“João de Deus” e a reinvenção do Populismo Católico

por UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

Pelas regras da Igreja Católica, o processo de beatificação só poderia ser aberto cinco anos depois da morte da pessoa. Essa regra canônica pode ter sido dispensada pelo atual papa pelo fato de que Bento XVI foi seu colaborador mais próximo durante mais de 20 anos. Na igreja dos primeiros séculos o martírio representou o sinal de santidade da pessoa. Hoje, trata-se de um processo no âmbito do Direito Canônico, no qual é verificada a vida conforme as virtudes morais entendido como “grau heroico”, melhor dizendo, além do comum, e é necessário que a igreja reconheça o acontecimento de dois milagres (um para a beatificação e outro para a canonização) por intercessão do falecido.

Se o populismo (популизм), na expressão de V. Tvardovskaia (1972)no sentido simplificado do termo,pode ser entendido como um processo mediante o qual “o popular se torna conhecido” (cf. Weffort, 1968b), quando uma multidão de 400 mil pessoas reunidas na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante o funeral do Papa João Paulo II, em abril de 2005 gritava: “Santo Súbito!” temos assim, “sinais” (cf. Ginzburg, 1992: 158 e ss.) de que o papa reinventava o “populismo católico” para o mundo. Ipso facto esta expressão fará com que “João de Deus” – como é conhecido no Brasil –seja beatificado seis anos após a sua morte. Normalmente, como sabemos, a igreja leva cinco anos só para iniciar todo o processo. Além disso, temos um fato político-religioso novo: o processo se deu mais rápido, porque este era um desejo do povo, que queria que ele fosse canonizado já no dia de seu funeral. Com 27 anos de pontificado, “João de Deus” foi o terceiro papa a passar mais tempo no cargo, perdendo apenas para São Pedro (30 d.C. – 67 d. C.) e Pio XII (1846-1878).

Além disso, ele foi o primeiro papa a rezar em uma sinagoga, em Roma (Itália), o primeiro a entrar em uma mesquita em um país islâmico, em Damasco, na Síria, e o primeiro a presidir um encontro de líderes das maiores religiões mundial, no ano 1986. Não devemos perder de vista, que no ano de 1981, o extremista turco Melhmet Ali Ağca tentou matar o papa, atirando na Praça São Pedro. Nascido a 9 de janeiro numa famíliapobre da Turquia foi o terrorista que cometeu o atentado contra o Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981, quando este circulava “em carro aberto” pela Praça de São Pedro no Vaticano. Em segundo lugar João Paulo II será o primeiro pontífice em mil anos a ser beatificado pelo seu sucessor. O processo foi aberto em junho de 2005, por iniciativa do papa Bento XVI, a quem coube decidir pela aceleração da beatificação, sob alegativa de que “não pretendiam esperar os cinco anos de morte previstos no Código de Direito Canônico”. Pragmaticamente falando, em janeiro deste ano, o papa Bento XVI aprovou decreto atribuindo um milagre a seu antecessor, o que abriu a démarche para a beatificação. O milagre atribuído a Karol Wojtyla é a cura, aparentemente inexplicável, da freira francesa Marie Simon-Pierre, de 50 anos.

As respostas às práticas populares em “nome” de uma democracia foram sempre abafadas com sangue e terror psíquico pelo Estado Soviético como demonstra cabalmente Alexander Issaiévich Soljenítsin, no conhecido livro Умдиаметромпа-де-ВидаИван Deníssovitch (Um dia na vida de Ivan Deníssovitch), e todas essas práticas passavam como por despercebido a todo Mundo, devido à política de censura perversa e masoquista da mídia e de perseguição a jornalistas ou quaisquer um que se opusesse ao governo central – isto é o que se chamava sociologicamente “Cortina de Ferro”, derrubada com a política da Glasnost, de Mikhail Gorbachev, o então presidente soviético. Quando a notícia era inevitável e caía sob aclamação do público mundial, como ocorreu com o Sindicato Solidariedade, na Polônia Solidarność; nome completo: “União Comercial auto-governativa ´Solidariedade`”, melhor dizendo, Niezależny Samorządny Związek Zawodowy ´Solidarność` é “uma união federativa comercial fundada em setembro de 1980 nos Portos de Lenin, originalmente liderada por Lech Wałęsa”. Do ponto de vista histórico, vale lembrar, que ela fora a primeira união comercial não comunista em um país dito comunista e que KarolWojtyla tão bem a reconhecia e certamente apoiava.

