Na era dos kids definitivos

por TARCÍSIO VANDERLINDE*

“Grande audiência e mediocridade geral”. O slogan pode ser considerado a fórmula utilizada por Daniel1 para fazer grande fortuna. Daniel1, personagem central do romance “A possibilidade de uma Ilha” (Record: 2006), de Michel Houellebecq, revela a futilidade sobre a qual a sociedade ocidental contemporânea constrói seu cotidiano. Daniel1 especializou-se em escrever esquetes onde conta piadas picantes sobre o assunto mais apreciado pelos cômicos com criatividade limitada: sexo. Nas palavras do personagem, ele fez “fortuna em cima da exploração comercial dos maus instintos”. A crítica é dirigida a “uma geração de kids definitivos” que se recusa a crescer. Daniel1 lembra seu início de carreira:

Nos primeiros tempos da minha ascensão rumo à glória e à fortuna, havia ocasionalmente saboreado as alegrias do consumo, que fazem nossa época tão superior às que a precederam. Podia tergiversar infinitamente para saber se os homens eram ou não mais felizes nos séculos precedentes; comentar a dificuldade do sentimento amoroso, a perda do sentido do sagrado, a degradação do laço social.

No contexto inventa-se uma religião que desconstrói as religiões históricas e introduz sobre os escombros das mesmas uma “nova religião” que promete a eternidade através da ciência. Surgem os neo-humanos que vencem a morte. Ressemantizam-se mitos e crenças. Acredita-se na volta dos Elohim que habitam mundos distantes e recuperam-se costumes como o da “prostituição sagrada” praticada na Babilônia ancestral. No “advento dos futuros”, os elohimitas esperam a materialização da “Nova Jerusalém” e também de um “novo reino”. As pontes com as religiões históricas são muito curiosas, mas de modo geral o elohimismo acompanha a trilha do capitalismo de consumo e a conservação da eterna juventude.

Na nova sociedade o cão é mais valorizado que crianças e o corpo dos envelhecidos é objeto de repulsa: o velho é feio. Os elohimitas não esperam a degradação do corpo. Uma vez assegurado o DNA para a clonagem, a entrada pela espera da ressurreição é pelo suicídio. O objetivo é preparar o “advento dos futuros”, a partir de três pilares: a duplicação rigorosa do código genético, a meditação sobre o relato de vida do predecessor e a redação do comentário.

O mundo futuro imaginado por Houellebecq havia passado por conflitos nucleares e severos desastres naturais. Sobraram poucos humanos que passaram a ser conhecidos como “selvagens” (clichê já visto em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley há 80 anos). Porém nem todos os elohimitas estavam satisfeitos, havia deserções. No mundo de Houellebecq havia indagações incontornáveis. A questão do amor era uma delas, talvez a mais perturbadora. O hedonismo parecia não ter aparado todas as arestas. As transformações prometidas pelo elohimismo pareciam não preencher alguns vazios que inesperadamente apareciam.

Um relato distópico, diferentemente do utópico, não aponta para o sonho, revela um pesadelo. Contudo, à medida que se identifica com o pesadelo, pode evitar que ele se efetive. O criativo Bauman nos ensina que as distopias retratam a terra como na melhor das hipóteses, uma prisão ao ar livre, algo a ser temido, mantido à maior distância possível e, idealmente transformado em algo eternamente para fora dos limites. O problema é que, seduzidos pelo consumo e pelo hedonismo, kids definitivos têm alguma dificuldade em imaginar que uma prisão ao ar livre possa de fato existir.


* TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste-PR. Atua em Programas de Mestrado nos Campi de Marechal Cândido Rondon e Foz do Iguaçu. tarcisiovanderlinde@gmail.com

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