A morte de uma cidade

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

Quem desaprendeu a chorar,
 está reaprendendo com a destruição de Dresden
.”

Gerhart Hauptmann

Um dos episódios mais assombrosos e ao mesmo tempo menos conhecidos da Segunda Guerra Mundial foi o bombardeio da cidade alemã de Dresden. As explicações que poderiam explicar este assombro e desconhecimento convivem, até hoje, com as razões que levaram americanos e ingleses a destruir uma cidade e as vidas de dezenas de milhares de pessoas inocentes.

Dresden era, em fevereiro de 1945, uma cidade de grande importância histórica (algo equivalente ao que Florença significa ainda hoje para a Itália) e que, em parte por seu valor cultural e em parte por não possuir qualquer importância militar, havia sido poupada de qualquer ataque aéreo por parte dos aliados. De fato, não havia em Dresden nenhuma concentração de tropas, fábricas de material bélico ou qualquer outro potencial alvo que justificasse um ataque; considerando ainda que a guerra (que terminaria três meses depois) já estava decidida. Exatamente por tais motivos, principalmente pelo fato da cidade ter até então sido preservada de qualquer ataque, por volta de 600.000 refugiados e feridos encontravam-se na cidade, aumentando de 640.000 para mais de 1.200.000 pessoas o total da população.

Poucos foram os livros e filmes que ocuparam-se do assunto. “Dresden, o inferno” (“Dresden” – Alemanha, 2006; direção de Roland Suso Richter) se sobressai, não obstante suas óbvias limitações, pelo fato de ser um filme produzido na Alemanha,[1] já numa época em que os motivos ou pressões pelo não esclarecimento do que de fato ocorreu serem bem menores que aqueles existentes nos anos que se seguiram à tragédia. Ou, tão somente, pelo simples fato de se tratar de um filme que tem como tema a quase literal e injustificada destruição de uma cidade e sua população.

Ainda que, a depender da fonte consultada, as estimativas variem enormemente, é plausível acreditar – em função, por exemplo, do número de pessoas que encontravam-se na cidade na condição de refugiados ou população fixa – que as quatro ondas de bombardeios tenham feito não menos de 130.000 vítimas entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 1945. O plano de destruição da cidade (ou de destruição de “alvos militares”, conforme as instruções recebidas pelas tripulações americanas e inglesas que participaram dos ataques) consistiu em lançar sobre o centro de Dresden mais de 3.000 toneladas de explosivos convencionais e 650.000 bombas incendiárias. As quatro ondas de bombardeios (22h09m a 22h35m, 1h22m a 01h54minm, 12h15m a 12h25m e, no dia 15 de fevereiro, 12h10m e 12h50m) tinham como propósito fazer o maior número possível de vítimas na medida em que, terminado um bombardeio e saindo a população dos abrigos e reunidos os serviços de reparos e salvamento, uma outra onda de bombas pudessem atingir os que haviam sobrevivido ao ataque anterior. O número de mortos e os níveis espantosos de destruição terminaram produzindo efeitos diferentes dos dois lados: a propaganda nazista preferiu não divulgar as reais proporções da tragédia avaliando, caso o fizesse, os riscos do regime perder o apoio da população para o esforço de guerra. Por sua vez, ingleses e americanos, além das vantagens óbvias que lhes conferiam o fato de terem vencido o conflito (e, portanto, a possibilidade de escreverem sua história), preferiram minimizar os efeitos dos ataques (que o classificaria como crime de guerra) e justificá-los em termos de terem sido feitos contra alvos militares.

Curiosamente, historiadores e grupos ingleses ligados às tripulações da Real Força Aérea (RAF) que participaram dos bombardeios buscam, ainda atualmente, esclarecimentos sobre os reais motivos dos ataques. Considerando inclusive o fato de que as tripulações dos bombardeiros que participaram dos ataques teriam sido informadas da existência de alvos militares que, muito provavelmente, nunca existiram.

