A crise européia e o “moinho satânico” do capitalismo global

por GIOVANNI ALVES*

A crise financeira de 2008 expõe com candência inédita, por um lado, a profunda crise do capitalismo global e, por outro, a débâcle político-ideológico da esquerda socialista européia intimada a aplicar, em revezamento com a direita ideológica, os programas de ajustes ortodoxos do FMI na Grécia, Espanha e Portugal, países europeus que constituem os “elos mais fracos” da União Européia avassalada pelos mercados financeiros.

Aos poucos, o capital financeiro corrói o Estado social europeu, uma das mais proeminentes construções civilizatórias do capitalismo em sua fase de ascensão histórica. Com a crise estrutural do capital, a partir de meados da década de 1970, e a débâcle da URSS e o término da ameaça comunista no Continente Europeu, no começo da década de 1990, o “capitalismo social” e seu Welfare State, tão festejado pela social-democracia européia, torna-se um anacronismo histórico para o capital. Na verdade, a União Européia nasce, sob o signo paradoxal da ameaça global aos direitos da cidadania laboral. É o que percebemos nos últimos 10 anos, quando se ampliou a mancha cinzenta do desemprego de longa duração e a precariedade laboral, principalmente nos “elos mais fracos” do projeto social europeu. Com certeza, a situação do trabalho e dos direitos da cidadania laboral na Grécia, Espanha e Portugal deve piorar com a crise da dívida soberana nestes países e o programa de austeridade do FMI.

Vivemos o paradoxo glorioso do capital como contradição viva: nunca o capitalismo mundial esteve tão a vontade para aumentar a extração de mais-valia dos trabalhadores assalariados nos países capitalistas centrais, articulando, por um lado, aceleração de inovações tecnológicas e organizacionais sob o espírito do toyotismo; e por outro lado, a proliferação na produção, consumo e política, de sofisticados dispositivos de “captura” da subjetividade do homem que trabalha, capazes de exacerbar à exaustão, o poder da ideologia, com reflexos na capacidade de percepção e consciência de classe de milhões e milhões de homens e mulheres imersos na condição de proletariedade.

Deste modo, a crise européia é não apenas uma crise da economia e da política nos países europeus, mas também – e principalmente – uma crise ideológica que decorre não apenas da falência política dos partidos socialistas em resistir à lógica dos mercados financeiros, mas também da incapacidade das pessoas comuns e dos movimentos sociais de jovens e adultos, homens e mulheres explorados e numa situação de deriva pessoal por conta do desmonte do Estado social e espoliação de direitos pelo capital financeiro, em perceberem a natureza essencial da ofensiva do capital nas condições do capitalismo global.

Ora, uma parcela considerável de intelectuais e publicistas europeus têm uma parcela de responsabilidade pela “cegueira ideológica” que crassa hoje na União Européia. Eles renunciaram há tempos, a uma visão critica do mundo, adotando como único horizonte possível, o capitalismo e a Democracia – inclusive aqueles que se dizem socialistas. Durante décadas, educaram a sociedade e a si mesmos, na crença de que a democracia e os direitos sociais seriam compatíveis com a ordem burguesa. O pavor do comunismo soviético e a rendição à máquina ideológica do pós-modernismo os levaram a renunciar a uma visão radical do mundo. Por exemplo, na academia européia – que tanto influencia o Brasil – mesmo em plena crise financeira, com aumento da desigualdade social e desmonte do Welfare State, abandonaram-se os conceitos de Trabalho, Capitalismo, Classes Sociais e Exploração. Na melhor das hipóteses, discutem desigualdades sociais e cidadania…

Há tempos o léxico de critica radical do capitalismo deixou de ser utilizado pela nata da renomada intelectualidade européia, a maior parte dela, socialista, satisfeita com os conceitos perenes de Cidadania, Direitos, Sociedade Contemporânea, Democracia, Gênero, Etnia, etc – isto é, conceitos e categoriais tão inócuas quanto estéreis para apreender a natureza essencial da ordem burguesa em processo e elaborar com rigor a crítica do capitalismo atual. Na verdade, para os pesquisadores da “classe média” intelectualizada européia, muitos deles socialistas “cor-de-rosa”, a esterilização da linguagem crítica permite-lhes pleno acesso aos fundos públicos (e privados) de pesquisa institucional.

