Cinema na Periferia, Cinema da Periferia

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Para alguns, ir ao cinema parece tão natural quanto respirar. Mas este é um direito interdito à maioria das crianças, jovens e adultos que moram nas pequenas cidades interioranas, nos rincões e na periferia das grandes centros urbanos das metrópoles deste país. São os que não têm acesso à cultura. Em suas cidades e bairros periféricos não existem cinemas. Se quiserem assistir a um filme terão que se deslocar por quilômetros, durante horas. Dadas as condições econômicas e as exigências de locomoção, tempo, etc., torna-se praticamente impossível a freqüência a uma sala de exibição cinematográfica, as quais se concentram nos Shoppings Centers.

Parece kafkiano, mas, mesmo na região metropolitana da capital paulistana, é comum encontrar senhores e senhoras que ultrapassaram os 50 a 60 anos de idade e não viveram a experiência de assistir a um filme num cinema. A maioria das pessoas que habitam nas periferias das grandes cidades brasileiras ficam reféns da telinha da TV e submetidos ao padrão global e hollywoodiano. A pobreza anda de mãos dadas e retroalimenta-se da miséria cultural.

Não obstante, não nos iludamos com as aparências. Em certos segmentos elitistas da sociedade, especialmente entre muitos indivíduos da classe média, prevalecem os preconceitos contra os pobres e os que moram nas favelas e periferias. É preciso superar os comportamentos discriminatórios dos que culpabilizam e criminalizam os pobres pela situação em que se encontram, e, assim, desconsideram as estruturas políticas, econômicas e sociais que os mantêm nestas circunstâncias.

Por outro lado, é necessário compreender que na periferia também se produz cultura. E esta pode ser vigorosa e rica de significados. Pobreza não é sinônimo de ausência de cultura. As condições sociais e econômicas não permitem o acesso à chamada “cultura culta e erudita”, mas as dificuldades e necessidades também estimulam a criatividade e a emergência da cultura e arte popular e iniciativas elogiáveis no campo cinematográfico. Na periferia gestam-se cotidianamente práticas alternativas que configuram uma cultura de resistência. Devemos observar, ainda, que a miséria cultural ronda os bem aquinhoados. A capacidade de consumir cultura não indica que esta seja necessariamente de qualidade.

É fato, porém, que as condições de vida dos que se amontoam nas regiões periféricas, destituídos das estruturas essenciais para o exercício da cidadania, são fatores limitadores do acesso ao consumo dos bens culturais. Na verdade, o poder de consumo define categorias de cidadanias diferenciadas. Muitos são tratados como cidadãos de terceira classe e seus direitos básicos inexistem ou são concebidos como favor do poder público.

Em meio aos muitos que se acomodam às circunstâncias, muitas vezes tidas como naturais e atinentes ao destino, há os que reagem, rompem a passividade e o mero comportamento de reclamar sem agir. Homens e mulheres, jovens e adultos que habitam em zonas periféricas de cidades como São Paulo e região metropolitana, buscam alternativas culturais. Iniciativas como os projetos “Cinema na Laje”, “Cine Quilombo” e “Cinema e Cidadania”, são exemplos dos que resistem e atuam com o objetivo de oferecer aos demais um bem cultural que lhes é interditado.

É o que mostra o programa ABCD em Revista: Cinema itinerante, da Rede TVT – Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho, entidade cultural sem fins lucrativos criada e mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. São projetos que trazem o cinema para setores populacionais que muito dificilmente poderiam assistir a um filme nas salas de cinema dos Shoppings ou em lugares privilegiados de cidades como São Paulo. Assim, um espaço como a laje de um imóvel, cadeiras, um projetor e uma tela, e muita boa vontade dos organizadores e participantes, transforma-se numa “sala de cinema”. E tudo gratuito, até mesmo a pipoca oferecida aos presentes.