O indivíduo, ator, identidade, grupo social, classe social, etnia, minoria, movimento social, partido político, corrente de opinião pública, poder estatal, todas estas “manifestações de vida” no sentido simmeliano do termo, não mais se esgotam no âmbito da sociedade nacional, o que nos faz admitir que a diferenciação em comunidades locais, tribos, clãs, grupos étnicos, nações e até mesmo Estados, perderam ao menos algo do seu significado anterior. Na sociedade global, de outra parte, generalizam-se as relações, os processos e as estruturas de dominação e apropriação, antagonismo e integração. Modificam-se os indivíduos, as coletividades, as instituições, as formas culturais, os significados das coisas, gentes e ideias, vistos em configurações histórico-sociais. Enfim, se as ciências sociais nascem e desenvolvem-se como forma de autoconsciência científica da realidade social, pode-se imaginar que elas podem ser seriamente desafiadas quando essa realidade já não é mais a mesma. Nesse sentido é que a formação da sociedade global pode envolver novos problemas epistemológicos, além de ontológicos.

Enfim, para concordarmos com Leonardo Boff (2000; 2007; 2009; 2010),

temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é a parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser compreendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige” (Boff, 2007; 2010).

Do ponto de vista teórico-metodológico Carlo Ginzburg tem um percurso de pesquisa dos mais originais e criativos, que extravasa o quadro dahistoriografia italiana (cf. Ginzburg, 1991: 169 e ss.) e mesmo da historiografia europeia. A sua obra, com efeito, introduziu diversas rupturas nas maneiras de pensar em História, mobilizou metodologias e instrumentos de conhecimento oriundos de outras áreas de saber, estabeleceu novas zonas de dialogo com as restantes ciências humanas e sociais, nomeadamente com a antropologia e a filosofia (cf. Ginzburg, 1991: 203 e ss.). Enfim, trata-se aqui de uma intervenção ativa, que procura inverter as relações tradicionais de subordinação da História no que diz respeito à produção dos meios de conhecimento, centrada numa forte preparação filológica, caracterizada pela atenção ao detalhe, ao estudo de caso, à analise do processo significativo, com a valorização dos fenômenos aparentemente marginais, como os ritos de fertilidade, ou dos casos obscuros, protagonizados pelos pequenos e excluídos, cuja verdadeira dimensão cultural e social vem sendo valorizada (cf. Ginzburg, 1988: 96 e ss.).

Outro aspecto relevante na vida política de João Paulo II é que ele foi louvado como grande liderança na arena politica internacional. Só ao Brasil, o pontífice realizou três visitas oficiais. A primeira, em 1980, foi a mais marcante. Com apenas dois anos de pontificado, João Paulo II desembarcou em Brasília no dia 30 de junho, onde se ajoelhou e beijou o chão. O gesto célebre, que ele repetia sempre que visitava um país pela primeira vez, virou a sua marca. Na ocasião de sua primeira viagem ao país, o papa percorreu treze cidades em apenas doze dias. O evento mais marcante de sua passagem foi a celebração de uma missa campal no maior estádio do mundo, o Maracanã, no Rio de Janeiro, no vigor de seus 58 anos para cerca de 160 mil fiéis presente, cantando o refrão da música tema de sua visita ao país. Foi nessa primeira visita que o papa veio a Fortaleza e durante a sua passagem ele celebrou uma missa para um Estádio Castelão que atraiu cerca de 120 mil pessoas contando ainda com a presença do Frei Aloisio Lorscheider.

Finalmente, conversar com alguém no “campo da contemplação” é utopia pois a  palavra etimologicamente foi cunhada a partir dos radicais gregos οὐ, e τόπος, portanto, o “não-lugar” ou “lugar que não existe”, posto que positivamente a palavra tanto no plano de análise teórica ou mesmo na esfera de análise ideológica suscita dúvidas e alimenta controvérsias. E desde já vamos apenas lembrar acerca do uso de determinadas palavras que tiveram, desde o princípio de sua origem, um sentido subjetivo. Uma delas é o dekeō (dokē, etc) que se refere a pensar, esperar, acreditar, ter em mente, sustentar uma opinião, relacionado com a doxa, opinião. Conceitos igualmente relacionados são dekomai – aceitar, esperar; dokimos – aceite, aprovado; e dokeuō – esperar, ver atentamente, estar de emboscada. Assim como, a palavra peithō, persuadir, com o significado de conquistar, de fazer as coisas parecerem plausíveis ou prováveis – subjetivamente prováveis, e como é óbvio, não existem quaisquer dúvidas acerca do significado fundamentalmente subjetivo destas palavras, que desempenham um importante papel na história da Filosofia desde os tempos mais remotos.