É claro que esta “cegueira ideológica” que assola o Velho Continente decorre de um complexo processo histórico de derrota do movimento operário nas últimas décadas, nos seus vários flancos – político, ideológico e social: o esclerosamento dos partidos comunistas, ainda sob a “herança maldita” do stalinismo; a “direitização” orgânica dos partidos socialistas e sociais-democratas, que renunciaram efetivamente ao socialismo como projeto social e adotaram a idéia obtusa de “capitalismo social”; a débâcle da União Soviética e a crise do socialismo real, com a intensa campanha ideológica que celebrou a vitória do capitalismo liberal e do ideal de Democracia. A própria União Européia nasce sob o signo da celebração da globalização e suas promessas de desenvolvimento e cidadania. Last, but not least, a vigência da indústria cultural e das redes sociais de informação e comunicação que contribuíram – apesar de suas positividades no plano da mobilização social – para a intensificação da manipulação no consumo e na política visando reduzir o horizonte cognitivo de jovens e adultos, homens e mulheres à lógica do establishment, e, portanto, à lógica neoliberal do mercado, empregabilidade e competitividade.

Na medida em que se ampliou o mundo das mercadorias, exacerbou-se o fetichismo social, contribuindo, deste modo, para o “derretimento” de referenciais cognitivos que permitissem apreender o nome da “coisa” que se constituía efetivamente nas últimas décadas: o capitalismo financeiro com seu “moinho satânico” capaz de negar as promessas civilizatórias construídas na fase de ascensão histórica do capital.

Não deixa de ser sintomático que jovens de classe média indignados com a “falsa democracia” e o aumento da precariedade laboral em países como Portugal e Espanha, tenham levantado bandeiras inócuas, vazias de sentido, no plano conceitual, para expressar sua aguda insatisfação com a ordem burguesa. Por exemplo, no dia 5 de junho de 2011, dia de importante eleição parlamentar em Portugal, a faixa na manifestação de jovens acampados diante da célebre catedral de Santa Cruz em Coimbra (Portugal), onde está enterrado o Rei Afonso Henriques, fundador de Portugal, dizia: “Não somos contra o Sistema. O Sistema é que é Contra Nós”. Neste dia, a Direita (PSD-CDS) derrotou o Partido Socialista e elegeu a maioria absoluta do Parlamento, numa eleição com quase 50% de abstenção e votos brancos. Enfim, órfãos da palavra radical, os jovens indignados não conseguem construir, no plano do imaginário político, uma resposta científica e radical, à avassaladora condição de proletariedade que os condena a uma vida vazia de sentido.

Na verdade, o que se coloca como tarefa essencial para a esquerda radical européia – e talvez no mundo em geral – é ir além do mero jogo eleitoral e resgatar a capacidade de formar sujeitos históricos coletivos e individuais capazes da “negação da negação” por meio da democratização radical da sociedade. Esta não é a primeira – e muito menos será a última – crise financeira do capitalismo europeu. Portanto, torna-se urgente construir uma “hegemonia cultural” capaz de impor obstáculos à “captura” da subjetividade de homens e mulheres pelo capital. Para que isso ocorra torna-se necessário que partidos, sindicatos e movimentos sociais comprometidos com o ideal socialista, inovem, isto é, invistam, mais do que nunca, em estratégias criativas e originais de formação da classe e redes de subjetivação de classe, capazes de elaborar – no plano do imaginário social – novos elementos de utopia social ou utopia socialista. Não é fácil. É um processo contra-hegemônico longo que envolve redes sociais, partidos, sindicatos e movimentos sociais. Antes de mais nada, é preciso resgatar (e re-significar) os velhos conceitos e categorias adequadas à critica do capital no século XXI. Enfim, lutar contra a cegueira ideológica e afirmar a lucidez crítica, entendendo a nova dinâmica do capitalismo global com suas crises financeiras.

Ora, cada crise financeira que se manifesta na temporalidade histórica do capitalismo global desde meados da década de 1970 cumpre uma função heurística: expor com intensidade candente a nova dinâmica instável e incerta do capitalismo histórico imerso em candentes contradições orgânicas.

Na verdade, nos últimos trinta anos (1980-2010), apesar da expansão e intensificação da exploração da força de trabalho e o crescimento inédito do capital acumulado, graças à crescente extração de mais-valia relativa, a produção de valor continua irremediavelmente aquém das necessidades de acumulação do sistema produtor de mercadorias. É o que explica a financeirização da riqueza capitalista e a busca voraz dos “lucros fictícios” que conduzem a formação persistente de “bolhas especulativas” e recorrentes crises financeiras.

