“O socialismo é uma doutrina triunfante” – Entrevista com Antonio Candido

por JOANA TAVARES*

Antonio Candido - Foto de Fábio Carvalho

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

Brasil de Fato – O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Antonio Candido – Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Brasil de Fato – Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Antonio Candido – Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

Brasil de Fato – O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Antonio Candido – Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

Brasil de Fato – É o que senhor mais gosta?

Antonio Candido – Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

Brasil de Fato – E de qual o senhor mais gosta?

Antonio Candido – Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Brasil de Fato – Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

Antonio Candido – É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

Brasil de Fato – O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Antonio Candido – Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

Brasil de Fato – O senhor acha que vai?

Antonio Candido – Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

Brasil de Fato – E-mail?

Antonio Candido – Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

Brasil de Fato – E o que o senhor lê hoje em dia?

Antonio Candido – Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

Brasil de Fato – O senhor é socialista?

Antonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Brasil de Fato – Por quê?

Antonio Candido – Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

Brasil de Fato – O socialismo como luta dos trabalhadores?

Antonio Candido – O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Brasil de Fato – Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Antonio Candido – Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

Brasil de Fato – O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

Antonio Candido – O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

Brasil de Fato – A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Antonio Candido – Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

Brasil de Fato – E o dever da atual geração?

Antonio Candido – Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

Brasil de Fato – No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Antonio Candido – Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.


* Fonte: Fundação Lauro Campo, disponível em http://socialismo.org.br/portal/filosofia/154-entrevista/2147-qo-socialismo-e-uma-doutrina-triunfanteq. [Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.]

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12 comentários sobre ““O socialismo é uma doutrina triunfante” – Entrevista com Antonio Candido

  1. Não tinha visto os 11 comentários. Só vi e li agora. Achei difícil comentar a entrevista e fiz várias tentativas. Mas a cada texto viajava muito e arranjava mais pesquisas a fazer do um comentário à entrevista.

    Comecei tentando isto:

    “(…) O mercado é uma esfera pública da sociedade civil, o local de encontro, articulação e associação das diferentes atividades privadas por meio da troca de mercadorias, não é isso?! Supomos que esta seja uma boa definição e que, devido a ela, seja constituída (…)”

    Depois tentei isto:

    “(…) Como se sabe a cultura romana foi em grande parte discípula da cultura grega, mas de um modo curioso, os senhores romanos tinham filósofos gregos como escravos, então, tais senhores romanos aprendiam com os escravos gregos a filosofia, então, os senhores romanos foram discípulos filosóficos dos escravos gregos que eram seus mestres filósofos. Estes mestres em filosofia grega que eram escravos dos seus discípulos romanos que eram seus senhores podem ser comparados na atualidade aos microcomputadores domésticos que “sabem” muito mais que seus donos. Por outro lado, talvez, de algum modo, tais escravos-mestres gregos tenham influenciado seus senhores-discípulos romanos a desenvolver mais especificamente o direito e a filosofia do direito e não mais a filosofia em geral, visando, com a expansão do direito, o fim da escravidão ou da ausência de direito. Talvez, também, por isso, as chamadas filosofias da consciência humana de si como ficaram conhecidas as filosofias gregas pós-aristotélicas do epicurismo, estoicismo e ceticismo, as quais, por sua vez, se tornaram as filosofias romanas por excelência (…) Uma filosofia da consciência humana de si trata em pé de igualdade o senhor e o escravo, o mestre e o discípulo, porque concebe que a consciência não é do senhor nem do escravo, não é do senhor-discípulo nem do escravo-mestre, mas sim de cada um deles que é tido por fonte de “sofia”/de saber desde que desenvolva sua consciência de si humana, sua consciência de fonte humana. (…)”

    Também tentei isto:

