NOTAS DE LEITURA – “Casamento, amor e sexo à moda da casa da vovó”

por REGINA M. A. MACHADO*

O artigo “Casamento, amor e sexo – leituras foucaultianas” levaram-me a revisitar minhas notas de leitura sobre o tratamento dado a esse tema por escritores brasileiros numa época de grandes transformações e interrogações, como foi a do final do império brasileiro, já durante a década de 1870.

Quem faz uma viravolta ideológica e estilística nesses anos, que são os últimos de sua vida, é José de Alencar, cujos questionamentos políticos, por mais importantes que sejam, não cabem aqui, mas cuja obra vai mudar radicalmente o enfoque temático e o tratamento dado a seus assuntos.

… preocupações maiores de Alencar com problemas econômicos de sua época: o dinheiro fácil da especulação, o dote na instituição matrimonial e, por extensão, o casamento de conveniência. Anteriormente, fora sobretudo n’O crédito, peça de 1857, de pouca repercussão, que aflorara a questão propriamente financeira. Ela reaparece nas críticas aos comerciantes de Sonhos d’Ouro para culminar no último perfil.[1]

Abandonando os vastos panoramas épicos e poéticos fundadores da nacionalidade, ele se concentra, por um lado, nas características regionais (os pampas ou o sertão), econômicas (o café no sudeste) ou nas dificuldades encontradas pelos “homens livres na ordem escravocrata” (Maria Sylvia de Carvalho Franco), ou seja na “sociedade do favor” (Roberto Schwarz) em que alianças valiam muito mais do que qualquer competência. E a aliança mais sólida é a que se põe no dedo de uma noiva e rica herdeira. [2]

Nos romances e nas peças de teatro da época, o mais das vezes o herói é um jovem bacharel sem fortuna, que, em Senhora, resolve seus problemas financeiros vendendo-se a uma proposta ultrajante, mas que na realidade… Bom, aí começa o enredo e é melhor ler o romance. Alguém já reparou que “enredo” e “enredeira” são palavras de mesma raiz?

Como o livro todo gira em torno de um único assunto, vamos logo a uma visão de conjunto, através dos títulos das partes, um programa completo por si só: Primeira parte : “O preço”; Segunda: “Quitação; Terceira: “Posse”; Quarta: “Resgate”. Talvez para se assegurar que o leitor tenha captado a mensagem, Alencar acrescenta ao final do romance uma carta de uma leitora chamada Elisa do Vale (não é atoa que ele foi um assíduo leitor de Balzac), que traz este comentário depreciativo dos modelos reais do personagem: Seixas é uma fotografia, eu conheço vinte originais dessa cópia.

No O tronco do ipê, Alencar mostra o percurso inverso, ou seja, os perigos que ameaçam um jovem herdeiro que não segue o modelo preconizado pelas regras da sociedade escravagista. Um protagonista designado porém desavisado, filho de um rico comendador, derroga das tradições familiares ao se casar com uma moça pobre e, falha imperdoável, deixa-se surpreender pela narração com uma enxada na mao. Ora, a enxada, como qualquer um sabia, até o capanga Jão Fera, em Til, rebaixa o homem livre ao nível do escravo. Era a enxada para ele um instrumento vil : o machado e a fouce ainda concebia que os pudesse empunhar a mão do homem livre ; mas em seu próprio serviço, para abater o esteio da choça ou abrir caminho através da floresta.

O que o caipira, elemento realista do romance, não ignora, o pobre herdeiro e personagem romântico não sabe. Com isso, terá de ser excluído da intriga romanesca em contexto de época, em respeito às mais elementares regras de verossimilhança. A função de hérói passa pois às mãos do filho, herdeiro legítimo mas reduzido à situação de agregado, até se casar com a filha do espoliador de seu pai, recuperando assim sua posição social e litérária pelas artes da ficção que, escrevendo por linhas tortas (realistas), repõe o herói no lugar que lhe cabe (romanticamente).

A situação é claramente explicitada em Diva:

— Á exceção do comércio, a senhora sabe que não há no Brasil carreira alguma pela qual se possa chegar depressa… e honestamente, à riqueza. A minha, mal dá para viver com decência. Portanto sendo eu honesto… porque tenho medo da polícia, e não gosto que me incomodem… sendo eu honesto, repito, só havia um recurso à minha ambição… Adivinha qual?

— Suspeito; mas diga sempre.

— O do casamento.

— É um recurso lícito e fácil.

Já a peça de teatro O crédito (1857) joga com as aparências sociais:

– E o que é a vida senão um jogo? […] O casamento é um jogo em que o homem aposta a sua liberdade contra um dote; o amor é um jogo em que o homem aposta seu tempo contra algumas horas de prazer. Em O que é o casamento? (1861), encontramos este diálogo desencantado que aproveita para ironizar a “questão religiosa” que já fervia nas discussões da corte:  – O casamento, Alves, é o que foi entre nós há algum tempo a maçonaria, de que se contavam horrores, e que no fundo não passava de uma sociedade inocente, que oferecia boas palestras, boa ceias.

No O tronco do ipê, aparece também, em oposição ao personagem idílico (Bakhtin) do herdeiro da família decadente, o aventureiro sem escrúpulos e futuro barão do império:

Ele tinha notícia de todas as filhas de opulentos fazendeiros que havia nos municípios do Sul; e esperando que uma circunstância feliz preparasse a realização do sonho dourado, de sua parte não perdia ocasião de adorar o ídolo “moça rica”, sob qualquer forma que se revelava a seus olhos.