Apesar do crescimento exacerbado do capital acumulado, surgem cada vez mais, menos possibilidades de investimento produtivo de valor que conduza a uma rentabilidade adequada às necessidades do capital em sua etapa planetária. Talvez a voracidade das políticas de privatização e a expansão da lógica mercantil na vida social sejam estratégias cruciais de abertura de novos campos de produção e realização do valor num cenário de crise estrutural de valorização do capital.

Ora, esta é a dimensão paradoxal da crise estrutural de valorização. Mesmo com a intensificação da precarização do trabalho em escala global nas últimas décadas, com o crescimento absoluto da taxa de exploração da força de trabalho, a massa exacerbada de capital-dinheiro acumulada pelo sistema de capital concentrado, não encontra um nível de valorização – produção e realização – adequado ao patamar histórico de desenvolvimento do capitalismo tardio.

Deste modo, podemos caracterizar a crise estrutural do capitalismo como sendo (1) crise de formação (produção/realização) de valor, onde a crise capitalista aparece, cada vez mais, como sendo crise de abundância exacerbada de riqueza abstrata. Entretanto, além de ser crise de formação (produção/realização) de valor, ela é (2) crise de (de)formação do sujeito histórico de classe. A crise de (de)formação do sujeito de classe é uma determinação tendencial do processo de precarização estrutural do trabalho que, nesse caso, aparece como precarização do homem que trabalha.

Ora, a precarização do trabalho não se resume a mera precarização social do trabalho ou precarização dos direitos sociais e direitos do trabalho de homens e mulheres proletários, mas implica também a precarização-do-homem-que-trabalha como ser humano-genérico. A manipulação – ou “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital – assume proporções inéditas, inclusive na corrosão político-organizativa dos intelectuais orgânicos da classe do proletariado. Com a disseminação intensa e ampliada de formas derivadas de valor na sociedade burguesa hipertardia, agudiza-se o fetichismo da mercadoria e as múltiplas formas de fetichismo social, que tendem a impregnar as relações humano-sociais, colocando obstáculos efetivos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado.

Deste modo, o capitalismo global como capitalismo manipulatório nas condições da vigência plena do fetichismo da mercadoria, expõe uma contradição crucial entre, por um lado, a universalização da condição de proletariedade e, por outro lado, a obstaculização efetiva – social, política e ideológica – da consciência de classe de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho.

Imerso em candentes contradições sociais, diante de uma dinâmica de acumulação de riqueza abstrata tão volátil, quanto incerta e insustentável, o capitalismo global explicita cada vez mais a sua incapacidade em realizar as promessas de bem-estar social e emprego decente para bilhões de homens e mulheres assalariados. Pelo contrário, diante da crise, o capital, em sua forma financeira e com sua personificação tecnoburocrática global (o FMI), como o deus Moloch, exige hoje sacrifícios perpétuos e irresgatáveis das gerações futuras.

Entretanto, ao invés de prenunciar a catástrofe final do capitalismo mundial, a crise estrutural do capital prenuncia, pelo contrário, uma nova dinâmica sócio-reprodutiva do sistema produtor de mercadorias baseado na produção critica de valor.

Apesar da crise estrutural, o sistema se expande, imerso em contradições candentes, conduzido hoje pelos pólos mais ativos e dinâmicos de acumulação de valor: os ditos “países emergentes”, como a China, Índia e Brasil, meras “fronteiras de expansão” da produção de valor à deriva. Enquanto o centro dinâmico capitalista – União Européia, EUA e Japão – “apodrece” com sua tara financeirizada (como atesta a crise financeira de 2008 que atingiu de modo voraz os EUA, Japão e União Européia), a periferia industrializada “emergente” alimenta a última esperança (ou ilusão) da acumulação de riqueza abstrata sob as condições de uma valorização problemática do capital em escala mundial (eis o segredo do milagre chinês).

