Uma Avenida chamada Brasília Formosa

por RICARDO OLIVEIRA DE FREITAS*

O título Avenida Brasília Formosa muito lembra o título Uma Avenida Chamada Brasil.  Ambos têm em comum o fato de serem filmes que tomam o cotidiano de bairros periféricos e de seus moradores como tema. Fora isso, nada mais é comum. Nem mesmo a extensão das suas avenidas. Se, em Uma Avenida Chamada Brasil, o cenário é a maior avenida carioca, que tem início em um bairro portuário e, logo, atravessará mais que uma dezenas de bairros suburbanos; em Avenida Brasília Formosa a extensão restringe-se à comunidade de Brasília Teimosa, localizada na extremidade do bairro mais nobre do Recife, o Boa Viagem.

cena do filme

Além disso, a primeira produção estreou num momento em que o Brasil retomava a democracia, aprovando a nova Constituição, após três décadas de governo ditatorial (1988). Com o país afundado em dívidas, seríamos obrigados a  conviver com uma inflação galopante e com uma incessante troca de moedas. Nada disso se aproxima do Brasil retratado por Avenida Brasília Formosa. Produzido em 2010, o documentário apresenta o Brasil do futuro, o país que “deu certo”, com economia estabilizada e expressivo aumento de poder aquisitivo das classes populares.

Em plena gestão do governo Lula, um dos personagens registra a visita feita pelo ex-presidente à comunidade, em 2004, com a promessa de extinguir as antigas palafitas e construir casas populares para abrigar os removidos pela urbanização da nova orla na capital pernambucana. Promessa cumprida, o filme se passa em momento posterior à visita. De todo modo, a realidade ali tratada é resultado do desenrolar de tal visita, que, em nome do progresso e do desenvolvimento, mandou o pescador Pirambu para bem longe do mar.

São quatro os personagens do filme. Pirambu (o pescador removido), Fábio (garçom, cinegrafista e bailarino evangélico), Débora (manicure e candidata ao BBB) e Cauã (um pequeno morador da comunidade). Os quatro personagens nada têm em comum, exceto o fato de terem em Brasília Teimosa o lugar para exercício das suas subjetividades.  Atento a isso, o diretor tece uma rede de modos de sociabilidade, que culminará com o encontro dos quatro personagens até o final da fita — momento em que é exaltado o sentimento de pertencimento cultural e identitário, determinante para a fomentação daquilo a que tratamos por comunidade, sem, contudo, cair no reducionismo das clássicas representações sobre o Outro periférico, tão recorrentes na produção audiovisual brasileira (e mesmo estrangeira) dos últimos dez anos.

Esse seria, pois, o mote para o filme: retratar a singularidade dos integrantes de uma comunidade proletária, sem que seja privilegiada uma visão universalizante, hegemônica, dos moradores dessas áreas. Para tanto, o diretor opta por registrar, pura e simplesmente, o cotidiano de três atuais moradores e de um ex-morador removido, apresentando ao espectador a periferia próxima (Brasília Teimosa) e a periferia distante (Conjunto Residencial), em termos físicos e geográficos — ambas, absolutamente distanciadas, em termos simbólicos e representacionais, da quase totalidade de integrantes das camadas privilegiadas do Recife, do Brasil.

O Brasil promissor do governo Lula é apresentado através de imagens que retratam a velha comunidade e o novo conjunto, a partir dos anseios atualizados no dia a dia dos seus moradores e ex-moradores (removidos), cerceados por toda a sorte de tecnologia — o que contribuirá, eficazmente, para a boa imagem da aceleração econômica e para um retrato positivo das políticas para redução da desigualdade social no Brasil.

A tecnologia aperfeiçoada pelo uso popular aparece em diversas cenas do filme: no computador, no videocassete, na barata filmadora e na defasada televisão de Fábio; nas máquinas de fliperama nas quais Cauã passa as suas tardes; na jukebox que toca o brega nas biroscas da favela; nos recursos caseiros das edições de vídeos de Fábio; nas máquinas de pump it up nas quais o mesmo Fábio dança o seu jogo; nas radiolas e bicicletas de som que tanto tocam o brega como anunciam mortes marcadas pela violência do lugar ou uma futura reunião na associação de moradores.

Nesses termos, o audiovisual tem papel de destaque. O momento em que Fábio verifica a fita de VHS com o registro da visita do ex-presidente, através de constantes avanços (forward) no tape, remete o espectador à noção de filme dentro do filme.  A captura de imagens para a produção dos vídeos de Fábio (tanto da festa de aniversário de Cauã como do videobook que Débora enviará para a produção do BBB) provoca a mesma sensação. O jogo é importante, pois permite ao espectador reconhecer o lugar da autoria, por parte de personagens reais, mas que também são atores, já que entre realidade e ficção, há espaço para o personagem-ator e, por que não dizer, autor.  Talvez por isso, o diretor, Gabriel Mascaro, prefira pensar seu filme como ficção — e não como documentário; mesmo que seja esta a classificação dada ao filme nas sinopses da imprensa especializada.

Há, ainda, lugar para que entendamos o modo como são elaborados projetos urbanísticos no Brasil atrelados à remoção para localidades longínquas dos locais contemplados — o que promove certo tipo de apagamento e invisibilidade sobre os  removidos sabidamente indesejados. No filme, isso pode ser visto na fala de morador que diz que “vão morar tudo num conjunto de prédios, lá no meio do mato, do outro lado da cidade” (sic.) ou, ainda, nas imagens que acompanham o duro deslocamento de bicicleta do pescador removido pela madrugada recifense, desde o conjunto habitacional até o seu barco, ancorado no porto de Brasília Teimosa.  A conversa entre o pescador e um amigo, já no barco, sobre a possiblidade de vender o imóvel doado pelo governo e comprar um novo barraco na antiga favela, chama atenção para a criação de um submercado imobiliário, que, às raias da oficialidade da remoção, tem sido corriqueiramente elaborado por esse Brasil afora.  Como uma personagem diz: “isso aqui não é mais favela, mesmo que seja um puteiro” (sic.).

