamento de um mundo socialista: afirmou, apenas, que nesse mundo se teria a abundância abençoada e ilimitada, e todos teriam tudo o que necessitassem. A ideia básica do socialismo — eliminar o controle privado dos meios de produção e livre empresa, passando exclusivamente ao estado a administração de todos os casos e temas econômicos — já fora elaborada por autores franceses e ingleses, antes de Marx iniciar sua carreira de autor e panfletista. Nada havia a acrescentar, e Marx não acrescentou coisa alguma. Nem mesmo tentou refutar as críticas que, ao seu tempo, os economistas já haviam feito a essa ideia, condenando-a e demonstrando o engano e o absurdo dos esquemas socialistas. Marx considerava uma utopia vã interessar-se no presente por questões de um futuro mundo socialista. Julgava que sua própria contribuição não ia além de constatar uma pretensa realidade: a de que o estabelecimento do socialismo era inevitável. Assim, o socialismo, por estar fadado a sobrevir “com a inexorabilidade de uma lei natural” e por ser o alvo para o qual se dirigia toda a história da humanidade, seria a realização dos anseios e desejos humanos, um estado de alegria e felicidade perpétuas.

    Os escritos de Marx — especialmente o volumoso tratado principal, O capital — não se ocupam propriamente do socialismo, mas sim da economia de mercado e do capitalismo. Neles Marx despreza o capitalismo, considerado por ele um sistema de horrores indizíveis, absolutamente odioso, que permite que a imensa maioria das pessoas, os proletários, sejam cruelmente oprimidas e exploradas por uma classe de capitalistas perversos. Tudo, nesse sistema, seria nefasto e irrecuperavelmente mau. Não haveria reforma, por mais bem-intencionada que fosse, que pudesse aliviar — e menos ainda eliminar — o abominável sofrimento dos proletários. Nada mais se pode acrescentar sobre o capitalismo, segundo Marx, senão que, em decorrência de suas características atrozes e monstruosas, um dia, quando se tornarem intoleráveis os males que produz, ele acabará provocando aquela grande revolução social que há de gerar o milênio socialista.

    O cerne da doutrina econômica de Marx é a sua “lei” de salários. Essa pretensa lei, que é a base de toda a sua crítica do sistema capitalista, naturalmente não é criação marxista. Já havia sido mencionada por autores anteriores, era há muito conhecida, sob o rótulo de “lei de ferro dos salários”, e já fora minuciosamente refutada antes de Marx empregá-la como alicerce de sua doutrina. Marx decidiu ignorar tudo o que já se havia dito no sentido de demonstrar a falsidade da argumentação implícita nessa pretensa lei. Fez alguns comentários sarcásticos sobre a tradução alemã do termo inglês (que corresponde a) “lei de ferro”, sugerida por seu principal rival na liderança do partido socialista alemão, Ferdinand Lassalle, mas construiu toda a sua argumentação econômica, todo o seu prognóstico sobre o curso futuro dos assuntos econômicos, bem como todo o seu programa político, sobre a base ilusória desse teorema falacioso.

    Essa chamada lei de ferro afirma serem os índices de salários determinados pelo custo dos bens necessários à mera subsistência da força de trabalho. O assalariado não poderia ganhar mais do que aquilo de que fisiologicamente precisa para preservar sua capacidade de trabalhar e para poder sustentar o número de filhos estritamente necessário para substituí-lo quando de sua morte. Se o salário se elevasse acima desse nível, os assalariados teriam mais filhos, e, consequentemente, a competição desses candidatos adicionais a empregos iria reduzir novamente os índices de salários a um nível que a doutrina considerava natural. Por outro lado, como os trabalhadores não seriam capazes de alimentar tantos filhos quantos são necessários para preencher as fileiras das forças de trabalho, haveria falta de trabalhadores, e a consequente competição entre os empregadores traria os índices de salário novamente ao nível natural.

    Do ponto de vista dessa alegada lei de ferro, o destino dos assalariados no regime capitalista parece sem esperança. Não podem jamais erguer-se acima do nível da mera sobrevivência. Nem reformas, nem salário mínimo decretado pelo governo, nem atividades sindicalistas poderão ter qualquer eficácia contra a lei de ferro. No regime capitalista, os proletários estão condenados a permanecer eternamente à beira da inanição. Todas as vantagens advindas de melhorias nos métodos tecnológicos de produção são embolsadas unicamente pelos capitalistas. É esse o sentido do conceito marxista de exploração. Por direito, diz Marx, todos os produtos deveriam beneficiar aqueles que os produzem: os trabalhadores braçais. A mera existência da burguesia já é parasitismo. Enquanto o proletário sofre, o burguês se diverte e faz festas.