Portanto, crise estrutural do capital não significa estagnação e colapso da economia capitalista mundial, mas sim, incapacidade do sistema produtor de mercadorias realizar suas promessas civilizatórias. Tornou-se lugar comum identificar crise com estagnação, mas, sob a ótica do capital, “crise” significa tão-somente riscos e oportunidades históricas para reestruturações sistêmicas visando a expansão alucinada da forma-valor. Ao mesmo tempo, “crise” significa riscos e oportunidades históricas para a formação da consciência de classe e, portanto, para a emergência da classe social de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho e estão imersos na condição de proletariedade. Como diria Marx, Hic Rhodus, hic salta!


* GIOVANNI ALVES é professor da UNESP, pesquisador do CNPq, atualmente fazendo pós-doutorado na Universidade de Coimbra/Portugal e autor do livro “Trabalho e Subjetividade – O “espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório” (Editora Boitempo, 2011). Site: http://www.giovannialves.org /e-mail: giovanni.alves@uol.com.br

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14 comentários sobre “A crise européia e o “moinho satânico” do capitalismo global

  1. Permito-me agregar dois ou tres comentários ao que já disse acima (dia 12/06/11), sobretudo em relação ao que afirmou nosso colega de Portugal Elisio Estanque (em 13/06).
    Antes porém uma digressão:
    Existem aqui reagindo dois tipos de comentaristas: aqueles que claramente concordam com o professor, e acham que ele fez uma brilhante análise do capitalismo, com base nos ensinamentos de Marx e Engels (que obviamente escreviam sobre o capitalismo do seculo 19, e nao se sabe bem em que e no que eles teriam algo a nos ensinar sobre uma crise financeira do seculo 21); existem também aqueles, como eu e o Elisio, que só descobrem banalidades vagas, frases vazias, discurso abstrato, total desconhecimento da realidade europeia e do capitalismo atual no texto do referido professor. De fato, se alguém apertar o texto para extrair algum “suco” concreto, não resta nada, absolutamente nada, pois nada se refere a processos reais e concretos, do capitalismo ou da esquerda europeia; sao apenas afirmações genéricas, principistas, subjetivas, impressionistas, abstratas, surrealistas e totalmente desfocadas dos problemas reais das sociedades, na Europa, nos EUA, no Brasil, na China em qualquer parte. Poderia ganhar um concurso de retorica marxista, mas não seria capaz de passar numa simples prova de algum liceu francês de província.
    Este é o estado a que foi reduzido “marquissismo” vulgar no Brasil: uma repetição infindável de frases, como naqueles jogos de substituição de palavras que se podem construir qualquer discurso, sobre qualquer tema, alterando a ordem dos substantivos e adjetivos, falando muito sem dizer absolutamente nada. Um mero jogo de palavras e de ilusionismo. Enfim, creio que não adianta falar nada disso pois o professor vai se zangar e acusar um complô neoliberal e reacionário contra suas posições revolucionárias. Tudo isso é esperado e deja vu…

    Quanto ao Elisio, ele parece acreditar que a responsabilidade pela crise atua é do capitalismo financeiro, no mesmo deja vu que se repete nesses discursos genericos da esquerda europeia, americana e sobretudo latino-americana.
    Creio que o Elisio deveria examinar os dados com cuidado e ver as responsabilidades governamentais em todo esse processo. Veja os níveis das taxas de juros fixadas pelo FED de 2001 a 2005, que contribuiram para construir a bolha imobiliaria que por sua vez construiu a bolha financeira. Veja as garantias hipotecarias dadas pelas agencias publicas americanas (Freddie Mae e Fannie Mac) para esses mesmos creditos hipotecarios, que sustentaram os derivativos financeiros classificados como triple A.
    Veja as manipulacoes contabeis feitas pelo governo grego, que esconderam suas contas e se refugiaram nas baixas taxas do euro (feitos para economias mais solidas como a alemã) para construir um buraco negro de deficit orcamentario e de divida pública. No proprio Portugal, foram os dirigentes (socialistas por sinal) que permitiram a acumulacao de deficits orcamentarios durante anos, achando que a Europa ou o mundo iriam financiar indefinidamente seus desequilibrios fiscais.
    Em uma palavra: NAO EXISTE CAPITALISMO FINANCEIRO QUE CONSIGA CONSTRUIR UMA CRISE SEM A AJUDA DOS GOVERNOS, EM SUAS POLITICAS MONETARIAS E FISCAIS.
    Acho que os que acusam abstratamente o “capitalismo financeiro” pela crise deveriam conferir os números e as políticas, primeiro, pois afinal de contas, como se diz na linguagem juridica, toda acusação merece provas.
    Só os marquissistas de opereta se permitem acusar sem provas…
    Paulo Roberto de Almeida

