A cidade no cinema

por RICARDO OLIVEIRA DE FREITAS*

MEDIANERAS – BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL, ganhador dos prêmios de Melhor Longa Estrangeiro, Melhor Diretor e Júri Popular no Festival de Gramado, é um filme de co-produção argentina, espanhola e alemã, dirigido pelo argentino Gustavo Taretto, que estreou neste mês de setembro nas salas brasileiras (antes mesmo de passar pela Argentina). Já no seu início, Medianeras deixa claro que tratará a desordem humana utilizando-se da desordem urbana como metáfora. Por isso, a cidade (nesse caso, Buenos Aires) e as aflições e desejos de boa parte das populações das metrópoles contemporâneas dão o tom à película, que, talvez, pelo fato de ser ambientada na capital portenha, muito nos faz lembrar as cenas da vida pós-moderna tratadas pela crítica cultural e literária argentina Beatriz Sarlo[1].

A cidade tem lugar especial no filme. Não à toa, o diretor faz menção ao clássico Manhattan, de Woody Allen, referência no conjunto de películas que têm cidades como cenários reais.

O estado da solidão na multidão, da solidão ao lado, típico do individualismo da vida urbana contemporânea, é subliminarmente resolvido pelo uso e abuso da Internet e da participação em redes sociais, que, se parece provocar o isolamento mais total e absoluto do sujeito (trancafiado entre quatro paredes em frente à tela do computador), paradoxalmente, abre as portas e janelas para o mundo, provocando um tipo de sociabilidade e comunidade global, tão bem pensada por investigadores da comunicação e da cultura, debruçados sobre novos modos de sociabilidade. Assim, o filme trata de personagens angustiados pelas pressões do mundo moderno, alimentados pelo desamparo do anonimato e pelo isolamento proporcionado pelas inovações eletrônicas que, antagonicamente, tanto promovem a comunhão da grande aldeia global contemporânea como promovem o declínio das relações face-a-face.

A comunicação enquanto fenômeno social tem, aliás, papel de destaque no filme, ao considerarmos a mídia, seus meios e recursos como importantes aliados na e da constituição dos modos de vida, das visões de mundo, do cotidiano das metrópoles contemporâneas.

Se a sinopse (e mesmo o subtítulo brasileiro) privilegia o encontro entre os dois personagens, através da assiduidade às redes sociais na Internet, é o livro impresso, com Onde está Wally?[2], que ocupará o papel principal na conclusão da trama.

Buenos Aires tem um lugar especial, desde o título escolhido pela tradução brasileira. Ruas, placas e dezenas de quadros que retratam fachadas de modernos e velhos prédios valorizam a arquitetura da capital argentina e todas as suas expressões de urbanidade e modernidade.

Entretanto, se é um filme com expressiva participação de tomadas de externas, são as tomadas internas que dão o tom à película, à base do uso de muitos tranquilizantes, que beiram as raias da hipocondria e salvam Martin, um dos personagens, das suas muitas fobias. Mariana, a outra personagem, fora o tabaco, tem menos opções de fuga, já que trabalha como vitrinista, tendo, assim, que encarar o turbilhão da movimentação da cidade, mesmo que os vidros das vitrines a protejam do mundo exterior  e lhe permitam fechar-se em um mundo próprio, que, aos moldes do mundo de Martin, flerta com a melancolia provocada pela solidão na multidão.

O psicanalista de Martin lhe indica saídas esporádicas pela cidade a fim de fotografar cenas da vida pós-moderna. A cidade estática e estética capturada pela lente da câmera é a cura para a sua fobia. Mariana, arquiteta recém-formada, vive constantemente em sintonia com a cidade e com o que esta pode oferecer em termos arquitetônicos e urbanísticos. Mas, não por acaso, é no prédio do Planetário da Cidade e no interior deste, durante uma sessão de projeção, que Mariana mais se sente confortável e ligada à cidade. O além-da-cidade é a sua cura. Fora o espaço sideral, Mariana encontra outro ponto de fuga do turbilhão da cidade na água, através de aulas de natação. Martin também acredita que a natação é curativa. Mas, para ele, é difícil chegar ao clube.

