Leandro Lehart . Ensaio de Escola de Samba . Independente . 2011

por LUIZ PATTOLI*

“Modernizar o passado é uma evolução musical”. Foi assim que Chico Science abriu os trabalhos no seu disco de estreia, Da Lama Ao Caos. Dezessete anos depois e com 2.672 km de distância, o paulistano Leandro Lehart leva adiante a ideia de revirar o passado. E foi no baú do carnaval de São Paulo que ele encontrou joias da passarela do samba.

Para quem não se lembra, Leandro Lehart é o nome por trás do Art Popular, grupo de samba que fez grande sucesso nos anos 90. Fora do grupo desde 2005, Lehart tem se dedicado ao trabalho de produtor, arranjador, compositor e tocado sua carreira solo. Para seu novo trabalho, “Ensaio de Escola de Samba”, foram selecionados 150 sambas-enredo de escolas da capital paulista. Nem 10% deles foram parar no disco. Das 17 faixas do CD e do DVD, 13 são músicas gravadas por agremiações de São Paulo. As outras quatro são versões de músicas compostas por Lehart quando integrava o grupo Art Popular e de outros compositores.

Diferente do que muitos imaginam, o samba de São Paulo e, em especial, as escolas de samba locais, estão repletas de clássicos. Porém, a cidade nunca soube capitalizar isso a seu favor, ao contrário do Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, os sambas-enredo foram perdendo espaço na mídia, inclusive no período que antecede o carnaval. Antigamente era muito comum as rádios e as TVs tocarem os sambas para as pessoas irem aprendendo e se acostumando com o que seria apresentado no desfile. Com essa diminuição do espaço midiático, só ouve samba-enredo quem vive o dia a dia das escolas de samba ou tem muito interesse no carnaval.

A fim de apresentar para as novas gerações e de fazer um registro digno dessas composições muitas vezes esquecidas, Lehart pesquisou tanto em grandes como em pequenas escolas. O resultado é surpreendente. E arrepia. Se hoje boa parte dos enredos é patrocinada e tem que fazer alusão ao produto da empresa que está bancando o enredo, o que se ouve no disco são sambas livres, que contam uma história sem a preocupação de ser vendável. A própria poesia/letra iam além da relação óbvia com o enredo como tem se escutado atualmente. Preste atenção nos refrões, em muitos deles é praticamente impossível saber qual o enredo cantado naquele ano. E, sim, isso é um diferencial positivo em relação aos sambas atuais.

A seleção de faixas também privilegia os temas afros, algo que não é mais tão comum no carnaval de São Paulo. O samba paulista também surgiu como uma manifestação do povo negro, e sempre foi natural que assuntos raciais fossem abordados nas letras de sambas-enredo. Sabendo que o carnaval é uma festa popular com grande atenção da opinião-pública, era a chance de colocar em pauta assuntos como o racismo e discriminação e também de louvar a cultura negra.

Outro destaque do ‘Ensaio de Escola de Samba’ é que nem todas as gravações foram campeãs de carnaval. Dos 13 sambas-enredo gravados, apenas cinco ajudaram as suas respectivas escolas a serem campeãs. O que nos leva a deduzir, corretamente, de que samba bom nem sempre é campeão. Vide o exemplo da faixa que abre o disco, “Do Iorubá ao Reino de Oyó”, um dos sambas mais bonitos da história do carnaval paulistano e que ficou em 10° lugar na avenida com a Cabeções de Vila Prudente em 1980.

Para ficar entre os sambas mais bonitos de todos os tempos, vale pular até a faixa 11 para escutar a obra-prima do Colorado do Brás de 1988: “Quilombo Catopes do Milho Verde (De Escravo a Rei)”. De todas, foi a faixa que mais se distanciou da versão original – além do compasso mais rápido, foi introduzido um solo de guitarra baiana. A Gaviões da Fiel foi representada com “A Saliva do Santo e O Veneno Da Serpente”, um enredo sobre a história do fumo, vice-campeão em 1994. No ano seguinte a escola seria campeã com o eterno “me dê a mão, me abraça /viaja comigo pro céu”.