Coincidência ou não, é do ponto de vista de um piloto inglês, cujo avião havia sido abatido e encontrava-se entre os refugiados de guerra, que a história de “Dresden, o inferno” se desenvolve. Muito menos significativo que o drama pessoal vivido pelo piloto (que inclui um improvável e inverossímil romance com uma enfermeira alemã – representada pela belíssima atriz Felicitas Woll) vem a ser a reprodução do que teria sido a aterradora experiência da população civil sob o impacto dos bombardeios. Em segundo plano são descritos, de forma quase que “taquigráfica”, alguns dos supostos motivos ligados ao plano de ataque à cidade; os principais responsáveis (Arthur Harris, Robert Saundby e o próprio Winston Churchill) e uma convincente descrição do cotidiano da cidade às vésperas do ataque. Considerando os depoimentos de sobreviventes, documentos e imagens da época (algumas das quais foram habilmente “mescladas” às imagens do próprio filme), as aterradoras cenas dos ataques parecem apenas sugerir o que foi o episódio. Talvez pela própria impossibilidade de se conceber o sofrimento e o desespero de uma população inteira, como os que recaíram sobre os moradores de Dresden.

Do ponto de vista dos muitos que desconhecem os acontecimentos que levaram à destruição de Dresden, é sempre possível imaginar a simplificação do filme à condição de “um filme de guerra com um romance no meio” – o que explica o fato de seu lançamento (em DVD, inclusive) ter despertado pouco interesse. Enquanto não tivermos essa capacidade, de chorarmos por aqueles que não conhecemos, tão diferente de outra capacidade, a de destruirmos as vidas daqueles que não conhecemos, possivelmente enquanto isso não acontecer, ainda poderemos nos sentir carregando a culpa de nossos antepassados.

Ficha Técnica

Título Original: Dresden
Gênero: Drama/Romance
Direção: Roland Suso Richter
Duração: 144 minutos
Ano: 2006.
País de Origem: Alemanha


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutorem Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] O outro filme lançado no Brasil sobre o episódio foi  “Matadouro5” (“Slaughterhouse5” – EUA, 1971; direção de George Roy Hill).

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6 comentários sobre “A morte de uma cidade

  1. Caro Francisco,

    Desculpe-me pela longa demora na resposta… Na verdade, mais de dois meses!
    Tenho 46 anos; quase vinte anos como professor universitário. Minha experiência permite dizer que existem, fora do meio acadêmico, pessoas que sabem tanto ou mais que aqueles que, reconhecidos pelos títulos, são vistos como conhecedores de determinado assunto. Muito frequentemente, a paixão e a curiosidade por um tema, ou simplesmente o amor ao conhecimento, leva muito adiante. Acredito que seja este o seu caso; pelo modo como escreve inclusive.

    Obrigado pelas palavras; as tomo como incentivo, considerando que estou longe de merecê-las. E, espero mesmo, conseguir realizar uma parte daquilo que o senhor conseguiu realizar até hoje. Também tenho três filhos e sei o quanto de esforço é necessário para formar uma família.

    Um grande e afetuoso abraço! Obrigado!

    Fábio.

  2. Senhor Mário Camargo Pego, agradeço a sua gentileza comigo, um simples colaborador neste blog.
    Na verdade a sua observação é que enriquece este espaço, pois o sernhor enaltece as palavras de uma pessoa com extrema elegância, educação e refinamento.
    Confesso que participar em alguns temas colocados à discussão eu tenho aprendido muito.
    E tenho constatado que o estudo – e somente ele – aproxima as pessoas, estreita o convívio social, estimula o diálogo.
    O conhecimento proporciona equalizar as diferenças, entendê-las, e extrair uma forma de entendimento que leva à paz, ao desenvolvimento em todas as áreas.
    Sou um afortunado em compartilhar com o senhor as minhas idéias, pensamentos, conceitos e interpretações.
    Desejo-lhe felicidades, claro, extensivas à sua família.
    Boas Festas e um Ano Novo venturoso.

