Águas e leituras emendadas – Sinestesia caipira

REGINA M. A. MACHADO*

Há alguns anos atrás, ouvi Roberto Correa tocando na Casa do Brasil, em Paris, uma sublime viola caipira e, no final do show, viola de cocho. Talvez houvesse na plateia numerosa quem já conhecesse, mas para mim foi um alumbramento. É um instrumento rústico, com um som estranho, primitivo, como um eco de desertos longínquos ou de sertões sem fim, que me ficou como uma saudade de algo que não se conhece, como essas paisagens do Brasil central, que só conheço mesmo através dos contos de Hugo de Carvalho Ramos ou Bernardo Élis, ou da poesia de Cora Coralina entre tantos outros. Essa saudade é aquela de paisagens sonhadas ou de lugares imaginados, como a que às vezes me bate, absurda, do Harlem, que tampouco conheço fora do Jazz… (refiro-me título do romance de Toni Morrison e ao gênero musical).

Em agosto deste ano (2011), fui ver no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, a exposição “Ocupação”, de Cildo Meireles, com instalações e vídeos, sobretudo de rios e outras águas. Folheando o catálogo, muito bem feito e de distribuição gratuita, depois de belas páginas com cachoeiras e pororocas impressionantes, de repente aparece a fotografia de um buraco escuro com grosseira moldura de cimento, escondendo e abafando um olho d’água, uma dessas nascentes, um desses fios d’água que de fonte em afluente desaguam nos grandes rios que cortam as terras e a nossa sede e irrigam cidades e campos, desde a bacia amazônica até o rio Paraná.

Essa foto estranha traz a seguinte legenda: “Próximo à Estação Ecológica de Águas Emendadas, em propriedade particular onde funcionam um bingo e um restaurante, a nascente do Rio Piripau foi cimentada e transformada numa cisterna”. Nas páginas oficiais da internet sobre a reserva, fica-se sabendo que a área das nascentes é de acesso restrito ao publico… mas pelo jeito nada resiste ao nosso entranhado direito de propriedade (magistralmente caricaturado por Monteiro Lobato na deliciosa crônica “O grilo”), que permite desfigurar paisagens reconhecidas como parte do patrimônio nacional.

Procurando por “águas emendadas” na internet, já que nao conhecia nem o nome nem o lugar, achei no portal http://www.águasemendadas.com/2011/09/dia-da-árvore.html, um vídeo interessante no qual professores de boa vontade levam crianças a visitar a estação ecológica, caminhando numa paisagem desolada, que “não sei se feliz ou infelizmente” (letra de “Serenata”, de Orestes Barbosa e Silvio Caldas) descobrimos não ser a vegetação nativa do planalto, pois ao mostrar o espaço em volta o professor se refere a uma queimada recente. Durante o passeio pedagógico, as crianças deverão desenhar uma árvore. Para isso, cada uma, de olhos vendados, é levada por um coleguinh até um pobre arbusto, apenas maior do que eles, que ela só poderá ver quando lhe tirarem a venda dos olhos, o que sabiamente só será feito quando ela estiver praticamente dentro da folhagem, talvez para não lhe estiolar a imaginação com a devastação em volta. O único ipê disponível para ilustrar a árvore símbolo da nacionalidade (desde José de Alencar!) não é mais alto do que a primeira arvorezinha sem nome. Ora, essa visão da paisagem não é recente, eu já conhecia de há muito essa mesma desolação, lá pelo final dos anos setenta, quando resolvi fazer uma viagem até o pantanal, de trem, na ilusão de descobrir paisagens do interior do Brasil. Já então, tudo que se descortinava da janela durante toda essa viagem interminável, eram campos queimados, desertos de cinza e esqueletos de árvores.