Eliana de Lima, umas das raras mulheres puxadoras de samba-enredo, teve dois sambas imortalizados em sua voz regravados, o “Água Cristalina” do Peruche, e “Poeira, Poeira (Babalotim)” da Leandro de Itaquera. O Peruche, juntamente com a Vai Vai, é a única escola a ter duas músicas no disco. “Os Sete Tronos dos Divinos Orixás”, de 1989, marca a estreia do carnavalesco Joãozinho Trinta em terras paulistas e deu ao Peruche o vice-campeonato.

Da tradicional escola do Bixiga, entram dois enredos que ajudaram a escola a ser recordista de títulos: “Amado Jorge, A Historia de Uma Raça Brasileira” (1988) e “Orun-Aye – O Eterno Amanhecer” (1982). Da tradicionalíssima Nenê de Vila Matilde, Lehart regravou “Meu Gosto Abraçado à Ilusão”, de 1983.

Do mesmo bairro de Leandro Lehart, Parada Inglesa, a X-9 Paulistana contou em 1997 a história “Amazônia, a Dama do Universo” e sagrou-se campeã. Outros dois sambas incluídos no CD também levaram campeonato, o de 1992 da Rosas de Ouro – “Non Ducor Duco, Qual é A Minha Cara” – e o de 1980 da Mocidade Alegre – “Embaixada de Sonho É Bamba” – que deu o primeiro título à Embaixada do Samba, apelido da escola.

Algumas escolas, como a Camisa Verde, poderiam ter um disco inteiro dedicado somente aos sambas já imortalizados. Mas com a inglória tarefa de ter que escolher apenas um, Leandro optou por um enredo criado por um dos maiores compositores de todos os tempos, Talismã. “Negros Maravilhosos Mútuo Mundo Kitoko” trazia para debate, em 1982, o racismo.

As outras quatro faixas do disco ficaram sobrando e poderiam ter entrado somente no DVD ou num outro projeto. Porém, o trabalho de resgate e atualização dos sambas-enredo se sobrepõe e tornam o disco uma peça fundamental para os amantes e curiosos do samba, uma homenagem a todas essas músicas que permanecem vivas dentro das escolas e que agora ganham, por uma segunda vez, o mundo exterior.

O disco está disponível para download no site www.leandrolehart.com.br.


* LUIS PATTOLI é Jornalista, pai de família, folião do Camisa Verde e Branco e  torcedor do Juventus.

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Um comentário sobre “Leandro Lehart . Ensaio de Escola de Samba . Independente . 2011

  1. Pessoal, boa noite! Muito interessante o trabalho multifacetado Leandro Lehart, o aspecto positivo desse trabalho é a história sendo contada por esses atores de uma maneira positiva. As idéias do nosso artista Chico Science é valida desde que relativizada ou seja no nosso berço sonoro tudo é possível.
    Neste sentido, quando nos envolvemos e ouvimos, mexemos no nosso berço sonoro, transformamos em maravilhosas canções que nos remete a várias possibilidades de sentimentos e reflexões, hora sobre a nossa realidade sofridas dos brasileiros, mulheres, homens e crianças negras sem vozes desrespeitados nos seus direitos de cidadãos, como oportunidades com equidade nas diversas áreas, na educação, saúde, lazer, no mercado de trabalho, na mídia, e na política é fato que estamos avançando gradativamente temos é que ser persistente neste projeto, erradicar com todas as formas de intolerâncias que sofremos ainda.
    E dar visibilidade a essas produções de períodos históricos que antecede o nosso momento histórico atual é imprescindível e relevante o trabalho do Produtor Cultural Leandro L., parabéns pela matéria.

    Edvaldo da Costa Alves – Historiador, Pós -graduado em Gestão Cultural, Gestão de Patrimônio pela UNILESTE – MG, Arte Educador e Músico – Percussionista. Cidade de Ipatinga – Região Metropolitana do Vale do Aço.

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