Prolegômenos sobre arte, técnica e cinema em Walter Benjamin

por UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

A questão vos é mais ou menos familiar sob a forma do problema do autor: sua liberdade de escrever o que quiser” (Walter Benjamin, 1993: 120).

Walter Benedix Schönflies Benjamin (1892-1940) foi um ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo alemão de origem judaica. Associado à Escola de Frankfurt (cf. Slater, 1978) e à Teoria Crítica (cf. Freitag, 1988), foi fortemente inspirado tanto por autores marxistas, como Georg Lukács e Bertolt Brecht, como pelo místico judaico Gerschom Scholem. Conhecedor profundo da língua e cultura francesas traduziu para o idioma alemão importantes obras como: Quadros Parisienses, de Charles Baudelaire, e Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparentemente antagónicas do idealismo alemão, do “materialismo dialético” e do “misticismo judaico”, constitui um contributo original para a teoria estética. Entre as suas obras mais conhecidas, contam-se A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), Teses Sobre o Conceito de História (1940) e a monumental e inacabada: Paris, a Capital do século XIX, ou, Passagens: a própria diversidade de títulos dados às edições da mesma obra – Das Passagen-Werk; Parigi, Capital del XIX Secolo; Livre des Passages; The Arcades Project – “reflete de maneira eloquente o fato de Benjamin não ter escolhido um título definitivo” (cf. Benjamin, 2007: 1143).

Nascido em Berlim, filho de um rico antiquário de origem judaica, Walter Benjamin tinha uma verdadeira paixão colecionadora, entre outras coisas, livros infantis e citações. Citações em meu trabalho, afirma o “rabino marxista” (cf. Braga, 1994), “são como salteadores no caminho, que irrompem armados e roubam ao passante a convicção”, escreveu em Rua de Mão Única, obra em que seu pensamento adquire uma forma surrealista de montagem de textos. E era esse, mesmo, o seu método. Alguns de seus principais textos foram “construídos” à base de citações sobre citações. Um mosaico filosófico, no qual os dados aparentam-se à “iluminações profanas” que vão se sucedendo numa forma em que cada observação reage com a seguinte e assim sucessivamente – até que o conjunto seja vislumbrado sua “dialética trágica”, talvez pela sua afinidade eletiva como leitor de Friedrich Nietzsche, como Martin Heidegger leu Nietzsche.

Como é sabida com a ascensão do carrasco nazista A. Hitler, ainda na década de 1930, a situação para os judeus na Alemanha foi se tornando insustentável. Benjamin então se refugia em Paris, terra do romancista Marcel Proust de quem fez a primeira tradução alemã e de seu Dieu, por assim dizer, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867). Foi inspirado por Baudelaire e pelas galerias da Cidade-Luz que o filósofo – cuja pretensão era tornar-se o principal crítico da literatura europeia – resolveu conceber sua mais ambiciosa obra, Das Passagen-Werk. Como todo grande pensador de Hegel aos nossos dias, seu texto não seria concluído e somente editado muitas décadas depois de sua morte o que antiteticamente não é um problema de quem escreve, mormente daquele que o edita, como aparente produtor, talvez como uma única exceção desde tempos imemoriais: Biblia Sacra Latina ex Bíblia Sacra Vulgatae. É também durante essa estadia parisiense que Benjamin tenta uma reaproximação com o judaísmo através do plano de emigrar para a Palestina, para onde já tinha se encaminhado seu amigo, o historiador da mística judaica Gershon Sholem.

A filósofa e cientista política alemã Hannah Arendt, autora entre outros, de L` Impérialisme. Les origines du totalitarisme (Paris: Seuil, 1980) – ela própria uma refugiada do pesadelo hitlerista – fala do “elemento de má sorte” na démarche do bravo filósofo. Rememora que, no inverno de 1939-1940, com a truculência ocorrendo solta na Europa nazi-fascista, o suposto perigo dos bombardeios sobre Paris fez Benjamin buscar refúgio em Meaux, cidadezinha do interior da França. Embora nenhuma bomba caísse sobre a capital francesa, Meaux era local de concentração do exército e um alvo aparentemente óbvio para um ataque alemão. Antes, no final da década de 1920, perseguira sua grande paixão, a atriz Asja Lacis, em pleno inverno moscovita. Retornou deprimido e, pior ainda, solitário. E não viu nada adiante para si.