Além de Martin e Mariana, poucos são os personagens que compõem a trama. Aí reside outro ganho do filme: mesmo com pequeno número de personagens, Medianeras não permite distração, já que os diálogos ágeis e sarcásticos alimentam a atenção do espectador do começo ao fim, dando um dinamismo mais que especial à fita. O roteiro, apesar de sequencial e previsível, é interessante e dá a leveza certa ao filme, prendendo o espectador mesmo em cenas em que o interior de pequenas quitinetes (ou “caixas de sapatos”, como preferem os portenhos) é cenário. A fotografia é muito bem realizada, através de enquadramentos de fachadas de prédios, campainhas, painéis de elevadores, que dizem tratar-se, este, de um filme sobre metrópole. A trilha é bem escolhida e poupa-nos de qualquer bairrismo às formas de latinidade ao eleger o pop norte-americano como regra. Às vezes, parece exagerar no tom, já que a trilha nada diz da moderna música argentina. Entretanto, ao encontrarmos uma personagem argentina que se recusa a falar em espanhol, preferindo falar em francês ou alemão, ou outra personagem que vê na saída para os Estados Unidos a possiblidade de “se encontrar”, a trilha excessivamente norte-americana parece plausível.

Como é um filme em homenagem à arquitetura, as cenas que jogam com a mistura entre imagem em movimento, enquadramento de croquis e panfletos imobiliários, planos fechados em imagens quase estáticas de prédios, soam muito bem. A geometria e o desenho dos prédios são importantes aliados do acerto na escolha das imagens, dando ponto positivo para a fotografia. O desenho parace ter um lugar especial dentro da película, já que a animação tem um lugar especial no filme desde o seu início. Alías, as cenas em que as imagens estáticas dão fade para as animações (e vice-versa) são escolhas acertadas. O grafismo está presente nas telas dos Macs, no livro impresso que desvirtua o amor virtual do subtítulo brasileiro, nas faixas das vitrines, nos tapumes das obras do Teatro Colón, nos anúncios imobiliários, nas pichações e intervenções gráficas que compõem a cidade, nos recursos do software iPhoto e, sobretudo, nas laterais maltratadas dos grandes arranha-céus (medianeras), através dos enormes outdoors que dão cara à metrópole. É entre dois desses grandes painéis que os personagens têm as suas janelas; nas laterais medianeras de dois velhos arranha-céus. As janelas, abertas sem nenhum respeito às convenções de ordem pública e urbana, fazem com que os personagens tenham seus vãos no meio de dois grandes outdoors. Mariana, na ponta de uma grande seta. Martin, no meio da parte frontal de uma sunga masculina que anuncia famosa marca de underwear. Seus prédios estão face a face. Mas, a mídia (com seus enormes cartazes) não permite que se vejam na relação face-a-face, mesmo que permita-lhes o encontro pela tela e teclado do computador. Vivem, pois, num meio-lugar medianero.

Se são muitos os desencontros que permeiam o dia a dia dos dois personagens, há um tanto de semelhanças que os levam a lugares comuns. O clube de natação é um destes lugares. Na piscina abarrotada de alunos Mariana descobre que “a vida saudável é estressante”. Talvez por isso, chegar à psicina seja uma das fobias de Martin, que, como já dito, se inscrevera pela enésima vez em um clube. A pisicina que junta, separa. A cidade que junta, separa. A Internet que junta, separa. A Internet que separa, junta. Tudo isso, num desenrolar sucessivo de junções e separações. Mesmo o pequeno cão de Martin, não menos fóbico que seu dono, teima em se separar da matilha conduzida por uma passeadora. Como seu dono, prefere a solidão às multidões, mesmo caninas. Um outro cão, não menos solitário, se joga da varanda de um velho prédio; o que mostra que a liberdade tem seu preço no mundo moderno. Para variar, o frio do inverno portenho não os ajuda a serem livres. A cidade é fria, como são frios os bonecos manequins que ocupam  o apartamento de Mariana e as suas vitrines. Na intencionalidade entre frio e quente, o diretor opta por marcar o seu roteiro através das estações climáticas do ano, que determinam o tempo do filme e o humor dos seus personagens.

Como previsível, a primavera chega e, com ela, a possível felicidade. Entretanto, Medianeras faz isso com tanta jovialidade e leveza, que mesmo o previsto torna-se desconfigurado no filme. Em meio a tanto concreto, fazer um filme leve é o grande mérito do diretor. O exemplo reside no fato de que, mesmo sendo um filme sobre angústia, Medianeras é nada angustiante, tendo, merecidamente, recebido críticas bastante positivas e elogiosas da imprensa brasileira. Vale conferir!

Ficha técnica: Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual
Título original: Medianeras
País de produção: Argentina, Espanha e Alemanha
Ano: 2011
Direção: Gustavo Taretto
Distribuição: Imovision
Duração: 95 min.


* RICARDO OLIVEIRA DE FREITAS é Professor adjunto da UNEB e Doutor em Comunicação e Cultura/UFRJ. Blog: http://polomidiativa.blogspot.com/

[1] SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. 1997.

[2] HAMDFORD, Martin. Where’s Wally? Sumerville: Candlewick Press. 1987.

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