  3. Meu caro professor Fábio, ser citado pelo senhor é uma honra, ainda mais quando se trata de alguém que não tem o curso superior, portanto, sem estar à altura de travar um diálogo com uma pessoa culta e inteligente.
    Mas a Segunda Guerra sempre me chamou à atenção, a ponto de eu colecionar algumas preciosidades sobre ela, tanto em vídeos da época quanto em literaturas e imagens (fotos).
    Certamente eu ter servido o Exército na década de sessenta (tenho 62 anos), na Polícia do Exército, em Porto Alegre, RS, esta atração foi ampliada, somada aos ensinamentos militares.
    Não segui carreira militar. Casei ainda “milico”. No final do ano faço 41 anos de casado.
    Ao dar baixa do EB, a minha “guerra” em manter a família e conseguir que meus filhos fossem devidamente sustentados, educados e formados, não seria menos heróica que um soldado em plena batalha. Com uma vantagem: sem vítimas.
    Atualmente meus filhos têm 38, 36 e 34 anos de idade. O mais velho é médico; o do meio formado em Contábeis e, o mais moço, em Administração, ênfase em Análise de Sistemas.
    A esposa é formada em Pedagogia e Pós-Graduação em Supervisão Escolar.
    Ora, mestre, alguém precisaria aplaudir tanta intelectualidade!
    Mas o meu gosto sempre foi a leitura, principalmente sobre a história.
    Em épocas remotas, o meu sonho era ser professor nesta matéria. Acredito que eu não tenha sido fervoroso o suficiente para lograr êxito nesta intenção mas, a minha obrigação com a família foi cumprida.
    Então, hoje, disponho de termpo para ler, pesquisar, buscar a verdade dos fatos.
    E como ouvimos disparates a respeito deste conflito, o maior da humanidade.
    Assuntos como este postados neste blog democrático que eu tanto aprecio, elogio e participo, mesmo sem estar ao nível dos demais colaboradores, interessam-me sobremaneira.
    Até porque é fácil e procedente traçarmos um paralelo com a atualidade, permitindo que eu arrisque a afirmar que a guerra continua, porém, em outros patamares.
    Certamente a que está em voga é a economia global.
    Muito obrigado pelas suas palavras, professor.
    Estou lisonjeado e sensibilizado pela sua referência ao meu simples texto.
    Respeitosamente, um forte e fraterno abraço, se o senhor permitir.

  4. Em “Uma resposta”, Francisco Bendl contribui e enriquece em muito a análise do Prof. Fábio. Eu acrescentaria mais uma vítima das guerras: Os inocentes! pois, “Os senhores da Guerra” nunca vão ao front para morrerem, se fossem, com certeza não fariam tantas guerras.

  5. Acrescentaria pouca coisa ao que disse, Francisco. De fato, há muito ainda a ser escrito e revisto a respeito da Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma “obra coletiva”, em que todos podemos nos ver. E isso é bem menos reconfortante e conveniente do que ver, por trás de todas as atrocidades e omissões, apenas os culpados de sempre…

    As bombas que os americanos jogaram no Japão, não apenas em Hiroshima e Nagazaki, mas também o bombardeio convencional de Tóquio (e, antes disso, o que os japoneses fizeram na Manchúria – um espiral de violência, portanto…), sempre me chamaram a atenção pelo aspecto histórico. Explico: enquanto outros crimes de guerra têm “autor” (o massacre de Lídice, a eliminação de milhares de oficiais poloneses pelos soviéticos, etc), as bombas atômicas que foram lançadas no Japão são, em geral, atribuídas genericamente “à guerra”. Acho isso incrível… Nunca leio “a destruição, pelos americanos, de Hiroshima e Nagazaki; mas sim coisas como “as bombas que caíram sobre Hiroshima e Nagazaki”, como se elas, as bombas, tivessem vida própria…

    O mais patético disso tudo, você mesmo observou e reproduzo aqui novamente: “…milhões de asiáticos foram trucidados ou pelos americanos e franceses e, depois, por eles mesmos, na implantação do regime político, social e econômico que escolheram…”

    Na opinião de um amigo meu, a humanidade é simplesmente um projeto que deu errado… Não concordo de forma alguma com a frase, que reflete desespero e incapacidade para lutar por um mundo melhor – e me lembra a atitude de muitas pessoas hoje, que, achando muito complicado e chato ter de conviver com pessoas “de verdade” e crianças, preferem “adotar” um cachorro ou outro bicho, colocá-lo num carrinho e ficar dando voltas ao parque da cidade com ele… De qualquer forma, estou certo de que ainda levaremos muitos anos para termos um mundo melhor.