    Basta olhar em volta para constatar que deve haver algo errado nessa descrição de uma economia capitalista em funcionamento. A grande inovação trazida pela passagem de um sistema pré-capitalista de produção para o sistema capitalista, o fato histórico chamado Revolução Industrial, foi exatamente introduzir um novo sistema de mercado. As indústrias em funcionamento nos bons velhos tempos atendiam quase unicamente às necessidades dos abastados. No entanto, o que caracteriza o capitalismo como tal é o fato de ele fomentar uma produção em massa, para atender à demanda das massas. A maior parte dos produtos saídos de fábricas é consumida direta ou indiretamente pelas mesmas pessoas que trabalham nessas fábricas. Os grandes negócios são grandes porque são exigidos e consumidos pelas massas. As lojas que vendem bens de luxo para poucos nunca passam de um tamanho médio ou mesmo pequeno. Se entrarmos na casa de um homem comum de classe média num país capitalista, encontraremos todos os produtos manufaturados nas engrenagens das grandes empresas. É fantasticamente absurdo dizer que todos os assalariados ganham apenas o necessário para se sustentarem e criarem bastantes filhos para preencher todos os empregos nas fábricas.

    A falha essencial da lei de ferro dos salários é que ela negou ao assalariado seu caráter humano, e lidou com ele como se fosse uma criatura não humana.

    Os seres vivos não humanos têm necessidade de proliferar até os limites traçados pelo suprimento disponível de meios de subsistência. Nada, senão a quantidade de alimento possível de se obter, controla a multiplicação ilimitada de elefantes ou roedores, de pulgas e germes. Seu número se mantém no nível dos alimentos disponíveis. Mas essa lei biológica não se aplica ao homem. O homem também aspira a outros fins além daqueles relacionados às suas necessidades biológicas e fisiológicas. A lei de ferro presumia que o assalariado — o homem comum — não é melhor do que um coelho: não anseia por outras satisfações além de comer e proliferar-se, não sabe aplicar seus ganhos senão na perseguição dessas satisfações animais. É óbvio que essa é a coisa mais absurda que já se imaginou. O que caracteriza o homem enquanto homem e o eleva acima do nível dos animais é que ele aspira também a objetivos especificamente humanos, que podemos chamar fins mais altos. O homem não é, como os outros seres vivos, impelido apenas pelos apetites de seu ventre e de suas glândulas sexuais. Também o assalariado é um homem, ou seja, é uma pessoa moral e intelectual. Se ganha mais do que o mínimo que lhe é essencial, gasta isso na satisfação de seus anseios especificamente humanos, tenta tornar mais civilizada a sua vida e a de seus dependentes.

    Quando Marx e Engels adotaram essa espúria lei de ferro e afirmaram no Manifesto Comunista que o salário médio é “aquela soma de víveres (Lebensmittel) absolutamente necessários (notwendig) para manter a mera subsistência do trabalhador enquanto trabalhador”, economistas judiciosos já haviam demonstrado a falácia desse silogismo. Marx, porém, não deu atenção a essa crítica. Toda a sua doutrina econômica, apresentada nos alentados volumes do seu principal tratado, O capital, se baseia na lei de ferro. A falsidade dessa pretensa lei, que durante cem anos ninguém questionou, mina os fundamentos de toda a argumentação econômica de Marx, destruindo por inteiro a demagogia central do sistema marxista: a doutrina que defende que os assalariados são sempre explorados pelos empregadores.

    Na elaboração de seu sistema filosófico e econômico, Marx estava tão cego pelo seu ardente ódio à civilização ocidental, que nem percebeu as evidentes contradições de seu próprio raciocínio. Um dos dogmas essenciais da doutrina marxista, talvez sua própria substância e cerne, é a ideia da inevitabilidade do advento do socialismo. Essa profecia explica o fanatismo das várias facções socialistas comunistas em nosso tempo.