Walter Benjamin se suicidou em Port Bou, na fronteira da França com a Espanha, em 26 de setembro de 1940. Foi vítima, do que me traz à mente a afirmação de Mark Twain, para quem “coincidência é a única explicação que um trouxa encontra para a coincidência”. Com medo da captura pelas tropas franquistas e alemãs que naquela altura, haviam confiscado seu apartamento parisiense, depois de saber que a passagem para a Espanha estava fechada, Benjamin tomou uma grande quantidade de morfina durante a noite. Apavorados com o suicídio do filósofo, no dia seguinte os oficiais da fronteira permitiram que os demais integrantes da caravana de refugiados seguissem em direção a Portugal. Afinal, a proibição de passar para a Espanha tinha valido apenas para o dia anterior. Justamente o dia em que Walter Benjamin escolhera para sair da França e tentar a sorte em alguma paragem menos conturbada com o emprego da força bruta da política.

Walter Benjamin na Bibliothèque Nationale. Paris, 1939. Foto de Gisèle Freund.

Há setenta anos, na noite de 26 de setembro de 1940, Walter Benjamin (1892-1940), um dos maiores pensadores do século 20, cometeu suicídio por envenenamento com morfina, aos 48 anos, numa pequena aldeia dos Pireneus, na fronteira entre França e Espanha. A morte do filósofo esteve sempre envolta em mistério. De origem judaica, o suicídio teria ocorrido por temor de ser capturado pela Gestapo, quando ele tentava fugir dos nazistas rumo aos EUA. A Gestapo foi a polícia política da Alemanha nazi; criada em 26 de abril de 1933 por Hermann Göring e reorganizada em 1936 por Reinhard Heydrich, passou sob o controle de Heinrich Himmler em 1934. Esta polícia funcionava sem tribunal, decidindo ela mesma as sanções que deviam ser aplicadas. Tornou-se célebre primeiramente na Alemanha, e depois em toda a Europa ocupada, pelo terror implacável de seus métodos de extermínio humano. A Gestapo representou o arbítrio e o horror das forças nazistas.

Estado de Exceção é uma reconstrução histórica e uma análise da lógica e da teoria por trás da sua evolução e consequências, de A. Hitler aos prisioneiros de Guantánamo. Para isso o autor destrincha o pensamento de Carl Schimitt, autor alemão, contemporâneo de Walter Benjamin, com quem polemizou e seus estudos sobre ditaduras; filósofos e teóricos do direito; e as mudanças nas constituições europeias e norte-americanas que levaram a instituição do Estado de Exceção como paradigma. “Combatentes ilegais”, Patriot Act, “Bush como commander in chief dos Estados Unidos”, “toque de recolher”, “zonas de proteção em encontros de organismos internacionais”, “pacotes econômicos”, limites e contradições das democracias modernas, “guerras preventivas” e o executivo legislando por decretos e medidas provisórias, são temas atuais abordados e que se relacionam diretamente com a análise de Agamben.

Desnecessário dizer que desde seu primeiro contato com o marxismo, portanto, Walter Benjamin entusiasmou-se por uma linha de interpretação do pensamento de Marx que divergia das versões doutrinárias adotadas tanto pelo establishment social-democrático como pela direção do movimento comunista. O que encontrou no marxismo não foi tanto um sistema conceitual constituído, sólido, maciço, mas um admirável conjunto de conceitos que já surgiam com vocação para radicalizar a crítica à sociedade burguesa e impulsionar a “revolução contra o capital” na expressão gramsciana do termo (cf. Coutinho, 1981). Ou seja, um conjunto de conceitos que proporcionavam aos sujeitos sociais, magníficas armas para inserir-se na luta de classes. Ipso facto na perspectiva nova que Marx lhe apresentava via Lukács (1960), o que mais agradou a Benjamin foi certamente “o fato de ela recusar a postura daqueles que se encastelam no plano da teoria” e apontar insistentemente para a fecundidade teórica da própria prática ou, ao menos, da prática dita revolucionária.