    “(…) Graças à cultura o escravo grego do senhor romano se inseria com grande influência no mundo romano. Mas o senhor romano também teve o escravo judeu. A cultura judaica também já era da escrita como a cultura grega, mas a teologia era o centro da cultura escrita judaica enquanto que a filosofia era a centralidade da cultura escrita grega. Os escravos judeus e gregos se identificaram na situação de escravos de modo que a cultura grega perdurou em maior grau na parte oriental do Império Romano, por isso se diz que os invasores árabes, que conviveram muito mais com a Igreja Ortodoxa Grega do que com a Igreja Católica Apostólica Romana, trouxeram de volta como Renascimento a cultura grega e, em especial, as obras e a filosofia de Aristóteles. No entanto, antes disto, foi preciso que surgisse o Cristianismo, ali no Oriente, e a partir da cultura escrita judaica em contato com a cultura escrita grega. Na cultura escrita judaica, a palavra e/ou o verbo vem de Deus, da divindade e é a forma do espírito divino se encarnar e deixar claro e marcado quem é a fonte da consciência de si, ou seja, aquilo que se destaca é que esta fonte é teológica e não filosófica, é a sabedoria de Deus e não a sabedoria do Si Próprio Humano. O reino de Cristo não é deste mundo. Este caráter utópico da mensagem de Cristo do reino de Deus se encontra com a mensagem de Marx do reino da liberdade que suprime o reino da necessidade deste mundo. As forças humanas de trabalho que aparecem no movimento de Jesus Cristo também são as de trabalhadores livres tais quais as do movimento proletário de Karl Marx. As forças humanas de trabalho do movimento de Jesus Cristo visam encarnar o espírito santo divino presente na mensagem da cultura bíblica de Cristo, a qual era difundida predominantemente pela cultura oral, posto que Pedro, a pedra da Igreja, não sabia ler nem escrever. As forças humanas do movimento de Karl Marx visam se apropriar dos meios de produção presentes na mensagem do processo de produção da cultura social humana, a qual era difundida principalmente pela cultura da luta que visa a apropriação dos meios de produção social humanos/da humanidade social. (…)”

    Ainda tentei isto:

    “(…) Grande entrevista. Mas, esta doutrina do socialismo triunfante foi classificada de revisionista não por apenas se limitar a defender a reforma e não mais a revolução, mas sim porque reviu a doutrina do socialismo passando a defender a doutrina do liberalismo como sendo a do socialismo, logo, a doutrina triunfante do socialismo é igualmente a doutrina triunfante do liberalismo, da democracia e/ou dos direitos humanos. Desse modo, a doutrina do socialismo triunfante é a doutrina do liberalismo, da democracia e dos direitos humanos triunfantes quando defendida pelos trabalhadores e não mais exclusivamente pelos capitalistas, logo, a doutrina triunfante do socialismo é a doutrina do capitalismo que se tornou hegemônica e ideologia dominante no movimento e nas lutas dos trabalhadores. Ela, a tal da doutrina do socialismo triunfante, como se sabe desde muito tempo, é a doutrina da socialdemocracia e da Internacional Socialista (a Internacional Socialdemocrata), a qual, com a queda e dissolução da URSS se tornou hegemônica nos países independentes e pós-descolonização generalizada, bem como foi assumida oficialmente pela China. Ela é inseparável da libertação ou emancipação política do Estado-Nação”

    Só depois de tentativas com tantas viagens é que cheguei nisto:

    Entrevista excelente para nos situarmos na atualidade do “socialismo como doutrina totalmente triunfante no mundo”. A concepção que Antonio Cândido nos passa é a da luta de classes, ou seja, é só graças à luta de classes que o mundo no qual vivemos é humano, porque são as lutas dentro da sociedade civil que nos humanizam ao nos socializarem. Esta luta socialista se tornou inteiramente triunfante no mundo com o fim da Guerra do Vietnam e a descolonização generalizada por todo o mundo, de modo que a luta socialista globalizou a emancipação política dos Estados-Nações ou a libertação nacional e afirmação de países independentes por todo o planeta. Em alguns lugares, como na África do Sul, esta emancipação política do Estado-Nação foi uma libertação do racismo e da exclusão da população negra nativa do Apartheid exercido por membros da população branca de origem europeia que impuseram o racismo e a exclusão dos nativos dos direitos de cidadania política. Mas, de todo modo, por toda parte, esta libertação foi uma afirmação dos direitos humanos do cidadão do Estado-Nação independente. Na maior parte foi o Estado-Nação assumido como triunfo do socialismo de modo que se tornava responsável, em especial, pelo combate à discriminação de classes, por meio de uma distribuição a mais equitativa possível da riqueza. O socialismo é doutrina totalmente triunfante no mundo do ideário democrático e liberal dos direitos humanos e do cidadão, quer dizer, é doutrina totalmente triunfante do ideário do capitalismo no mundo.

    Antonio Cândido nos lembra que foram os trabalhadores que lutando contra o chicote do contramestre conseguiram abolir o chicote e reduzir sistematicamente a jornada de trabalho primeiro para 12, depois para 10 e, finalmente, para 8 horas de trabalho; também foram eles que conseguiram as férias, a licença-maternidade, para ter escola pública para as crianças etc. Por isso, ele nos diz que foram as lutas dos trabalhadores que humanizaram o capitalismo ao arrancar deles direitos dos trabalhadores. Ele ressalta inclusive uma deformação do capitalismo de produzir bens descartáveis apenas para permanecer tendo lucro. O curioso é que precisamente esta deformação é parte constituinte da característica revolucionária básica do capitalismo destacada por Marx como sendo a da revolução incessante dos instrumentos de trabalho ou meios de produção. Antonio Cândido se refere aos carros descartáveis introduzidos por Ford no mercado para permanecer produzindo e vendendo carros e lucrando com isto. Marx se refere de forma geral à incessante revolução nos meios de produção feita pelo capitalismo.

    Aqui aparece o xis do problema. Ora, foi precisamente esta característica revolucionária do capitalismo que possibilitou que as lutas das classes trabalhadoras fossem triunfantes por toda parte. Porque a grande indústria inovou no sistema de exploração do trabalho livre assalariado na medida que já não precisava, por ser prejudicial e não ser lucrativo, empregar a força humana de trabalho durante um tempo de trabalho extenso duma jornada de trabalho extensiva. Pelo contrário, era muito mais lucrativo e benéfico para a grande indústria empregar a força humana de trabalho durante um tempo intenso duma jornada intensiva de trabalho. Ela vencia seus concorrentes da manufatura e das pequenas e médias indústrias através da inclusão de trabalhadores melhor pagos, com tempo livre disponível para conhecer e consumir mais e melhor no mercado, tornando os trabalhadores seus clientes mais amplos e sistemáticos de mercadorias em geral e não tão só seus fornecedores de força humana de trabalho e consumidores estritos e sistemáticos de mercadorias específicas de reprodução ou sobrevivência das suas forças humanas de trabalho; finalmente, ela vencia seus concorrentes impondo um novo patamar a partir do qual poder ser empresário capitalista, uma vez que a livre exploração da jornada de trabalho se tornava inviável e o capitalista tinha de começar empregando trabalhadores numa jornada regulada e delimitada de trabalho, logo, precisava começar dispondo de capital ou de empréstimo bancário, mas de empréstimo bancário para adquirir a maquinaria da grande indústria, portanto, precisava de capital bancário emprestado para adquirir capital industrial, por isso, sua vitória sobre os concorrentes era igualmente a vitória duma fusão do capital bancário com o capital industrial e, por aí, se constituía na vitória do que veio a ser chamado de monopólio do capital financeiro.