Em determinado momento de minha vida um “crítico” da universidade de São Paulo advertiu-me que o título de meu trabalho era enganoso. Não o levei a sério porque ele é jornalista. Estão fazendo doutorado ex nunc, mas continuam sendo jornalistas. Quando fazem crítica, deixam de serem jornalistas. Quando atuam como jornalistas, não fazem crítica. Nessa área de conhecimento, salvo honrosas exceções1, sobretudo fora do círculo da TV, por mais que queiram ou se esforcem com a disciplina do pensamento teórico e empírico, não exercem a crítica analítica com base no conhecimento científico estruturado em categorias e conceitos, mas inegavelmente detêm o domínio das “palavras e das coisas”, portanto, sobre o domínio e controle da informação, que em seu sentido alargado refere-se a elemento de conhecimento relativo a um sujeito “mais ou menos conhecido”,“plus ou moins connú” (cf. Fouquié & Saint-Jean, 1962).

Karl Marx e Friedrich Engels em Libertà di Stampa e Censura (cf. o original Presse freiheit und Zensur, 1969) percebem “estes que a liberdade de imprensa é um pré-requisito natural para a formação da opinião pública e, em seguida, um sistema democrático de relações (…). Estavam cientes deste fato ao longo da vida. A partir dos escritos iniciais de Marx, um jornalista político em 1842 para a carta de Friedrich Engels a Bebel de 1892, a defesa da liberdade de imprensa contra a censura e corre intromissão burocrática como um fio para todos os seus trabalhos” (Marx & Engels, 1970:21).

Vejamos alguns exemplos contemporâneos. Há pouco Carlo Ginzburg no livro Occhiacci dilegno – Nove riflessioni sulla distanza (1998, edição consultada, 2001) nos deu um bom exemplo – para o que nos interessa -, sobre a interpretação jornalística, nesse caso ocorrida em 1986 na Itália. O capítulo é intitulado “Um lapso do papa Wojtyla” e diz respeito à discussão sobre o pedido de perdão aos judeus pela Igreja católica assumida corajosamente quando o papa visitou uma sinagoga em Roma. A visita de João Paulo II havia sido anunciada; jornalistas do mundo inteiro esperavam no meio da multidão. O rabino-chefe, ElioToaff, e o presidente da comunidade judaica de Roma, Giacomo Saban, recordaram a perseguição a que os judeus haviam sido submetidos por gerações a fio, em particular os judeus romanos; recordaram igualmente as humilhações, as mortes, os lutos. As palavras do papa foram: “Caros amigos e irmãos, judeus e cristãos”. No Avvenire de 8 de outubro, Gian Franco Svidercoschi tachou de “leviandade e superficialidade” o que Ginzburg escreveu sobre tal expressão com que o papa Wojtyla se dirigiu aos judeus na visita à sinagoga.

Nas palavras do papa, afirma Ginzburg, eu via um eco, que me parecia e ainda me parece óbvio, do trecho da “epístola aos Romanos” (9: 12) em que Paulo aplica a judeus e gentios convertidos ao cristianismo a profecia do Gênesis (25: 23) sobre Esaú e Jacó: “O mais velho será servo do mais moço”. Se há um texto fundador do antijudaísmo cristão, é esse. Mas depois de analisar a possibilidade de ter sido uma alusão consciente – que, naquele lugar e naquela circunstância, teria tido um sabor inoportuno, Ginzburg observou que o conjunto do discurso do papa Wojtyla excluía tal possibilidade. Isto porque, para ele Svidercoschi descreve o lapso do papa Wojtyla como um “lapso freudiano”.

O texto a que Svidercoschi alude é símbolo político polonês, um credo político-religioso escrito por Mickiewicz em italiano e polonês, datado de Roma, 29 de março de 1848: “A toda Israel, nosso irmão mais velho da igualdade (…) de todos os direitos político-civis”. Evidentemente ele foi induzido ao erro pelo título do artigo publicado em Repubblica, “O lapso freudiano do papa Wojtyla”. A conclusão que Ginzburg chega é a seguinte: Mas quem, como Svidercoschi, é jornalista, deveria saber que os títulos são inseridos na redação. Se tivesse lido menos apressadamente meu artigo, Svidercoschi teria percebido que eu mencionava isso sim, o lapso inconsciente, mas recusava a interpretá-lo, como Freud teria feito, em termos de psicologia individual.