Essa maneira de entender o marxismo não se manifestou na época unicamente em Lukács e Benjamin: com características e traços bastante variados, ela apareceu também, em alguns momentos de modo um tanto tumultuado, no pensamento de Antonio Gramsci, em determinados escritos de Theodor Adorno e no ensaio “Teoria tradicional e teoria crítica”, de Max Horkheimer, bem como em diversos textos de Karl Korsch (1886-1961) e Ernest Bloch e na trajetória de Rosa Luxemburgo (1871-1919). Contudo, lembramos que este fôra o “belvedere”, para lembramos de Lowy (1972; 1978; 1987) que prevaleceu o movimento histórico dos marxistas em geral. Para sermos breves, no âmbito da socialdemocracia, o marxismo enquanto ideologia e não “filosofia da práxis”, como quis Gramsci, veio a ser um sistema montado a partir de um conjunto articulado de citações de Marx e Engels consideradas essenciais pelo zelador “oficial” do legado doutrinário, o alemão Karl Kautsky. A montagem interpretativa fazia-se com base numa linha evolucionista de interpretação da história. Enfim, no âmbito do movimento comunista, o marxismo enquanto ideologia política passou a ser expresso como: marxismo-leninismo de citações consideradas essenciais pela direção política dos partidos comunistas.

Provavelmente a teoria crítica da Escola de Frankfurt tenha se tornado mais conhecida no mundo inteiro por sua crítica à “cultura de massa”, na falta de melhor expressão, que por seus trabalhos em filosofia, sociologia, crítica literária, teoria do conhecimento etc. O conceito de “indústria cultural”, divulgado por Adorno e Horkheimer em Dialektik der Aufklärung já faz parte integrante do conceptual das ciências sociais e das áreas de conhecimento em “comunicação social”, e posteriormente, Autoritäter Staat. Die Juden und Europa Vernunft und Selsterhaltung Aufsätze 1939-1941 (cf. Verlag de Munter/Amsterdam, 1967) onde tem encontrado ampla aplicação. Aliás, já no primeiro número da Zeitschrift für Kunst und Kultur (cf. Ed. Conzett & Huber, 1984) Adorno publica um importante artigo sobre música, intitulado Sobre a Situação Social da Música (1932), no qual reconhece que a música é um produto específico das relações de produção capitalista, mas ressalta também o seu caráter contestatório, enquanto crítica inclusiva dessas relações sociais. Walter Benjamin, em L`opera d`arte nell`epoca della riproducilità técnica (Turim: Einaudi, 1966) por sua vez, lança no sexto número da revista seu polêmico artigo sobre a obra de arte. É de 1937 o conhecido ensaio de Herbert Marcuse sobre o Caráter Afirmativo da Cultura e de 1941, o de Max Horkheimer sobre a Arte e a Cultura de Massas onde pela primeira vez é bem empregado o conceito de “indústria cultural”.

Benjamin como é sabido, através do depoimento de seu amigo o historiador da mística judaica Gershon Scholem escrevera as teses da história aberta, se nos lembramos de que o termo “Geschichte”, como “história”, designa tanto o processo de desenvolvimento da realidade no tempo como o estudo desse processo ou um relato qualquer, compreenderá que as teses “sobre o conceito de história” não são apenas especulação sobre o devir histórico “enquanto tal”, mas uma reflexão crítica sobre nosso discurso a respeito da história (das histórias), discurso esse inseparável de uma certa prática. Assim, para Benjamin, a questão da escrita a história remete às questões mais amplas da prática política e da atividade da narração. Isto é importante.

