Burguesia e Liberalismo na Ficção Histórica

*por MARISA MIDORE DEAECTO*

“Cuál de los reyes de esta tierra antes de Vuestra Majestad vió jamás sus banderas en el Mar Caspio? Cuál de los jamás con el emperador de Persia, como lo lia hecho Vuestra Majestad, y obtevo, para sus mercadores amplios y favorables privilegios? Quién vio jamás antes de este reinado en embajador inglés en el soberbo pótico del Gran Señor de Constantinopla? Quién encontró jamás cónsules y agentes ingleses en Tripoli de Siria, en Alipo, en Babilonia, en Balsara, y, lo que és más, quien oyó nunca hablar de los ingleses en Goa, antes e ahora? Qué barcos ingleses aclaron hasta aqui en el poderoso rio de Ia Plata? O pasaron por el impraticable estrecho de Magalles, subieron a lo largo de Ias costas do Chile, Peru, y a espaldas de la Nueva España más lejos de lo que jamás fué ningun cristiano?” [1]

 As aventuras de um inglês sonhador

É muito difícil situar Defoe em seu tempo, sem antes falarmos de uma Inglaterra que percorreu tão longa trajetória de sucessos e infortúnios para enfim ser narrada com tanto êxito pelo novelista. No final do século XVII, a agricultura estava em crise, mas a hegemonia inglesa foi patenteada, quando Henrique VIII e sua filha Isabel empreenderam a façanha de conquistar os mares. No entanto, é no século seguinte que a sociedade toma novos rumos, vivencia as transformações dos novos tempos e se torna agente consciente desses tempos modernos.

A geração de Defoe não conta as mesmas vitórias que Hakluyt nos tempos de Henrique VIII, mas relembra as façanhas de um homem perseverante que nasceu sob a Revolução Puritana. Crusoé, talvez sua autobiografia (mesmo que insuflada por uma mente imaginativa), é um burguês puritano, pertencente a uma família tradicional, nascido em York, no ano de 1660. Um pouco mais novo que seu criador[2], mas portador dos mesmos princípios que marcaram sua época e a Revolução: a religião (puritana), o ceticismo difuso (que contribuiu para o capitalismo) e o Common Law (direito consuetudinário) [3]

Diante dessas três bases ideológicas, a Inglaterra passou pela sua primeira experiência republicana, celebrada pela figura de Cromwell e por uma série de conflitos que desencadearam em 1688, com o término da Resolução Gloriosa, logo em seguida a Restauração da Monarquia, agora sob um Parlamento forte, tendo finalmente o reconhecimento do rei Guilherme D’Orange.

É nessa Inglaterra perseverante e vitoriosa, que Defoe procura contar anos de glória, ou, quem sabe, tempos de crises que sua nação bravamente soube superar. Em suas biografias lhes são atribuídas atividades diversas, que oscilam entre comerciante falido, inventor e viajante. Mas acima de tudo, foi um precursor do estilo jornalístico, preocupado com as minúcias dos fatos hodiernos, com a veracidade das descrições dos locais por ele vividos, tendo sido redator do Applehee’s Journal, além de outros artigos que escrevia a cada viagem empreendida.

Participativo dos acontecimentos políticos de sua época e atuando como um puritano convicto, mereceu a classificação de “panfletário de seu tempo”, sendo considerado “um whig otimista radicado … [que] proclama a filosofia da vida puritana e da classe média, assente na fé no mundo e na fé em Deus: (… ) O puritanismo recalcado mas obstinado dos pais aflora ainda nos seus escritos, e ele próprio sofreu às mãos da administração tory, inspirada pela Igreja Episcopal. A vitória dos Whigs[4] acaba por justificar a confiança dos seus confrades sociais e dos correligionários de crenças e é por seu intermédio que, pela primeira vez, na literatura secular, que se exprime o ponto de vista desta classe média”.[5]

Um arauto de seu tempo? De certo sim. Tomando o cuidado de não determinar necessariamente que a visão de mundo do autor corresponde “ipsis literis” a seu tempo e seu público, é possível vislumbrar em Daniel Defoe e seu realismo imaginativo os limites da utopia de um público que paulatinamente toma gosto pela leitura, que vive o “processo de nivelamento cultural … o testemunho prova que o clero protestante desempenhou papel importantíssimo na disseminação da literatura secular e na educação do novo público ledor…”[6] Enfim, um público que está desperto para o futuro e construindo individualmente, graças à divina providência e aos seus esforços, sua “ilha da fantasia”, ou quem sabe, um arquipélago onde o tempo seria definido pelo trabalho e o mesmo pelo progresso num limiar não muito distante da geração de Defoe.