 

Bibliografia geral consultada:

AGOSTINHO, Santo, A Doutrina Cristã, São Paulo: Edições Paulinas, 1991; AQUINO, Tomás de, Summa Theologica. 2ª edição. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980-1981;BOFF, Leonardo, A Nova Era: A Consciência Planetária. Rio de Janeiro: Record, 2007; Idem, “Uma história épica: Irmãs negras”. In: Diário do Nordeste. Fortaleza, 23 de novembro de 2009; Idem, “A Sociedade Mundial da Cegueira”. In: Jornal O Povo, Fortaleza, 22.02.2010; GINZBURG, Carlo, “Um lapso do Papa Wojtyla”. In: Olhos de madeira. Nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Companhia das Letras, 2001; Idem, “O inquisidor como antropólogo: Uma analogia e suas implicações”. In: GINZBURG, Carlo “et alii”, A Micro-História e outros ensaios. Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1991; Idem, Miti, Emblemi, Spie – Morfologia e storia. Rorino: Einaudi Editore, 1992; MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, Libertá di Stampa e Censura.Bologna: Guaraldi Editore, 1970; TVARDOVSKAIA, Valentina Aleksandrovna,El Populismo Russo. México, Siglo XXI, 1972; BRAGA, Ubiracy de Souza, “O Modelo Wittgenstein de Verdade Apodítica. Linguagem Ideal ‘versus’ Linguagem Ordinária”. In: Revista Políticas Públicas e Sociedade. Fortaleza. Ano I. n˚ 1, março de 2003; Idem, “O Modelo Wittgenstein de Verdade Apodítica: Linguagem ideal “versus” linguagem ordinária?”. Ensaio disponível em: www.políticasuece.com.br; FOUQUIÉ, Paul & SAINT-JEAN, A., Dictionaire de la Langue Philosophique. Paris: PUF – Presses Universitaires de France, 1962; WEFFORT, Francisco C., Classes Populares e Política (Contribuição ao Estudo do ´Populismo`). Tese de Doutorado. F. F. L. C. H/ USP. São Paulo, 1968a; Idem, “El Populismo em la Política Brasileña”. In: Brasil Hoy. México: Siglo Veintiuno Editores, 1968b, entre outros.


* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências, DSc. junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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3 comentários sobre ““João de Deus” e a reinvenção do Populismo Católico

  1. Aprecio muito quando o senhor é o autor de textos que são expostos a comentários, em razão da sua gentileza em respondê-los, atitude elegante, educada e, inquestionavelmente, simpática.
    Afora a sua extraordinária cultura, professor, na verdade eu somente dou os meus palpites, claro, de forma responsável, de acordo com o que eu presenciei, li em livros e jornais e ouvi discussões a respeito.
    Portanto, concordo com a sua explicação sobre o “populismo católico”, a partir da expressão que “o popular se torna conhecido”, política adotada pelo Papa João paulo II.
    Uma pequena correção: não sou católico.
    Não pertenço a nenhuma religião conforme meu pensamento sobre elas, apesar de respeitá-las e entender que agem muitas vezes como um freio aos ímpetos humanos mais rebeldes.
    Muito obrigado pela sua consideração em se dirigir diretamente a mim, uma pessoa que pertence à plebe ignara, mas que não se acanha de participar deste democrático e salutar blog oferecido às pessoas que são interessadas a trocar idéias sobre assuntos interessantes, que nos envolvem no dia a dia, que balizam nossas condutas, que nos esclarecem a respeito de movimentos que sacudiram povos e nações em busca de meios de vida melhores para todos.
    Não tenho vergonha em declarar que espero ansioso pelos assuntos que serão colocados à discussão cada semana, pois eu quero muito aprender com os senhores, com os que comentam esses temas, e com as observações a respeito dessas manifestações pessoais.

  2. Prezado Francisco Bendl,
    Note bem o que V. Sa. afirma: “João paulo II foi o mais popular dos Papas existentes, se eu levar em conta meus 61 anos de idade e ter passado por seis Papas, que lideraram a Igreja nos seus momentos mais graves, considerando a II Guerra Mundial e a Guerra Fria que mudou o mundo completamente”. Imagine se V. Sa. não fosse católico! Como afirmo no artigo, se o populismo (популизм), na expressão de V. Tvardovskaia (1972) no sentido simplificado do termo, pode ser entendido como um processo mediante o qual “o popular se torna conhecido”, João Paulo II mas do que outros fundamenta o “populismo católico”. Salvo engano, a origem e o significado da palavra aparece pela primeira vez na história, na pena da Valentina Aleksandrovna Tvardovskaia, no livro “El Populismo Russo”. México, Siglo XXI, 1972. De todo modo, o “populismo Russo” foi um movimento complexo e controverso. Para compreendê-lo, precisamos analisar alguns aspectos da sociedade russa do século XIX, como fizera V. Tvardovskaia e V. Illich Lenin e bem, e como estes aspectos se relacionavam com o que estava acontecendo no mundo naquele período. Para ser breve, vale a pena passar os olhos em dois ensaios do Daniel Aarão Reis, “As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético”. São Paulo: UNESP, 2004, e, particularmente, “Lenin e as heranças do populismo”. Disponível em: http://www.historia.uff.br/nec/textos/text39.PDF.
    Os melhores cumprimentos
    Ubiracy de Souza Braga