    O Estado-Nação aparecia como a grande perspectiva de emancipação do movimento dos trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, era a passagem do capitalismo liberal de Sociedade Civil capitalista, que explora livre e extensamente as forças humanas dos trabalhadores, para o capitalismo monopolista de Estado, que explora limitada e intensamente as forças humanas dos trabalhadores. Pois esta perspectiva do capitalismo monopolista de Estado foi desenvolvida pelo movimento dos trabalhadores como a da iminência da emancipação dos trabalhadores do capitalismo e iminência da implantação e desenvolvimento do socialismo. De um lado, surgiu o Estado do Bem-Estar Social e, de outro lado, foi edificado o Estado Socialista Num Só País ou Nacional. Ambos diziam ser perspectiva e caminho socialistas. Mas, o primeiro quase que se espalha por todos os países capitalistas e o segundo quase que se restringe apenas aos países da URSS e/ou que a tem por modelo.

    No caso do Estado do Bem-Estar Social, o monopólio do capitalismo de Estado ainda é exercido por diferentes grupos capitalistas presentes na Sociedade Civil e no Estado, mas, no caso do Estado Socialista Num Só País ou do Comunismo Real Nacional, o monopólio é exercido quase que exclusivamente pelos grupos capitalistas do Estado, já que a Sociedade Civil se encontra subsumida no Estado-Nação Socialista.

    A revolução incessante dos meios de produção que reduziu a jornada de trabalho e trouxe à tona a luta e conquista dos trabalhadores de inúmeros direitos humanos sociais, trabalhistas, civis etc., trouxe mais novidades e sempre na mesma direção geral de reduzir a exploração de tempo necessário à produção de algo. A partir de determinado momento começou a se tornar claro que os novos meios de produção industriais não precisavam empregar grandes massas de trabalhadores e que podiam reduzir o emprego das massas trabalhadoras na produção industrial a um mínimo. Porém, é só a partir de 79 que esta predominância do emprego de um mínimo de trabalhadores na indústria se torna uma política mundial capitalista efetiva sob a forma de retorno do capitalismo liberal, melhor, do capitalismo neoliberal, quer dizer, daquele que emprega a força humana de trabalho a seu bel-prazer, só que, agora, por dispor dum meio de produção altamente produtivo que desemprega a força humana de trabalho. O capitalista voltou a ter um meio de produção que explora extensamente a força humana de trabalho, mas, agora, de modo inverso, porque antes os capitalistas impunham jornadas extensas a massas trabalhadoras e concorriam uns com os outros pelo grau de exploração extensiva do tempo de trabalho que conseguiam impor às massas trabalhadoras; porém, agora, os capitalistas impõem jornadas extensas a poucos trabalhadores e concorrem uns com os outros pelo grau de exploração intensiva do tempo de trabalho que conseguem impor a estes poucos grupos de trabalhadores. Por outro lado, eles empregam de forma massiva os trabalhadores na esfera do mercado e/ou das vendas da produção, fazendo das massas de forças humanas massas de vendedores de mercadorias informais, quer dizer, que não pagam impostos e são exploradas de forma inteiramente liberal ou com extensas jornadas de trabalho de vendas. Ou seja, o neoliberalismo tende a trazer de volta a livre exploração da época liberal e a reduzir significativamente, a ponto inclusive de inviabilizar o capitalismo monopolista de Estado do Bem-Estar Social e, em particular, de Estado Socialista Num Só País, a exploração “limitada” da época do capitalismo monopolista de Estado.