Historicamente falando, a teoria do símbolo e das técnicas de interpretação repousava, pois, numa definição perfeitamente clara de todos os tipos possíveis de semelhança e fundamentavam dois tipos de conhecimento perfeitos; e o divinatio, que “constituía o conhecimento em profundidade, que ia de uma semelhança superficial a outra mais profunda”. Todas estas semelhanças manifestavam o consensus do mundo que as fundamentava; opunha-se ao simulacrum, “à falsa semelhança, que se baseava na dimensão de Deus e o Diabo”. Se estas técnicas de interpretação ficavam em suspenso a partir da evolução do pensamento ocidental nos séculos XVII e XVIII, se a crítica baconiana e a crítica cartesiana da semelhança desempenharam certamente um grande papel na sua colocação em interdição, o século XX, e muito particularmente Marx, Nietzsche e Freud, situaram-nos ante uma possibilidade de interpretação e fundamentaram de novo a possibilidade de uma hermenêutica. Em Nietzsche, fora de dúvida, temos a rejeição de toda transcendência, seja idionômica como no platonismo, seja teonômica como no Cristianismo, imanência absoluta da Natureza como fonte de todo o bem e de todo o valor e, enfim, crítica da cultura existente e de sua moral, fonte do mal e da corrupção no homem. Sobre esse fundamento crítico, pode-se elevar então o anúncio de um “novo homem” e de uma “nova humanidade”, definitivamente reconciliados com a Terra.

Copérnico que descobriu que a Terra não é o centro do universo; Darwin, que descobriu que o homem não é o centro da espécie; Marx que descobriu que os homens não fazem a história, e sim sobre condições determinadas e Freud, que não detemos o centro de nossa individualidade, sabia disso, pois preferiram viver, e deter-se em sua “solidão intelectual” diante de suas novas descobertas. Maquiavel satirizou com a Mandrágora, Hobbes escrevendo sobre a morte, Rousseau em suas Confissões, Marx de forma epigramática, sobre a “decrépita, retardatária e contrarrevolucionária nação alemã”, Nietzsche, talvez, com “a alma da mulher revestida em escudo de um guerreiro”. Weber, que estudou quase todas as profecias, talvez se torne um profeta do terceiro milênio. Para ele, “o capitalismo vencedor”, apoiado numa base mecânica, não carece mais de seu abrigo. Também o róseo caráter de sua risonha sucessora: a Aufklärung parece estar desvanecendo irremediavelmente, enquanto a crença religiosa no “dever vocacional”, “como um fantasma, ronda em torno de nossas vidas”. Onde a “plenitude vocacional” não pode ser relacionada diretamente aos mais elevados valores – o individuo renuncia a toda tentativa de justificá-la.

De fato o século XX consumou um processo iniciado no século XIX, promovendo o ingresso da produção artística na “era de sua reprodutibilidade técnica”, para concordarmos com o Benjamin de 1935. A aura que existia em torno das obras de arte originais como manifestação de uma realidade distante, mesmo quando próxima como ocorre entre nós com a igreja Matriz ou o centro de Arte e Cultura Dragão do Mar, na cidade de Fortaleza, a igreja da Penha ou o Cristo Redentor, na cidade Maravilhosa, ou local mais visitado da cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, a estátua do Padre Cícero, com 27 metros de altura, que está localizada na Serra do Horto. Padre Cícero morreu em 20 de julho de 1934. A estátua foi esculpida pelo artista Armando Lacerda no ano de 1969, ou, para sermos breves, o Farol da Barra, em Salvador, onde os Novos Bahianos cantavam: “onde tudo é tão rápido como se furta”, tendem a desaparecer naquele benjaminiano. No lugar deles, cresce o “valor de exposição”, ligado à possibilidade de que as criações artísticas reproduzidas em ampla escala sejam postas imediatamente ao alcance de um número enorme de pessoas. O cinema, seguindo a trilha aberta por Benjamin é o melhor exemplo dessa nova característica. O filme já nasce multiplicado em muitas cópias para tornar-se rentável, exibido em salas, cinemas, cidades, países numa escala globalizada. E como Benjamin não tem uma posição hostil ao cinema, ele enquanto arte é o melhor exemplo dessa nova característica.

