Contra a leitura

por JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE*

– “Não se ofenda, professor, mas eu quero saber se o senhor bebeu, hoje, antes de vir para a universidade?”. A pergunta me foi feita dentro da sala, por uma aluna, chamada Luíza, depois que eu anunciei, convicto, o tema da aula: uma reflexão CONTRA a leitura. Perplexa, Luíza confessou sua profunda decepção. Afinal, a gente havia se conhecido anos antes, numa biblioteca comunitária criada pelo pedreiro Evando dos Santos, na garagem da casa dele, Vila da Penha, no Rio, durante um concurso de poesia no qual ela fora premiada. A partir de então, militamos juntos em prol do livro, participando de vários eventos. Por isso, achou que, agora, eu devia estar de porre.

Apresento aqui um resumo da aula que dei, para que os quatro fiéis leitores dessa coluna possam avaliar também meu estado etílico, já que eles podem ficar incomodados com a crítica à leitura, pois todos os domingos a exercitam aqui nesse espaço. Dessa forma, espero também provocar os participantes do Festival Literário Internacional da Floresta – o Flifloresta – cuja abertura ocorre amanhã, em Manaus. Um dos seus objetivos é justamente o de formar novos leitores. Para ler o quê? Como?

A paixão de ler

O discurso dominante reverencia o livro, como algo sagrado que transporta luz e saber. Por isso, quem defende a não-leitura é considerado herege ou, no mínimo, bêbado. A leitura é endeusada como o único caminho que conduz ao conhecimento. Quanto mais leitura, mais humanos somos. A ausência de leitura nos brutaliza. Mentira! Puro blá-blá-blá. A História mostra que essa moralização da leitura é falsa. Por inacreditável que pareça, muitos professores, editores e pais de família que proclamam as vantagens da leitura, raramente abrem um livro. Esse discurso é tão escandalosamente hipócrita, que dá vontade de esculhambá-lo, chutando o pau da barraca.

Qual é à crítica que faço ao ato de ler? É que como prática social, a leitura deixou de ser algo livre e prazeroso, para se tornar uma obrigação, que confere status. Virou uma atividade burocrática, cobrada pelo professor na escola, que em vez de estimular a fome, empurra goela abaixo do aluno comida de qualidade duvidosa. Assim, um escritor tão vital para nós como Machado de Assis acaba sendo odiado. A escola alfabetiza, mas raramente desperta o sabor da leitura. Se para aprender a falar os bebês tivessem que ir pra escola – meu Deus do céu! – mais da metade da população seria muda ou gaga.

Vivemos num país de forte tradição oral, que não tem o hábito coletivo da leitura. Aí, de vez em quando, Secretarias de Cultura e outros órgãos não-governamentais tentam compensar as falhas da escola, desenvolvendo, às vezes com boa intenção, campanhas inúteis e dispendiosas para promover a leitura, o que equivale a criar uma repartição pública ou uma empresa destinada a promover, por exemplo, o namoro e o beijo. O namoro precisa de promoção? Não. A gente namora porque é bom. E ponto.

Ler é que nem namorar, só tem sentido se fundamentado na liberdade, na indisciplina, na anarquia, na paixão. Querer domesticar essa paixão significa sua morte. O jornal O Globo tenta incentivar a leitura, através do projeto “Quem lê jornal sabe mais”. Sabe mesmo? Sabe o quê? Essas campanhas servem para estimular o preconceito in-su-por-tá-vel e quase racista desenvolvido por aqueles que sabem ler contra os que vivem fora do mundo do livro e da leitura, tratados como burros e inferiores. Desenvolve ainda um sentimento de culpa nas pessoas por não terem lido determinados livros.

O babaca alfabetizado

Afinal, quem lê sabe mais do que quem não lê? A leitura melhora a gente? Conversa fiada! Ler não faz ninguém melhor. A leitura em si não aperfeiçoa as pessoas, sobretudo as que se acham superiores só porque leram alguns livros. Se fosse verdade, não haveria tanta gente babaca, arrogante, pretensiosa e moralmente podre. George Bush, deputados, juízes, desembargadores, empresários – como o desalgemado Daniel Dantas – fazem parte do mundo da leitura e nem por isso merecem nossa admiração.

A leitura não cura nenhuma doença e pode até agravá-la. Quem é babaca, depois de ler fica ainda mais babaca. O mesmo acontece com os ridículos, os vaidosos, os frívolos, os pedantes, os corruptos, os bestinhas e os bostinhas. Nós somos aquilo que somos, independentemente da leitura. Ler não serve pra nada, é um vício, uma perdição, uma felicidade. O único motivo pelo qual alguém pode se interessar por um livro é a dimensão mágica de seu conteúdo, a perplexidade, o assombro, a fantasia e a interrogação diante dos enigmas do cotidiano da vida que a leitura pode suscitar em nós.