  3. Permita-me, professor, eu pensar que existe uma contradição neste “populismo católico”, haja vista que, o Papa João Paulo II, foi um célebre conservador da Igreja Romana.
    Durante o seu papado ele foi duramente criticado pelos progressitas por justamente não atender aos apelos dos fiéis quanto ao abrandamento das regras impostas no tocante ao uso e camisinhas e a instituição do aborto. Sua pregação era radicalmente contra essas manifestações populares que pediam que a Igreja fosse ao encontro desses desejos.
    Que ele popularizou a imagem papal isso é indiscutível, pois foi quem mais chegou perto do público, quem mais viajou, e foi o Papa que se intrometeu diretamente na política, pelo menos àquela que se referia ao leste europeu.
    João Paulo II permitiu que o mito e a autoridade espiritual do papado fosse tocada pelos fiéis, ao demonstrar que era uma pessoa como as demais, apesar de o seu fardo ser extremamente pesado para ser conduzido por um homem somente.
    Enfrentou graves crises internas no sacerdócio, desde a pedofilia até a reivindicação da queda do celibato; a diminuição de voluntários aos seminários e o crescimento das doutrinas neopentescostais; foi decisivo na queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética.
    O atentado que foi vítima na sua praça, mostrou um homem sujeito ao desatino de algumas organizações e mentes insatisfeitas com a forma como regia mais de um bilhão de fiéis!
    Não se pode negar por ninguém que seja responsável, que foi um dos maiores nomes da história em todos os tempos, e um dos principais do século XX.
    Admito que ele tenha impulsionado a Igreja, paradoxalmente ao seu conservadorismo que, em tese, deveria afugentar seus seguidores, mas não foi isso que aconteceu.
    Se ele popularizou a Igreja pelo seu modo de chefiá-la, a meu ver não surgiu um “populismo católico” como o senhor sugere, mas uma dimensão maior do significado e importância que ó maior líder espiritual do mundo traz consigo, em razão da sua maneira conservadora e autêntica de reger esta fé. Neste pormenor – o conservadorismo – que eu entendo não se enquadrar o “populismo” que o senhor comenta, pois a Igreja não foi secularizada, ao contrário, mostrou-se mais arraigada às suas tradições, à sua ortodoxia.
    João paulo II foi o mais popular dos Papas existentes, se eu levar em conta meus 61 anos de idade e ter passado por seis Papas, que lideraram a Igreja nos seus momentos mais graves, considerando a II Guerra Mundial e a Guerra Fria que mudou o mundo completamente. Antes do polonês, o Papa mais popular tinha sido João XXIII. O gordo e bonachão italiano escreveu uma das mais importantes encíclicas, a Pacem in Terris, mas, mesmo assim, a sua popularidade nem de longe atingiu os índices de João paulo II.
    Que a Igreja precisa se atualizar é indiscutível; que precisa caminhar ao lado dos fiéis e de seus anseios é inegável; que precisa se reorganizar internamente é visível; que precisa modificar seu sistema que fecha as portas à transparência é inquestionável, porém, nenhuma organização, nenhum império que já tenha existido foi mais duradouro que tem sido a Igreja Católica Apostólica Romana, milenar na sua solidez e crença aos seus dogmas por ela mesma estabelecidos.
    Respeitosamente eu não concordo com este “populismo católico”, mas aceitaria que houve a popularização do Papa, graças ao trabalho e pontificado excepcionais de João paulo II.
    A título de informação, não sou católico, judeu, muçulmano, budista, espiritualista, evangélico, anglicano ou qualquer outra religião ou filosofia religiosa existente, apesar de acreditar em Deus.
    As religiões não conseguem apaziguar o espírito humano, então são fracas, inconsistentes, falsas, que mais perturbam a mente do que conseguem satisfazê-la com suas diretrizes; mais distanciam o homem de Deus do que aproximam; mais separam o ser humano de si mesmo do que transformá-lo em um ser consistente, forte, destemido, e sem medo da existência de vida fora deste mundo material ou não.
    Acuso as religiões como responsáveis diretas pela infelicidade humana, portanto, vejo-me na condição de afirmar que sou um admirador deste Papa polonês, que tentou valorizar a humanidade a partir do momento que desmistificou a sua função, a sua pretensa santidade.

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