    Marx tentou demonstrar esse dogma básico de seu credo com a famosa afirmação de que, necessária e inevitavelmente, o capitalismo gera um progressivo empobrecimento das massas de assalariados. Quanto mais evolui o capitalismo, diz ele, tanto mais “cresce a massa de miséria, opressão, escravidão, degradação e exploração”. Com “o progresso da indústria” o trabalhador vai “caindo mais e mais fundo”, até que por fim, quando seu sofrimento se tornar intolerável, as massas exploradas se revoltarão, estabelecendo a eterna felicidade do socialismo.

    É sabido que esse prognóstico de Marx foi tão desmentido pelos fatos da evolução social quanto outras profecias marxistas. Desde que Marx escreveu essas linhas, em 1848 e 1867, o padrão de vida dos assalariados em todos os países capitalistas vem melhorando deforma sem precedentes e nunca sonhada.

    Mas há ainda algo mais a dizer sobre essa peça da argumentação de Marx. Ela contradiz toda a teoria marxista da determinação dos índices de salário. Como foi demonstrado, esta teoria afirma que, no regime capitalista, necessariamente os índices de salário são sempre extremamente baixos, não podendo, por razões fisiológicas, baixar ainda mais, caso contrário implicariam o extermínio de toda a classe de assalariados. Como é possível afirmar, então, que o capitalismo produza o empobrecimento paulatino dos assalariados? Marx, nessa predição do empobrecimento paulatino das massas, contradisse não só todos os fatos da experiência histórica, mas também os ensinamentos essenciais da sua própria doutrina.

    O sistema econômico marxista, tão elogiado por hostes de pretensos intelectuais, não passa de um emaranhado confuso de afirmações arbitrárias e conflitantes.

    (In Christian Economics, Christian Freedom Foundation, Inc., Buena Park, California, 30 de maio de 1961)

    Saudações Leonardo!