Existem leitores ávidos, cujas virtudes humanísticas são nulas. São ratos de biblioteca, não lêem para viver, vivem para ler. Não namoram, não furunfam, não jogam nem dominó nem conversa fora com amigos. Perderam o sentido da vida. Levam vidinha superficial, cheia de preconceitos, indignidade e irracionalidade. São injustos, egoístas, soberbos e babacóides. Outros, só porque leram cinco, dez ou cem livros, assumem secretarias de cultura e se acham “os in-te-lec-tuais”. Humilham quem não leu os cem livros que eles juram conhecer.

Por outro lado, todos nós conhecemos não-leitores, dignos e justos, que possuem qualidades morais, inteligência e sensibilidade. Sou amigo de um pajé guarani, da aldeia de Biguaçu (SC), que não quis ser alfabetizado, mas é um sábio, conhece tudo do mundo, da natureza e da espécie humana; quando fala, ilumina quem o escuta, como um poderoso farol. Não leu nenhum dos 4 milhões de livros da Biblioteca Nacional, mas é um poço de integridade, de sapiência e de reserva moral. Aliás, nem o maior devorador de livros consegue em toda sua vida ler 0,1% dos livros já editados. É por isso que a chave da leitura está na não-leitura.

A não-leitura

O filósofo alemão Schopenhauer escreveu no século XIX que livro ruim é veneno intelectual, que estraga o espírito. Livros ruins, escritos apenas com o objetivo de gerar dinheiro, além de inúteis, são prejudiciais, porque para ler um livro bom, a condição é não ler o ruim, já que a vida é curta, e o tempo e a energia são escassos. Quem vive para ler, perde a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. “Leram até ficar estúpidos” – diz o filósofo, para quem a leitura, sem a não-leitura, paralisa o espírito, da mesma forma que o excesso de alimento ou o alimento inadequado prejudica o corpo. O importante não é comer, mas digerir, não é ler, mas ruminar.

Não abrir livros é sabedoria. A escola, porém, nos ensina a ler, mas não nos ensina a não-ler. No entanto, o segredo da leitura reside ai: na não-leitura, que não é uma atitude passiva, mas ativa. Não é ausência de leitura, mas uma atividade organizadora e seletiva da leitura, para não se deixar afogar ou deformar pelos livros.

Há alguns anos dei um curso para professores indígenas, no coração da floresta. Era final de outubro. Quando cheguei, a maloca estava toda embandeirada para comemorar o dia do professor. Num lugar onde era difícil encontrar papel, as bandeirolas haviam sido confeccionadas com páginas de livros enviados por órgãos governamentais. Eram todos absolutamente inúteis. Pensei, então, que esse havia sido o melhor destino dado àquele veneno letal.

O historiador carioca Marcelo Lemos, meu amigo, cujo sobrenome é uma (in) citação à leitura coletiva, me enviou os dez mandamentos redigidos por Daniel Pennac, contendo os direitos do leitor: 1. O direito de não ler; 2 – O direito de pular páginas; 3 – O direito de não terminar o livro; 4 – o direito de reler; 5 – o direito de ler qualquer coisa, inclusive o que é considerado ruim; 6 – o direito ao bovarismo, doença textualmente transmissível; 7 – O direito de ler em qualquer lugar, inclusive na privada; 8 – O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9 – O direito de ler em voz alta ou em voz baixa; 10 – O direito de calar sobre aquilo que lemos, porque nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver e ninguém pode invadir nossa intimidade.

Se você dedicou preciosos minutos à leitura dessa coluna, percebeu que não estou bêbado, mas caio numa contradição. As idéias aqui expostas não existiriam sem a leitura de quatro livros abaixo mencionados. Não menciono, porém, a longa lista dos livros que deixei de ler. Só dois deles: “Presidentes da Academia Amazonense de Letras – 1918 a 2006” (Valer – Manaus, 2006) e “Titulares da Academia. Perfis Acadêmicos” (Manaus – 1997) ambos do mesmo autor, Robério dos Santos Pereira Braga. Como os novos leitores formados pela Flifloresta vão encarar esse tipo de livro?