A aura das obras não é mais prerrogativa de deuses ou de santos, ou canalhas (pois, na falta do divino, transmite-se aos homens para dominá-los: “Benjamin é um dos únicos pensadores a perceber que, para os intelectuais da direita na Alemanha, afirma Matos, a desvinculação da técnica dos ideais da república era sinônimo de recuperação da alma além, e que a revolta contra a racionalização assumia a forma de um culto da técnica”. No limite, a política “opera sobre uma matéria superior à das artes – os próprios homens. Stalin torna-se o artista que esculpe o homem de mármore e Hitler se vangloria de modelar o próprio povo”. Neste horizonte, “a superstição é o reservatório de todas as verdades” e a razão pela qual Benjamin dirá que, “em verdade, o mundo dominado pela mercadoria revela que os homens não necessitam de fé, mas de crenças” (cf. Matos, 2007: 1137).

Para concordarmos com Konder (2011: 98 e ss.), que em meados da década de 1980 tinha em sua sala um quadro com a imagem de Walter Benjamin é, decididamente, um pensador da ruptura, hostil a qualquer determinismo, a qualquer evolucionismo. Para ele, as noções de progresso e desenvolvimento são ideológicas. A história se baseia num tempo incompleto, inacabado, que em si mesmo é uma exigência de mudança. O passado jamais se entrega imediatamente a nós, por isso devemos considerar ideológica a pretensão de estabelecer “o que efetivamente aconteceu”. Ou seja, a ideia conspícua de Leopold von Ranke, contida em seu Zur Kritik neurer Geschichsreiber do “como efetivamente aconteceu” (essen Sie tatsächlich, es passierte). Nosso ponto de partida é o tempo-de-agora (Jetztzeit); é nele que tomamos consciência da nossa temporalidade e é com base nele que podemos nos relacionar em termos novos com o passado. A história se apresenta a nós sempre como um desafio no tempo-de-agora. E o que mantem viva em nós essa consciência é aquilo que ele chama de rememoração (Eingedenken), uma capacidade que a memória histórica pode aguçar nas pessoas que vivem intensamente os perigos do presente e se insurgem contra a situação em que se encontram. A rememoração nos liberta da finitude: um acontecimento vivido é finito, mas um acontecimento rememorado não tem limites, já que se torna necessariamente uma chave para o que veio antes e o que ocorreu depois.

Benjamin tinha seu ensaio “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica” (cf. edições: 1966; 1971; 1980) na conta de primeira grande teoria materialista da arte. O ponto central desse estudo encontra-se na análise das causas e consequências da destruição da “aura” que envolve as obras de arte, enquanto objetos individualizados e únicos. Com o chamado progresso das técnicas de “reprodução social”, sobretudo do cinema, a aura, dissolvendo-se nas várias reproduções do original, destituiria a obra de arte de seu status de raridade. E mesmo no caso da fotografia, pois Benjamin publicou em 1931 “A pequena história da fotografia”, considerado o primeiro ensaio de formulação teórica com problemáticas da fotografia, de fundamental importância para o campo da pesquisa na área.

Tese que iremos refutar: “a abordagem benjaminiana do cinema é bastante problemática por causa de seus pressupostos intelectuais, pois ao invés de abordar a realidade concreta da produção fílmica, ele se refugia num conjunto de abstrações metafísicas que obscurecem muito mais do que esclarecem o fenômeno do cinema. Neste sentido, é preciso ir além de Benjamin e buscar a constituição de uma teoria do cinema em bases reais, concretas, sociais. Este é o caminho que temos para trilhar” (cf. Viana, 2006). Para Walter Benjamin, a partir do momento em que a obra fica excluída da atmosfera aristocrática e religiosa, que fazem dela uma coisa para poucos e um objeto de culto, a dissolução da aura atinge dimensões sociais. Essas dimensões seriam resultantes da estreita relação existente entre as transformações técnicas da sociedade e as modificações da percepção estética. A perda da aura e as consequências sociais resultantes desse fato são particularmente sensíveis no cinema, no qual a reprodução de uma obra de arte carrega consigo a possibilidade de uma radical mudança qualitativa na relação das massas com a arte. Embora o cinema, diz Benjamin, “exija o uso de toda a personalidade viva do homem, este se priva de sua aura”.