    Com a revolução incessante dos meios de produção a automação se articulou ao que veio a ser chamado de informática de modo que o capitalismo monopolista de Estado passou a se articular com o que podemos chamar de neocapitalismo monopolista de Sociedade Civil de um modo consistente e crescente. O maior grau de automação levou à redução do emprego de força humana de trabalho pelos meios de produção no processo de produção e, desse modo, todos os direitos sociais e trabalhistas, conquistados com a expansão e consolidação do capitalismo monopolista de Estado, que se difundiu como Estado do Bem-Estar Social, se tornaram obstáculos e, até mesmo, prejuízos para o desenvolvimento do neocapitalismo de Sociedade Civil. Porém, como a automação favorecia o desenvolvimento do neocapitalismo monopolista de Sociedade Civil, então não foi difícil canalizar as insatisfações e mesmo o mal-estar da juventude e dos movimentos civis com a burocratização do Estado do Bem-Estar Social e/ou do capitalismo monopolista de Estado, até porque tais insatisfações e o mal-estar da juventude e dos movimentos civis eram reais. Então, as lutas dos jovens e dos movimentos civis por satisfações e bem-estar para além do quadro burocrático do capitalismo monopolista de Estado se articularam com a economia informal dos jovens rebeldes e seus movimentos de contracultura dos quais o mais famoso foi o movimento hippie, mas, com isso, se articularam também com a produção cultural, em especial, com a produção musical e com a moda. E, ambas, se articularam com as lutas dos movimentos civis dos negros contra o racismo, das mulheres contra o machismo, dos gays e de todos contra a exclusão social; de modo que os movimentos culturais criaram modas que fortaleceram os movimentos civis, mas, ao mesmo tempo, fortaleceram as chamadas livre-iniciativas da Sociedade Civil e, em especial, a livre-iniciativa do capitalismo monopolista de Sociedade Civil, ou seja, a automação e a informática perceberam que tinham nestes movimentos não só aliados como também agentes para a sua expansão capitalista monopolista de Sociedade Civil. Todo o setor informático e automático se diferencia culturalmente do capitalismo monopolista de Estado. De um modo geral, suas vestimentas são informais como as dos jovens bem como são informais e de Sociedade Civil suas empresas e sua produção, ainda que, sem dúvida, todas as grandes empresas de informática compartilhem informações e espionagens com o formal Estado, o qual, por sua vez, sob influência deste informal/livre/liberal/libertário capitalismo monopolista de Sociedade Civil se tornou mais enxuto, mais ágil, menos burocrático etc.

    Com a ascensão do neocapitalismo monopolista de Sociedade Civil vimos uma decadência e queda do capitalismo monopolista de Estado de modo que, de repente, toda uma economia que antes era considerada organização criminosa e combatida pelo Estado como contrabando, mercado negro, sonegação fiscal etc. vir a ser chamada de mercado paralelo, câmbio paralelo, mercado informal etc., para, em seguida, ser exaltada oficialmente como novo modelo de desenvolvimento do capitalismo, o modelo neoliberal que recupera o capitalismo liberal de Sociedade Civil. Só que agora é basicamente a sociedade organizada em rede informacional que faz parte oficial dos movimentos de capitais em tempo real, das redes bancárias de pagamento e consumo de mercadorias, bem como são as forças humanas de trabalho nos setores de comércio e de serviços informais que vendem produtos industriais e se apoiam nos meios de produção do neocapitalismo monopolista de Sociedade Civil (computadores, celulares etc.) aquelas que são massivas na economia, enquanto que aquelas forças humanas de trabalho no setor industrial e rural se tornam cada vez mais reduzidas e quase que aristocráticas em algumas regiões do sistema econômico, ainda que em outras, como, por exemplo, a China e o Vietnam sejam claramente uma reedição da revolução industrial inglesa, tanto pelo emprego de grandes massas de trabalhadores quanto pela poluição e outras insalubridades que difundem massivamente. O neocapitalismo monopolista de Sociedade Civil, ao contrário do capitalismo monopolista de Estado que se baseia nas fábricas e quer a participação de grandes massas nas fábricas, se baseia nas ruas e nas casas e quer a participação de grandes massas nas ruas e nas casas ou mais exata e precisamente no mercado e não na produção.

