Homem-Aranha Christus

por ALEXANDER MARTINS VIANNA*

 

Ao final do ensaio postado aqui em 14 de setembro de 2011, falei que gostaria de analisar filmes norte-americanos com temática sobrenatural ou de super-heróis que buscam captar, expressar ou propor a necessidade de crer. Escolhi, como recorte temporal, trabalhar com a virada, politicamente crítica, entre o segundo governo Bush e o governo Obama (2004-2010), quando os temas da esperança, do auto-sacrifício e da eleição, em chave cultural protestante, surgem na figuração e caracterização de protagonistas (extra)ordinários.

Considerando este propósito, gostaria de começar esta sequência temática com o filme norte-americano Homem-Aranha 2 (2004). Não gostaria aqui de ficar tecendo longa narrativa analítica sobre a dimensão verbal do filme, mas simplesmente destacar algumas ideias-chave para, em seguida, demonstrar como se manifestam em plano imagético.

No enredo do filme, Peter Parker está dividido entre a possibilidade de ter uma vida ordinária de homem apaixonado por sua amada, Mary Jane, e a vida/missão extraordinária de servir ao bem público com seus superpoderes. Até aqui, o cliché do super-herói protestante não tem nada de original: “doar seu dom” (“cumprir o seu destino heroico público”) ou ocultá-lo, em nome da paz de uma vida doméstica suburbana ou de vilarejo – lugares-emblema de virtudes morais postos em contraponto aos centros metropolitanos.

Este tipo de indecisão geralmente se resolve com algum evento que atinge a vida doméstica do herói, demonstrando, através de seu próprio sofrimento particular, a relevância de emprestar para o bem público a sua persona extraordinária. Esta pessoa extraordinária é geralmente conformista, pois não questiona a ordem social, as estruturas de poder e, preferencialmente, atua para evitar dano à propriedade e à pessoa, independentemente de origem social. Por outro lado, por ter poderes extraordinários, o seu limite é geralmente um autolimite, uma autocontenção advinda do autoexame da consciência, desenvolvida ou despertada por meio da socialização num núcleo de “excelência moral” localizado na classe média branca.

Se tudo o que disse até aqui serve apenas para evidenciar que a teleologia moral do herói auto-sacrificial em Homem-Aranha 2 não tem originalidade nenhuma e segue uma tradição temática já canônica, chama-me a atenção, por outro lado, o modo como o filme associa som, imagem, figurino, caracterização e performance para enfatizar em Peter Parker a figuração de um Cristo alternativo para jovens da pop culture norte-americana. Tal figuração está presente em toda a teleologia moral do filme, mas há cenas e enquadramentos em que o apelo à imagem-canônica de Cristo fica muito evidenciado. Entre as várias possibilidades cênicas a destacar, acho muito eloquente a sequência do resgate multirracial do metrô desgovernado.

Em sua confrontação com o ciborguizado cientista – que é destituído de consciência (autocontenção) e do senso de bem-comum quando os braços serpentóides biônicos de I.A. (um emblema prometeico de vaidade intelectual) passam a dominar o seu cerebelo/alma –, Peter Parker é ferido no tórax de tal forma que fica com marcas que alegorizam as chagas de Cristo. Os enquadramentos cênicos várias vezes conduzem nosso olhar para estas feridas.

Além disso, quando Peter tenta segurar o metrô, a ação e o enquadramento são feitos de modo que simulam visualmente a crucifixão. O êxito que ele tem em salvar as pessoas (entre elas, uma jovem mãe com criança no colo, várias vezes enfatizada pela câmera como vínculo de empatia) é seguido pelo seu (des)falecimento. Quando parece que vai “cair da cruz”, Peter é amparado por duas mãos colocadas sobre seu peito, cujo primeiro enquadramento provoca uma sinédoque que demonstra serem as mãos de um homem negro e um homem branco, na faixa dos trinta anos.

A “descida da cruz” é feita com uma alteração da temporalidade cênica, possibilitada pela mudança da trilha sonora e da velocidade dos eventos, o que provoca um novo pathos emocional. Assim, justamente depois da salvação, o tempo transcorre mais lento, a música convida à empatia e reflexão, enquanto Peter é “descido da cruz” e erguido sobre as cabeças por várias mãos (de diversas cores, origens, idade e gênero). Antes de ser colocado no chão, os enquadramentos (lateral e aéreo) desta cena o fazem deslizar sobre as cabeças com os braços estendidos em cruz, tal como um Cristo/Cruz em procissão. A temporalidade desta sequencia cênica é tão eficaz para criar contraste com a cena de confrontação com o “mal prometeico” que até nos esquecemos da ameaça ciborgue. Esta temporalidade sacrificial cristológica é subitamente interrompida pela entrada no vagão do cientista-ciborgue (e sua trilha sonora).