As aventuras de Robinson Crusoé[7]

“Mas isto é a pura verdade ! Não existe (na obra) uma circunstância imaginária que não tenha sido calcada na história real… É a exposição de uma cena inteira de uma vida autêntica, durante vinte e oito anos passados nas circunstâncias mais aflitivas e desoladoras que um homem jamais atravessou. E nas quais, durante muito tempo, eu vivi de unia existência de absurdas maravilhas, entre contínuas tempestades, onde me bati com a pior espécie de selvagens e canibais em inumeráveis e surpreendentes acontecimentos, em que fui alimentado por milagres ainda maiores do que aqueles dos corvos, em que sofri toda espécie de violências e opressões, de injúrias, de reprovações, de desprezo dos homens, de ataque dos demônios, de castigos dos céus e oposições da terra … “[8]

Robinson Crusoé é um burguês cujo destino já havia sido traçado pelo pai: dedicaria sua vida às leis, constituiria sua família e permaneceria em sua terra natal. No entanto, seus anseios por ganhar os mares e empreender campanhas em outros continentes, fê-lo contrariar a família e partir, primeiramente para África. Desse primeiro momento de oposição, sempre contemplado com urna série de reflexões em torno da família e da ética religiosa, o autor apresenta os conflitos que marcam todo o percurso de suas aventuras: o seu “eu” e as suas crenças, a sua formação.

São vários os momentos em que o protagonista confidência suas angústias, que chegam a ser mais cálidas nos momentos mais desastrosos de sua jornada, como da primeira tempestade que sofreu e de quando se tornou prisioneiro na África. Impondo limites à crença, mas sem nunca negar o poder da “divina providência” que por inúmeras vezes proclama, Robinson vive uma angustiante situação de crença e ceticismo ou pelo menos de uma fé muito pragmática que jamais se transforma num obstáculo para as suas ações; aliás, todas as reflexões parecem justificar seus atos, ou pelo menos amenizar as punições.

Sua vida na ilha é pautada pelo tempo e o trabalho. A combinação dos dois elementos o levam para a fortuna, para a bênção divina conquistada através dos seus esforços.

O “eu” do herói determina a história. Em sua ilha vive por vinte e oito anos e a maneira como narra suas aventuras neste local tão inóspito, conduz o leitor para o mesmo clima que vivenciou: a monotonia exasperada de um homem solitário que com muita perseverança vence seus obstáculos.

Numa segunda parte, ele empreende outra viagem, volta à sua ilha para levar mercadorias a pessoas que lá ficaram por ocasião de sua partida. Viaja para o Oriente, onde permanece algumas décadas, angariando imenso lucro. Finalmente, vive seus últimos dias caminhando pela China, Rússia, Tartária, Índia… até chegar na Inglaterra. O trajeto que se inicia na adolescência, passa pela idade adulta e culmina na velhice, mesmo diante de tantos infortúnios e contratempos, foi completado com todos os elementos formadores do homem na sociedade: experiência de vida, fé, propriedades e família.

O herói, após todas as suas façanhas, conseguiu convencer o público quanto a veracidade de suas prodigiosas conquistas porque, antes de tudo, agiu como um cidadão inglês (mais particularmente, contou o que agradava a burguesia de seu tempo). Ainda que assumindo seus conflitos, ou exatamente por assumi-los, foi vitorioso e deixou seu legado para a posteridade.

Aliás, trata-se de uma história que se projeta para o futuro. Mesmo calcado no momento exato dos acontecimentos que o autor pretende contar, os fatos sugerem outros fatos, as conseqüências são igualmente minuciosas e há sempre um porvir. Nada como um dia após o outro, poderia nos dizer Crusoé. E ele nos diz de alguma maneira. Nesse momento, confunde-se o herói à perseverança de um whig que assiste ao avanço cultural do seu tempo, ao aumento do público leitor e principalmente à possibilidade de se fazer um novela didática, assim como Swifft pode fazer sua sátira à sociedade (As Viagens de Gulliver), ou seja, uma Inglaterra com maior liberdade de expressão – ainda que se tenha uma máquina estatal conservadora e demasiadamente religiosa. Falando sobre a nação, escreve Defoe:

“Somos felices en Inglaterra, porque aún no hemos llegado a establecer una gabelle o impuesto sobre el grano como en Italia y otros muchos paises”.[9]

São esses êxitos que o autor passa tão bem para o seu público, interferindo sobre sua imaginação. Pouco importa sobre a veracidade dos fatos, mas como foi escrito e de que forma os leitores transportam para sua realidade uma “ilha da fantasia”.