P.S. – Ah, antes que me esqueça, a Luiza, excelente poeta, além de leitora crítica, depois entendeu que eu, naquele dia, havia bebido apenas os autores abaixo relacionados.

i) Arthur Schpenhauer (1851): Sobre livros e leitura.Tradução de Philippe Humblé e Walter Costa. Florianópolis. Paraula. 1993; ii) Pierre Bayard: Comment parler des livres que l´on n´a pas lus? Paris. Minuit. 2007; iii) Juan Domingo Arguelles: Que leen los que no leen? México. Paidos. 2003; iv) Michèle Petit: Lecturas: del espacio íntimo al espacio público. Mexico. Fondo de Cultura. 2001.


* JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE é Doutor doutorado em Historia na École Des Hautes Études en Sciences Sociales, EHESS, França; Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio). Lattes:  http://lattes.cnpq.br/7211811266353518 Texto originalmente publicado em http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=57

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26 comentários sobre “Contra a leitura

  1. A vida é lida de diversas maneiras. O livro idem. A leitura não está nas palavras, mas na experiência de quem lê. Não está no livro. Todo tipo de amor vale a pena. Todo tipo de leitura idem. A experiência prazerosa da leitura, qq leitura – gibi, jornal, bula…-, é sempre um ótimo exercício para novas leituras desejantes, e prazerosas. Ler é bom e faz bem! Inclusive os livros.

  2. puxa, que bom ter lido esse texto , uma amiga me enviou pelo orkut.nem gosto de pessoas que jogam na casa que leem muito e sabem tudo. Agora nem tenho mais dor na conciencia por não gostar de ler.

  3. Tenho duas livrarias no interior do estado do Rio. Uma das clientes mais assíduas é analfabeta. Mas ela tem um neto que faz as leituras para ela. E ela diz que enquanto ele faz isso, ela se emociona e viaja. Acho que é isso que falta aos leitores atualmente, recheio de afeto no ato. Aliás o mesmo que se imagina existir para o beijo…

  4. O texto usa a técnica dos jornais sensacionalistas, para agitar quem já adormeceu na unanimidade da defesa e valorização da leitura em quantidade. Não prega, de fato, a não -leitura: porque já somos um país de não-leitores dos livros que ele recomenda; porque,como disse o comentarista acima, não sabe o que seria pior, se um sujeito que lê ou um que nada lê e se vangloria disso; e porque, no final, exalta sua aluna Luiza e a si mesmo por fazerem o que fazem, por serem o que são: leitores críticos, laboriosos leitores de bons livros.
    Genésio Fernandes

  5. Incrivel! Vou ficar pensando e pensando sobre esse texto um booom tempo. Eu não sou nem um pouco cdf, muito menos intelectual, mas adoro ler e leio de tudo, de revista de mulherzinha a livro complexo. Como vc disse, ler é paixão e não tem explicação.

  6. Grande texto.
    A abordagem que é desenvolvida no texto supra exposto enquadra-se no letramento autónomo, que é constitui uma nova abordagem social sobre a leitura e a escrita. No entanto, dada as especificidades do texto, há que termos alguma atenção para que nos recordemo-nos que afinal de conta, o mesmo destina-se aos leitores que vivem diariamente com a leitura e a escrita como suas práticas sociais e que não chega aos outros que não lêem diriamente. Assim, não há perigo nenhum pois o mesmo só fica entre nós.

  7. “A leitura não deve ser vista como finalidade, mas sim como meio para alcançar uma finalidade. Em primeiro lugar, a leitura deve auxiliar a formação do espírito, a despertar as disposições intelectuais e inclinações de cada um. Em seguida, deve fornecer o instrumento, o material de que cada um tem necessidade na sua profissão, tanto para o simples ganha-pão como para a satisfação de mais elevados desígnios. Em segundo lugar, deve proporcionar uma idéia de conjunto do mundo. Em ambos os casos, é, porem, necessário que o conteúdo de qualquer leitura não seja confiado à guarda da memória na ordem de sucessão dos livros, mas como pequenos mosaicos que, no quadro de conjunto, tomem o seu lugar na posição que lhes é destinada, assim auxiliando a formar este quadro no cérebro do leitor.
    De outra maneira, resulta um bric-á-brac de matérias aprendidas de cor, inteiramente inúteis, que transformam o seu infeliz possuidor em um presunçoso, seriamente convencido de ser um homem instruído, de entender alguma coisa da vida, de possuir cultura, ao passo que a verdade é que, a cada acréscimo dessa sorte de conhecimentos, mais se afasta do mundo, até que acaba em um sanatório ou, como “político”, em um parlamento.
    Nunca um cérebro assim formado conseguirá, da confusão de sua “ciência”, retirar o que é apropriado às exigências de determinado momento, pois seu lastro espiritual está arranjado não na ordem natural da vida mas na ordem de sucessão dos livros, como os leu e pela maneira por que amontoou os assuntos no cérebro. Quando as exigências da vida diária dele reclamam o justo emprego do que outrora aprendeu então precisará mencionar os livros e o número das páginas e, pobre infeliz, nunca encontrará exatamente o que procura.
    Nas horas críticas, esses “sábios”, quando se vêem na dolorosa contingência de pesquisar casos análogos para aplicar às circunstâncias, só descobrem receitas falsas.
    Não fosse assim e não se poderiam conceber os atos políticos dos nossos sábios heróis do Governo que ocupam as mais elevadas posições, a menos que a gente se decidisse a aceitar as suas soluções não como conseqüências de disposições intelectuais patológicas, mas como infâmias e trapaçarias.
    Quem possui, porém, a arte da boa leitura, ao ler qualquer livro, revista ou brochura, dirigirá sua atenção para tudo o que, no seu modo de ver, mereça ser conservado durante muito tempo, quer porque seja útil, quer porque seja de valor para a cultura geral.”

