Sociedade sem graça

por JOSÉ DE SOUZA MARTINS*

 

A variedade e a frequência da violência que nos assombra constitui indício de profundas e alarmantes mudanças sociais fora de controle: pais que matam filhos, filhos que matam pais, netos que matam avôs, bebês que são jogados no lixo, bêbados que dirigem carros em alta velocidade e matam. E mesmo humoristas que querem fazer rir à custa do desrespeito e do menosprezo pelo outro. A sociedade está ficando sem graça. Só há graça na reciprocidade de valores sociais em contraposição à tentação de conveniências pessoais. Nossa tradição de humor é de raiz conservadora e se baseia, sobretudo, em fazer rir das contradições próprias das insuficiências da nossa modernidade, do imitar sem ser ou do ser sem saber. Daí que o caipira seja o nosso sujeito crítico por excelência e nosso insuperável personagem de humor.

J. S. Martins (2011)

A sociedade dos incalculáveis ganhos econômicos tornou-se a sociedade das incalculáveis perdas morais. Falta uma bolsa de valores sociais, que meça diariamente quanto perdemos de nós mesmos, de nossa dignidade, de nossa auto-estima, da estima e do respeito pelo outro. A sociedade do pendão da esperança está se transformando na sociedade da desesperança e do ceticismo.

Já há uma rotina de notícias sobre pessoas embriagadas que, dirigindo carro, atropelam, machucam e matam. Vamos nos acostumando, que é o pior sinal da complacência e da rendição incondicional à banalização da vida. Assassinos do volante foram soltos até antes que suas vítimas fossem enterradas. Edson Roberto Domingues, 55 anos, trabalhador, negro, chefe de família, teve 90% do corpo queimado quando seu caminhãozinho foi batido, e pegou fogo, pelo carro Camaro, importado, de R$ 165 mil, dirigido por um jovem embriagado, em disparada, que feriu quatro outras pessoas. Naquela rua a velocidade máxima é de 60 km por hora, que Edson Roberto respeitava. Foi vitimado por um bêbado irresponsável que corria a 116 km hora. Mediante fiança de R$ 245 mil, o autor da violência foi solto 24 horas antes da morte de sua vítima e dois dias antes que a família a enterrasse no Cemitério da Lapa.

O respeitador da lei foi irremediavelmente punido, como se fosse o culpado; o violador da lei passou umas horas na cadeia e está livre, como se fosse vítima. O assassino vai ser julgado por homicídio doloso, mas o STF já tem decisão sobre outro caso do mesmo gênero, de 2002, em que o dolo é questionado. Como observou um especialista, uma pena que deveria ser de 20 anos de prisão acaba sendo, no máximo, de 4 anos e até trocada por cestas básicas para os pobres. Quando o dinheiro pode pagar por aquilo que não tem preço, quando vida e moeda se equivalem, já significa que nessa equivalência a condição humana se perdeu. O abrandamento do Código de Processo Penal, para casos assim, vai na mesma direção.

História igual ao do dono do Porsche de R$ 600 mil que abalroou e destruiu o carro dirigido por uma moça, matando-a. Salvo por um bombeiro, ele saiu dos escombros de seu carro preocupado unicamente com os danos ao seu veículo. Nossa alma foi mercantilizada no egoísmo da equivalência mercantil do que não é equivalente ou não deveria ser.

Os longos anos de ditadura, de falta de liberdade e de direitos, deram lugar a uma sociedade que se embriaga na falsa concepção de que a liberdade só existe no abuso da liberdade sem freios, sem regras, sem respeito pela liberdade do outro. De que o direito só o é no abuso do direito sem a contrapartida de um código de deveres, os do respeito pelo direito do outro. A democratização corre o risco de se tornar uma farsa na anomia que desagrega, na falta de normas decorrentes de valores sociais de referência. Esses casos sugerem que os valores estão invertidos, pervertidos.

O eixo do nosso senso de justiça vem se deslocando do que por longo tempo definiu os valores sociais e regulou o comportamento das pessoas, a sociedade valorizada como todo. A sociedade tinha a primazia na definição do certo e do errado, do bem e do mal. É verdade que a vara de marmelo teve uma função histórica na formação do caráter do brasileiro, até a geração de nossos pais e avós. O Brasil venceu essa fase repressiva e descabida e começou a formar seus filhos na brandura da compreensão, na honestidade pedagógica de falar, mas de também ouvir.