Além desse portal – interessante e bem feito, afinal não são os professores que podem impedir as queimadas e outras barbaridades – achei também a canção Águas Emendadas, cantada por Chico Nogueira, numa entrevista a Roberto Correa. A sonoridade que produzem a voz e a viola de Chico Nogueira, numa mensagem conduzida por um misticismo sertanejo largo como o horizonte dos campos gerais, ouvida com emoção por esse grande violeiro e compositor que é Roberto Correa, me lembraram o concerto de alguns anos atrás em Paris

Daí vem a emendação – sinestesia – entre música, exposição de artes plásticas e paisagem do planalto – som ouvido, imagens vistas, paisagens sentidas através da lembrança do sol na pele e do calor de “lá detrás daquele morro”. Ô saudade matadeira! Águas, percepções e sentimentos emendados em sinestesia, termo posto em circulação desde que os críticos acharam um nome para as sensações que se atropelam no poema “Correspondências”, de Charles Baudelaire, que as enrola como cipós nos gigantescos “pilares vivos” do “templo da natureza”. Note-se que essas colunas que de sua altura contemplam os homens constituem “florestas de símbolos” familiares e estranhos ao mesmo tempo, que formam uma “tenebrosa e profunda unidade/vasta como a noite e como a claridade”, que exalam perfumes frescos e “verdes”, mas também “corrompidos” e variadamente “triunfantes”. Para poder falar de tais “correspondências” com essa sensualidade holística, terá sido preciso que um dia qualquer elas o tenham emocionado, formando para o poeta esse universo vivo e complexo em que tudo se encontra intimamente entrelaçado, e a que mais tarde ele daria forma e voz. Nem me passa pela cabeça associar Baudelaire e o termo atual de ecossistema – t’esconjuro, anacronismo! –  mas essa grandeza criada com termos ligados a uma natureza vegetal e mineral, onde tudo se toca e ao se tocar se transforma, tal como evocada no poema, um dia qualquer deve ter impressionado sua retina, esses cheiros chegaram às suas narinas, a beleza da noite pôde um dia fazer sonhar o menino solitário que ele foi.

Sinestesia, sensações emaranhadas, percepção e – “talvez quem sabe” (letra de samba) – criação. Mas algo de fundamental está presente no estímulo inicial disso tudo – grandeza, desmedida (démesure). Essa confrontação do homem com a natureza, a “confusão  dos sentimentos” (outro título de romance, mas este não tem nada a ver) assim provocada, a percepção, vaga ou aguda, dos sinais que a natureza que o rodeia envia ao “homem humano” e que ele deve decifrar… serão possíveis na paisagem arrasada visitada pelos meninos da escola do interior? Meu ceticismo atual não me deixa esquecer que só comecei a levar a sério a natureza quando pude conviver com paisagens emocionantes, passar debaixo de árvores velhas, gigantescas e seculares crescendo perto das casas e das cidades que vieram depois delas e que as respeitam. Para desejar preservar a natureza é preciso que esse desejo seja acordado, é preciso que alguma coisa provoque uma real emoçao, que a grandiosidade de um rio caudaloso, de uma floresta imponente, de um vôo de araras (vi uma vez, no pantanal, e nunca mais esqueci) em liberdade nos corte a respiração ao nos surpreender com sua beleza.

Perto de cidades grandes, perto de escolas numerosas, nunca vi isso no Brasil. Vi sim na velha Europa, a 20 km de Paris, rios limpos onde vivem peixes e onde pescadores e velhos aposentados podem sentar-se à sombra de árvores enormes enquanto meninos da escola pública fazem pedalinho, remo, etc. – isso tudo, em termos de distâncias geográficas, está um pouco como Nova Iguaçu em relação ao Rio de Janeiro. Fico imaginando uma criança de escola caindo no rio Tietê, por exemplo… acho que nao sobra nem o tênis. Nada é perfeito, todavia – dos “velhos parapeitos” dos cais europeus (Rimbaud) não se vê um céu como o das montanhas de Minas (com a voz do Milton Nascimento acordando ecos subterrâneos) ou um crepúsculo vermelho como os de Jacarezinho (o amigo Cláudio que me desculpe, mas são mais bonitos que os de Jaguariaíva).