  8. Prazer e exercício não são coisas mutuamente excludentes. Eu posso fazer com prazer um exercício e posso me exercitar naquelas coisas que faço com prazer.

    O menino Pelé brincava horas e horas com a bola e fazia aquilo por prazer. Não pensava em termos de exercício mas o fato é que estava se exercitando.

  9. Maravilhoso,
    Parabéns, por estabelecer este contraponto magnifico….
    cada palavra em seu lugar…. que textooooooooooo…
    precisamos divulgá-lo porque tem muita gente q de fato não parece ter lido o que diz q ja leu…
    abraços,
    Hedi Maria Luft

  10. “A ausência de leitura nos brutaliza. Mentira! Puro blá-blá-blá. A História mostra que essa moralização da leitura é falsa. Por inacreditável que pareça, muitos professores, editores e pais de família que proclamam as vantagens da leitura, raramente abrem um livro.”

    Fico preocupado com um texto assim, pq ele pode “autorizar” leitores rasos para se AFASTAR da leitura e, assim, PIORAR a compreensão do que leu. Porque o Brasil está em 53 lugar no ranking de 65 países???? Um chinês hoje conhece mais literatura brasileira do que um brasileirinho de 15 anos. Alunos que acabam de entrar na universidade hoje RESISTEM LER textos e livros indicados para o curso. Cresce o número de analfabetos funcionais. QUE ESTRATÉGIA DEVEMOS ADOTAR? Essa proposta pelo autor? Ora, nem toda leitura é um prazer. Quando começo ler um romance ou ficção leio por DISCIPLINA. Faço parte de um clube de leitura, que pelo menos leio 6 livros por ano, por disciplina, auto-obrigação…que se torma um prazer, DEPOIS.

    Será que devemos fazer TUDO SÓ POR PRAZER? sE fosse assim, a maioria das crianças JAMAIS IRIAM FREQUENTAR A ESCOLA. hOJE, nossa escola não incentiva a leitura. Quer dizer, a maioria delas é assim. Assim, filhos e netos devem ler menos – ou não ler – para evitar serem brutalizados? Ler DESCIVILIZA ou BARBARIZA? aH, PROFESSORES TAMBÉM DEVEM LER MENOS, OU MELNHOR “Não ler, sobretudo, literatura”?

    Na década de 1970, Ivan Ilich pregava destruir as escolas. Só que ele já tinha frequentando uma, e era inclusive reitor de uma universidade. Pregar para todos o que ele mesmo descumpre pode ser CINISMO OU ELITISMO?

  11. Alfredo Pereira dos Santos, arrasou. Concordo plenamente. As leituras só têm que ser significativas, para tanto, são nos primeiros anos de escolaridade que o professor deve orientar seus alunos, e não ler aleatoriamente, e encher as cabecinhas de contos e contos e mais contos… trata-se da necessidade de ler algo que seus alunos não teriam acesso por si próprios, diversificando os gêneros a fim de os tornarem leitores e escritores competentes.