Sob a ótica do leitor, a História poderia ser construída com a mesma estrutura de um romance, talvez uma longa narrativa como a de Daniel Defoe; o importante é que a própria construção revelaria uma parcela desta visão de mundo, ou pelo menos, um ponto de vista. Este romance seguiria alguns pressupostos teóricos, que igualmente estariam condicionados à sua época, ou ainda, fechando todas as arestas do determinismo, o conhecimento histórico e seu método, poderiam estar condicionados à própria história epistemológica. Partindo desse pressuposto, busca-se a visão de inundo do sujeito a quem o romance importa. Numa época em que se atribui ao indivíduo seu papel de agente histórico, compreende-se necessário avaliar os mecanismos utilizados por Defoe para a construção do imaginário burguês, através da fantasia.

O “Eu” Social Submerso na Sala de Leitura

“Vendo-me já seguro, levantei os olhos ao céu e dei graças a Deus por me ter salvado a vida em um caso em que poucos momentos antes parecia impossível poder salvá-la. Creio por assim dizer que seja impossível pintar ao vivo os transportes e os êxtases em que se acha uma alma que se vê salva deste modo, e arrancada, por assim dizer, das entranhas do sepulcro. Já me não admira que quando um malfeitor já com a corda no pescoço, está a ponto de perder a vida, já me não admira que o perdão se lhe leve um cirurgião para lhe fazer sangrar ao mesmo tempo que lhe anuncia a graça, para prevenir que o sobressalto que esta notícia deve causar não o afugente do seu coração os espíritos animais e lhe seja funesto porque

O sobressalto, que nasce

Da alegria ou de aflição,

Suspende todo o exercício

Do espírito e do coração. “[10]

Na hora em que a vida do herói foi tão fortemente ameaçada, o racionalismo prático de Defoe transmite imediatamente a noção quantitativa do significado da morte. Ela surge como um aprendizado que deve marcar toda a vida do indivíduo, mas é preciso notar que antes de mais nada, urge salvar-se da morte a todo custo.

Constrói-se desse fato a dramatização da vida, desde que no momento da graça, o iluminado tenha perfeita noção do seu condicionamento perante à sua própria existência. O tempo da vida parece tão curto quando muito há que se fazer e se torna martírio ao inglês ansioso diante dos rumos da sociedade de seu tempo, onde as informações se multiplicam constantemente, pensar que tudo chegou ao fim, ou seja, que o tempo acabou e não há mais nada a construir. A vida tem muito mais que seu significado biológico ou mesmo religioso: é a condição primeira para o funcionamento da razão, da percepção de inundo, do seu entendimento e sua transformação.

Fé e razão são elementos conflitantes na mente humana e ao mesmo tempo complementares. O Estado inglês ainda é religioso, e é preciso pensar numa religiosidade muito mais abrangente que os dogmas metafísicos: ela faz parte do Estado, esta nas fímbrias da sociedade, é uma unidade ideológica universalizante, logo, participa do dia a dia do indivíduo.

Ao mesmo tempo, a ética protestante há muito preconizava o racionalismo do homem como responsável pela sua organização social. Robinson Crusoé deixa muito claro nesta passagem que a preocupação em elevar aos céus sua sobrevivência é posterior aos seus empreendimentos pela vida. Beirando a frialdade, Crusoé renuncia a qualquer sobressalto, ou seja, qualquer manifestação exagerada das emoções, que possam vir atrapalhar a razão. Seu Deus olha por quem é capaz de trazer consigo a seriedade e presteza de um homem civilizado.

Não obstante, “time is money“, já dizia um velho ditado inglês. A ação prossegue como um relógio de despertador até a corda se desgastar. A preciosidade do tempo na obra é sentida pela sua própria estrutura: ser minucioso, beirar à veracidade, despertar sempre o leitor com a clareza dos fatos.