  2. O que não reflete nos trabalhos do Dr. Giovanni, em seu livro sobre o toyotismo vi importantes contribuições para a compreensão do modelo toyotista…

  3. O bom nesses textos ditos de “esquerda” é que são todos iguais, sempre os mesmos conceitos, sob um verniz de contemporaneidade.
    Quem leu um e conhece os conceitos básicos marxianos já leu todos.
    Apreende de maneira adequada a multiplicidade das relações sociais no momento histórico do século XIX.
    Surpreendente é o erário ser continuamente aplicado em doutorados e pós doutorados no exterior, em projetos nos quais já sabemos o resultado, pois as formações discursivas não se alteram…
    Parecem TCC’s de graduação, onde os alunos partem de um final cristalizado e apenas colhem fragmentos e conceitos aqui e acolá para referendar seu ponto de vista (para parcela expressiva da esquerda fazer pesquisa é isso).
    Depois não sabem o porquê da profissão, sobretudo no Brasil, não ser valorizada como deveria.

  4. Eta mundo intelectual difícil! Arre égua! Quantos discursos para o não dito ser falado! Fico estupefato quando leio a imaginação de outro ser humano como eu, o Professor Dr. Giovanni. Quanta crítica aguda dos fatos diários! Na minha forma de ver: A cobiça, a deusificação das coisas: ” O mercado” e todo os demais vagões seus atrelados, estão privando cada vez mais o homem, do Pao Nosso diário. Essa gestão não é antropocêntrica!

  5. Interessante o esforço do prof. Giovanni em tratar esta questão, que considero ser mesmo importante para todos nós e para nossas gerações futuras. Apenas lamento pela linguagem rebuscada de artigo que Giovanni resolveu utilizar neste texto, mais confundindo que esclarecendo o leitor. É fundamental nos lembrarmos que o assunto por si só já é complexo suficiente, sendo responsabilidade máxima do pensador contemporâneo assumir uma linguagem clara e simples, que passe a mensagem e desperte o interesse. Qualquer esforço em uma direção contrária a esta não serve a outro fim que não a famosa massagem no ego, sob a falsa impressão de erudição. Fora isto, parabenizo o professor pela bem-vinda reflexão.

  6. Uma vez eu abordei a forma como os intelectuais analisavam os filmes, e fiquei estupefato pelas palavras utilizadas, movimentos sociais relatados, críticas, conceitos, correntes filosóficas, sociológicas, movimentos reacionários, enfim, uma discussão extraordinária entre pessoas dotadas de conhecimento que abordavam um filme.
    Então, eu perguntei, se do alto da minha ignorãncia, eu não sabia asssisti-lo, pois jamais eu chegaria às conclusões que os pensadores definiam as várias interpretações sobre ele, portanto, sentar na cadeira e ver uma película não seria assim tão simples, mas algumas horas para elaborarmos conceitos altamente complexos e sofisticados tanto sobre a produção quanto à temática relacionada ao roteiro e sua mensagem explícita e, naturalmente, implícita também.
    Levei uma carraspana de um dos comentaristas.
    Possivelmente eu leve outra.
    Penso que o mais importante para todas as populações deste planeta não é o sistema econômico utilizado, se socialista, democrático, social-democrata, se influenciado por este ou aquele economista ou filósofo do passado, as causas das crises nos países, mas se ela vai ter um salário com poder de compra suficiente para se manter!
    Há pouco tempo atrás bradava-se por um salário mínimo no Brasil na ordem de cem dólares. Atualmente ele está no patamar de 330/340 dólares, e as dificuldades continuam as mesmas.
    Talvez o que esteja em jogo e não abordado seja a especulação, a inflação, e a quem elas interessam.
    Enfim, de nada adiantam essas discussões em níveis tão elevados e sofisticados, com demonstrações explícitas de inúmeras citações e pensamentos alheios, se o que realmente interessa é se teremos poder aquisitivo!
    E como manter uma moeda estabilizada, sem que ela sofra desvalorização ou fique à mercê do capital especulativo.
    Existe a receita para isso?