Loura, castanha ou morena; rosada, alva ou pálida; alta, baixa ou mediana; bonita, feia ou simpática; espirituosa, parva ou apenas ignorante, não se dava ao trabalho de escolher. Rendia culto a qualquer dessas encarnações do dote.

Em O Garatuja, obra que é um puro prazer de escrita que se permite um escritor bem rodado, além de crítico lúcido de seu tempo – e do nosso -, Alencar cria um artista de rua que tem de renunciar à sua arte para poder casar com a filha do tabelião. As condições dessa outra “venda” são explicitadas no contrato de casamento, numa paródia de auto notarial das mais saborosas:

– E pela 1ª outorgante foi dito que de sua mui livre e espontânea vontade, sem a menor coação, e com o consentimento de seu pai e mãe, promete casar-se com o 2º outorgante na forma do Sagrado Concilio Tridentino, levando-lhe em dote o direito de sucessão deste oficio de tabelião e a quinta parte do que render o contado, em vida do atual serventuário, pai dela outorgante. Mas declara que é isto sob a condição de nunca mais trabalhar o dito 2º outorgante como artífice de pincel, ou cousa que se pareça, deixando para todo o sempre o baixo mister da pintura, e ocupando-se tão-somente do serviço do cartório, o que há de firmar sob juramento, e não o cumprindo, ficarão de nenhum efeito estes esponsais.

Esta concessão degradante vai tirar ao artista apaixonado o gosto da conquista, pelo menos num rápido momento de fugaz denúncia da redução institucional do amor e do sexo, tanto quanto era possível fazer sem pesar a mão[3]:

Concluída a cerimônia, voltou-se o tabelião para os dois noivos:

– Agora podem-se beijar, na conformidade da lei.

Mas esse beijo ob veniam paternam e como sanção do contrato esponsalício, era desenxabido e não tinha o sainete daquele…


* REGINA M. A. MACHADO é Doutora em Literatura brasileira pela Sorbonne Nouvelle/Paris3, com tese sobre “Ficção e café no vale do Paraíba” defendida em 2007. É pesquisadora associada ao CREPAL e suas leituras e artigos têm se orientado para o estudo da ficção de José de Alencar. Atualmente anima oficinas de francês (ASL – ateliers socio-linguistiques) em Bonneuil-sur-Marne, onde mora.

[1] Maria Cecília Queiroz de Moraes PINTO, Alencar e a França – Perfis. Sao Paulo, Annablume, 1999, p 157. O “último perfil” é, evidentemente, o romance Senhora.

[2] O tema do casamento está bem analisado em pelo menos dois artigos encontrados na internet: “O CASAMENTO EM PEÇAS TEATRAIS BRASILEIRAS DO SÉCULO XIX”, por Elisa Maria Verona: http://www.facef.br/novo/publicacoes/IIforum/Textos%20EP/Elisa%20Maria%20Verona.pdf

E também: ALÉM DO CASAMENTO: A REPRESENTAÇÃO FEMININA NA FICÇÃO CAMILIANA E MACEDIANA, por Luciene Marie Pavanelo – http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1277410491_ARQUIVO_LucieneMariePavanelo-Alemdocasamento.pdf

[3] Em linguagem regional e bem mais expressiva, diz-se « carcá a mão”. Infelizmente, ainda não nos é possível legitimar as formas cultas e arcaicas da linguagem caipira.

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2 comentários sobre “NOTAS DE LEITURA – “Casamento, amor e sexo à moda da casa da vovó”

  1. Cara Regina M.A. Machado:
    Seu texto me fez lembrar uma expressão de um casal que rompeu com os vínculos matrimoniais, porém cotinuam vivendo na mesma casa: “… o casamento falhou, mas a empresa deu certo…”.
    Acredito que tal situação ocorra devido ao cáculo de perdas e ganhos, posição social e bom senso do (ex)casal.

  2. Prezada Regina M.A. Machado:
    Alencar reveste os elementos da natureza de um simbolismo através do qual conta o “ser” brasileiro e a sua relação com a terra, a história e a memória. Analisamse, por isso, as imagens comparativas e metafóricas relacionadas com a natureza e o seu ritmo que servem para caracterizar as personagens de Iracema a lenda que faz parte da memória do grupo-nação; a ideia do passado como conjunto de feitos e tradições constituintes do Brasil; a reconstrução do passado como reflexão interventiva.

    Para o Alencar, o romancista é também o único a poder compreender que a história tem muitas verdades escondidas e é feita, a maior parte das vezes, de aparências, do que os homens querem que se saiba no presente e permaneça para o futuro, uma espécie de processo de ficcionalização mascarada da história presente pensando nos juízos da história futuro; o autor demonstra que para além da história oficial, existe a história das maquinações dos homens e dos acasos, dos quais raramente se dá conta ou se conhece. E justamente a faceta que a história dos nossos dias, por seu lado, pretende readquirir.
    A história do Brasil não é somente a história dos grandes eventos…
    Leia prezadaRegina: http://mudancaedivergencia.blogspot.com/2010/07/campos-de-concentracao-no-nordeste.html

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