“Cheguei a esta ilha em 30 de setembro de 1659. Nos lados desta cruz traçava todos os dias um risco, e a cada sete um dobrado e todos os primeiros do mês, outro, que excedia o dobro do sétimo dia. E eis aqui como conservava o meu calendário das semanas, meses e anos”. [11]

Este é o tempo de Defoe e, paralelamente, é o tempo de seu personagem. Seu tempo é igualmente precioso para vencer seus obstáculos e se lançar para um tempo à sua frente… o eterno porvir. Como entregar-se à morte, diante de tão honrosa missão? A razão norteia o homem não apenas no seu tempo, mas no seu controle frente a matéria bruta. A intimidade do herói com o seu meio ocorre paulatinamente, até que num dado momento o sentido de posse toma conta da narração, sem nenhum corte brusco. É como se a possessão do homem frente ao selvagem ocorresse naturalmente, sem que o próprio ambiente sentisse alguma diferença. O mesmo acontece com o índio Sexta-feira que sai se moldando ao seu “amigo”, até enfim ser considerado corno tal. De fato, a alteridade inglesa frente suas colônias e, com o passar dos tempos, frente ao Velho Mundo, já havia sido plantada desde as primeiras conquistas marítimas que um século depois Robinson Crusoé pretende vivenciar. O subjugado faz parte dessa relação “natural” com o dominante e mesmo as guerras são eticamente justificáveis, quando se trata da defesa do civilizado (entendido como ser racional).

Propriedade e acumulação das riquezas, são condições básicas para o conforto burguês, são frações máximas dos esforços e da inteligência frente a situações estranhas ao seu universo – e que devem ser transformadas. Trata-se de um período caracterizado pela ansiedade – muito bem policiada, embora -, onde tudo parece aguardar uma mudança. em que mesmo não havendo uma revolução nas ciências no seu sentido literal, existe maior percepção do mundo, pelo menos maiores preocupações com a racionalização da produtividade por parte dos “cientistas” da época.

Estas preocupações, ainda que não necessariamente tecnológicas, mas desvendando métodos de domínio da natureza que englobam o dia-a-dia do indivíduo, culminam num primeiro sintoma da Revolução Industrial, um acontecimento pioneiro inglês. Como observador da sua sociedade, viajante por profissão, Defoe conseguiu levar por intermédio de seu herói esse clima de pleno domínio do homem diante das perspectivas do conhecimento de seu mundo, de seu universo empírico.

O indivíduo é a máxima de seu tempo. Consciente de sua inteligência individual, o homem busca o seu próprio sucesso, ainda que numa ilha deserta, provida de toda selvageria a que um ser humano pode se expor. Aliás, a natureza apresentada por Crusoé parece sempre hostil ao homem. É terrível imaginar uma viagem para qualquer lugar, seja por mar ou por terra, quando os perigos e as surpresas são devastadores. O meio ambiente aparece personificado como o vilão a ser superado, as sim como tudo o que existe está apto a ser modificado. Nesta história de vilões e um mocinho, a ética puritana ensina que o indivíduo é capaz de vencer sozinho. A utopia desse tempo implica em aplicar os valores sócio-culturais dos porta-vozes da cultura em qualquer ambiente, ainda que um homem dotado de civilidade tenha que lutar contra um “bando de selvagens”.

A transposição de valores pode ser possível, mesmo havendo nessa história apenas um interlocutor. Ou melhor, principalmente quando esse arauto da civilização for a única voz ativa, como acontece no romance. Ao leitor, não resta nenhuma hipótese de imaginação acerca do outro dominado, quando o interlocutor da ação fala por si e pelo outro, numa relação de extremo paternalismo que hoje nos parece angustiante.

O ser ambíguo do tempo de Defoe está representado no seu herói. Um ser essencialmente racional, porém religioso; fiel ao seu país e à sua cultura, mas que em nenhum momento preocupa-se com a instituição de um Estado/ governo aos moldes de sua terra natal – será um prenúncio do liberalismo?; um herói individual, todavia universalizado pelo público inglês que o consagrou na história literária e social da Inglaterra. Enfim, um homem de seu tempo que busca racionalmente uma saída diante da velocidade com que seu país sai das tragédias do palco elizabetano[12] que perduraram até o século XVII e caminha para o Iluminismo.