  7. 1. Esta abordagem de Giovanni Alves, para mim, é anacrónica e algo inócua. Embora concorde com parte da análise crítica que tece ao capitalismo global, e sobretudo ao capital financeiro e especulativo (que conduziu à actual crise), esse diagnóstico perde eficácia pelo excesso de retórica abstracta e a meu ver desnecessária para os pontos de vista que defende (perde credibilidade por isso). Muitas das análises da esquerda europeia (por exemplo as que têm sido realizadas pelo Bloco de Esquerda; procurar na net os discursos do Deputado Miguel Portas, por exemplo) apresentam desde há anos uma crítica igualmente radical do modelo económico (e político) dominante na Europa, sem precisarem de tanta verborreia, que, de resto, chega a roçar o pretensiosismo, quando critica não só o status quo europeu mas toda a intelectualidade “burguesa” (será GA o verdadeiro “proletário” ou o renascido intelectual orgânico do proletariado do século 21? Quem lhe passou a credencial?). O seu discurso está eivado de preconceitos que, em minha modesta opinião, pouco ou nada explicam sobre a Europa, a crise e os fenómenos sociopolíticos induzidos pelo capitalismo global em que vivemos. Conhecendo GA, fiquei surpreendido.

    2. Suponho que uma narrativa tão abstracta só pode ser produzida por alguém que conhece mal a realidade Europeia e parece pairar na estratosfera da ideologia protomarxista. Para mim, que sou português – e vivi de perto a Revolução democrática do 25 de Abril de 1974 – esta linguagem transporta-me aos “anos dourados” do radicalismo marxista-leninista (onde militei). A grande diferença é que, há 36 anos atrás, nós (a juventude da época), que fazíamos diagnósticos semelhantes sobre o “capitalismo satânico” e a “ordem burguesa”, ainda tínhamos, nos nossos idealismos ingénuos, algo a oferecer em alternativa a essa sociedade injusta e a esses proletários expoliados pelo capital ganancioso. Era uma alternativa ilusória, é certo, mas ainda assim era um discurso convicto que pretendia construir o socialismo e o “paraíso na terra”… Nós ocupávamos prédios devolutos e metíamos famílias pobres lá dentro; nós ocupávamos fábricas e criávamos cooperativas; nós animávamos movimentos de moradia que conseguiram “capturar” recursos públicos para construir casas decentes para os pobres… Embora com o pensamento ainda enleado nos entrelaces da táctica com a estratégia, da luta de massas com a vanguarda proletária, etc., ajudávamos pessoas concretas, carenciadas, a melhorar a sua vida. E hoje acredito que é neste ponto (muito simples) que todos os activistas de esquerda devem investir as suas energias…

    3. Giovanni Alves e outros intelectuais marxistas – assumidos ou não –fazem uma diabolização do capitalismo tão ou mais feroz do que nós fazíamos nessa época. Porém, nada têm para oferecer em alternativa aos proletários que tanto invocam. A sua crítica da “ordem burguesa” coincide, aliás, quase totalmente com o discurso do radicalismo trotsquista (e estalinista) que ainda grassa em alguns crepúsculos por esse mundo fora e que, acredito eu, o autor do texto rejeita tanto como eu. Provavelmente, mesmo os não-alienados podem deixar-se trair pelo subconsciente. E como dizia um conhecido chefe de Estado fascista português: em política, o que parece, é! Certamente GA concorda que, hoje, o dogmatismo trotsquista nada tem a oferecer e está completamente fora da realidade. É por isso que me custa a entender que o seu discurso faça coro com essas correntes. Terei de admitir que a sua subjectividade de membro da classe média – radicalizada no discurso – foi capturada pelo fetichismo das mercadorias (que acredito que ele aprecia e consome, sem no entanto se sentir a maior vitima dos demónios do capitalismo)?

    4. No meio da sua retórica esquerdista, há, no entanto, um ponto fulcral que merece discussão séria, e que me parece ser o principal logro onde tropeça o edifício argumentativo do autor. Espero que continuemos esta polémica noutro local, mas troná-la pública só pode ser enriquecedor. Por isso, assumo, mais uma vez, que discordo frontalmente com esse ponto: refere-se à suposta essência de uma “consciência de classe” que, porque se deixou “capturar” pelos moinhos satânicos do sistema, não se consegue manifestar como programa de acção política orientado para… (ele não o diz, eu sei, mas essa é a conclusão óbvia) a Revolução Socialista.
    E penso que GA devia dizê-lo, porque nisso até estamos de acordo. Ou seja, eu também quero o socialismo! Só que não acredito em nenhum sujeito salvador (colectivo ou individual) para o conseguir. Reconheço um papel decisivo aos movimentos sociais e estou convencido que serão eles e os cidadãos em geral que poderão obrigar as instituições, os partidos, as esquerdas (no plural) a construir alternativas para o futuro da Europa e do mundo… Considero desadequada a crítica à cidadania; e até a própria democracia (“burguesa”) deve ser defendida porque, na Europa, ela pode bem ser substituída por novos fascismos e fanatismos nacionalistas.