    Um abraço e obrigado pela leitura.

  6. As vítimas de guerra são sempre duas: as mães e a verdade.
    Os fatos da Segunda Guerra Mundial não foram totalmente esclarecidos. Há muito documento guardado e que não veio a público.
    As versões são dadas pelos vencedores (alguém já disse que a história é escrita por eles), portanto, encontrar a veracidade dos acontecimentos sobre o maior conflito da história da humanidade levará algum tempo.
    Mas, ambos os lados nesta guerra , aliados e Eixo, cometeram seus crimes. Os nazistas foram julgados e condenados, e não há banca de revistas neste país que, semanalmente, não tenha a capa de Hitler ou da suástica, um lembrete de que não se deve esquecer o que fizeram.
    Particularmente a minha opinião é de que este tipo de propaganda já cansou, esgotou-se em si mesmo, pelo próprio tempo que a guerra terminou. Lá se vão 66 anos.
    Mas os crimes dos aliados estão impunes!
    E foram tão ou mais cruéis que os dos nazistas.
    Dresden foi um deles; Hiroshima e Nagasáqui, ao meu ver, a maior ofensa à humanidade; os campos de concentração nos Estados Unidos, onde prendiam os japoneses e seus descendentes outra afronta; a divisão da Alemanha, que redundou na Alemanha Oriental, uma violência sem precedentes cometida pelos russos.
    O sofrimento causado às mulheres de um modo geral foi inominável; as crianças mortas em bombardeios genocidas mostrou que o homem não tem limites na sua selvageria; a guerra aflora o que temos de pior, a besta que dorme dentro de cada ser humano.
    Os aliados não só não foram punidos em seus crimes, como continuaram a produzi-los em escalas jamais vistas.
    Coréia; Indochina; Vietnã; Argélia; o avanço comunista pelo mundo e os mais de cem milhões de mortos que contabilizam para implantar o sistema perfeito(!?) de sociedade; a questão Palestina, até hoje sem a devida solução para aquele povo, enfim, continuamos a viver sem paz, sem tranquilidade.
    Os mais de cinquenta milhões de mortos que a Segunda Guerra ocasionou, foram mortes em vão!
    Não aprendemos com as vítimas daquele conflito a resolver nossas diferenças, sentados à mesa e dialogando sobre as arestas a serem aparadas. Nada disso, o negócio é nas armas!!!
    Aliás, as mortes são bem maiores e inexplicáveis que na guerra: matamos inocentes de fome, de doenças, abandonados à própria sorte, em um espetáculo dantesco de desconsideração, irresponsabilidade, soberba, orgulho e superioridade social.
    Quantos milhões de africanos já morreram depois de 45?
    Quantos milhões de asiáticos foram trucidados ou pelos americanos e franceses e, depois, por eles mesmos na implantação do regime político, social e econômico que escolheram?
    Lembro Camboja e o Khmer Vermelho, um genocídio a céu aberto.
    Resgato as revoluções na América Latina: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Panamá, São Domingos e, claro, Cuba.
    A independência da Índia – não quero dizer bobagem -, parece-me que reultou em mais mortes que na Segunda Guerra!!!
    O que foi Biafra?
    Não aprendemos.
    Não tem jeito, mesmo!
    Pobres mães, e desgraçada verdade, que sofrem perdas imensuráveis pelo sonho de poder de alguns loucos, que lamentavelmente aplaudimos e apoiamos.
    Dresden está na lembrança de poucos, e já se faz longe.
    Mas os necessitados do mundo estão em todas as partes deste planeta, comandado por inescrupulosos, travestidos de estadistas, verdadeiros criminosos.
    Falsos líderes, que não sabem a dimensão da dor, da perda, da barriga roncando de fome, e da morte lenta que é morrer de sede.
    Quanto à esperança de um mundo melhor…

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