Se, no teatro, a aura de um Macbeth, por exemplo, liga-se indissoluvelmente à “aura do ator” (cf. Aslan, 1994) que o representa, tal como essa aura é sentida pelo público, o mesmo não acontece no cinema, no qual a aura dos intérpretes desaparece com a substituição do público pelo aparelho. Na medida em que o ator se torna acessório da cena, não é raro que os próprios acessórios desempenhem o papel de atores. Benjamin considera ainda que a natureza vista pelos olhos difere da natureza vista pela câmara, e esta, ao substituir o espaço onde o homem age conscientemente por outro onde sua ação é inconsciente, possibilita a experiência do inconsciente visual, do mesmo modo que a prática psicanalítica possibilita a experiência do inconsciente instintivo. Exibindo, assim, a reciprocidade de ação entre a matéria e o homem, o cinema seria de grande valia para um pensamento materialista.

Adaptado adequadamente ao proletariado que se prepararia para tomar o poder, o cinema tornar-se-ia, em consequência, portador de uma extraordinária esperança histórica. Em suma, a análise de Benjamin mostra que as técnicas de reprodução das obras de arte, provocando a queda da aura, promovem a liquidação do elemento tradicional da herança cultural; mas, por outro lado, esse processo contém um germe positivo, na medida em que possibilita outro relacionamento das massas com a arte, dotando-as de um instrumento eficaz de renovação das estruturas sociais. Trata-se de uma postura otimista, que foi objeto de reflexão crítica por parte de Adorno. Atualmente a obra de Benjamin exerce grande influência no editor e tradutor de suas obras em italiano, Giorgio Agamben, sobretudo acerca do conceito de “Estado de exceção”.

Etnograficamente falando, ao lado de autores como Carl Schmitt, Julius Evola e Georges Sorel, assoma também a figura do militar, pensador e escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998) como um dos elementos centrais tanto na superação definitiva de uma weltanschaaung que aparentemente já não faz mais qualquer sentido – isto é, a clássica dicotomia entre “esquerda” versus “direita”; quanto, sobretudo, na formatação filosófica e política de uma nova síntese dinâmica entre, por um lado, os valores da tradição (honra, senso de dever, disciplina, abnegação, coragem e ascetismo) e, por outro, a constelação de perspectivas ideológicas, à “esquerda” e à “direita”, cujo eixo de gravidade “se estabelece a partir da rejeição radical do liberalismo e do capitalismo” (cf. Bobbio, 1983).

Em assim sendo, o escritor alemão, pouco lido entre nós, advoga, pari passu, teses contemporâneas só aparentemente, repetimos, como “antitéticas”, tais como o primado de uma “aristocracia do Espírito”, que floresceria, em sua potência máxima de realização, encarnada nos arquétipos do “guerreiro, do pensador e do poeta”; e a premente necessidade, de maneira a proteger a nação de qualquer ameaça externa, de um estado de “mobilização total” (Die Totale Mobilmachung) da “sociedade industrial em prol de um esforço de guerra permanente”. A esse respeito, destaca-se, como emblemático exemplo inicial de sua capacidade de trabalhar a partir de diferentes linhas de fuga, na obra de E. Jünger o extraordinário In Stahlgewittern (1920), com edição definitiva em 1961. O supracitado volume constitui tanto uma etnografia de vigoroso e implacável realismo (e, ao mesmo tempo, pejado de êxtase delirante) sobre suas experiências como tenente do exército alemão na I Guerra grande Guerra (1914-18), “quanto um dionisíaco ensaio sobre a guerra como veículo de sublimação ascética e realização espiritual”, lembrando-nos a “vontade de potência” nietzschiana (cf. Kaufmann, 1974).