Na sala de leitura, o leitor atento digere as informações fabulosas acerca do espírito humano. Uma leitura fluente e objetiva na sua forma de tratar os acontecimentos, ainda que pormenorizados, apresenta uma totalidade não totalizante, na medida em que mesmo partindo de fatos reais e de concepções éticas concretas na sociedade inglesa, incentiva o indivíduo a se individualizar ainda mais. O pragmatismo protestante está inculcado na imaginação fantástica que o autor constrói para o mundo, lançando o burguês da sua sala de leitura para seu próprio universo, totalmente coerente com a lógica de progresso na qual a nação investia sua nova caravana. As Aventuras de Robinson Crusoé despertam a utopia do “admirável mundo novo”, inquietando o indivíduo para a sua construção e, acima de tudo, projetando-o para o futuro.


* Publicado originalmente na Revista Novos Rumos, ano 9, nº 23, 1994, Instituto Astrojildo Pereira, págs. 36-39.

* MARISA MIDORE DEAECTO é Docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (USP); Doutora em História Econômica pela mesma instituição. Publicado na REA, nº 60, maio de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/060/60detecto.htm

[1] apud TREVELYAN, George Macaulay História Política de Inglaterra. México: Fondo de Cultura Econômica, 1943, p. 231. Este trecho exalta a vitórias Ultramarinas da Inglaterra de Henrique VIII e de sua sucessora, Isabel. Seu autor, Hakluyt, trabalhou suas obras no sentido de incentivar e vangloriar seu país para essas conquistas, registrando pacientemente Os relatos que os sobreviventes de cada viagem tinham para Contar.

[2] Daniel Defoe nasceu em 1649. Filho de um magarefe dissidente traz consigo a obstinação puritana dos pais, fato que lhe causou problemas políticos sérios durante a administração tory.

[3] O puritanismo foi o estopim para os conflitos entre burgueses e aristocratas, que envolvem a implantação na Inglaterra de uma monarquia absolutista, o mal do século na Europa. A corte é vista pelos puritanos como lugar da corrupção, da imoralidade, de uma religião centralizadora (religião Anglicana) e maléfica para a ação do Parlamento. O ceticismo difuso, classificado por Lawrence Stone, existia antes da Revolução, pois era preciso que pessoas desacreditadas contribuíssem para o conhecimento científico, cujos resultados serão perceptíveis logo na entrada do século XVIII e nas próprias contribuições para a epistemologia do conhecimento da época. O Common Law significava um meio de neutralizar o absolutismo monárquico, no qual a burguesia e o parlamento recorriam quando viam seus direitos postergados pelos monarcas.

[4] Existe no percurso dos acontecimentos políticos ingleses, uma certa tradição tory que foi quebrada pelos whigs que sobem ao poder em 1720, permanecendo até aproximadamente meados da década de 30. Ao que parece, neste momento as discussões se concentram em torno de quem permanece ou não no poder.

[5] HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte, V.1 / Tomo 2. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1982. 3ª edição reduzida para o português. P. 696.

[6] Idem ibidem p. 692.

[7] Conta-se que se trata de uma história baseada em fatos verídicos, na qual o autor utilizou os depoimentos do Capitão Roger, “como Alexandre Selkirk viveu quatro anos e quatro meses sozinho, uma ilha”. De todos os relatos do Capitão, foi a história de um homem solitário, beirando ao estado máximo de selvageria, abandonado como castigo por um superior e salvo por um homem que viajava o mundo, que mais encantou o público do Capitão. Consciente desse sucesso, Daniel Defoe criou sal ficção, dando-lhe tanto êxito, que não demoraram novas publicações, como Capitão Singleton (1720), Moll Flanders (1722), O Coronel Jacque (1722), Diário do Ano da Peste (1722), O Coronel Jacque (1722), Diário do Ano da Peste (1722) e Roxana (1724).

[8] Apud. Lúcio Cardoso. Op. Cit. P. 8. Segundo o autor, esta declaração foi feita por Defoe pouco antes da sua morte.

[9] TREVELYAN, George Macaulay. Op. Cit. P. 314.

[10] A edição utilizada para o presente trabalho foi da Livraria Garnier, uma tradução direta do inglês publicada em dois volumes, no ano de 1926. P. 59.

[11] DEFOE, Daniel. Op. Cit. P. 83.

[12] A propósito, o autor constrói em Moll Flanders um cenário semelhante, cuja protagonista agora é uma prostituta que ao longo de sua vida passa por várias fusca, até terminar rica, casada e arrependida pelas suas ações. Comparativamente a Robinson Crusoé, percebe-se que esta personagem vivencia o mesmo drama da autodeterminação e da sua ética religiosa No final, ela deve pagar pelas ações não pensadas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s