  12. Gostei, professor. E “O” li nessas letras como gesto sincrônico na sinfonia vital. Desacordo quando se me depara seu anúncio de que as escolas ensinam a ler. Felizmente, não. Não ensinam, pois, de fato, ler é grande perda de tempo, enormidade do desperdício. Mas sem o suporte da letra, como chegar à sonoridade articulada dentro e em busca de sentido? Sentido, este mau hábito dos homens na sequência social.O que as melhores escolas ensinam é contentar-se com a grafia da letra e a não querer ouvir ” a inteligência sentinte ou o sentimento intelectual”, verdadeiro mensageiro da autoria.O contentamento gráfico prejudica da letra sua voz. A escola não insiste na audição da letra, na VOZ, que é prioritária inscrição para suposição do saber. É preciso esta aprendizagem, que é ouvir o inscrito para supor. Mas sociedade agráfica, professor, essa é absoluta impossibilidade. Seria ideal , pelo menos , essa inscrição da impossibilidade no âmbito do possível. Talvez isto se dê como palimpsesto, como o desejável, e implica arte que é transgressão degenerada, e que é equívoco, e que é aceitação do dado por verdadeiro. Como princípio, importa o contradizer; principalmente e sobretudo. O mestre ” que se autoriza”, nele há mestria do equívoco, mas não há alunos. Não foi Lacan, Jacques Émile, que fechou escola para colimar ensinamento? Já havia dito ” un discours qui ne serait pas du semblant “. Que seria, por certo, da originalidade da dúvida. A gente deve aprender a ler, sim, caro mestre, para perpetuar o esquecimento sobre a Verdade. Para seguir duvidando. Não pensa O Isso assim também?! É a dúvida que O Isso dá que obriga partida em toda chegada.

  13. O primado da leitura só serve aqueles que se arvoram na condição de distinção construída para a figura do leitor. Embora, muitos dos que se dizem leitor, não tenhão lido mais que orelhas e resumos de livros, ssendo no máximo leitores da leitura do outro.

    Ler hoje é uma obrigação, como defendia um campanha de “incentivo” a leitura que passava na Tv, que afirmava que “Ler também é um exercício”. Ler não é exercício, ler é prazer.

    Bela reflexão professor!

  14. Adorei o texto. Os argumentos são extremamente pertinentes. Quando era era professora do ensino fundamental meu objetivo não era ensinar conteúdo, mas despertar nos alunos o desejo pelo conhecimento . Hoje, na Universidade, eu me pergunto como é possível formar alunos que não lêm os textos básicos. Eu entedi a questão da leitura associada à vida e à pratica cotidiana.

  15. Sensacional o texto!
    Eu penso que leitores inveterados não fazem a diferença porque os grandes líderes políticos são na maioria exímios leitores e desconhecem tantas coisas…..Que me pergunto qual o valor da leitura para estes sujeitos?

  16. Professor José Freire,

    um trecho do seu texto foi o mais especial, para mim. “nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver e ninguém pode invadir nossa intimidade.”

    A leitura é mesmo algo muito complexo que parece ser inseparável do ser humano. Por mais que haja pessoas que digam que não gostam de ler sempre aparecem com alguma citações de livros, poemas preferidos, letras de músicas etc.

    Quem sempre encontra uma maneira de ler o que gosta é livre.

    Abraços, Karine Oliveira.

  17. “…Se para aprender a falar os bebês tivessem que ir pra escola – meu Deus do céu! – mais da metade da população seria muda ou gaga.”

    Esta frase deveria estar escrita nos portões de todas as escolas, das mais humildes às mais sofisticadas e pretensiosas.

    Parabéns pela excelente reflexão!

  18. Ensinar a ler é uma coisa. Ler livros é outra. Eu preciso ler as instruções de uso desse ou daquele aparelho. Caso contrário terei que pedir a alguém que o faça por mim. Preciso saber que ônibus param num determinado ponto. Para isso leio. Leio bula de remédio, receita de bolo, placas de ruas e no meio de tantas leituras leio livros também. Leio-os quando quero. Quem me obriga a ler? Pode-se obrigar um cavalo sem sede a beber água?

    O povo brasileiro já aprendeu a não-ler há muito tempo, caso contrário não seríamos um país de não-leitores. Uma sociedade ágrafa onde não se lê e quando se lê não se entende.

    Eu não sei quem é pior: o babaca alfabetizado ou o babaca não-alfabetizado. Alguém tem estatísticas a respeito?

    Desde os meus tempos de criança, há sessenta anos, quando se lia mais do que hoje, que sei de gente que vai direito ao final do livro para ver como a história termina. Naquela época se lia também no banheiro. Quanta leitura foi deixada pelo meio, coisa comum de se ver em livros comprados em sebos, com folhas intactas, não cortadas a espátula.

    Todas essas liberdades que se pregam em relação aos livros já são tomadas há muito, mas muito tempo. Hoje, mais do que nunca, se toma a liberdade de não-ler. Há, pois, que se voltar a ler. Não como coisa obrigatória mas ler, simplesmente.

    E se o Ribamar diz essas coisas é porque leu muitos livros. Se tivesse exercido a liberdade de não os ler não estaria aqui escrevendo. Ou escreveria coisa diferente.

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