“Terra de ninguém”, “zona incerta”, “zona de indeterminação”, “conceito-limite da ordem jurídica”, o estado de exceção tende, cada vez mais, a constituir o paradigma dominante de governo na política contemporânea. É o que defende o filósofo italiano Giorgio Agamben em seu último livro, Estado de exceção, publicado recentemente no Brasil. Este seria o “Homo sacer II”, volume que dá sequência às reflexões feitas em Homo Sacer – O poder soberano e a vida nua I (Editora da UFMG, 2002), sobre o campo de concentração como paradigma biopolítico moderno. O ponto de partida para a retomada da discussão são as leis promulgadas nos Estados Unidos em 2001 para combater o terrorismo, por meio das quais a política revela o que seria sua estrutura originária: o banimento – que reduz o homem à sua condição animal, desprovida de direitos – e as medidas excepcionais e provisórias, tomadas em situações de “necessidade” ou de “emergência”. A partir de então, Agamben adverte, “a exceção pode estar se tornando regra”. Enfim, metodologicamente a abordagem de Benjamin manifestou-se numa surpreendente quantidade de novos conceitos, originais, entre os quais se acham alguns, tais como: imagem dialética, mônada, iluminação profana, apocatástase histórica, choque, tempo-de-agora, rememoração, aura, valor de culto, valor de exposição etc.

Bibliografia geral consultada:

BENJAMIN, Walter, L`opera d`arte nell`epoca della riproducilità técnica. Turim: Einaudi, 1966; Idem, “L` ouvre d` art à l` ere de sa reproductibilité techinique”. In: L` Homme, le langage et la culture. Paris: Danoël, 1971; Idem, A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980; Idem, Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo: Brasiliense, 1983; Idem, Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. Obras Escolhidas. 5ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1993. Vol. 1; Idem, Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007; LUKÁCS, Georg, Histoire et conscience de classe. Paris: Éditions de Minuit, 1960; LÖWY, Michael, La Teoria de la Revolución en el Joven Marx. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 1972; Idem, Para una Sociología de los Intelectuales Revolucionários. Siglo XXI Editores, 1978; Idem, As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: Marxismo e Positivismo na Sociologia do Conhecimento. São Paulo: Buscavida, 1987; RANKE, Leopold, “Zur Kritik neurer Geschichschreiber”. Apêndice: Geschichte der Romanische und Germanischen Völker von 1494 bis 1514. In: Sämtliche Werke. Leipzig: Duncker e Humboldt, v. 5; KAUFMANN, Walter, Nietzsche: Philosofer, Psychologist, Anticrist. Princeton: Princeton University Press, 1974; ASLAN, Odete, O ator no século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994; FIORI, Giuseppe, A Vida de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979; COUTINHO, Carlos Nelson, Gramsci. Porto Alegre: L&PM Editores, 1981; BOBBIO, Norberto, Dicionário de Política. 2ª edição. Brasília: Editora da UnB, 1983; BRAGA, Ubiracy de Souza, Das Caravelas aos ônibus Espaciais. A Trajetória da Informação no Capitalismo. Tese de Doutorado em Ciências. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo: ECA/USP, 1994; 274 páginas; BERGSON, Henri, Ensaios sobre os dados imediatos da consciência. Lisboa: Edições 70, 1988; Idem, Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 2001; AGABEN, Giorgio, Estado de exceção. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002; MATOS, Olgária Chain Féres, “Paris e a Via Láctea”. In: BENJAMIN, Walter, Passagens. 1ª reimpressão. Belo Horizonte: Editora da UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007; BOTELHO, José Francisco, Benjamin. O Anjo da história. Revista Vida Simples. Dezembro de 2010; KONDER, Leandro, Em torno de Marx. São Paulo: Boitempo, 2010; ANDRADE, Mario de, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986; ANSELMO, Otacílio, Padre Cícero. Mito e Realidade. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968 entre outros.


* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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9 comentários sobre “Prolegômenos sobre arte, técnica e cinema em Walter Benjamin

  1. Sávio,

    De acordo, companheiro e amigo, as suas palavras sobre “rememoração” nos liberta da finitude: um acontecimento vivido é finito, mas um acontecimento rememorado não tem limites. Creio que o que mais nos aproximou, filosoficamente falando, não foi o fato de termos debatido o pensamento singular de Nietzsche num auditório repleto de jovens nordestinos na UFPB, campus II, Campina Grande, mas o que ali ficou como amálgma de homens de nosso tempo. Afinal, autoridade em Nietzsche tu tens tchê, mas com a alma do guerreiro e o sofrimento e a beleza que aprendemos com Lou Salomé.