Mas essa revolução de perspectiva não levou em conta os trânsfugas da educação tradicional e da moderna, os que confundiram liberdade com abuso, direito com prepotência, democracia com impunidade. Chegamos ao tempo cinzento das novas iniquidades, o do direito torto, da lei capciosa, da lei de Gerson, do individualismo exacerbado, da solidão que cega. Em larga extensão, a sociedade brasileira está matando o outro e o sentido da alteridade e da reciprocidade. “Deus é brasileiro” foi frase comum na boca de todos durante um longo tempo de nossa história. Mas Deus morre todos os dias não só nos atos dos que a si mesmos se supõem deuses; também nas várias modalidades de aniquilamento do semelhante.


* JOSÉ DE SOUZA MARTINS é sociólogo e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Dentre outros livros, autor de A Política do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto, 2011) e Uma Arqueologia da Memória SocialAutobiografia de um moleque de fábrica, (Ateliê Editorial), 2011.Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Aliás, A Semana Revista], Domingo, 9 de outubro de 2011, p. J6.

Anúncios

12 comentários sobre “Sociedade sem graça

  1. Acredito que não podemos fugir de certas fases da história.
    Assim como houve o renascimento e o iluminismo, tivemos o obscurantismo; vivemos o comunismo e o capitalismo; catolicismo e o protestantismo, assim como o judaismo e o politeísmo; espiritismo e budismo, monarquia e república, enfim, o ser humano vive momentos, e estamos passando por um período de grande turbulência, de confusão ímpar.
    A começar que as nossas autoridades, civis, militares e eclesiásticas, não nos dão mais exemplos de credibilidade, que enaltecem uma sociedade devidamente constituída; as famílias estão se resumindo em simples exercício de sobrevivência, tanto social (a ascendência de um membro à profissão liberal ou concurso público) quanto à alimentação (ganhar o suficiente para comer), isso quando não perdem a sua própria identidade com o pai ou a mãe abandonando os seus filhos e tentando uma sobrevida com outra pessoa.
    Perdemos as referências; a vida se transformou em uma busca incessante pelo ter, e esquecemo-nos em ser.
    A bem da verdade não somos nada. Imaginamos, apenas.
    Basta que um maluco porte uma arma e saia atirando a êsmo para que nos demos conta da fragilidade estrutural que sustenta a sociedade.
    Assim é um governo que deixa de lado as aspirações do povo.
    Igualmente no aspecto espiritual, com as religiões concorrendo entre si em busca de “clientes” e não de seguidores.
    Os nossos políticos, por exemplo, que hoje servem como modelo de corrupção, incapacidade e ineficiência, mas que são os nossos representantes, eleitos por nós, lamentavelmente.
    Então a sociedade é esta?
    Desonesta, corrupta, interesseira, carreirista, demogoga, sectarista?
    A mídia brasileira nos dá o quê?
    As televisões com suas novelas são verdadeiras odes ao desmanche familiar; cospem em valores éticos e morais; a família constituída (pai, mãe e filhos) sequer é mencionada.
    Vence aquele que é mais safado, esperto, que ludibriou a tudo e todos.
    Aprendemos que levar vantagem é fundamental; que não precisamos fazer concursos para obter uma vaga no serviço público, basta ser amigo de algum político.
    O povo foi amordaçado, e não temos mais líderes populares, e sim populistas.
    Nossos mestres se retiraram do debate, pois ganham pouco; alunos os agridem física e moralmente, e seus pais acham normal.
    Como deve ser aceito na meio familiar o pai que trai a mãe e esta o pai; que os filhos não mais os obedeçam, haja vista que a psicologia recomenda o diálogo, mas esquece de mencionar que os pais não têm preparo para esta metodologia, então, o que se vê, é uma demonstração de má educação galopante, assustadora, e genitores omissos.
    Sim, estamos vivendo um período obscuro, que eu também não sei onde vamos parar.
    A maioria das pessoas diz que não devemos confiar em ninguém; mas depositamos os nossos votos para os sabidamente traidores da pátria, os que nos roubam e assaltam os cofres do país!
    Acredito, no entanto, em uma reviravolta, ou seja, quando esta situação estiver em pleno caos, até porque vai ser impossível viver sem uma ordem estabelecida.
    Mas não á força, não à base de ditadura, que seria outra desordem constitucional, mas uma definição que parta das famílias novamente, a tal célula do país, em outras palavras, deveremos vir de dentro para fora.