    As doutrinas das lutas de classes, do liberalismo, da democracia e dos direitos humanos são doutrinas do capitalismo e não do socialismo, pelo menos, assim o dizia Marx. Mas ele não dizia isto por ser contra estas doutrinas, ao contrário, ele se apoiava nelas e as incentivava para chegar à prática da sua doutrina socialista, a qual, aliás, para ele, não era uma doutrina e sim um movimento social e, neste sentido, ele confirma a perspectiva de Antonio Cândido, com a diferença que ele não acha que o socialismo é uma doutrina triunfante, mas que pode sim vir a ser um movimento real triunfante. Mas, ele caracteriza este movimento real socialista como sendo o da socialização dos meios de produção, logo, não a fusão de capitais nem a hegemonia de meio de produção sob monopólio capitalista de qualquer tipo, quer dizer, de proprietários individuais ou de proprietários coletivos. O caráter deste movimento real socialista de socialização dos meios de produção só pode ser a dissolução do monopólio capitalista sob suas diferentes formas, quer dizer, a dissolução do monopólio dos proprietários individuais e dos proprietários coletivos dos meios de produção capitalistas. Ele defendia que a socialização dos meios de produção dissolve todos os monopólios e constitui a propriedade comum de toda a sociedade dos meios de produção sociais. Por isso, ao que tudo indica, dizia que não bastava tomar o poder da máquina do Estado para a colocar a serviço do proletariado e era preciso destruir por completo a máquina de poder do Estado.

  2. Utopia socialista;;será muito dificil implantar nesta era,pois todo mundo quer viver explorando uns aos outros;;;isso só vai acontecer quando o ser humano tiver o conhecimento do amor entre irmãos,,,estes socialimo que existe por ai ainda é facil de levar;;; mas quando chegar a ideia de amor cristão e ter um sociedade como a dos apostolos, ai sim será um socialismo;;;;portanto ainda ninguen quer esse tipo de socialismo;;;;;;pois nós gostamos de explorar o proximo,isso é por causa da nossa educaçao capitalista;;mas as igrejas são responsavel a educar os povos a terem amor no proximo;;;se elas deixarem os blablabla ,e pregar o amor cristão ai sim elas entrarão no projeto de Deus;;; cristo disse ao jovem rico venda tudo e de aos pobres;;;isso é impossivel para os homens, mas é possivel pra Deus.Porisso que é responsabilidade das igrejas converter os povos ao amor, em nome de Deus;;;;;;;;;;;

  3. Dedé Rodrigues,
    O que você acaba de fazer é uma expressão de fé, uma demonstração beata de que você acredita em algo, subjetivamente, mas não consegue oferecer argumentos racionais e demonstrações empíricas — ou seja, baseadas em fatos reais, não em afirmações gratuitas — de que o socialismo funcionou ou funcionará um dia.
    O que você diz não faz sentido. O professor AC está correto em quê, exatamente?
    Ora, se o socialismo não funcionou na finada URSS por causa da introdução de elementos capitalistas, o que isso quer dizer?: que os próprios socialistas, ou comunistas soviéticos, estavam com “saudades” do capitalismo e resolveram introduzir, subrepticiamente, elementos capitalistas num sistema socialista perfeito e totalmente funcional?; ou porque o capitalismo é naturalmente e intrinsecamente superior a um modo de produção inventado, totalmente disfuncional, como o socialismo?
    Você poderia pelo menos elaborar a respeito, em lugar de descambar para crenças ingênuas.
    Se o mercado não tivesse essa “força extraordinária” que você reconhece que ele tem, então o socialismo daria certo? Surpreende-me esse tipo de pensamento, pois o mercado existe em QUALQUER sistema, não apenas nos capitalistas.
    Não adianta acusar os que recusam a “racionalidade superior” do socialismo de ingenuidade, ignorância ou má-fé, pois isto é apenas uma demonstração de arrogância, pois o mesmo poderia ser dito, contrario sensu, dos que creditam ao socialismo virtudes inatas que só ele tem, sendo que o capitalismo teria, supostamente, todas as perversidades que você alinha.
    Enfim, não se pode impedir as pessoas de serem ingênuas, idílicas ou irracionais. Só se espera de acadêmicos que saibam argumentar com base na lógica e nas demonstrações que podem ser de alguma forma comprovadas com os dados de realidade.
    Se o socialismo fosse essa maravilha que você e o AC proclamam, os países que pretenderam construir um novo sistema sobre a base de seus princípios seriam, hoje, potências mundiais, não a miséria que foram, implodidos por sua própria ineficência produtiva.
    Acho que você deveria ler ou se informar melhor…
    Paulo Roberto de Almeida