Tal como afirmaria tia May para Peter, a necessidade de crer no exemplo sacrificial do super-herói cristológico protestante como alguém que deve inspirar o “bem/caritas cristã”, ou “despertar a semente da graça”, confirma-se na atitude das pessoas eleitas para a salvação, no metrô, independentemente de seus méritos pessoais: quando a ameaça ciborgue irrompe para levar Peter, todas as pessoas do metrô colocam-se entre o mal prometeico e seu salvador, mostrando-se dispostas a sacrificarem-se por ele. Assim, toda a função moral do ciclo exemplar da paixão de Cristo é rememorada e condensada com grande eficácia emocional no complexo verbal-imagético-sonoro-performático do filme Homem-Aranha 2.

No próximo ensaio, gostaria de explorar a relação estereotípica entre código racial, código social, código religioso e código de gênero no filme Hancock (2008).


Ficha técnica

Título original: (Spider-Man 2)
Lançamento: 2004 (EUA)
Direção: Sam Raimi
Atores: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Rosemary Harris.
Duração: 127 min
Gênero: Aventura


* ALEXANDER MARTINS VIANNA é Professor Adjunto de História Moderna – DHIST/UFRRJ; é Mestre e Doutor em História Social pelo PPGHIS-UFRJ. Site: www.martinsvianna.net Email: alexvianna1974@hotmail.com

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9 comentários sobre “Homem-Aranha Christus

  1. Caro Alexander!
    Saudações e me desculpe se pareci sem respeito.
    Mas, não vejo função objetiva nesta análise.
    Subjetividade, só gera discussóes não gera respostas.
    Essa é minha opinião.

    As pessoas veem filmes por diversão, não para análise científica.
    A não ser que exista uma forma de provar que determinadas situações no filme ficará gravada no subconsciente da pessoa a ponto de influenciar objetivamente em sua conduta com relação a sociedade!

  2. Não é a negação da subjetividade que o professor está analisando, mas a compreensão, o como ela aparece no filme. O crítico não está defendendo ou destratando a fé, mas mostrando como ela é representada no filme.

  3. Caro Jeferson Pereira Leal,
    Saudações cordiais!

    Não pretendi julgar a fé de ninguém, mas analisar um habitus cultural e uma exploração temática recorrente nos filmes do contexto Bush.
    Um filme não é uma obra que começa e termina na vontade do diretor.
    O diretor não vive num vazio de valores e relações sociais.
    O não-dito também conta na análise social. O filme não é apenas a sua dimensão verbal. Muitos diretores já operam num habitus estético e cultural, outros jogam conscientemente com o mesmo. Analiso o resultado fílmico, que não necessariamente corresponde, em suas várias nuanças, a um plano individual de vontade consciente do diretor ou roteirista.

    Por fim, todos devemos cultivar em nós mesmos mais cordialidade, pois não ensinamos apenas o que sabemos; ensinamos também o que somos, pelo exemplo.

    Que exemplo vc está dando para mim e para os leitores da REA?

    Abraços e tudo de bom,
    Alexander

  4. Prezado Professor
    Dr. Alexandre Marins Viana
    Excelente suas análises. Considero de grande relevância análises de filmes que são assistidos pelas “grandes massas”, quando em estado letárgico diante da televisão. A chave protestante e a temperanças continuam sendo chaves que abrem portas para a compreensão da sociedade americana branca.
    Se puder disponibilizar bibliografia para acompanharmos seus estudos seria muito bom.
    Abraços

  5. Ao Jefferson Pereira Leal

    Gostei muito da crítica, apesar de não ter disposição para assistir a esse tipo de filme assisti algumas partes e vejo, como o Alexander que há uma subjetividade nos filmes norte americanos sim. Os seus super heróis são projetados para levar alguma ideologia do tipo: a nossa sociedade como está é perfeita e o que atrapalha são só os infratores das leis elitistas e os ateus.

    • Existe algum filme que não exista subjetividade?

      Sobre, “a nossa sociedade como está é perfeita e o que atrapalha são só os infratores das leis elitistas e os ateus.”
      Falar que somente os infratores de determinadas leis e os ateus atrapalham vamos dizer, a sociedade, é um exagero evidentemente.

      Como a maioria dos americanos são cristãos, não vejo nada de errado em colocar esses princípios em seus filmes.

      Os brasileiros não adoram falar palavrão e por pornografia em seus filmes? Cada um com as suas respectivas influências. Prefiro a americana!

  6. E daí? De que serve esta análise?
    O diretor cometeu algum crime se por acaso utilizou dessa criatividade para compor as cenas?
    Isso considerando a hipótese de que ele utilizou a idéia de Cristo.
    Alguém entrevistou o diretor do filme para saber disso?
    E qual o problema em heróis proporem a idéia de crer ou fé?
    Todo o ser humano possui fé!
    Muitos somente não sabem em que, como diz a música do paralamas.

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