  2. AO RICARDO RICO.

    Eu arrisco mais alguma coisinha sobre isso que você disse. O que me parece é que boa parte dessa ideologia cruel e tosca a que o autor se refere tem um cunho imperial, de ideologia imperial, oriunda do Império Gringo mesmo. Então, a esta altura do século, já podemos considerar o que seria a queda do Império em termos ideológicos, o abalo seria grande. Veja, por exemplo, aquela figura a quem o autor indiretamente se refere, o tal de Rafael Bastos. É o riquinho americanalhado em pessoa: playboyzinho bonito, estudao nos EUA, comunicadpr ichiperrrrrrrrrto, que diz, em tom triunfante: “Não sou trouxa, meu negócio é grana, eu estou onde o dinheiro está”. Agora, meu velho, falando de um modo meio besta, eu tenho FÉ, e FÉ é um negócio forte. Os meus votos são os de que nós dois viveremos o bastante para viver uma reviravolta desses paradigmas ideológicos, por alguns motivos que podemos discutir aqui. Este seria um momento maravilhoso, diga lá.

  3. AO HAMILTON.

    É isso aí, pode ser mudada e é asim que se fala! Mas pra isso nós vamos precisar de um movimento meio renascentista, de ideias, invenções e novidades, sem corporativismo de espécie nenhuma e sempre com autocrítica, no seio da escola pública, o que será um bocado difícil. Mas toda esta situação apontada pelo autor do artigo está de amargar, a impressão que se tem é a de que a nossa gente está se imbecilizando. Prestes teria tido, semanas antes da morte, segundo me contou um camarada seu, da antiga UBRASUS: “Vou morrer triste, vendo como vejo o nosso povo aí, se americanalhando”.

  4. Infelizmente os promotores desse caos são as próprias instituições que compõem a sociedade civil, que indicam um caminho no discurso, porém, perverte-o totalmente na prática. O que chamam de “ser ético” ou de “politicamente correto” é o discuso sustentado por parte daquela pessoa ou instituição que detém o poder ou controle ideológico sobre aqueles que tem que se submeter a isso, seja pela coerção física, ideológica ou financeira… em outras palavras, ser ético ou politicamente correto é aquilo que convém ao indivíduo ou à instituição quando lhe beneficia, quando não lhe beneficia (mesmo que o não benefício seja em nome da verdade e da justiça), isso torna-se anti-ético, subversivo e desprezível. Cito como exemplo o que vemos na área da educação básica nas escolas (particulares ou do Estado), assim como nas instituições religiosas, através do mercado religioso de bens de consumo do “sagrado”. As pessoas não veem na prática perspectivas de um horizonte que não passe pela corrupção, uma vez que, infelizmente, não é pelo mérito do estudo ou dos princípios de caráter que se chega em algum lugar, mas, na prática, pelo beneficiamento e valorização do erro que se dissemina através de barganhas. Quem está disposto a pagar o preço pelos princípios e pela verdade na perspectiva do humano, do bem comum? As instituições? Os indivíduos? Vislumbro um futuro próximo negro, muito negro pela frente…

  5. Caro Martins,

    Você tocou em um ponto crucial nos dias de hoje: a insensibilidade com o outro. Vivemos de forma louca, como se o tempo quisesse nos devorar. Estamos sempre com pressa, como o coelho na história de Alice. Passamos de um período de onde era quase tudo proibido para um fase de licenciosidade enorme. Somos reféns de nossos desejos, inimigos dos valores religiosos, consumidores de bens supérfluos, enfim um tempo de enorme falta de vontade de mudar a nossa própria vida. Vida esta em busca de sentido mais profundos.
    Em verdade, nossa sociedade materialista, embasada no dinheiro valor, deve ser transformada por ações pequenas mas pontuais. Um bom dia no ônibus, um por favor antes de de um pedido, uma solicitação de agradecimento aos que nos servem. Aliás, um personalidade religiosa já dizia, “Quem não vive para servir, não serve para viver”. Que façamos a nossa contribuição pessoal e coletiva de forma consciente.