  4. No geral, o professor Antonio Cândido está correto. Só quero acrescentar que o socialismo não
    deu certo na Ex-URSS justamente pela reintrodução do capitalismo sob as suas multifacéticas variantes. Concordo plenamente quanto a sua opinião sobre Cuba. Penso que a nova teoria do socialismo deve levar em conta a força extraordinária que o mercado ainda tem, sobretudo, nas pequenas e médias iniciativas empreendedoras. Tudo nesta vida muda, esta lei da dialética não tem como ser constestada, mas esperar a solução dos nossos problemas: aquecimento global, vilolência, miséria, guerras e exclusão social nas suas variadas formas pelo sistema capitalista, predatório e irracional atual é no mínimo muita ingenuidade, ignorância ou má fé daqueles que nestes comentários fizeram críticas ao professor Antônio e negaram a viabilidade do socialismo como solução para os nosso problemas contemporâneos.

  5. Carol,
    Voce pode ler a Gesamtwerke de Marx und Engels, na edição da Verlag, ou seja a obra completa, ou então as Obras Escolhidas em três volumes. Eu tenho essa em francês, depois de ter doado a minha coleção completa da Gesamtwerke e das Oeuvres Complete de Lénine, na edição da Progrés, de Moscou, ao Moniz Bandeira.
    Mas tenho certeza de que você encontrará dezenas de edições de Marx, Engels e outros em Portugues.
    Leia por exemplo a Introdução à Economia Política (1859), ou o 18 Brumário, ou As Lutas de Classe em França, ou melhor ainda, a Critica ao programa de Gotha, e depois compare com as declarações do Antonio Candido.
    Acho que você vai encontrar algumas pequenas diferenças.
    Em todo caso, tenho a impressão que a questão central não é bem essa.
    Você precisaria apenas dizer se concorda, ou não, com o AC em que o “socialismo é uma doutrina triunfante”.
    Gostaria de ler alguns argumentos probatórios dessa afirmação.
    A menos que você ache, claro, que o AC não precisa fundamentar suas afirmações.
    Paulo Roberto de Almeida
    pralmeida@me.com
    http://www.pralmeida.org
    diplomatizzando.blogspot.com

  6. Agradeço ao Romário pela opinião e a menção ao fato de ter lido meu artigo, que constituía, numa versão inicial, não uma resposta a Antonio Cândido — e suas colocações absolutamente primárias e francamente ignorantes sobre o socialismo — mas um desafio, ou uma provocação a outros tantos professores que ficam repetindo slogans soi-disant marxistas e que nada mais constituem do que um arremedo de trabalho de copista (daí meu artigo anterior, sobre o “modo repetitivo de produção”) e uma contrafação do marxismo verdadeiro.
    Mas essas frases do AC são uma triste realidade, saudadas como geniais por toda uma comunidade acadêmica, que se encanta com o simples fato dele dizer que “o socialismo é uma ideia triunfante”, o que chega a causar estupefação pela ingenuidade, ignorância ou simples desonestidade intelectual. Mas, deixemos AC com suas divagações surrealistas, que não deveriam causar orgulho em nenhum defensor da causa socialista, pois ele revela uma vaguidão de ideias que beira a irrelevância. Se vários, nesta lista, na REA ou na academia encontram suas afirmações geniais, isso é apenas mais uma confirmação de como recuamos no debate de ideias.
    Quanto aos demais que insistem no credo, deve ser por fé religiosa, pois as afirmações pró-socialistas e anticapitalistas, tipicas de intelectuais de academia, ou universitários despreparados, apenas revela pobreza de argumentos e adesão a slogans ultrapassados.
    Enfim, alguns escolhem fazer pesquisa e apoiar-e em evidências empíricas, ou na simples lógica formal, para produzir trabalho acadêmico; outros preferem ficar de papagaios de pirata de algumas frases de Marx.
    Em todo caso, muito revelador da miseria da nossa academia atualmente.
    Paulo Roberto de Almeida