    Ubiracy

  2. Caro Prof. Ubiracy de Souza Braga. Fiquei com a impressão de haver re-conhecido a expressão, sobre Nietzsche, outrora forjada em debate profícuo na UFPb-CG: “a alma da mulher revestida em escudo de um guerreiro”.
    Grande abraço…

  3. Prezado Flavio,

    Wilfred Cude é mais um autor instigante que em seu “Ph.D. Armadilha Revisited” demonstra as aparentes falhas de um programa de formação doutoral, demonstrando que a opção por disciplinas eletivas é selvagem, mecanicamente refletida e, cruel, do ponto de vista de sua relação com a sociedade. Para concordar com o filósofo José Arthur Giannotti, estamos diante de “burocratas da cultura”, ou mesmo o que Olavo de Carvalho denominou de “O Imbecil Coletivo” seguindo a trilha aberta por Antonio Gramsci. Ainda não temos a “Universidade Necessária”, pensada por Darcy Ribeiro, ou seja, uma universidade que articule múltiplos saberes, combinando arte, técnica e ciência como nos estádios de futebol o jogador realiza a sua jogada e a converte em gol.

  4. Prezado Marcelo de Abreu,

    Enquanto houver universidade haverá academicismo. No sentido inverso, p. ex. o filósofo Olavo de Carvalho de um ponto de vista conservador tem combatido este aspecto. O meu texto na verdade pretende “vulgarizar”, ou, melhor dizendo, reivindicar a “presença ausente” de um pensador original que ajudá-nos diante das agruras do sujeito a compreender que os caminhos do social são difíceis, porém compensadores. Além disso, a abordagem de Benjamin manifestou-se numa surpreendente quantidade de novos conceitos, originais, entre os quais se acham alguns, tais como: imagem dialética, mônada, iluminação profana, apocatástase histórica, choque, tempo-de-agora, rememoração, aura, valor de culto, valor de exposição etc.

  5. Prezado Marcelo de Abreu,

    Em primeiro lugar admito sua crítica com relação ao academicismo e a verborragia quase sempre inútil na conservadora universidade que vivemos. Mas tem um lado ao menos positivo, em segundo lugar, que é demover no âmbito da Academia a frequência de pensadores formadores de rebanhos como tem ocorrido, entre nós de Marx à Foucault, para não falarmos da “dialética trágica” em Friedrich Nietzsche. Portanto, meu objetivo aqui está sendo apenas o de elucidar um lado aparentemente “esquecido” na obra de Walter Benjamin. Particularmente a questão tópica do “valor de culto” e do “valor de exposição”, dualidades estururais sim, de raciocínio mas que nos indicam pistas para refletirmos criticamente sobre a “guerra das imagens” que vivemos nestes dias. E ainda como acentuam os ditos comunicólogos, “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Falta-nos portanto, a “presença ausente” ou a originalidade de um pensador que percebeu com as agruras do sujeito que os caminhos do social são difíceis, porém compensadores.

    • Sem dúvidas prof. Ubiracy, concordo plenamente e valorizado essa retomada que é, no mínimo, salutar ao pensamento crítico. Temos muito ainda a aprofundar no legado que pensadores como Benjamin, Focault ou Nietzsche nos deixaram.
      A cada aprofundamento mantemos vigente a “presença na ausência” destes grandes homens.

      Saudações,
      Marcelo de Abreu

  6. acostumei-me a ler o prof. Ubiracy com respeito, inobstante aquí ou acolá possa ter uma visão com outra nuance de cor mas, no contexto, trata-se, sempre, de uma leitura agradável e, conquanto não rigorosamente light, de uma atualidade tocante. parabéns, prof., continúe nos agraciando com seus comentários que, como disse, nos encantam e nos mostram que no mundo acadêmico ainda existem pensadores livres das peias institucionais. a propósito, gostaria de saber a opinião do insigne mestre a respeito do controvertido THE PHD TRAP, de Wilfred Cude. obrigado.

  7. Prezado prof. Ubiracy, gosto muito do trabalho de Walter Benjamin mas apreciaria um texto mais enxuto e menos rebuscado. Acho que um dos propósitos da revista é justamente abrandar o academicismo abundante das salas de aula e abrir um díalogo menos formalista sobre os temas.

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