  6. Seria a falência da democracia?Com certeza.Seriam os sintomas da derrocada do liberalismo?Não sou nenhum “dotô”,não tenho doutorado e essa falta de título(sic) me encoraja a afirmar que esse estado de coisas da pós-modernidade etc.,dialeticamente,mostra suas perversidade e inutilidade – não que eu conceba os doutores covardes,mas ironia é melhor que a verdade crua e pelada.

    Adeus capitalismo!!!

  7. Não é uma questão de fé religiosa: basta apenas considerar que se a dor e a angústia geradas pelo impedimento ao acesso às necesidades mais básicas geram reações de violência entre outros animais que dizer de nós, irremediavelmente imersos numa estrutura social cada vez mais confusa, injusta, contraditória e doente?

  8. Apesar de compartilhar a indignação, não poderia deixar de observar a confusão que se vem fazendo entre o instituto da fiança e impunidade. O arbitramento e pagamento de fiança pelo acusado de infração penal só determina sua liberdade condicional durante o tempo do processo criminal. Ao fim do processo poderá ser prolatada uma sentença condenatória que obrigará o autor do crime (dependendo do crime) a cumprir sua pena privativa de liberdade. Isso é garantia de aplicação da lei penal em um Estado de Direito. Não é a polícia que prende e sim a justiça. Se o sistema vem funcionando bem no Brasil, é outra história.

  9. Caro amigo José de Souza Martins e Antônio Ozaí da Silva
    A sociedade constrangida assiste diariamente os horrores causados pela violência gratuita, marcados por uma índole que não é própria do ser humano, e sim da besta.
    A sociedade jurídica já comenta e discute um novo direito para essa besta, o direito penal do inimigo. Sim , deve ser reservado ao inimigo da pátria, da moral e dos bons costumes, um tipo penal que caracterize a sua alta periculosidade, e não pelo fato em si, mas pela sua alta periculosidade ele deve pagar uma pena muito mais rigorosa, a começar da perda dos seus direitos políticos, e diminuição dos seus direitos de recluso, pois, agindo como uma besta, não podemos admitir que ele tenha os mesmos direitos daquele celerado que comete crimes, mas, respeita os limites dentro do estado democrático de direito. É inadmissível, um terrorista por exemplo, ser julgado por um tribunal cujas leis são as mesmas para ele como para um jovem que furtou, ou um que matou em legítima defesa. Para o terrorista não há limites, não há barreiras de leis do estado que o intimide, que o faz pensar e frear sua má índole, sua alta periculosidade.
    Em fim, aos criminosos de colarinho branco, que levam o dinheiro público, e aqueles criminosos de alta periculosidade, que não respeitam a lei e a ordem ditada por uma constituição, a esses deve-se aplicar uma pena rigorosa, a começar com a perda de todos os seus direitos, uma vez que esse tipo de criminoso de alta periculosidade, não reconhece nenhuma lei, que não seja a de destruição até de si próprio.
    Aproveitem e leiam no GOOGLE , O direito penal do inimigo, autor Gunter Jackobs.

  10. É verdade. Muito melhor vivemos na época da ditadura.
    Havia respeito. Todos nós estudávamos para aprender e ser importante na história.
    Todos nós nos divertíamos indo a praia, nas lindas manhãs de sol,
    Nas matinês dos espaços culturais,
    As pessoas tinham mais sentido cristãos,
    Iam mais as Igrejas, professavam mais sua fé.
    A solidariedade era mais presente.
    Hoje, a sociedade é voltada para valores monetários.
    O próximo ficou distante e sem valor presente na vida cristã.
    Assim, a vida tornou-se mais isolada.
    E o “santo quieto é bom santo”.
    Chegou a vez de cada um por si.
    Só quando entram em dificuldades é que pensam nos amigos de ontem.
    Prefiro viver minha PAZ com meu DEUS.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s