10 anos de guerra contra o terror

por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA*

Após os atentados contras as torres gêmeas do World Tarde Center (WTC), em Nova York e o Pentágono, em Washington, o presidente George W. Bush proclamou que os Estados Unidos sofreram uma agressão e declarou guerra. Era “guerra do bem contra o mal”. Mas a agressão não partira de outro Estado nacional. Foram terroristas islâmicos, suicidas, que não dispondo de outras armas, seqüestraram aviões de passageiros, e os arremeteram, como se fossem mísseis, contra as duas torres gêmeas de WTC e o Pentágono. O governo dos Estados Unidos, como se já soubesse quem cometeria os ataques, logo revelou os nomes dos 19 seqüestradores, dos quais 15 eram sauditas e quatro de outras nacionalidades, entre os quais nenhum Taliban afegão. E o milionário saudita, Usamah bin-Ladin, dirigente de al-Qa’ida, foi acusado de ser o mastermind  da operação. O presidente George W. Bush obteve então do Congresso poderes para fazer a guerra e os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, em 7 de outubro, começaram a bombardear os campos de treinamento de al-Qa’ida, no Afeganistão.

Na Alemanha, onde os seqüestradores dos aviões moravam e estudavam, Horst Ehmke, ex-chefe de gabinete de Willy Brandt (1969-1972) e coordenara o serviço de inteligência alemão, como ministro para missões especiais, quando viu as imagens dos atentados de 11 de setembro pela televisão 11, disse que pareciam como “eine Hollywood-Produktion” e que os terroristas não poderiam executar tal operação  se não contassem o suporte de algum serviço secreto. A “war on terrorism” foi percebida como fraude, acobertando a Realpolitik, para criar um estado de pânico, favorável a uma guerra infinita, que começou com a Operation Enduring Freedom ou Operation Infinite Justice, cujo primeiro objetivo foi ocupar o Afeganistão, por causa do petróleo na região do Mar Cáspio e da construção do oleoduto e do gasoduto que por lá deviam passar.

Até três semanas após os ataques às torres do WTC não houve, nos Estados Unidos, discussão sobre os fatores que os determinaram. Entretanto, conforme comentou Rubens Barbosa embaixador do Brasil em Washington, em telegrama para o Itamaraty, em 3 de outubro de 2001, “por mais aberrantes que sejam os atos de violência extrema praticados contra os Estados Unidos, eles não se materializaram no vácuo, mas, ao contrário, nasceram em um contexto histórico, geográfico e sócio-cultural definível e, em boa parte definível”.

Usamah bin Ladin explicou esse contexto e as razões dos atentados, na ‘Letter to América’ publicada pelo jornal britânico Observer, em 22 de novembro de 2002. Como exemplo, ressaltou a tragédia do povo palestino, expulso de suas terras por Israel com o apoio dos Estados Unidos; a intervenção na Somália a pretexto de “ação humanitária”; a morte de 1,5 milhão de crianças como resultados das sanções aplicadas contra o Iraque pelas grandes potências ocidentais, desde 1990; e os bombardeios contra o povo do Afeganistão. E a carta bin Ladin terminou, dizendo que o destino dos americanos seria fugir do Afeganistão para tratar da “derrota militar, desaparecimento político, ruína ideológica e bancarrota económica”.

As conclusões  do relatório “Costs of War”, preparado por acadêmicos, participantes do Eisenhower Research Project do Watson Institute for International Studies, da Brown University, confirmam, de certo modo, a previsão de bin Ladin. As guerras no Afeganistão, Iraque e Paquistão, em dez anos, mataram 225.000 pessoas, incluindo homens e mulheres militares, mercenários (contractors), das empresas privadas militares, e civis. Só no Afeganistão foram mortos 137.000 civis, e mais 35.600 civis mortos no Paquistão. Até agosto de 2011 haviam morrido 5.998 soldados americanos, 43.184 foram declarados oficialmente feridos, no Afeganistão e no Iraque, e 54.592 requereram sair do teatro das Operations Enduring Freedom, Iraqi Freedom, New Dawn. por motivos médicos. E os custos financeiros situam-se entre US$ 3.2 e US$ 4 trilhões, incluindo assistência médica e auxílio aos que já estão ou estarão mutilados. Há muitos outros custos que não puderam ser quantificados, mas as guerras contra o terror, empreendidas pelos Estados Unidos, foram quase totalmente financiadas por empréstimos, juros de US$ 185 bilhões já pagos ou a pagar, e outro US$ 1 trilhão pode aumentar através de 2020. Somente o complexo industrial-militar recebeu os benefícios.


* LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA Cientista político e professor titular  (aposentado) da Universidade de Brasília (UnB), autor de vários livros e membro do Conselho Editorial da REA. Publicado originalmente no jornal A Tarde, em 11/09/2011.

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Um comentário sobre “10 anos de guerra contra o terror

  1. Prezado professor Luiz Alberto Moniz Bandeira,
    Ah! Se acontecer de conseguires descobrir um fiapo da verdade até poderás tentar alertar as pessoas; demolir, pela exposição, as bases dos que tramam nos bastidores. Mas, mesmo nesse caso, também não terás muito mais a fazer. Eles são poderosos demais, invulneráveis demais, invisíveis demais, espertos demais.

    Eu, não concordo com sua tese de 10 anos de guerra contra o terror SIM, Dez anos do golpe nos EUA Leia o porque… http://ondastesla.blogspot.com/2011/09/dez-anos-do-golpe-nos-eua.html
    Saudações,

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