Desse modo, o documentário Avenida Brasília Formosa, se, num primeiro momento pode ser associado ao conjunto de filmes que positivam as duas gestões do governo Lula, logo deixa claro que não é um filme panfletário, partidário, mesmo que não menos político.  A fotografia honesta mostra que a ocupação desrespeitosa do espaço urbano  recifense por grandiosos arranha-céus não é menos agressiva que a convivência com as antigas palafitas.  O roteiro pode nos dizer que a excessiva carga horária de trabalho do polivalente Fábio, se alimenta a economia informal brasileira, contribui para a redução da expectativa de vida de milhões de trabalhadores. O áudio aberto, que teima em captar o som das ruas, mostra que a possível alegria concretizada pela presença musical é desacreditada pelo quase linchamento de um morador, que faz o conjunto residencial parecer um “formigueiro” de gente que vem de “não sei onde” (sic.).

Pelo fato de não “tomar partido” sobre os erros e acertos dos projetos sociais do governo Lula, Avenida Brasília Formosa tem recebido algumas críticas negativas.  As críticas referem-se ao fato de que os personagens não têm lugar para tecerem considerações acerca da remodelação urbanística ou exponham os seus problemas e prioridades, no que Avenida Brasília Formosa opta por realizar um tracejo poético (e não crítico) sobre a vida nos dois lugares — a favela e conjunto habitacional.

Mesmo tendo sido produzido por alguém de fora da comunidade, a opção pela ausência do texto e voz em off, marcando a edição das cenas, o roteiro e a continuidade, dá um tom de cinema autóctone ao filme. Aliás, aproveitando o artigo recentemente publicado por Antônio Ozaí sobre cinema na periferia, aqui mesmo neste blog, Avenida Brasília Formosa engrossa o conjunto de títulos que têm a periferia e seus habitantes como tema.  A diferença é que mesmo não sendo cinema autóctone, cinema da periferia (afinal, Avenida Brasília Formosa é cinema na e sobre a periferia), no que utiliza-se, de modo recorrente, das imagens de Fábio como norteadoras do enredo (num tipo de metanarrativa), parece que assistimos a uma produção que fala desde dentro sobre dentro em oposição às recorrentes produções de fora sobre dentro para fora.  Nesse sentido, assemelha-se à lógica da autorrepresentação em oposição aos inúmeros títulos que, como representações atribuídas, quase sempre caem nas armadilhas dos clichês e estereótipos.

Avenida Brasília Formosa estreou nesse final de semana nas salas de diversas cidades brasileiras.  O filme (certo, o filme documentário) foi selecionado para representar o Brasil, junto com três outros filmes, no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, em 2010. Também foi selecionado para compor o DOCTV IV. Vale pela alegre perseverança dos personagens-moradores de Brasília Teimosa, que, como tantos brasileiros,  a partir da periferia, dão um tom, mais que especial, às cores do Brasil.

Ficha Técnica
Título: Avenida Brasília Formosa
Duração: 85 minutos
Ano: 2010
Autor e Diretor: Gabriel Mascaro
Co-produção: Gabriel Mascaro | Plano Nove Produções | TV Universitária de Pernambuco | ABEPEC – Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais
Distribuição: Figa Filmes


* RICARDO OLIVEIRA DE FREITAS é Professor Adjunto – UNEB. Doutor em Comunicação e Cultura – UFRJ.

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2 comentários sobre “Uma Avenida chamada Brasília Formosa

  1. Anna,
    Imagino bem o que esta remoção provocou na vida dos antigos moradores. Assista ao filme. Você se sentirá bastante familiarizada. Vivi no Recife entre 2000 e 2001. me lembro que ia a um bar dentro da comunidade, chamado Biruta. Revi o tal bar no filme. É lá que trabalha o morador-personagem Fábio. Achei a comunidade sem parte do seu casario – e já com a nova avenida – estranha, triste. Essa coisa do urbano empobrecido parece ser mais dolorosa que a lúdico interiorano das pequenas comunidades na cidade. Fica tudo muito “modernoso”, mas pouco “habitável”. Bem, o filme vale pelas questões que falou acima. Abs. Ricardo.

  2. Ainda não vi o filme mas gostei de ler seu comentário. Sou testemunha da criação do “bairro” Brasília Teimosa, na década de 60, a mesma da construção da Capital Federal. O povo erguia os barracos durante a noite e, durante o dia, a polícia, por ordem do governo, derrubava tudo. O povo acabou vencendo na teimosia. Daí o nome. Agora, na década de 80, com a derrubada das palafitas, o que mais vemos são “Pirambus” tristes, distantes da sua Colônia de Pescadores onde viviam, trabalhavam e eram felizes. Os conjuntos habitacionais são bonitos mas ficam do outro lado da cidade, em bairros distantes. E os pescadores estão sendo obrigados a aprender a arte do comércio e acabam vendendo, junto com frutas e verduras, alguns tipos de drogas. E a tristeza e a saudade da felicidade antiga acabam por levá-los ao alcoolismo. A avenida ficou formosa mas a comunidade entristeceu. É uma pena.

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