E isto me puxa da lembrança outro extermínio, bem anterior, só pra mostrar que nossa chance de viver num meio ambiente grandioso, que nos desafie e nos inspire, já a vimos suprimindo há muito. A citação abaixo, sem referência – adivinhe quem puder – deve ser posta em “sinestesia” (emprego abusivo do termo) com o vídeo das crianças da escola, juntamente com minha admiração pelo esforço de alunos e professores:

O pai Benedito descera a rocha pelo trilho, que seus passos durante trinta anos haviam cavado, e chegou ao tronco decepado de um ipê gigante que outrora se erguera frondoso na margem do Paraíba. Pareceu-me que abraçava e beijava o esqueleto da árvore; depois sentou-se com as costas apoiadas no tronco; aí ficou aquecendo-se ao sol do meio-dia como um velho jacaré.

(…)

Entre os solitários da várzea, destacava um frondoso ipê. Monarca da floresta, alçando com soberba a régia coroa de esmeralda, parecia preceder a selva, que o rodeava como sua corte submissa e respeitosa. Não era então o tronco decepado que vi muito depois; estava em todo vigor, embora se notasse já, na cruz onde se abriam as ramas, uma caverna feita pelo carcoma.

Esta citação é de uma obra literária – como toda obra de arte, é para ser lida, olhada, ouvida em total sinestesia (mais abuso!) entre sonho e realidade, criação e crítica, reflexão e revolta (talvez “O homem revoltado” de Camus esteja mais do que nunca na ordem do dia…), lembrando que quando o autor fala do “carcoma” que corrói a árvore, ele está evocando a história construída pela ação dos homens, e não apenas se referindo ao envelhecimento natural das árvores, já que isto seria negado a essa floresta primordial.


* REGINA M. A. MACHADO vive fora do Brasil há anos, e como todo estrangeiro sabe, a solidão é boa companhia e faz aumentar a curiosidade e revirar a lua para descobrir-lhe o lado escuro. Um dia voltou à literatura brasileira como numa foto de satélite, mergulhou no foco e, ao se descobrir parte da paisagem revista,começou a escrever como quem coleta indícios para reconstituir velhas pistas perdidas no passar do tempo.

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3 comentários sobre “Águas e leituras emendadas – Sinestesia caipira

  1. Contudo, o convite para conhecer a Estação Ecológica de Águas Emendadas, continua de pé!
    A equipe de Educação Ambiental, sentirá muito honrada em recebê-la, senhora Regina (rainha em latin)

  2. Prezado Evando,
    se nao ha nada a ser melhorado, se as arvores e as aguas do ponto de PARTILHA DAS AGUAS das grandes bacias hidrograficas nacionais sao respeitadas como você acha que deve, entao você pode se indignar contra o fato de eu meter minha colher de pau na questao da preservaçao ambiental em nossas regioes.
    mas francamente, num pais em que ainda parlamentares acham admissivel que se diminua ainda mais as matas ciliares e que essa posiçao seja defendida por lideranças politicas que outrora tiveram posturas bem mais dignas… se você acha que ainda ha algo porque lutar, entao, por favor, dirija sua indignaçao contra alvos mais produtivos.
    um abraço
    Regina

  3. Senhora Regina!
    Esse que vos escreve, nesse espaço destinado a comentários é o humilde fotógrafo da Educação Ambiental de Águas Emendadas. Que não sabe falar fazendo biquinho!
    Me atrevo a convidá-la a conhecer a Unidade de Conservação para poder sentir de perto o ar fresco do cerrado e ouvir o canto das mais de 300 espécies de aves que povoam a UC.
    A nossa biodiversidade é a nossa maior riqueza. Posso arriscar a dizer que em apenas 50 metros quadrado de cerrado encontraremos uma infinidade de espécies, talvez o triplo de todas as espécies do velho mundo.
    Depois que visitar Águas Emendadas fale sobre ela!

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