Os envolvidos com estas práticas alternativas de cinema resistem a processos de exclusão. O cinema não foi feito para a periferia, ainda que esta apareça nos filmes. Muitos deles fazem sucesso nos espaços culturais privilegiados freqüentados por indivíduos com alto poder de consumo. Aliás, é interessante observar como a classe média adora filmes que retratam a miséria na periferia. É algo para se estudar e refletir! Talvez este tipo de filme reforce estigmas latentes ou manifestos. Talvez desencadeie uma espécie de compaixão caridosa, mas que se desvanece na praça de alimentação do Shopping ou nos restaurantes chiques das proximidades. De qualquer forma, se depender dos que freqüentam as salas mais luxuosas de cinema, a situação da periferia permanecerá a mesma.

O que chama a atenção nos projetos que levam o cinema à periferia é o aspecto comunitário, transformador e a proposta norteadora. Não se trata de apenas passar um filme, mas de conquistar as pessoas para a iniciativa e levá-las a refletir sobre a própria condição social. Os indivíduos não são concebidos como passivos, isto é, restritos a assistir ao filme, mas enquanto seres pensantes capazes da reflexão consciente.

O cinema é visto, então, como um fator educativo. O filme apresenta-se como uma janela para conhecer outras realidades, pessoa, e aprender com elas. É como uma viagem que ajuda o indivíduo a conhecer melhor a si mesmo e à realidade para além das aparências. Tais iniciativas, portanto, trazem em si uma noção de cinema enquanto fator que contribui para fomentar a consciência crítica do cidadão residente na periferia. Implícito ou explicitamente, a atividade embute uma perspectiva política.

Será que o cinema pode oferecer esta contribuição? Terá o ato de assistir a um filme a potencialidade de transformar o indivíduo e fomentar a reflexão crítica? Ao que tudo indica, os que se dedicam à realização destes projetos apostam que sim. No entanto, eles estabelecem algumas estratégias pertinentes aos objetivos almejados. Por exemplo, fogem ao padrão global e hollywoodiano na medida em que selecionam filmes alternativos que estimulam o debate e a crítica do real. Por outro lado, priorizam produções da própria periferia e sobre esta – como o documentário Grajaú, onde São Paulo começa, dirigido por João Claudio de Sena.

A periferia não apenas assiste, ela também produz cinema. E ao assistir documentários produzidos por cineastas do seu meio, os freqüentadores de projetos como “Cinema na Laje” e “Cine Quilombo” identificam-se com as imagens que vêem na tela. Os que aparecem diante de seus olhos não são estranhos, atores famosos ou coisas do tipo, mas o seu vizinho, o conhecido e até mesmo quem vê o filme. As situações, linguagem, etc., também não causam estranheza, pois é a realidade cotidiana que eles conhecem e se reconhecem. É a periferia se vendo e refletindo sobre a periferia.

A atividade cinematográfica na periferia tem o potencial de quebrar a rotina, transformar uma praça em Perus (zona noroeste da cidade de São Paulo) num espaço cultural que estimula os transeuntes a assistirem a um documentário sobre temas relacionados à realidade social na qual estão inseridos. A participação numa atividade como atividade como esta amplia os horizontes do indivíduo e possibilita novos olhares sobre realidades vivenciadas por estas populações. Como afirma a estudante Beatriz Fidélis, no programa ABCD em Revista: Cinema itinerante, “Cinema é uma forma de aprendizado”.

É, portanto, um cinema diferente do que costumamos ver nas salas de exibição bem localizadas e freqüentadas pelos que têm poder de consumo, bem como das experiências que conhecemos em outros espaços como o campus. E é diferente não apenas pelas condições em que se produz e pela programação, mas também pelo objetivo inerente à idéia e execução dos projetos, ou seja, de formação de um público cujo perfil é peculiar.

