Ata narrativa, poética, filosófica ou emotiva da Ocupação da Reitoria da UEM

por SAULO TESTA*

Era 1º de setembro. Há oito dias eles se reuniam naquele lugar. Alguns diziam que sua ação fora violenta, que a tática era de vandalismo e que lutavam apenas por comida vegetariana.

Oito dias antes eram seis centenas. Seis centenas de corações apreensivos e braços levantados por sua indignação, seis centenas de bocas bradando por ocupação.

Na força de sua coletividade, prontos para tomar o que lhes era de direito, um choque, por instantes, paralisou sua consciência lutadora e engrossou suas veias com o mais colérico sangue. O conflito se iniciou. Meia dúzia de anjos anônimos conteve a raiva daqueles inflamados.

Ocupado o nível inferior, os súditos correram para a torre mais alta do castelo com receio dos braços e punhos que lutavam pelo bem e todos, acreditando, os súditos, que seriam atingidos por eles. Ilusão! A luta era pacífica e o verdadeiro inimigo não estava ali. Os cães de guarda faziam questão de registrar os rostos daqueles que se colocavam à frente da multidão. Após muita resistência, o rei saiu escoltado por sua cavalaria.

Eles se organizaram, discutiram, votaram, cozinharam, limparam, cantaram, sorrira, choraram e propagaram suas palavras e protestos nas ondas radiofônicas. O rei, de seu palácio de campo mandou calar as vozes que se comunicavam pelo rádio, pelo telefone e pela internet. Mal sabia o rei, que começara a cavar sua própria cova. Suas vozes incrivelmente ficaram mais fortes, suas gargantas não paravam de ecoar as palavras mais fortes que alguns nunca teriam imaginado dizer.

Eles eram seiscentos. Multiplicaram-se em dois milhares. Dois mil que gritavam a plenos pulmões que eram estudantes e queriam estudar. Desses dois mil, quatro estavam distantes dali, buscando meios de fazer com que todas aquelas vozes fossem ouvidas. Aqueles dois mil peões colocaram todos os reis em xeque.

Mesmo em xeque, os reis conseguiram evitar o xeque-mate. Os peões cantavam que não iam embora. E não foram.

Novamente suas vozes foram propagadas pelo rádio e, novamente os assessores do rei tentaram intimidá-los dizendo que a cavalaria poderia vir a qualquer momento. Eles não se abalaram.

Insatisfeitos com a manobra dos reis, os peões tramaram o xeque-mate, prepararam sua estratégia e suas armas. Partiram para o combate.

O rei os chamou e o xeque-mate foi dado. O rei cedeu e os peões venceram esta batalha. Em seus rostos joviais era possível ver a lágrima e a olheira da falta de sono, em suas bochechas, o sorriso e a barba crescida daqueles dias, em suas gargantas a felicidade e a rouquidão. E eles celebraram.

Aquele 1º de setembro será lembrado por todos aqueles peões, todos os dias de suas vidas. Aqueles nove dias nunca se apagarão. Os próximos, neles se espelharão. Mas não, ainda não acabou. Mais uma noite se vai e, depois dela, o Ultimato.

O Ultimato foi dado, o rei temia e não veio receber seu castelo de volta, mandou seus súditos fiéis para isso e, novamente, os peões saíram em marcha, deixando para trás aquele prédio que outrora vivenciara tanta alegria, tanta sede de luta, tanta paixão por uma causa comum, mas, que por tempos viveu na sombra da burocracia que tirou a vida dele.

Uma nova chama se acendeu naquele reino. Uma chama de vitória, onde todos aqueles peões perceberam que, somente com sua união, podem colocar todos os reis em xeque-mate e vencer o jogo.

“Nós sairemos da ocupação, mas a ocupação não sairá de nós”.


* SAULO TESTA, 21 anos, Acadêmico do 4º ano de Educação Física, Coordenador da Regional VI da Executiva Nacional de Estudantes de Educação Física. Texto escrito na noite do dia 01/09 e lido no ato realizado após a desocupação vitoriosa.

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