    5. Eu considero-me socialista e luto por uma sociedade diferente desta. Menos desigual, mais justa e mais solidária. Os povos e todos os oprimidos têm direito à emancipação. Mas há muito que deixei de acreditar que ela surja de repente ou por acção de um qualquer “hipersujeito histórico” que se assuma como a vanguarda consciente que um dia há-de brotar das profundezas da condição de proletariedade agrilhoada… E é esse esquema mental que está subjacente ao argumentário de Giovanni Alves. Mesmo que ele não consiga ou não queira admiti-lo! E mais: eu sou um dos intelectuais que dedicam textos ao estudo da classe média e da cidadania (e dos movimentos sociais). Será que isso me coloca no rol de pesquisadores da “classe média” intelectualizada europeia (socialista cor-de-rosa ou amarela?…), que esterilizaram a linguagem crítica…???

  8. Li o artigo com atencao, mas nao encontrei nada, repito NADA, que se referisse a crises concretas em paises da Europa, ou seja, dados sobre politicas economicas, indicadores estatisticos sobre como a crise se desenvolveu, seu impacto macroeconomico ou setorial, seus efeitos economicos reais, enfim, elementos conceituais ou substantivos que nos aproximassem de alguma explicação compreensivel sobre a natureza da crise, seu impacto efetivo nos paises em causa — cabe referir, com efeito, que as crises da Grecia, de Portugal e da Irlanda possuem causas diversas e se desenvolveram de modos muito diversos entre si — e sobre como o capitalismo europeu vai se desenvolver a partir de agora.
    O que eu li foi uma assemblagem de frases abstratas, invectivas contra o carater satanico do capitalismo, condenacoes principistas contra a esquerda europeia — socialistas e social-democratas — e obviamente contra a direita e os capitalistas, condenacoes em regra da economia de mercado, e um certo sentimento de desalento, pelo fato de que essa esquerda europeia nao seguiu as prescricoes de academicos como o autor para romper com a ordem capitalista-financeira guiada por FMI e BCE e aderir a prescricoes socialistas de um passado ultrapassado justamente.
    Nao há absolutamente nada a criticar na postura do autor, pois nao existe nenhum argumento concreto que se refira ao mundo real, apenas frases abstratas sobre uma construcao fantasmagorica que é a dele. Totalmente inocuo como analise da realidade europeua atual.
    Nao sei bem o que alunos desse professor poderia comentar, com base naquilo que eles leem nos jornais sobre esses paises em crise. Provalvemente são dois universos situados em galaxias distantes…
    —————————
    Paulo R. de Almeida
    pralmeida@me.com
    http://www.pralmeida.org
    diplomatizzando.blogspot.com

  9. O Brasil necessita de empenho humanitário na educação do seu povo…
    “Sem duvida, o professor como intelectual transformador deve estar comprometido com o seguinte: ensino como prática emancipadora; criação de escolas como esferas públicas democráticas, restauração de uma comunidade de valores progressistas compartilhados; e fomentação de um discurso público comum ligado aos imperativos democráticos de igualdade e justiça social”. O professor é um orientador e um catalisador, se colocando a serviço do aluno sem impor as suas idéias e sem transformar o aluno em objeto. (Professor Ozaí)

    Realmente Professor Giovanni Alves, Marx tinha uma visão otimista dos destinos da humanidade, acreditando ser possível que na batalha final, os operários venceriam os capitalistas por serem maioria na sociedade. Seres humanos cooperando entre si para fazer uso das forças da natureza e, portanto, para satisfazer suas necessidades. O produto do trabalho deve, antes de tudo, responder a algumas necessidades humanas. Deve, em outras palavras, ser útil. Marx chama-o valor de uso. Seu valor se assenta primeiro e principalmente em ser útil para alguém. Ex: Um livro é um valor de uso.
    Saudações,
    http://mudancaedivergencia.blogspot.com/2011/06/crise-europeia-e-o-moinho-satanico-do.html