Para muitos dos jovens e crianças que moram na periferia, projetos como “Cinema na Laje”, “Cine Quilombo” e “Cinema e Cidadania” oferecem a rara oportunidade de assistir a um filme e ter acesso ao cinema. Podemos observar isto no programa ABCD em Revista: Cinema itinerante, inclusive com a participação de crianças e jovens estudantes e a professora da turma. É assim a realidade da periferia!

O que estas pessoas fazem é um exemplo para todos nós. Oxalá, estas informações nos estimulem a refletir sobre uma situação que, muitas vezes, conhecemos apenas pelo noticiário policial ou filmes que enfocam a miséria e violência na periferia, transformada em produto de consumo cultural para as almas caridosas, as consciências culpadas ou apenas para os que querem entretenimento. A vida, no entanto, não se restringe aos aspectos negativos. Há muito de criativo e positivo na periferia. Os organizadores e voluntários de projetos como os relatados no programa ABCD em Revista: Cinema itinerante estão de parabéns – como também os idealizadores e produtores deste jornalismo. Aprendamos com eles e… com o cinema!

 

 


* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor de Ciência Política e Sociologia no Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM). Email: aosilva@uem.br Site: http://antoniozai.wordpress.com

Anúncios

9 comentários sobre “Cinema na Periferia, Cinema da Periferia

  1. Gostei muito desta matéria. Estou divulgando para colegas educadores da periferia da cidade de Campinas. A cada dia gosto mais de utilizar os audiovisuais em meu trabalho com alunos, professores e gestores das escolas públicas. Vejo um amplo campo aberto para novas experiências, criação cultural, emancipação humana. Não temos ainda em nossos bairros, espaços como estes mostrados em São Paulo, com produção e exibição de cinema. A matériá é um convite a criá-los! Obrigada!

  2. Caríssimo Ozaí, sua publicação me fez lembrar o livro “cinema no tucupi”, de autoria de Pedro Veriano, cineasta de Belém do Pará, onde ele conta a história do cinema nessa capital. É interessante porque ele fala das salas luxuosas( entre elas o cine Olimpia, considerado um dos mais antigos do Brasil), mas o mais interessante são as história dos cinema de bairro que eram destinados aqueles que não tinham condições de frequentar as pomposas salas.Nesses cinemas de bairro eram locais de encontro, início de namoro, pedidos de casamento, primeiro beijo… enfim tudo que pode ser possível acontecer pelo contato com telona.

  3. otimo artigo e oportuna a divulgaçao dos videos. repassei a professores de civilizaçao brasileira daqui, que certamente vao aproveita-los.
    abraço e parabens.

  4. Gostei muito de ver que ainda existem pessoas como as que projetaram o ABCD em Revista:Cinema Itinerante, pois estão dispostos a levar cultura as pessoas carentes e como foi dito até idosos que nunca conheceram cinema. Essas pessoas devem ficar maravilhadas com o que veêm através do cinema e isso pode também melhorar suas vidas dando idéias de comportamento.

    Marci Marion Soares Carneiro – Teóloga

  5. Caro Ozaí,
    Parabéns pelo ensaio. Foi ótima a ideia de expor este tipo de experiência social e cultural de exercício de cidadania e de conquista de voz. Dar voz aos atores sociais é fundamental para testar e corroer nossas modelizações acadêmicas.
    Que o mundo se exponha em sua complexidade!
    Que a arte provoque empatia e transformação!
    Que a voz outsider seja conquistada e dignificante!
    Que a existência do ousider seja lembrada e crie desconforto para a consciência conformista, dentro e fora da academia!
    Que todos entendam que dignidade e felicidade são plenamente fruías quando igualmente compartilhadas!
    Que diversidade não signifique relativizar a pobreza!
    Que igualdade não signifique nivelamento forçado!
    Que a pobreza envergonhe a todos e não criminalize quem nela se encontra!

    Abraços e tudo de bom,
    Alexander

  6. Agradeço pelos envio das publicações e gostaria de que tivesse a certeza de que estou aproveitando ao máximo, cada palavra, tendo a certeza de que me tornarei culta com tanta cultura.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s