  7. Li o artigo de Paulo Roberto de Almeida no número atual da REA. Considero que respondeu merecidamente essa entrevista. Senti falta de uma argumentação – no artigo – no sentido de resgatar a importância – ou não – do movimento das idéias. Em outras palavras, da importância do que ele chama de “contruções mentais, propostas ideológicas, projetos de engenharia social”. Parece-me que as utopias são importantes, e delas podem decorrer efeitos socio-políticos consideráveis. Para tentar exemplificar, cito o caso do sebastianismo, que já tomou conta das massas aqui no Brasil e resultou em mudanças, fossem aquelas almejadas pela construção mental ou não.

  8. Com todo respeito por Antônio Cândido (um homem de seu tempo).
    Li sua entrevista do fim para o começo.
    E quando disse: …”Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social” só fui entendê-lo, no início da entrevista ao dizer: -“Isso!(e-mail?) Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual” (um homem que parou no tempo)

  9. É sempre prazeroso ler Antônio Cândido. Dá azo à imaginação, imaginação criativa. Quando, assim, mencionou a Fiesp e Paulo Maluf que dizem que a miséria é intolerável, permitiu que complementássemos: a miséria neles . Eles suportam bem a miséria moral : a deles. A do pobre, parece-lhes mais dolorosa e mais inofensiva, se permanecida quieta nos que não tem. Não há transitividade entre os que tem e que não usam, para aqueles que não tem e fruem. Usofruto são gestos incompatíveis cindindo a palavra. Não há transitividade do começo ao fim dela, a palavra e os gestos pretendidos. Não é possível usar e fruir na propriedade sem posse, a do capitalista. Que possui é a ambição do lucro, gozo menor que o gozo puro, a jouissance. Vê-se também, às escondidas, o preconceito de nosso Cândido quando ele cita profissões e parentesco: prostituta,barbeiro, chófer de táxis e assim por diante. São profissões socialmente menores e aptas para o preconceito. Mas prostituta, não seria este uso do corpo feminino o mais inerente ao desejo humano? Qual mulher, refutando o status, não almeja um gozo prostituto? No ‘brejo das almas’, só aí se encontra o ‘lucro’ socialista. È preciso coragem, que Henry Ford, que conservadores, quecapitalista covardes não conseguem por não poderem possuir.
    É preciso ‘deixar acabar’ para possuir no gozo. No mais-gozar, único virtuso vício possível ao comum dos homens. Humano, demasiadamente humano…

  10. Para quem se proclama socialista, Antonio Candido revela uma compreensão muito precária da teoria marxista, um entendimento totalmente equivocado do que representam as economias capitalistas (mesmo num sentido marxista) e denota uma ingenuidade incompreensível (para qualquer padrão de informação mediana) sobre as economias socialistas (que desapareceram em sua vasta maioria). Seu elogio a Cuba, quando a ilha se vê obrigada a abandonar seu esquema socialista absolutamente irracional e ineficiente, chega a ser patético.
    Entendo que marxistas e socialistas, presentes em grande número na academia brasileira, vão se deitar em elogios ao “velho militante socialista”, o que me faz duvidar da coerência analítica e da adequação à realidade de muitas das análises pretensamente marxistas que circulam alegremente no ambiente universitario brasileiro.
    Procurei apontar algumas dessas inconsistências e contradições em meu artigo que sai publicado na REA do mês de agosto de 2011.
    Paulo Roberto de Almeida

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