Acende a luz: iluminuras do estar-junto no cinema e entre amigos

ARISTÓTELES BERINO*

Para os formados em Pedagogia no segundo semestre de 2011 do Campus Nova Iguaçu da UFRRJ

Eu só não quero cantar sozinho (Eu quero apenas, Roberto Carlos)

O chamado pós-moderno é simplesmente uma maneira de realçar a ligação entre a ética e a estética (Maffesoli, 2005, p. 12)

Poeira

No Rio de Janeiro, houve um tempo em que o cinema para o grande público era poeirinha. Não todos os cinemas, porque existiam também os de tipo “palácio”, requintados e clássicos. Mas nos subúrbios, com má conservação e audiência popular, o “poeirinha” recebia uma turba que tinha gestos excessivos e gostos excêntricos. Cinema-gritaria, cinema-luta e cinema-explícito, o poeirinha era um pouco assim, comum e irracional. Viraram poeira na rua que leva até a nova igreja ou à direção dos shoppings.

Mas a poeira do tempo nunca escorre toda. Um dia desses, em um cinema mesmo de Shopping Center, em uma cidade da Baixada Fluminense, logo estranhei a inexistência da “cadeira numerada” ao comprar o ingresso. “Mas que cinema é esse, o que virá pela frente?” O filme era nacional e a sala estava lotada. Comédia e prazer popular. Um teatro, para uma experiência que julguei acabada nos cinemas. Comentários com a voz elevada, corpos agitados e aplausos, quando apareceu a cena tão esperada.

Cena que não transcorreu no espaço recortado da tela, mas em toda a sala. Então, o filme que passou não foi o “filme do diretor”, mas o filme das fantasias coletivas, das projeções que se tocam, se misturam e fraturam a linha imaginária que separa ficção e existência, produção e audiência, “fila f” e “fila g”. Não havia a privacidade de assistir, mas cumplicidades que derramavam a intimidade de cada um. No plural, foram exibições que se realizaram. O misterioso do cinema está no laço dos sonhos em comum, aquela névoa que cobre a sala escura de uma atmosfera querida por todos.

Cinco vezes

5xFavela – Agora por nós mesmos é o retorno a uma produção cinematográfica que está completando 50 anos. Em 1961/62 cinco jovens diretores realizaram curtas-metragens para o filme Cinco Vezes Favela, produzido pelo Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE. Um destes diretores foi Cacá Diegues, agora produtor da versão atual. O propósito político do filme dos anos sessenta foi visto assim pelo crítico Jean-Claude Bernardet (2007, p. 41): “Tarefa de conscientização: deve-se ir além da descrição e da análise da realidade, a fim de levar o público a atuar; a situação não mudará se ele não agir para transformá-la”. “Atuar” tem aqui um sentido diretivo muito claro: da representação do filme à ação do público.

Filme-espelho cuja imagem foi traída pelo próprio embaraço da realidade, Cinco Vezes não reproduzia o que queria. Para Bernardet, “o espectador absolutamente não é solicitado a participar da obra; a única coisa que se exige dele é que se sente em sua poltrona e olhe para a tela, nada mais”.[1] Filme-espectro porque imobilizador das forças que dizia reunir: “Cinco Vezes”. Projeção fantasmática de ideal solidário que precisava ser exposta a contrapelo da sua pretensão original: “Agora por nós mesmos”. Retorno vivificado ética e esteticamente para o confronto com o quimérico, através de imagens predispostas à movimentação do que desenha: o cinema como sala de estar(junto) da vida comum.

Estar-junto é uma proposição presente em todos os episódios de 5xFavela. Trata-se de uma recorrência que acentua o plural da alteridade, o “nós”, em uma época de falta de firmeza a respeito da inteireza da vida social. Crispações da modernidade já indicadas por Marx e Engels (2007, p. 43), na aurora do capitalismo: “esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente”.  Então, lembrando Maffesoli (2005, p. 13), “quando o mundo fica entregue a si mesmo e vale por si mesmo, cresce o que me liga ao outro, aquilo que se pode chamar de religação”. 5xFavela é cinema-conjunção, pedagogia da imagem para uma re-união que se aproprie das agitações da vida, com motivos também para a assunção lúdica da existência humana.

Nós do morro

Um dos episódios do filme é Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, moradora da favela do Vidigal e coordenadora do Núcleo de Cinema do Nós do Morro. “Não há mais espaço para o artista que traduz para uma população desprivilegiada sua própria cultura”, nas palavras de Frederico Coelho (2010, p. 15). Não gostaria de sugerir uma relação de exclusiva legitimidade entre o pertencimento e a criação, mas apontar para um cenário de implicações que hoje impacta as realizações, inclusive cinematográficas, amplificando autorias e enriquecendo a visibilidade da constelação do que chamamos de político, mas também do que valoramos como artístico. Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça não têm mais fronteiras absolutas para se concretizar.