  10. Caro colega:
    Parabéns pelo excelente texto. Aqueles que lhe criticam nesse fórum só vem a corroborar sua posição reflexiva. Estamos diante de uma crise complexa do capitalismo e as pessoas não conseguem, realmente, estabelecerem um posicionamento crítico e radical como aconteceu no final do século XIX, ai não podemos dizer que apontar os trabalhos de Marx e Engels que propuseram responder radicalmente às crises do capitalismo daquele momente histórico. Não quero aqui ser anacrônico, somente proponho estabelecer uma visão comparativa de momentos históricos, cronologicamente diferentes, mas como diria Braudel em uma mesma estrutura de longa duração.
    Estudar criticamente e radicalmente o capitalismo, mesmo navegando contra a corrente é função da universidade e não, talvez como queiram alguns, somente reproduzir “conteúdos”. Parabéns mais uma vez em denunciar e propor uma reflexão acerca da indústria cultural, atrelada ao capital financeiro. Como diria Paulo Freire, não à educação bancária.

  11. O professor Dr. Giovanni fez, com profundidade e conhecimento de causa, uma bela análise do sistema capitalista in totum. Ao ler o texto, reporto-me ao livro de Marx – Para a Questão Judaica, em que fica claro a radical diferença entre emancipação política e emancipação humana. Venho pensando muito em como fazer a emancipação humana, porque entra aí muitas questões, como subjetividade, ideologia, mercado, neoliberalismo, revolução, classe, classe revolucionária, etc. Penso, enfim, que Marx permanece atual e repleto de razões, pois a emancipação política, pode e vem fazendo, unir-se ao capital e reforçar os tentáculos da opressão. Penso também no professor Ivo Tonet, da UFAL, que sempre nas suas falas põe em destaque a emancipação humana. Mesmo que para realizá-la tenhamos que percorrer o caminho da emancipação política, sem significar qualquer permanência. Parabéns ao professor Giovanni. Aguardemos outras falas suas vindo da Europa.

  12. Grande Giovanni! Que lucidez! Deu para perceber, que existe muita gente que aderiu ao pensamento único e ao neoliberalismo. Esse pessoal não acredita que outro mundo é possível; não pensa dialeticamente, mas metafisicamente. Muito bom, precisamos de ter nesse país muitos pensadores com a clareza e a objetividade de
    Giovanni Alves, autor de uma vasta obra no âmbito da sociologia crítica.
    Prof. Dr José Soares

  13. Int, eressante que o autor é protagonista de seu próprio discurso kamikase.
    NADA DE EDIFICANTE APONTADO PARA QUE LIDERE ALGO QUE DIZ QUE FAZ FALTA.
    Usa termos que já nada fertilizam, propostas que já não empolgam nem suas matrizes européias.
    O fato é que a corrupção mais sofisticada compra quase tudo, e permite uma estagnação de mentes saturadas de suas palavras de ordem, assim de fato declarando sua capitulação por falta de leituras mais adequadas a novas hegemonias.
    Temos números de crescimento financeiro, índices de crescimento real diversos, logo há esgotamentos que ainda não aconteceram para permitir uma maturidade estrutural, que permita se ver com clareza um novo horizonte ideológico desenvolvimentista.
    Apesar disso há seguros sintomas de reações contra diversos poderes situados em abusos incompatíveis com os valores bem consensuados dos Direitos Humanos e da Democracia.
    Pessoalmente vejo numa retomada vigorosa da discussão de novas performances de cidades algo que vai eclodir em patamares importantes para o desabrochar de uma melhor consciência coletiva de organizações mais horizontalizadas, apontando para uma cultura robusta de conteúdos de planificação, o que tem como principal combustível a questão ecológica., ladeada pela não menos retumbante questão da erradicação da miséria.
    Não por acaso nossa gerenta em seu discurso de posse tocou nos dois valores, que seriam referëncias para o País do Fórum de Porto Alegre em seus contrapontos a Davos.
    SHALOM

  14. Colocar problemas causados por agentes em um sistema é muita besteira para um “doutor” escrever!
    Por isso a educação brasileira é uma porcaria.
    Só falta dizer que a solução é um sistema econômico socialista!

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