Na mira do inimigo

por FÁBIO VIANA RIBEIRO*

O que esperar de um filme com a imagem de dois soldados, no melhor estilo Steven Seagal, e com o título “Na mira do inimigo”? Possivelmente o mesmo daquilo que já foi feito no duvidoso gênero que consagrou, além do próprio Steven Seagal, atores como Chuck Norris, Jean Claude van Damme, Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e outros. Acrescente-se a esses infelizes detalhes, o fato de se tratar de um filme francês, de um diretor desconhecido.

Pois essa é a versão em DVD de um filme absolutamente perturbador, cujo título original, “L’ ennemi intime”, também não parece suficiente para efeito de esclarecer o assunto do qual se trata. Num tempo em que a quantidade de informações disponíveis parece em muito ultrapassar a capacidade de absorção dessas informações, não surpreende que poucos tenham ouvido falar ou visto este filme, lançado em 2007.

“Na mira do inimigo” trata da pouco conhecida Guerra da Argélia (particularmente “pouco” se a comparação for feita com a cinematograficamente ultra conhecida Guerra do Vietnã). Da mesma forma que a consciência de um indivíduo costuma não permitir dúvidas que colocariam sua própria maneira de ver o mundo e de existir em risco, é possível especular sobre a possibilidade de, também algumas culturas possuírem grande dificuldade em avaliar seu próprio passado. Descer a uma profundidade tão assustadora na descrição da Guerra da Argélia parece só ter sido possível por conta dos 45 anos passados desde o fim do conflito. Tanto quanto os próprios franceses, não me parece existir motivos para quem quer que seja orgulhar-se ou justificar os acontecimentos do período, seja da perspectiva dos militares franceses ou dos membros da Frente de Libertação Nacional.

Sem qualquer exagero, o filme (aparentemente sem o pretender) consegue ir muito além do mais que incensado “Apocalypse now”, tanto em termos de impacto emocional quanto no sentido de mostrar “a guerra e aquilo que a guerra faz aos homens”. Talvez, exatamente por não existir em “Na mira do inimigo” a busca obsessiva de “Apocalypse now” pela grandiloquência. Neste último, tal esforço teve como resultado conduzir sua apreciação para a esfera do estético (e nesse sentido, “Apocalypse now” é, de fato, um filme fabuloso). Destituído desse propósito, “Na mira do inimigo” deixa a sensação de uma incômoda proximidade com os acontecimentos. Não obstante se tratar de um conflito pouco conhecido, de um filme francês, etc.

Entre outras peculiaridades, as causas do conflito (que se estendeu de1954 a1962) não se encontravam originalmente relacionadas a um projeto de independência. Ainda que tanto a Tunísia quanto o Marrocos já fossem independentes, a questão central era o estabelecimento de igualdade de direitos para os argelinos, particularmente os muçulmanos. Ao contrário de outras de suas colônias, a Argélia mantinha vínculos muito próximos com a França: eram regiões muito próximas, haviam muitos franceses em território argelino e muito forte era a influência cultural francesa. Entre outros atores do conflito, árabes argelinos, franceses argelinos, militares franceses contrários à independência concedida, paradoxalmente, após a vitória militar dos franceses. Se é verdadeira a afirmação de que poucas guerras e conflitos são lineares, a Guerra da Argélia parece tê-lo sido ainda menos.

À estratégia utilizada pela FLN (Frente de Libertação Nacional), que, consciente da impossibilidade de vencer militarmente o conflito, decide forçar o envolvimento da população civil por meio do terrorismo urbano, os franceses acrescentaram um espantoso nível de violência à guerra – incluindo aí o uso quase que institucionalizado da tortura. E que encontrou entre a população civil, como desde o início do século XX passou a ocorrer, a maior parte de suas vítimas. Sintomática e curiosamente, apenas dez anos após o fim do conflito a população francesa tomou conhecimento sobre os pormenores do que havia acontecido; sendo que apenas em 1999 o governo francês reconhece oficialmente a guerra.

Um dos aspectos mais significativos do filme talvez seja o de mostrar simultaneamente tanto a irracionalidade e a loucura da guerra quanto, com efeitos igualmente destrutivos, a implacável racionalidade que enreda todos os envolvidos. Estes, tanto a população civil quanto o exército francês e os guerrilheiros da FLN, são mostrados dentro da impossibilidade de qualquer outra opção que não fosse a de se adaptarem à lógica de destruição do outro. Que no caso – daí talvez o título original – mais que em outros conflitos, tinha nesse outro e do ponto de vista dos envolvidos, muito de si mesmos.

Resta talvez, ao final do filme, uma pergunta: como é possível sustentar a instituição da guerra como algo razoável e esteticamente agradável? A famosa frase de “O coração das trevas” – “o horror, o horror” – livro de Joseph Conrad em que se baseia “Apocalypse now”, adquire contornos de perturbada realidade no filme de Florent-Emilio Siri e na descrição que faz da Guerra da Argélia. Talvez não se trate apenas de pensar sobre a desconcertante contradição entre a realidade da guerra e a forma glamourosa como é apresentada na cultura ocidental – sob forma de brinquedos, literatura, jogos, cinema, etc – mas, além disso, em nos perguntarmos sobre até que ponto a luta por um mundo diferente daquele formado pela guerra não é simplesmente uma luta contra as trevas.


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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2 comentários sobre “Na mira do inimigo

  1. Encontrei esse filme hoje, 13/01/2015 numa banca de revistas na Av. Paulista. Também fiquei cismado com o título e a contracapa, mas decidi comprar pelo tema, já que o único filme que assisti sobre ele foi A Batalha de Argel.

  2. Muito interessante o debate sobre este filme, que por sinal é pouco visto e até mesmo conhecido por muitos. Gosto de cinema europeu , pelo fato de que ele , quase sempre, ser livre de muita “maquiagem”, como podemos observar na filmografia americana. Quase sempre a narrativa destes filmes nos empurra para uma realidade tão bruta como o filme em si.

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