O enredo parece banal. E vale mesmo pelo que parece. O ordinário território dos acontecimentos sem originalidade como lugar de reparações. Reparos e retratações para os que vivem a imensidão muitas vezes subestimada do lugar e nele contradizem as imagens feitas. Novas imagens que o cinema replica e reanima até o ponto de nunca sabermos quem começou: se teve início na vida-real ou se foi invenção-ficção de um filme. Acende a Luz acontece na véspera de Natal. Toda a narrativa converge para a iluminação na noite de Natal. Luminosidade dos encontros, da festa entre amigos e familiares. A fratria da vida comum que não pode faltar à realização da existência – a supremacia do estar-junto reacendendo as oportunidades da noite e as expectativas para o próximo dia.

Acontece que a concessionária que presta o serviço da luz não distribui suas competências de modo comum por toda a cidade. A ELETRO RIO, sem maiores implicações para lidar com as condições desiguais da cidade, a variada topografia e população diversa, não pode garantir a execução do conserto em uma favela, deixando ansiosos os moradores. Pessoas chegam às casas, juntando mais gente à expectativa da reunião, que congrega música, comida e muitos afetos. Insegurança sobre a consagração comunitária de uma noite de Natal que Cimar, protagonista na fita, parece lidar com uma ácida consideração, no diálogo com uma pessoa da família sobre as condições do momento: “tudo na mais perfeita desordem”.

Imagens

Duas imagens a respeito das favelas se enfrentam ao longo do curta. Elas necessariamente não se excluem, podem servir às disputas pela sobrevivência, jogadas de acordo com as conveniências também. Se uma delas se sobressai, é porque o filme precisa restabelecer seu aspecto para o resto da cidade. A noite de Natal se aproxima e os técnicos da ELETRO RIO resolvem interromper o trabalho, deixando o local. Mas são abordados por moradores que fazem ameaças. Devem retornar, ainda na noite de natal, para realizar o conserto: “Se a luz não voltar o bagulho vai ficar doido, hein titio”. É a imagem da violência do morador da favela, que depois servirá de zoação entre eles: “Eu não ri na hora, porque eu não queria tirar tua moral”. A companhia manda, então, outra dupla, para realizar o conserto.

O poste onde precisa ser realizado o conserto é de difícil acesso. Enquanto o colega aguarda no carro, mais próximo do “asfalto”, apenas Lopes seguirá para o local. Dedicado, logo verifica que precisa de uma peça. Assediado pelos moradores para concluir o trabalho, constata que seu parceiro o deixou sozinho. Toma café, bebe uma cervejinha, olha as mulheres, conversa, vai se misturando e ficando. A música que toca é a canção de Roberto Carlos, Eu quero apenas. Com a família em Pernambuco e um “caso” terminando, Lopes está sozinho no Natal. Sua solidão conflui para a animação do lugar. Agora, a possibilidade da sua noite e a de todos é a mesma. Estão juntos na mesma situação. É a imagem da partilha do morador da favela que ganha o maior relevo.

Lopes, então, a contrapelo das normas da empresa, põe em risco seu emprego, buscando uma solução alternativa que dará um jeito para a luz acender. Iluminação que reacende o estar-junto. Lopes agora dança e beija uma moça que não conhecia, que não esperava encontrar. O desconhecido da vida e o escurinho do cinema parecem apenas aguardar a luz mágica que pode agitar e movimentar a nossa existência. É que acontece quando nos afastamos da postura cômoda de espectador e rodamos o nosso próprio filme. Não o filme autoral, mas o filme-comum. Então, a arte deixa também de ser vista como resultado da excepcionalidade do artista em favor da fruição do que é cotidiano e abundante.

Ficha técnica:

Acende a Luz, 5º. Episódio do filme 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos
Ano: 2010
País de origem: Brasil
Direção: Luciana Bezerra
Roteiro: Oficina Nós do Morro (Vidigal)
Elenco: Márcio Vito (Lopes), João Carlos Artigos (Cimar), Dila Guerra (Lica), Fatima Domingues (Maria)

Referências

BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema: ensaio sobre o cinema brasileiro de 1958 a 1966. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

COELHO, Frederico. Cinco vezes favela: origens e permanências. In: DIEGUES, Isabel; BARRETO, Paula (Orgs.). 5x favela, agora por nós mesmos. Rio de Janeiro: Cogobó, 2010. p. 12-15.

MAFFESOLI, Michel. O mistério da conjunção: ensaios sobre comunicação, corpo e socialidade. Porto Alegre: Sulinas, 2005.

MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2007.


* ARISTÓTELES BERINO é Doutor em Educação (UFF). Professor Adjunto do Campus Nova Iguaçu da UFRRJ e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc-UFRRJ). Pesquisador do GRPESQ Estudos Culturais em Educação e Arte, do GRPESQ Currículos, Redes Educativas e Imagens e do LEAFRO (NEAB da UFRRJ).

[1] Importante observar que a primeira edição de Brasil em tempo de cinema foi publicada em 1967. Bernardet escreve sobre o filme num contexto histórico mais próximo da sua produção

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