  2. Jeferson,
    algumas discussões nossas foram para além do próprio texto escrito por mim. Pois, não tratei de questões teológicas, e muito menos de suas especificidades. Mas continuemos com alguns debates:
    quanto a Teologia da Libertação dá o lugar ao pobre. Isso se fez em decorrência da opção desta de tratar o pobre como sujeito fundamental no processo de evangelização, ou você vai negar que aqueles e aquelas que vão ao encontro de Jesus, ou vice-versa, são os mais pobres naquele contexto em que foram escritos os textos? Cito por exemplo, o texto da mulher de Cananéia.
    Teologia também é política. Ai é necessário dizer que tipo de política: no caso da teologia sistemática ou que reafirma determinados dogmas – verdades de fé – a política passa pelas orientações do colegiado do Sumo Pontífice, ou você acredita, ser o contrário?
    Em termos de História da Igreja Católica Apostólica Romana (denominada historicamente de SICAR), predominou hegemonicamente – para utilizar uma expressão gramsciana – as teologias construídas sob as base da oficialidade. Portanto, é como disse anteriormente, a TL está a margem, e se preocupa-se com seguir os preceitos dogmáticos fundamentais da Doutrina para Fé, não conseguiria fazer uma teologia com opção radical pelos empobrecidos.
    Isso vale dizer também para o tal “sistema” capitalista ou para, como preferir, o liberalismo econômico. É essa determinação fundamental, para usar uma expressão advinda do marxismo, que regulariza as formas de relação social. Portanto, a justiça da livre-concorrência ocorre entre os que tem condições de terem livre-concorrência, ou você vai dizer que um trabalhador tem as mesmas formas de “concorrer” com alguém que é dono de meio de produção. A forma dita por você justa acontece entre os iguais, devido é claro as suas possibilidades de materialidade.
    Outra questão abordada por você, e que incorre em equívocos metodológicos, diz respeito a “acreditar na sinceridade por parte de Marx”. O que acontece, é que Marx ou o marxismo não é uma religião, assim, não criou qualquer forma de entendimento da história da humanidade de forma dogmática. Marx, e junto com Engels (em alguns trabalhos) produziu uma teoria, fundamentada no método do materialismo histórico dialético. Tal método, suscitamente expressando, e isso pode ser verificado nas obras, possibilitou historiar a concreção das relações sociais, ou seja, compreender a realidade histórica dos indíviduos-sociais. Qual é um dos critérios para se analisar a realidade? Primeiro é compreender a totalidade dos sujeitos, ou seja, a sociedade dos mesmos. Segundo, a realidade dos indivíduos é composta de muitas determinações sociais. ´
    E é nesse aspecto que Marx e Engels analisam a ideologia como falsa consciência, pois a mesma tem um caráter expresso na luta de classes, pois você pode se perguntar se as classes dominantes querem deixar de ser expressão de sua dominação (!?). Esse é o “papel” da ideologia, produzir uma falsa consciência da realidade. As tais classes dominantes precisam convencer às classes trabalhadoras, que seu lugar é este na sociedade de classes: trabalhadora e não dona de quaisquer meios de produção.
    Por esse motivo, o marxismo não pode ser considerado uma ideologia, se o mesmo combate as formas de falseamento da realidade sócio-histórica. Para o marxismo, e vou utilizar um referencial importante do marxismo no séc. XX, Karl Korsch (sugiro a leitura de sua obra Marxismo e Filosofia), é uma teoria revolucionária do proletariado revolucionário. Contudo, não é uma teoria da qual às classes possuidoras terão como “livro de cabeceira”, você não acha?
    Para Marx, os indíviduos não podem ser julgados por aquilo que os mesmos acham deles. Isso vale para outro ponto levantado por você, de que a injustiça ocorre em quaisquer escala ou nível social: seja pobre ou rico. Isso é verdade, por isso, é necessário uma teoria, e aqui, revolucionário, no caso do marxismo, que aborde o indivíduo como expressão do conjunto de suas relações sociais. Se vivemos em um mundo, onde a sociedade organiza-se de forma classista e hierarquizadas, os indivíduos na sua condição atomizada, tendem a reproduzir os valores dessa sociedade de classes. Se temos como valor na sociedade capitalista a concorrência, isso será apropriado pelo indivíduo e reproduzido em seu universo psíquico (como sugestão leia os estudos do freudo-marxismo – uma apropriação das teorias freudianas para sua compreensão no marxismo. Isso sim, eu tentei expor no texto que escrevi, do qual surgiu esses nossos debates).
    Por último (e por enquanto!) a lógica do marxismo precisa ser explicada a partir do surgimento das classes sociais, na formulação histórica das chamadas sociedades complexas (pois as sociedades simples não se organizam em bases classistas). Talvez valesse a pena, até para você fundamentar suas discordância “epistemológica”, estudar a obra O Capital. Nessa obra, que é uma pesquisa densa e volumosa, Marx para entender e explicar a ontologização do capital em sua materialidade histórica, faz um estudo vigoroso de história para possibilitar a crítica da economia política e não para reforçar ou reproduzir a economia política ou política econômica, em seu esforço de produzir uma teoria de fôlego (até os liberais em quaisquer escala e condição concordam. Você pode encontrar muitos liberais que “odeiam” Marx, mas pergunte aos que seriamente o leram, se não consideram uma verdadeira obra de consistência) para colaborar com a luta da classe trabalhadora de seu tempo, o séc. XIX.
    Concordo contigo, não se trata aqui de exposições ou defesas ideológicas para vencer o debate, mas é importante fazê-lo no sentido de discutir as perspectivas, que no nosso caso são diferenciadas.
    Eis um fundamento para continuidade de nosso embate dialógico! Até!

  3. Leonardo,

    A a TL afirma que o pobre é o lugar de Salvação e, por isso, a Salvação se dá por meio do pobre.
    Onde Cristo disse isso? Claro que a heresia se refere a doutrina tradicional católica, mas essa ideia da TL é fora dos ensinamentos do Cristo!
    Cristo veio para toda a humanidade e não apenas para os pobres, justamente porque “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3, 23).
    Quero deixar claro que respeito todas as doutrinas cristãs sérias, mas um católico ser a favor da TL está muito enganado em relação a história da própria igreja católica.

    A TL está diretamente ligada a ideologia marxista.

    “Em relação ao marxismo, talvez teria outras análises sobre o desenvolvimento histórico do marxismo nas quais você poderia ter, como p. exemplo, textos do próprio Marx e Engels, como Ideologia Alemã, obra que faz crítica a ideologia, entendendo esse termo como “falsa consciência da realidade”. Então, se faz crítica, não poderia reproduzir como tal, ou seja, o pensamento de Marx e Engels nessa obra específica faz critica de quaisquer concepções que falseiam a realidade.”

    Bom, se você acredita nessa sinceridade por parte de Marx, está no seu direito, eu duvido.

    Em relação a ideologia, sim, não há vínculo 100% real, é uma possibilidade de alguns indivíduos ou de muitos, mas não é regra. Para mim os princípios que a pessoa seguem são mais poderosos do que os ideais. A pessoa pode se concentrar muito nessas hipóteses e cometer injustiças a troco dessa hipótese, a história do comunismo é o maior exemplo.

    As classes são apenas um agrupamento de pessoas com mesmas características econômicas, isso não significa que se esse grupo chegar ao poder irá reinar a paz entre todos, isso é besteira.
    Não importa o nível sócio-econômico, as pessoas cometem injustiças pobres ou ricas.

    Se o Estado tentasse fazer com que alguma classe determina-se valores para o sistema produtivo, por exemplo, seria um colapso. Não há possibilidade nesse formato de se determinar valores justos para os produtos ou serviços, por exemplo.
    Só o livre mercado, com oferta e demanda pode fazer isso de forma justa.

    Não critico o marxismo por modismo ou para vencer algum tipo de debate, não vejo a mínima lógica.

    Até mais.

  4. Jeferson, se você basear as questões do catolicismo a partir da teologia sistematizada pelo cardeal Ratzinger e o combate que o mesmo fez a Teologia da Libertação, de fato, só existe esse tipo de catolicismo. Penso que não dá para entender a história do catolicismo a partir de uma visão monolítica. Afinal há várias concepções dentro da própria tradição cristã. Há um pluralismo religioso e isso é concreto: basta visualizar as realidades pentecostais, neopentecostais e de pastorais sociai com a qual a Igreja vem tratando desde o Concílio Vaticano II. Se a Teologia da Libertação é heresia, há que se perguntar: para quem? Se for para a política institucional do Vaticano, você tem razão. E não creio que seja uma preocupação muito frequente daqueles/as que optam/optaram pela Teologia da Libertação em serem “fiés” à doutrina ortodoxa! Penso que os mesmos que optaram por tal questão, tem consciência dos processos de marginalização e subalternização à qual estariam sujeitos em fazerem uma opção radical pelos mais empobrecidos.
    Em relação ao marxismo, talvez teria outras análises sobre o desenvolvimento histórico do marxismo nas quais você poderia ter, como p. exemplo, textos do próprio Marx e Engels, como Ideologia Alemã, obra que faz crítica a ideologia, entendendo esse termo como “falsa consciência da realidade”. Então, se faz crítica, não poderia reproduzir como tal, ou seja, o pensamento de Marx e Engels nessa obra específica faz critica de quaisquer concepções que falseiam a realidade. Talvez valeria como indicação!
    Afinal, você fala que “não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe”. Se não há ideologia, por que as classes existem? É fruto do desenvolvimento abstrato/metafísio da história? Ou nós não vivemos, em sua concepção, em uma sociedade de classes? Se não existe sociedade de classes, mas somente “apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza”, como explicar que indíviduos da classe trabalhadora, não possam como classe trabalhadora acender-se como classe dominante?
    Essas são algumas das questões colocadas para debate, tendo em vista o que você coloca sobre a própria noção de ideologia, no sentido da apreensão individual por cada pessoa.
    Suas críticas, resvalam-se em dois aspectos a meu ver: o primeiro é que você critica a teologia da libertação sem fazer referência a concepções trabalhadas pela epistemologia da própria TL (isso vale também para o marxismo).
    Em segundo lugar, você corrobora com a idéia de invecibilidade do desenvolvimento das forças produtivas do modo de produção vigente: o capitalismo.
    No mais, o debate a partir do texto tem valido a pena!

  5. Caro Leonardo,

    Acho que de catolicismo você não entende muita coisa, teologia da libertação é heresia!
    http://padrepauloricardo.org/audio/cardeal-ratzinger-e-a-teologia-da-libertacao/

    Em relação ao assunto de socialismo, ele não pode ser concebido como sistema econômico, é impossível! Por isso esse socialismo que muitos dizem acreditar diferente de Cuba, Rússia, China, etc. nunca vai existir.
    Mas, esses governantes querem é isso mesmo, alienar o povo com uma lenda e ganhar dinheiro as custas desse mesmo povo, com a ajuda dos banqueiros e corporações com interesses globais.
    Karl Marx sabia muito bem disso, pois ele não seria estúpido o suficiente para escrever o que escreveu inocentemente.
    Eric Voegelin já dizia: Mas o sonho de criar o super-homem que sucederá à criatura divina, a ideia do indivíduo total que se apropria das faculdades do sistema industrial, para a sua auto-actividade, são empiricamente irrealizáveis. A mudança da natureza humana através da experiência da revolução é um estéril misticismo intramundano. Compreendemo-lo melhor se compreendermos Marx. http://www.olavodecarvalho.org/convidados/mendo2_1.htm

    A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho

  6. Jeferson, de fato, se você der uma olhada no movimento da teologia cristã-católica, a partir da segunda metade do séc. XX, verá que foi concebida, sobretudo a partir da reunião do Vaticano II, em que pregava uma aproximação da doutrina social da Igreja Católica com as realidades sociais marginalizadas. A Teologia da Libertação (TL) nasce nesse contexto, e tem como opção fundamental: a opção preferencial pelos pobres. Em meio aos fundamentos da teologia sistemática, nasce uma radicalização, oriunda da própria teologia, de um referencial sociológico, cujo aspecto teórico apropriado pela teologia são os referenciais do materialismo-histórico-dialético. E Leonardo Boff é um dos expoentes da Teologia da Libertação na América Latina, mesmo que haja discordâncias em relação ao fundamento teológico. O importante é perceber, em minha opinião, a construção histórico-social desse movimento interno da própria sistematização da teologia na América Latina.
    Quanto ao socialismo nos países citados por você. Uma pergunta fundamental é se estes países realmente são socialistas, ou se haveria outra forma de entendimento. Basta buscar outros referenciais e leituras como as reflexões de Maurício Tragtenberg sobre o Socialismo. Aquilo que muitas vezes é denominado de socialismo real, é explicado na perspectiva do marxismo libertário como capitalismo de Estado.
    Por último, a idéia de Lula como socialista já vem sendo questionada há um tempo por leituras marxistas em que o considera como burocrata, articulador e antenado com os desenvolvimentos de reprodução do próprio capital, mediatizado pela capacidade do Estado em organizar esse forma de produção no país.

  7. Marilda, penso que a idéia de valor está relacionada às suas concepções, pois é preciso contextualizar a produção das obras e os sujeitos que a produziram. No caso de Marx, é preciso situá-lo no conjunto das lutas da classe trabalhadora no séc. XIX. Se você dissocia a prática política das concepções teóricas produzidas por Marx, realmente sua elaboração perde “valor”. No caso de Freud, aí você cita o “financiamento” dos Rothschilds, é preciso considerar que o próprio Freud politicamente era um liberal (e não teórico de perspectiva revolucionária). Isso não inválida suas contribuições para o pensamento da própria esquerda. No texto, cito a referência do freudo-marxismo, a partir das contribuições de Fromm.
    No caso de FHC, não há por nossa parte e nem por FHC, conhecendo sua perspectiva social-democrata, que tenha utilizado dos referenciais do marxismo para elaboração de suas concepções ou mesmo como norte de orientação de sua prática política. Sua matriz social-democrata visava justamente aquilo que anunciou teoricamente: capitalismo dependente. Veja seus escritos sobre Teoria da Dependência, produzido junto à Enzo Faletto (ambos cepalinos).
    Bom, como o espaço é restrito, penso que esse debate a partir do texto é importante.

  8. Leonardo Boff, teólogo? Teologia da libertação não é teologia!!!

    Me digam um país em que deu certo o comunismo/ socialismo?
    Cuba? Rússia? China?
    Quando um socialista tem chance de ir contra o temido capital o que ele faz?
    Vende o país, o Lula fez isso.

    Comunista odeia capitalismo mas ama dinheiro!!!

  9. Professor Ozaí, Leonardo, qualquer comentário surgindo os nomes Freud e Max a meu ver, não tem qualquer valor.
    Freud “controlar” os seres humanos mudou para a Inglaterra e ganhou uma mansão
    “Os Rothschilds não eram os tesoureiros, mas os chefes do primeiro segredo do comunismo … Marx “O Capital” e os mais altos chefes da Primeira Internacional … eram controlados pelo Barão Lionel de Rothschild
    Leia: http://mudancaedivergencia.blogspot.com/2011/02/instituto-tavistock-arma-de-controle-da.html
    Não podemos esquecer que foi a fixação da política “O Capital de Max” que FHC aplicou no Brasil obedecendo os consensos para privatizar, doar o país, deixando o cidadão brasileiro impensante, apresentando em sua saúde física e psíquica danos irreparáveis.

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